Briefing: Os Dribles da Argentina

drible

Sim, a Argentina chegou às Semifinais. Depois da fatídica derrota que nos infligiu, tirando-nos do Mundial da Itália em 1990 (uma obsessão nacional), nossos hermanos nunca mais tinham ficado entre os quatro melhores. Na Copa de 2002 (Coreia e Japão), eles sequer passaram às Oitavas; e nas outras (Estados Unidos, França, Alemanha e África do Sul), esbarraram em alguma equipe europeia justamente nas Quartas de Final.

Por esse motivo, a vitória contra a Bélgica por 1 x 0 ganhou contornos épicos no país e foi celebrada à altura nas ruas de Buenos Aires. Buzinaços, fogos de artifício, gritaria na janela e locutores enlouquecidos na televisão (“¡Que lindo es volver a verte, Argentina!“) deram o tom da chuvosa tardecita porteña no sábado.

O comentarista do diário La Nación Daniel Arcucci, logo após a vitória, ressaltou que, apesar da equipe não ter apresentado uma melhora substantiva em qualidade, “jogou diferente (…), graças às modificações de Sabella na defesa e com a entrada de Gago”.

Ninguém está particularmente otimista já que este ainda não é o Mundial do Messi(as) como se esperava e que, fora essa última, a Argentina ganhou praticamente todas as partidas no sufoco. Meus grandes informantes do mundo da bola, os taxistas, estão muito críticos do que chamam de “futebol medíocre” que sua seleção tem apresentado em campo. Na coletiva de imprensa antes da partida contra a Bélgica, o treinador da equipe Alejandro Sabella parecia compartilhar dessa opinião.

Entretanto, torcedores e comentaristas parecem apostar na mística, na paixão e no milagre. Já os brasileiros se encantaram com a resoluta opinião de um pequeno analista esportivo, cujo vídeo ganhou destaque nas redes sociais.

A vitória foi apenas o ponto final “para cima” de uma semana que começou com a euforia midiática pelo indiciamento do Vice-Presidente Boudou. Buscando vincular o caso com as acusações de tráfico de influência contra Nicolas Sarkozy, o relato do processo judicial inferiu que, em países sérios, mesmo altas autoridades “devem acertar suas contas com a justiça”, conforme sugeriu o editor do Clarín Ricardo Roa. Enquanto isso, analistas alinhados ao governo, embora comecem a reconhecer que podem ter acontecido “manejos turvos, talvez mais ligados a decisões políticas mal operadas”, se perguntam: “Não seria óbvio demais que, com o processo contra Boudou justo agora [enquanto o governo enfrenta a batalha contra os fundos abutres], estamos diante uma armação, um aproveitamento, um golpe obsceno [contra CFK]?”, como colocado por Eduardo Aliverti do Página/12.

A oposição tentou levar o caso às mãos do Congresso com a proposta de um juízo político equivalente no Brasil a uma CPI e com um pedido de licença ao Vice-Presidente; mas a maioria governista da Frente para a Vitória no Legislativo não deixou que o caso fosse adiante. O Clarín acusa o governo de não só proteger Boudou, mas a si mesmo, baseando-se na hipótese de que ele seguia ordens “de cima” e afirma: o apoio ao vice na base está cada vez mais escasso e só se sustenta pela vontade da presidenta Cristina Kirchner.

Outra batalha judicial, que está eriçando uma oposição que não parece disposta a esperar até o ano que vem para golpear o governo, é o processo por improbidade contra o juiz José María Campagnoli. Para os opositores, trata-se de mais uma ofensiva kirchnerista contra o Poder Judiciário; para aliados do governo, trata-se de um oportunista a favor dos meios dominantes.

No meio de mais essa guerra de acusações absolutamente polarizadas, em que não há espaço para relativizar, resta o mal estar do povo que vive com uma crise à espreita.

O caso dos fundos abutres segue sem resolução e é tema de qualquer conversa, manifestação ou talk show no país. A sensação é que se vai resolver, mas não sem sacrifícios. Em entrevista com o economista Fausto Spotorno e com o cientista político Pablo Kornblum, os dois afirmaram que a ninguém interessa a catástrofe de um default por míseros US$ 1,3 bilhões.

