Os argentinos não são assim, não!

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Como eu antecipei no Briefing da semana passada, uma onda de rivalidade tomou conta da Argentina na reta final dessa Copa do Mundo. A mistura dessa rivalidade com o orgulho que esse povo tem do seu país, o drama que lhe é tão característico e uma sensação bastante local de que os argentinos estão constantemente na berlinda do mundo, em alguns casos, gerou imagens chocantes.

As mais fortes foram certamente aquela na praia de Copacabana após a derrota, em que um grupo de rapazes queimavam a bandeira do Brasil, e aquela no Terreirão do Samba, em que outros imitavam macacos para zoar os brasileiros. Mas essas não foram as únicas expressões. Além da famosa musiquinha, que aliás ganhou uma resposta, apareceu na minha linha do tempo no Facebook uma porção de comentários cheios de bronca.

Era um tal de brasileños basura (lixo) pra cá, brazukas de mierda pra lá. Muitas brincadeiras, algumas de mau gosto; algumas feitas por brasileiros, outras por argentinos. Na televisão, o apresentador Marcelo Tinelli, um clássico misógino ao estilo do Faustão, incorporava um quê de xenófobo (essa gente não se remenda!).

E me perguntei: será que aquele sorriso genuíno que brotava no rosto dos hermanos cada vez que eu dizia que era brasileiro, vai dar lugar a uma cara emburrada?

Devo dizer, caros amigos: temi! No caminho para a final na Plaza San Martín, em que estava trabalhando de repórter, fiquei pianinho enquanto o povo barbarizava no ônibus. Na hora de entrevistar um pobre coitado debulhando em lágrimas depois da derrota, meti um sotaque estranho no meu espanhol para que ele não percebesse a minha procedência.

Nicolás: "Tem que saber separar as coisas"

Nicolás: “Tem que saber separar as coisas”

Mas devo confessar-lhes: era paranoia!

Dos amigos de sempre e dos cordiais comerciantes da vizinhança, continuo recebendo o carinho habitual. Esse papo todo do “ódio” repentino entre a gente virou mesmo só um assunto a mais. “Não me diga que você está feliz!”, perguntou a moça da padaria da esquina quando eu fui comprar o café da manhã na segunda. Era uma brincadeira como todas as outras que foram se desvelando durante o Mundial.

Mas e os outros? Aqueles que não conhecem nenhum brasileiro e estão com essa imagem de confrontação?

“Chamou muito a minha atenção que alguns amigos meus que, inclusive vão de vez em quando ao Brasil e que adoravam o país, tenham feito comentários tão fortes nesses últimos dias”, me contou a advogada Ximena Fernandez. Por já ter vivido na Bahia alguns meses, ela soube separar o joio do trigo, mas percebeu que em muita gente não caiu bem “ver brasileiros torcendo para os rivais da Argentina”. Ela acha que, passada a fiebre mundialista, tudo vai voltar ao normal. “Acho que uma coisa é a irritação entre Brasil e Argentina quando se fala de futebol, outra é o que os argentinos pensam dos brasileiros realmente”.

Ximena já foi ao Brasil diversas vezes e não se deixou impressionar pelas notícias

Ximena não se deixou impressionar pelas notícias

Ximena disse que muitos dos seus amigos que foram ao Brasil no último mês voltaram encantados com tudo, desde a organização até a hospitalidade. “Aqueles argentinos que se comportaram mal no Brasil são os mesmos que fizeram essa confusão aqui no Obelisco no domingo noite. Eles são violentos e ponto. Não tem nada a ver com o Brasil especificamente”. E completou: “alguns meios de comunicação fazem esse jogo populista para ganhar audiência”. No Brasil, a gente vê esse filme sempre, né?

A poledancer Andrea Lagasio, assídua frequentadora das nossas praias durante o verão, também minimizou esse clima. “Eu tenho família no Brasil, adoro esse país e os brasileiros. É só no futebol que essas coisas acontecem; a nível cultural é outra coisa”, afirmou.

Já o relações públicas Ezequiel Hernan ficou um pouco reticente. “A rivalidade é um clássico, tudo bem, mas alguns brasileiros foram soltar foguetes na porta do hotel em que a nossa seleção estava hospedada antes do jogo para que eles não dormissem. Aí já me pareceu demais”, contou. “Isso eu não esperava”.

