O Dia D

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Hoje o mundo saberá se o futuro da Argentina será hipotecado ou se o país poderá respirar em meio a sua já atribulada vida econômica.

Sim, o D é de default. Se o juiz estadunidense Thomas Griesa não restaurar a medida cautelar que suspende a sua própria sentença (aquela que fez uma interpretação ousada do pari passu) ou se não for encontrada uma solução criativa para esse imbroglio, será a segunda vez desde a virada do século que a Argentina terá que enfrentar um default.

Qual serão as consequências? Veremos um novo argentinazo? A Cristina será obrigada a fugir da Casa Rosada de helicóptero como fez Fernando de la Rúa naquela época? Irá ocorrer um cataclisma econômico com derretimento da moeda, inflação e crise social?

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Briefing: Está tudo conectado

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Na última quarta-feira (16/7), quando eu estava cobrindo uma marcha pró-Palestina no centro de Buenos Aires que contou com uma expressiva participação de vários movimentos sociais, perguntei ao Deputado Luis D’Elia o que aquela gente toda estava fazendo lá. Havia gente do Movimento Evita, Marea Popular, MILES e Frente Popular Darío Santillan, entre outros – uma turma que eu, geralmente, encontro nos protestos contra o Imperialismo, a precarização do trabalho, deterioração do salário, essas coisas, e que agora cantava a plenos pulmões:

¡Volveremos, volveremos!

¡Volveremos otra vez!

¡Volveremos a Palestina,

capital Jerusalém!

D’Elia, acusado de fervoroso antissemita pelas organizações judaicas locais AMIA e DAIA, me explicou que as esquerdas argentinas sempre foram inspiradas pela causa palestina, desde os tempos do terrorista Yasser Arafat na década de 70. Para ele, existe um paralelo claro entre a situação colonial das Ilhas Malvinas, ocupadas pela Grã-Bretanha, e a implantação do Estado de Israel em 1948, quando a Palestina estava sob mandato britânico. No final, depois de um suspiro reflexivo, D’Elia arrematou:

Os abutres que hoje em dia querem cercear o desenvolvimento da Argentina e os falcões da guerra que bombardeiam Gaza vêm do mesmo ninho.

E, com essa introdução, que demonstra a face holística dos movimentos sociais argentinos, voltamos à causa nacional do momento, o caso dos fundos abutres que, com idas e vindas, parece se encaminhar para uma conclusão não muito favorável para o país nos próximos dias.

Pressionado pelos representantes do fundo e também pelos bancos que receberam o pagamento do governo para saldar a conta mensal dos bônus restruturados, o juiz estadunidense Thomas Griesa marcou uma audiência para a próxima terça-feira, dia 22, para decidir o que fazer com esse dinheiro. Ele já havia orientado os bancos a devolvê-lo à Argentina, pois em sua interpretação do pari passu, os detentores dos bônus restruturados só podem ser pagos se os holdouts (os chamados “fundos abutres”) também forem.

Mas, enquanto os bancos não resolviam se devolviam ou não, o governo argentino urgia ao juiz que restabelecesse a medida cautelar (o “stay“) que deixava sem efeito a sua decisão para que o país pudesse negociar com os fundos.

Alguns analistas entendem que o governo busca tempo desesperadamente para que chegue logo o fim do ano. À essa época, a chamada cláusula RUFO (Direitos sobre Ofertas Futuras) nos contratos dos bônus restruturados terá caducado, o que impediria que eles entrassem na justiça para pedir o pagamento em iguais condições que os fundos abutres e levassem, de fato, o país à bancarrota.

Entretanto, é remota a possibilidade de que o stay seja restabelecido. E se Griesa determinar, na semana que vem, a devolução do dinheiro depositado, ao fim desse mês a Argentina entrará em default técnico.

Enquanto seu lobo não vem, a diplomacia local continua angariando apoios internacionais. Depois do Mercosul, Unasul, UNCTAD e OEA, agora foi a vez dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que prometeram levar o caso à próxima reunião do G-20 na Austrália.