Contudo, para um governo acusado de ter sido bastante generoso na resolução de suas contendas com a Repsol, o Clube de Paris e o CIADI, assediado pelos movimentos da sociedade civil que reclamam o pagamento da chamada “dívida social” antes da dívida externa e comprometido até o pescoço com um discurso de repúdio à ganância dos fundos abutres, o impasse político pode deslegitimar qualquer esforço negociador.

Em pleno “evento de default”, um período cautelar de 30 dias antes de que se consolide a insolvência, a Argentina segue colhendo apoios, como o da Organização dos Estados Americanos essa semana. Mesmo com a abstenção de EUA e Canadá, a assembleia extraordinária do organismo aprovou uma moção de respaldo ao país “na reestruturação de sua dívida soberana”.

O chanceler brasileiro Luiz Figueredo manifestou a “solidariedade e apoio à Argentina, que leva com seriedade e êxito um trabalhoso exercício de reestruturação de uma dívida que vem pagando desde então”. De acordo com ele, “o precedente argentino deve ser visto como um sinal de alerta” e que é “muito importante que nos manifestemos coletivamente sobre a forma de evitar que a ação de uns poucos agentes possa botar em risco o bem-estar de milhões de pessoas e países inteiros”.

Já a britânica The Economist encerrou a trégua dos periódicos liberais internacionais com a Argentina. Com um artigo entitulado “O Luiz Suárez das finanças internacionais“, com referência ao craque uruguaio suspenso por ter mordido um jogador italiano, afirma que o país tem uma “atitude adolescente em que as regras existem para ser quebradas”. O artigo menciona o conceito de viveza criolla (o equivalente local para o jeitinho brasileiro) para descrever o manejo econômico dos Kirchner.

A noção de que pode jogar com as próprias regras ao invés das regras econômicas e do resto do mundo é simbolizada pela negação do governo do impacto inflacionário das suas políticas de expansão através do falseamento do índice de preços.

De acordo com a publicação, o país tardou muito em reestruturar suas dívidas e ainda aprovou duas vezes leis explicitamente banindo qualquer reabertura do swap de títulos ou acordo com os holdouts.

Alguns dizem que é pela condição pós-colonial da região. Se é, depois de 200 anos de independência, está na hora de crescer. O objetivo é trabalhar para mudar regras injustas, não ignorá-las. (…) Como Suárez descobriu, você quebra regras a seu próprio risco. Mais cedo ou mais tarde, a realidade encontra uma maneira de retrucar.

É um fato que a Argentina não agiu no caso dos fundos abutres de forma mais coordenada e precavida. O economista Fausto Spotorno me disse, por exemplo, que nada disso estaria acontecendo se o país tivesse renegociado a cláusula RUFO (Rights Upon Future Offer) com os detentores de bônus reestruturados. Essa cláusula garante que nenhum investidor terá condições mais favoráveis que outro. É a pedra no sapato de qualquer tentativa convencional da Argentina cumprir com a decisão do tribunal nova-iorquino.

Mesmo assim, The Economist claramente faz ginástica para conectar os pontos nesse artigo. Em poucas palavras, a revista britânica expõe que a viveza criolla dos Kirchner está sempre querendo driblar as regras internacionais ao mesmo tempo que se refugia no clássico argumento latino-americano de que já fomos colônia.

Primeiro, trata-se de um deboche que reúne elementos do selvagem jogador uruguaio, da tresloucada política argentina e da laxa moral latino-americana com o propósito de estigmatizar; segundo, minimiza o passado histórico da nossa região, como se o colonialismo fosse uma pequena mancha que já deveria ter sido superada (uma visão bastante cômoda para um meio britânico), com o propósito de desmerecer; e terceiro, desconsidera as condições nas quais o governo dos Kirchner teve que operar depois da gravíssima crise de 2001, com o propósito de simplificar. No final das contas, o editorial poderia levar o subtítulo: “Porque, no fundo, os abutres têm razão”.

É como Emir Sader explicou no artigo “A Contra-ofensiva da Direita Internacional“:

(…) Os meios – Financial Times, Wall Street Journal, The Economist, El País – atacam sistematicamente esses governos que nao aceitaram os ditames do Consenso de Washington. (…) A formidável arquitetura de renegociação da dívida argentina nunca foi assimilada por eles. Querem que seja um mau exemplo para Grécia, Portugal, Espanha, Egito, Ucrânia e tantos outros países aprisionados em armadilhas do FMI. Têm que demonstrar que os ditames das ditadura do capital especulativo são inevitáveis.

Até semana que vem!

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