Apesar disso, Ezequiel e a maioria das pessoas que eu entrevistei acreditam que isso vai ficar na anedota futebolística. “Tanto aqui, como eu acho que no Brasil, o futebol é o mais próximo que a gente tem da guerra, o mais próximo de unir o povo em torno de uma causa, do nosso mito de nação”, afirmou o professor de Ensino Médio Nicolás Zingoni Vinci, embora tenha feito uma ressalva: “Alguns argentinos passaram dos limites no Brasil e eu fiquei com vergonha deles, mas a verdade é que às vezes a gente não mede as consequências”.

Lisandro: "A partida em si é o que salva a gente de todo o circo montado ao redor do futebol"

Lisandro: “A partida em si é o que salva a gente de todo o circo montado ao redor do futebol”

O ator e diretor de teatro Lisandro Rodriguez entende que alguns meios de comunicação misturam e exacerbam as coisas, misturando os folclores e códigos do futebol, para gerar “disputas, feitos anti-esportivos e, basicamente, preencher espaços”. “Eu amo o futebol. Amo o Neymar, os times que jogam bem e isso para mim não tem nacionalidade nem cor nem bandeira”, me disse, “e odeio quando os jornais exploram a rivalidade futebolística para influenciar o povo, num verdadeiro massacre ideológico. Gente mal educada e estúpida existe, é claro, e deles a gente não pode se salvar nem no futebol nem na vida”.

A atriz Brenda Kreizerman concorda. “Me parece um símbolo horrível queimar a bandeira de outro país, ainda mais quando a gente está falando só de um jogo”, me contou, afirmando que, para ela, “os brasileiros continuam tendo uma imagem de simpatia e buena onda”.

No final da minha modesta pesquisa a conclusão confirmou a intuição: o problema é generalizar, uma armadilha em que caem mesmo só os que desconhecem.

Ezequiel: "Quando eu fui ao Brasil, voltei falando maravilhas de vocês"

Ezequiel: “Quando eu fui ao Brasil, voltei falando maravilhas de vocês”

Os argentinos são arrogantes, mau educados, racistas? Certamente alguns são e, geralmente, são esses os que mais aparecem. O que dizer da deselegância dos brasileiros que vaiaram a Presidenta na estreia e o hino do Chile nas Oitavas de Final?

Mais que isso, por que não virou notícia também a parte bacana? As amizades, os romances, a brincadeira saudável? Porque o sensacionalismo é uma praga, mas dá ibope.

Para outros insights sobre o tema, confira:

Escrevi alguns outros textos sobre o povo argentino aqui nesse blog mesmo:

 

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8 comentários sobre “Os argentinos não são assim, não!

  1. Che, parece que ha habido una catástrofe, vinieron los Men In Black y nos borraron el sentido del humor… Desde cuándo las relaciones entre nuestros pueblos quedan delegadas en los hinchas de fútbol ? ¿No es más profunda y real entre gobiernos, artistas, turistas, viajeros, amores, técnicos? Una multitud de borrachos entusiasmados berreando boludeces en grupo resulta que ahora son mis representantes ? Paso, pido gancho, me poupe.
    Y si no bajan los decibeles, por lo menos bajemos la hipersensibilidad, qué tanto, parecemos personajes de Capusotto, unidimensionales. El argentino, El brasilero, El alemán… Qué tiene que ver Julio Grondona con Perez Esquivel? Galvão Bueno con Gilberto Gil? Thomas Mann con Merkel?? déjenme elegir, no de un lado de la frontera u otro, no de un idioma u otro, sino el tipo de gente que me gusta frecuentar, admirar o criticar… Yo creo que Maradona es más grande que Pelé, puedo volver a visitar Paraty? Creo que Morro de Sao Paulo es más lindo que Mar del Plata, perderé la nacionalidad argentina? Que Brahms es mejor que Pocho la Pantera. Que Caio Fernando Abreu es mejor que Manuel Puig…Y que a Oscar Niemeyer nadie le pisa el poncho en el mundo. Y si alguno se ofende, no merece ser amigo mío. Buena oportunidad para poner en funcionamiento la máquina de borrar boludos.