Existia alguma expectativa de que a Argentina passaria a integrar esse grupo a partir desse ano. Meses atrás o governo anunciou que a Rússia havia sinalizado com a possibilidade e o convite para que a Presidenta Cristina Kirchner fosse à reunião em Fortaleza parecia confirmá-la.

Entretanto, antes ainda do final da Copa (não falarei mais desse assunto, prometo), Dilma antecipou que, ao menos nesse encontro, não seria discutida a admissão de novos membros. A imprensa local interpretou que houve um veto por parte do Brasil.

Para Eleonora Gosman, do Clarín, esse suposto veto seria um sinal de que o Brasil relega a Argentina e a região em favor dos sócios emergentes pesos pesados.

As incertezas financeiras que dominam a economia da Argentina, por causa da ação dos fundos abutres, seriam um obstáculo para pensar em sua incorporação.

Mas quem deu essa opinião no Brasil, foi Presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Robson Andrade, que afirmou que o país apresenta problemas de segurança jurídica além de “não caminhar por uma democracia plena”.

Ele não deu mais detalhes, embora uma notícia divulgada no portal da CNI entitulada “A indústria brasileira se aproxima da Aliança do Pacífico para estimular fortalecimento do comércio bilateral” dê uma pista do posicionamento geopolítico que estimulou essas declarações.

De qualquer jeito, as empreitadas argentinas no campo externo já deram alguns frutos.

Na visita do Presidente russo Vladmir Putin, sábado passado, em que foi recebido nas portas da Casa Rosada por uma multidão de manifestantes pró-gays e uns pouquinhos pró-Ucrânia, os dois países anunciaram uma parceria estratégica que inclui:

  • um acordo em matéria nuclear de transferência de tecnologia, com vistas à construção de uma nova central atômica
  • um acordo de cooperação em comunicações, o que permitirá a transmissão do canal RT na Argentina
  • um acordo de extradição, translado de condenados e cooperação recíproca em matéria penal
  • a realização ano que vem do Ano da Argentina na Rússia e vice-e-versa, quando os dois países comemoram 130 de relações diplomáticas

Agora é a vez do mandatário chinês Xi Jinping, que chega para uma visita de fim de semana. Já foi anunciado que haverá uma injeção de cerca de US$ 3 bi no Banco Central argentino por conta de um investimento chinês na construção de duas represas na província de Santa Cruz. Mas a expectativa é de que ele traga notícias ainda melhores.

Semana que vem eu conto… Até lá!

Os argentinos não são assim, não!

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Como eu antecipei no Briefing da semana passada, uma onda de rivalidade tomou conta da Argentina na reta final dessa Copa do Mundo. A mistura dessa rivalidade com o orgulho que esse povo tem do seu país, o drama que lhe é tão característico e uma sensação bastante local de que os argentinos estão constantemente na berlinda do mundo, em alguns casos, gerou imagens chocantes.

As mais fortes foram certamente aquela na praia de Copacabana após a derrota, em que um grupo de rapazes queimavam a bandeira do Brasil, e aquela no Terreirão do Samba, em que outros imitavam macacos para zoar os brasileiros. Mas essas não foram as únicas expressões. Além da famosa musiquinha, que aliás ganhou uma resposta, apareceu na minha linha do tempo no Facebook uma porção de comentários cheios de bronca.

Era um tal de brasileños basura (lixo) pra cá, brazukas de mierda pra lá. Muitas brincadeiras, algumas de mau gosto; algumas feitas por brasileiros, outras por argentinos. Na televisão, o apresentador Marcelo Tinelli, um clássico misógino ao estilo do Faustão, incorporava um quê de xenófobo (essa gente não se remenda!).

E me perguntei: será que aquele sorriso genuíno que brotava no rosto dos hermanos cada vez que eu dizia que era brasileiro, vai dar lugar a uma cara emburrada?

