Vice-Presidente Amado Boudou: mocinho ou vilão?

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Saiba tudo sobre o caso que envolve o Vice-Presidente argentino Amado Boudou e que motivou a convocação para depor na última segunda-feira.

Essa semana, como antecipado pelo briefing, o Vice-Presidente argentino foi recebido por um juiz federal para dar declarações sobre sua participação na compra da empresa Ciccone – uma importante gráfica, já que é a única responsável imprimir bilhetes de peso.

Acusado de tráfico de influência, corrupção ativa e utilização de laranjas para acabar com a empresa em suas mãos, ele tem sido resenhado como um verdadeiro mafioso por membros da oposição e grandes meios de comunicação. Entretanto, seus defensores denunciam: trata-se de mais uma vítima dos conglomerados poderosos que desaprovam o modelo impulsado pelas presidências dos Kirchner e, mais, na raiz de tanto ódio está a reforma do sistema previdenciário e a antiga intenção do Grupo Clarín de controlar a empresa Ciccone.

Na tarde da segunda-feira (10/06/2014), fui cobrir o depoimento dele no Tribunal Federal de Comodoro Py, localizado a alguns metros da Estação do Retiro. Além de um batalhão de jornalistas de diversos meios, inclusive brasileiros, havia uma expressiva aglomeração de simpatizantes e militantes da Cámpora, grupo político ligado ao kirchnerismo. Eles gritavam palavras de ordem, entoaram tradicionais marchas da militância peronista e kirchnerista, além do hino nacional, carregavam cartazes de apoio ao Vice-Presidente e exigiam que suas declarações perante o juiz federal Ariel Lijo fossem transmitidas pela TV Pública.

ImagePara se ter uma ideia das informações desencontradas que rodeiam o caso, enquanto eu me espremia entre toda essa gente que fazia questão de estridentemente marcar presença na entrada dele ao tribunal com plaquinhas com a inscrição “¡Fuerza Boudou!”, a rede TN divulgava em seu portal que se ouviam gritos de “Ladrão! Ladrão!”.

A guerra de versões, algumas bastante fantasiosas, faz com que seja difícil assumir uma posição quanto ao caso; mas, afinal: quem é Amado Boudou? De onde saiu? De que ele é acusado exatamente?

Nascido em Buenos Aires em 1962, mas criado em Mar del Plata, é mestre em Economia e tem especialização em políticas públicas. Já na faculdade, militou na Unión del Centro Democrático, um partido político de corte liberal-conservador que historicamente fez oposição ao Peronismo (avassaladora corrente política no país) e ao Radicalismo (primeiro partido a ocupar a presidência após a redemocratização). Entretanto, fez carreira no setor privado.

Chegou ao setor público com a ajuda de Sérgio Massa, um político de expressão na Província de Buenos Aires que esteve ao lado dos Kirchner até 2009. Nomeado pela Presidenta Cristina Kirchner para estar à frente da ANSES (organismo federal da seguridade social), protagonizou a estatização dos fundos de pensão, ganhando proeminência no oficialismo.

Se a fama acabou levando Boudou a ser nomeado Ministro da Economia ainda em 2009, seus apoiadores afirmam que ele nunca foi perdoado pelos que chamam “meios hegemônicos” que teriam perdido muito dinheiro com a estatização.

De fato, a iniciativa gerou grande controvérsia na época. A oposição acusava o governo de lançar mão das aposentadorias para fazer frente aos pagamentos da dívida externa e isolar o país ainda mais (já que também tinha estatizado outras três grandes empresas). Por outro lado, o governo fez do caso uma bandeira da reversão que operava nas reformas neoliberais da década de 90 e o prestígio alcançado por Boudou influiu na sua escolha para fazer parte da chapa de CFK nas eleições de 2011.

Ocupando um lugar de destaque na cúpula de um governo afeito à controvérsia política (nacionalizou empresas, impôs restrições ao mercado de câmbio e às importações, impulsou e implementou uma lei de meios de comunicação anti-monopólio, entre outros), o Vice-Presidente jovem e descolado (ele gostava de se exibir tocando guitarra) começou a ser visto como o potencial candidato à sucessão presidencial.