    • Hola Eduardo!
      Vos tenés razón. Un poquito más de humor y hasta ese histeriqueo parecería un chiste.
      Hoy en día lo que parece tener más éxito es el relato melocotón de como el seleccionado alemán dejó una escuela para los pibes pobres de Bahía o como el viejo llorón le entregó a una alemana el trofeo de la Copa.
      Yo llevé con mucho humor las cargadas de mis amigos de acá en Buenos Aires – la recíproca fue verdadera.
      Sin embargo, leí y escuché comentarios de brasileros y argentinos que grasaban racismo, “elitismo”, -ismo, -ismo, -ismo. No tenian nada de humor (ni humor negro) y mucho menos le tomaban en cuenta ni Pérez Esquivel ni Gilberto Gil.
      Así que mejor “dibujar”, ¿no? 😉
      ¡Saludos!

    • Ricardo, eu não li em nenhum lugar essas histórias da senhora que apanhou no Obelisco ou do africano que foi achincalhado na Plaza San Martín. O que eu sei, falo pela experiência:
      – em geral, os argentinos não são mais racistas que os brasileiros. Essa praga, tanto no Brasil quanto aqui tem a mesma raiz
      – eu nunca fui chamado de macaco aqui
      – naquele lapso entre a semi-final e a final houve um climão, sim; mas tudo voltou ao normal e o papo de Copa do Mundo voltou a ser zoação de boteco
      – os argentinos me tratam muito bem, assim como aos outros brasileiros que eu conheço que vivem aqui. Conhecem muito mais a nossa cultura, sobretudo a música, do que vice-e-versa (posso dizer o mesmo da política)
      Então, essa amargurinha ficou pra trás, assim como a Copa. 😉
      Grande abraço!

      • Aprecio a tentativa de “união” dos povos latinos, mas a verdade está pra quem quiser ver.

        “Los negros macacos de Brasil” é a expressão comum entre os argentinos para se referirem aos brasileiros. É um fato. Basta procurar por aí. É usada sempre por eles e em várias ocasiões. Está até dicionarizada.

        É um povo racista ao extremo, xenófobo e arrogantíssimo.
        Opinião de todos os povos latinoamericanos, não só dos brasileiros.

        Creio que hoje, tendo em vista a crise e a dependência econômica do Brasil, eles se tolham um pouco, sobretudo diante do turista brasileiro forrado em “reales”, que valem ouro aí.

        Sempre, no entanto, que essa relação de necessidade econômica não está presente, salta novamente o racismo e a xenofobia deles. Não faltam exemplos disso Internet afora.

        Os cariocas ficaram horrorizados com o racismo e a agressividade deles no Rio. E as Olimpíadas de 2016 estarão aí, e eles voltarão. Infelizmente, prevejo muita tensão e agressões, pois os cariocas que foram ofendidos e agredidos na passagem deles durante a copa não esqueceram e aproveitarão para dar o troco. Assim como eles, enraivecidos pela torcida brasileira pelos alemães, também irão querer se vingar.

        O racismo argentino voltará com toda a força em 2016 e teremos, infelizmente, novos confrontos entre um povo que o considera “normal” (eles) e os brasileiros, que o deploram e não o admitem.
        É minha opinião.

        Obrigado pela oportunidade.

  2. Só um ponto final, sobre chamar de macacos:

    a Revista Barcelona publicou na época da Copa de 2014 – por volta de junho – uma capa onde dizia que a disputa se daria entre os “Criollos” e os “macacos”, e pôs a bandeira do Brasil com a imagem de uma banana no lugar do Ordem e Progresso.

    Ou seja, é um hábito racista consolidado dos argentinos, pois, de outra forma, não seria capa de revista.

    Obrigado de novo pela oportunidade e desculpe por retornar ao tema.

    Saudações

    • Oi Luis! Obrigado por comentar.
      Apesar de não concordar mesmo contigo, obviamente respeito a sua opinião. Como disse no artigo, vivendo aqui há anos e tendo a oportunidade de conviver com argentinos de todas as classes sociais, estilos de vida, etc, reafirmo que o carinho que eles têm pelos brasileiros é muito maior do que qualquer outra coisa.
      Existe racismo? Sim, claro! Da mesma maneira que existe no Brasil e é tão direcionado aos brasileiros quanto aos próprios argentinos que não se enquadram num certo tipo europeu.
      Deixe-me só esclarecer que a Revista Barcelona é uma publicação humorística que “brinca” justamente como preconceitos – uma espécie de Charlie Hebdo daqui. Eles tiram uma com a cara do papa, da Cristina, do torto e do direito. Não lhe recomendaria essa fonte para embasar nada, tá?
      Um abraço e sejamos felizes sem alimentar nenhum preconceito (mesmo que em contraposição ao preconceito dos outros)

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