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Briefing: Brasil, decíme que se siente

Levaram o Cristo Redentor para o Obelisco

Levaram o Cristo Redentor para o Obelisco

A rivalidade entre Argentina e Brasil ganhou um novo fôlego esses últimos dias em que a nossa seleção amargou uma das piores derrotas de todos os tempos e que a deles, depois de mais de duas décadas, chegou à final, com uma equipe coesa e cheia de garra.

Apesar de que essa rivalidade já tivesse dados às caras desde que os hinchas argentinos chegaram às cidades brasileiras com um hit especialmente feito para nós, ela foi ganhando fôlego conforme foram sendo divulgadas aqui imagens de torcedores brasileiros dando uma força para seus rivais, como no jogo contra a Suíça. Adicione-se a isso a capa do jornal Lance, também amplamente divulgada, em que se diz que somos “alemães desde criancinha” e, pronto! A rivalidade ganhou contornos mais explícitos.

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Ontem, a primeira parte do popular programa Showmatch do apresentador Marcelo Tinelli foi quase exclusivamente dedicada a ironizar a derrota brasileira e a sugerir que seria impossível que houvessem tantos holandeses na Arena Corinthians. “Eram brasileiros vestidos com a camisa laranja!”, dizia às gargalhadas.

Numa interessante análise sobre a rivalidade entre os dois países, a jornalista Márcia Carmo relatou a perplexidade dos argentinos com a torcida contra de alguns brasileiros.

O sorriso que surgia só por estar diante de um brasileiro agora parece ter sido substituído por um certo incômodo, com as histórias de brasileiros torcendo contra a Argentina, ainda mais agora depois de o Brasil ter sido eliminado da Copa.

Para ela, que vive em Buenos Aires há quase dez anos, antes dessa Copa do Mundo qualquer sorte de rivalidade estava completamente descartada. A imagem do Brasil aqui era de “um paraíso”, habitado por “pessoas de bem com a vida”.

De fato, minha menos extensa experiência na Argentina tem confirmado a tese dela. Aqui, somos percebidos não só com muita simpatia, mas também com admiração. Já ouvi mais de uma vez que queriam Lula para presidente da Argentina e não raramente me deixaram transparecer uma visão exagerada dos sucessos econômicos brasileiros na última década.

É óbvio que em algum momento sempre apareceu a comparação de Maradona com o Pelé, mas isso em nada se sobrepunha ao desejos dos hermanos de nos visitar, escutar a nossa música e consumir as nossas novelas: “Avenida Brasil” aqui teve o capítulo final exibido em evento de gala no Luna Park, uma das maiores casas de show na capital porteña.

Talvez seria melhor se divulgassem aqui a empenhada torcida carioca pela vitória argentina no Maracanã, com esperanças de que o Prefeito Eduardo Paes cumpra a promessa de se suicidar caso isso aconteça.

Será que haverá diferenças nessa rivalidade ressurgida se a Argentina ganhar ou perder? Difícil saber. Certo mesmo é que a gente ainda vai ter que ouvir muito nas musiquinhas deles uma lírica bastante rebuscada sobre o retumbante 7 x 1 da última terça-feira.

O jogo em plena quarta-feira, justamente no feriado da independência argentina, 9 de julho, abafou um pouco as outras notícias.

Na segunda-feira, o Ministro Axel Kicillof teve uma reunião com o mediador Daniel Pollack, designado pelo juíz Thomas Griesa para negociar uma solução para o caso dos fundos abutres. Não houveram muitas novidades: a Argentina afirma que quer tempo para resolver a questão sem que se prejudique o pagamento aos credores que aderiram à renegociação. Para isso, Kicillof pediu a restauração da medida cautelar (“stay“) que deixa temporariamente sem efeito a decisão de Griesa.