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Mas isso foi só até começarem a aparecer denúncias de corrupção.

Quando La Nación foi atrás de quem estava à frente do fundo de investimento holandês que controla a gráfica Ciccone, se deparou com um aposentado de 75 anos, que vive numa localidade humilde na Grande Buenos Aires. Ele contou que recebeu duzentos pesos para assinar uns papeis alguns anos antes, pois precisava de “uma merreca a mais para sobreviver”.

Mas foi Laura Muñoz, ex-mulher do representante legal do fundo na Argentina Alejandro Vandenbroele, quem estabeleceu o nexo entre o negócio e o Vice-Presidente. Segundo ela, o marido seria amigo, testa-de-ferro e gestor de negócios de Boudou. Além disso, o empresário não teria condições de comprar uma empresa como a Ciccone, já que tem uma renda declarada de menos de AR$ 15 mil por mês.

As investigações levaram a novas evidências: o luxuoso apartamento em que Boudou vive em Puerto Madero estaria registrado no nome de uma sociedade vinculada ao fundo de investimentos holandês.  E, desde então, uma chuva de especulações, supostas fotos e relatos de fontes secretas tentam relacionar Boudou com Vanderbroele. Eles “teriam” jantado juntos, “seriam” amigos de infância dos tempos de Mar del Plata, e por aí vai. Mas essa ligação, negada por Boudou, nunca pode ser comprovada.

O caso foi ganhando corpo com denúncias de que a AFIP (autoridade federal equivalente à Receita no Brasil) havia concedido benefícios “excepcionais” para a compra da gráfica pela atual controladora, o que seria um indício de tráfico de influência. Na justiça, o Vice-Presidente foi acusado de “violação dos deveres do funcionário público, negociações incompatíveis com a função pública e mal-uso de recursos públicos”.Desde o início das investigações, três juízes foram afastados do caso. Os detratores dizem que são manobras de Boudou para ganhar tempo.

O Vice-Presidente nega todas as acusações, diz que já teve contato social com Vandenbroele, mas não é seu amigo, e acusa os diários Clarín e La Nación de estarem empreendendo um ataque midiático não só contra ele, mas contra o governo. E vaticinou: “Clarín queria ser sócio de Ciccone, por isso tem tanto interesse na causa”.

Em sua defesa na última segunda-feira, ele tratou de demonstrar que não tem nenhum vínculo com a gráfica ou o fundo de investimentos holandês nem com a concessão de benefícios através da AFIP nem com contatos entre o Banco Central e a empresa.

Para tal, Boudou alegou que The Old Fund é de propriedade da mesma família que controlava a gráfica antes, os Ciccone, conforme consta em documentação lavrada pela justiça. Eles teriam feito a operação com a intermediação de Vandenbroele e os fundos para a operação de compra da empresa teriam sido levantados com o financiador Raúl Moneta. Quando a gráfica foi finalmente estatizada, Moneta entrou na justiça para recuperar o financiamento, o que comprovaria a operação de 50 milhões de pesos. Boudou insiste que se deveria rastrear de onde veio esse dinheiro para que a verdade possa aparecer.

No final da defesa, voltou a declarar que as acusações são produto de uma perseguição política, uma vez que mais de 300 capas de jornal já o consideram culpado antes mesmo de ter se iniciado uma causa judicial.

Agora, a Justiça vai ouvir Vandenbroele, o antigo dono da gráfica, Nuñez Carmona (advogado, sócio e amigo de Boudou), um ex-funcionário da AFIP e alguns outros. Só depois decidirá se o Vice-Presidente será ou não indiciado.

O caso é inédito na Argentina. Nunca um membro do Poder Executivo prestou declarações ante a Justiça por suspeitas de corrupção. Caso seja indiciado, as pressões para que ele renuncie devem aumentar exponencialmente. Em conversa com o deputado Miguel Bazze, do partido opositor UCR, ele me disse que Boudou deveria se afastar do caso para que a justiça possa atuar sem interferências indesejáveis. “Como, na Argentina, o Vice-Presidente também é investido constitucionalmente com a presidência do Senado, é uma posição muito importante e influente”, disse, citando o caso dos três juízes afastados.

 

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