No paralelo front mediático, representantes dos abutres desembarcaram em Buenos Aires para informar aos meios locais, entre eles Clarín e La Nación, a sua posição no caso e os próximos passos que pretendem tomar. A reunião no luxuoso hotel Palacio Duhau Park Hyatt ocorreu depois do governo publicar no Washington Post uma matéria paga intitulada “Fatos demonstram que eles são de fato abutres”, enumerando as mentiras propagadas por lobistas em favor dos fundos.

Mas a guerra de acusações não parou aí: em audiência no Congresso Americano, os lobistas da American Task Force Argentina (ATFA), ligados aos fundos, acusaram o país de socavar protocolos de segurança animal, em clara tentativa de prejudicar a exportação de carne para os Estados Unidos.

Até semana que vem!

Mitos e realidades sobre os preços na Argentina

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Quando a gente se planeja pra vir à Buenos Aires, todo mundo tem alguma coisa pra dizer: o Señor Tango é lindo, o Réveillon é super animado, La Cabrera tem a melhor carne da cidade, está caríssimo ou já não é barato como antes, por aí vai.

De acordo com a autoridade porteña de turismo, só entre janeiro e fevereiro deste ano foram quase 100 mil turistas brasileiros. Esse enorme influxo de gente faz com que todos nós tenhamos ao menos um parente, amigo ou colega de trabalho para dar uma dica imperdível. Mas cuidado! O Señor Tango pode até ter suas qualidades, mas, na minha modesta opinião, é cafona pra caramba; o Réveillon aqui é um marasmo só; e La Cabrera tem um custo-benefício bastante discutível.

De todos os modos, discutível mesmo é o tema dos preços e da inflação. Obviamente esse tema é bastante concreto para a população, que muitas vezes não teve o salário corrigido de acordo com os índices reais; mas para os turistas essa história é diferente porque a deterioração do peso argentino se refletiu em sua cotação frente à moeda brasileira.

Afinal, Buenos Aires está mais cara ou mais barata para o turista brasileiro que há um ano atrás?

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Briefing: Os Dribles da Argentina

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Sim, a Argentina chegou às Semifinais. Depois da fatídica derrota que nos infligiu, tirando-nos do Mundial da Itália em 1990 (uma obsessão nacional), nossos hermanos nunca mais tinham ficado entre os quatro melhores. Na Copa de 2002 (Coreia e Japão), eles sequer passaram às Oitavas; e nas outras (Estados Unidos, França, Alemanha e África do Sul), esbarraram em alguma equipe europeia justamente nas Quartas de Final.

Por esse motivo, a vitória contra a Bélgica por 1 x 0 ganhou contornos épicos no país e foi celebrada à altura nas ruas de Buenos Aires. Buzinaços, fogos de artifício, gritaria na janela e locutores enlouquecidos na televisão (“¡Que lindo es volver a verte, Argentina!“) deram o tom da chuvosa tardecita porteña no sábado.

O comentarista do diário La Nación Daniel Arcucci, logo após a vitória, ressaltou que, apesar da equipe não ter apresentado uma melhora substantiva em qualidade, “jogou diferente (…), graças às modificações de Sabella na defesa e com a entrada de Gago”.

Ninguém está particularmente otimista já que este ainda não é o Mundial do Messi(as) como se esperava e que, fora essa última, a Argentina ganhou praticamente todas as partidas no sufoco. Meus grandes informantes do mundo da bola, os taxistas, estão muito críticos do que chamam de “futebol medíocre” que sua seleção tem apresentado em campo. Na coletiva de imprensa antes da partida contra a Bélgica, o treinador da equipe Alejandro Sabella parecia compartilhar dessa opinião.

Entretanto, torcedores e comentaristas parecem apostar na mística, na paixão e no milagre. Já os brasileiros se encantaram com a resoluta opinião de um pequeno analista esportivo, cujo vídeo ganhou destaque nas redes sociais.

A vitória foi apenas o ponto final “para cima” de uma semana que começou com a euforia midiática pelo indiciamento do Vice-Presidente Boudou. Buscando vincular o caso com as acusações de tráfico de influência contra Nicolas Sarkozy, o relato do processo judicial inferiu que, em países sérios, mesmo altas autoridades “devem acertar suas contas com a justiça”, conforme sugeriu o editor do Clarín Ricardo Roa. Enquanto isso, analistas alinhados ao governo, embora comecem a reconhecer que podem ter acontecido “manejos turvos, talvez mais ligados a decisões políticas mal operadas”, se perguntam: “Não seria óbvio demais que, com o processo contra Boudou justo agora [enquanto o governo enfrenta a batalha contra os fundos abutres], estamos diante uma armação, um aproveitamento, um golpe obsceno [contra CFK]?”, como colocado por Eduardo Aliverti do Página/12.

A oposição tentou levar o caso às mãos do Congresso com a proposta de um juízo político equivalente no Brasil a uma CPI e com um pedido de licença ao Vice-Presidente; mas a maioria governista da Frente para a Vitória no Legislativo não deixou que o caso fosse adiante. O Clarín acusa o governo de não só proteger Boudou, mas a si mesmo, baseando-se na hipótese de que ele seguia ordens “de cima” e afirma: o apoio ao vice na base está cada vez mais escasso e só se sustenta pela vontade da presidenta Cristina Kirchner.

Outra batalha judicial, que está eriçando uma oposição que não parece disposta a esperar até o ano que vem para golpear o governo, é o processo por improbidade contra o juiz José María Campagnoli. Para os opositores, trata-se de mais uma ofensiva kirchnerista contra o Poder Judiciário; para aliados do governo, trata-se de um oportunista a favor dos meios dominantes.

No meio de mais essa guerra de acusações absolutamente polarizadas, em que não há espaço para relativizar, resta o mal estar do povo que vive com uma crise à espreita.

O caso dos fundos abutres segue sem resolução e é tema de qualquer conversa, manifestação ou talk show no país. A sensação é que se vai resolver, mas não sem sacrifícios. Em entrevista com o economista Fausto Spotorno e com o cientista político Pablo Kornblum, os dois afirmaram que a ninguém interessa a catástrofe de um default por míseros US$ 1,3 bilhões.

Contudo, para um governo acusado de ter sido bastante generoso na resolução de suas contendas com a Repsol, o Clube de Paris e o CIADI, assediado pelos movimentos da sociedade civil que reclamam o pagamento da chamada “dívida social” antes da dívida externa e comprometido até o pescoço com um discurso de repúdio à ganância dos fundos abutres, o impasse político pode deslegitimar qualquer esforço negociador.

Em pleno “evento de default”, um período cautelar de 30 dias antes de que se consolide a insolvência, a Argentina segue colhendo apoios, como o da Organização dos Estados Americanos essa semana. Mesmo com a abstenção de EUA e Canadá, a assembleia extraordinária do organismo aprovou uma moção de respaldo ao país “na reestruturação de sua dívida soberana”.

O chanceler brasileiro Luiz Figueredo manifestou a “solidariedade e apoio à Argentina, que leva com seriedade e êxito um trabalhoso exercício de reestruturação de uma dívida que vem pagando desde então”. De acordo com ele, “o precedente argentino deve ser visto como um sinal de alerta” e que é “muito importante que nos manifestemos coletivamente sobre a forma de evitar que a ação de uns poucos agentes possa botar em risco o bem-estar de milhões de pessoas e países inteiros”.

Já a britânica The Economist encerrou a trégua dos periódicos liberais internacionais com a Argentina. Com um artigo entitulado “O Luiz Suárez das finanças internacionais“, com referência ao craque uruguaio suspenso por ter mordido um jogador italiano, afirma que o país tem uma “atitude adolescente em que as regras existem para ser quebradas”. O artigo menciona o conceito de viveza criolla (o equivalente local para o jeitinho brasileiro) para descrever o manejo econômico dos Kirchner.

A noção de que pode jogar com as próprias regras ao invés das regras econômicas e do resto do mundo é simbolizada pela negação do governo do impacto inflacionário das suas políticas de expansão através do falseamento do índice de preços.

De acordo com a publicação, o país tardou muito em reestruturar suas dívidas e ainda aprovou duas vezes leis explicitamente banindo qualquer reabertura do swap de títulos ou acordo com os holdouts.

Alguns dizem que é pela condição pós-colonial da região. Se é, depois de 200 anos de independência, está na hora de crescer. O objetivo é trabalhar para mudar regras injustas, não ignorá-las. (…) Como Suárez descobriu, você quebra regras a seu próprio risco. Mais cedo ou mais tarde, a realidade encontra uma maneira de retrucar.

É um fato que a Argentina não agiu no caso dos fundos abutres de forma mais coordenada e precavida. O economista Fausto Spotorno me disse, por exemplo, que nada disso estaria acontecendo se o país tivesse renegociado a cláusula RUFO (Rights Upon Future Offer) com os detentores de bônus reestruturados. Essa cláusula garante que nenhum investidor terá condições mais favoráveis que outro. É a pedra no sapato de qualquer tentativa convencional da Argentina cumprir com a decisão do tribunal nova-iorquino.

Mesmo assim, The Economist claramente faz ginástica para conectar os pontos nesse artigo. Em poucas palavras, a revista britânica expõe que a viveza criolla dos Kirchner está sempre querendo driblar as regras internacionais ao mesmo tempo que se refugia no clássico argumento latino-americano de que já fomos colônia.

Primeiro, trata-se de um deboche que reúne elementos do selvagem jogador uruguaio, da tresloucada política argentina e da laxa moral latino-americana com o propósito de estigmatizar; segundo, minimiza o passado histórico da nossa região, como se o colonialismo fosse uma pequena mancha que já deveria ter sido superada (uma visão bastante cômoda para um meio britânico), com o propósito de desmerecer; e terceiro, desconsidera as condições nas quais o governo dos Kirchner teve que operar depois da gravíssima crise de 2001, com o propósito de simplificar. No final das contas, o editorial poderia levar o subtítulo: “Porque, no fundo, os abutres têm razão”.

É como Emir Sader explicou no artigo “A Contra-ofensiva da Direita Internacional“:

(…) Os meios – Financial Times, Wall Street Journal, The Economist, El País – atacam sistematicamente esses governos que nao aceitaram os ditames do Consenso de Washington. (…) A formidável arquitetura de renegociação da dívida argentina nunca foi assimilada por eles. Querem que seja um mau exemplo para Grécia, Portugal, Espanha, Egito, Ucrânia e tantos outros países aprisionados em armadilhas do FMI. Têm que demonstrar que os ditames das ditadura do capital especulativo são inevitáveis.

Até semana que vem!

O que, afinal, tem nessa cantoria argentina nos estádios?

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Os argentinos literalmente invadiram o Brasil nessa Copa do Mundo 2014. Com ingresso ou sem ingresso, a expectativa é que serão mais de 70 mil hermanos para o jogo de hoje em São Paulo prometendo o show de alegria, paixão e afinação típicos dessa torcida não só nos mundiais, mas também nos campeonatos locais.

Afinação? Sim! Os argentinos não são torcida de um hit só. Nada a ver com a nossa que insiste pelo menos desde 94 no “eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. É verdade que a gente se esbalda no hino e que eles nem podem fazer isso, já que a FIFA só executa a primeira parte instrumental da canción patriótica; mas os argentinos compensam no resto do jogo, esbanjando criatividade e provocação.

É óbvio que, no hit dessa Copa do Mundo, eles não iam perder a oportunidade de provocar a gente, né? Então, resolvi fazer uma tradução explicativa só pra gente não ficar boiando enquanto eles tiram sarro.

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