Briefing: Está tudo conectado

Captura de Tela 2014-07-18 às 01.24.47

Na última quarta-feira (16/7), quando eu estava cobrindo uma marcha pró-Palestina no centro de Buenos Aires que contou com uma expressiva participação de vários movimentos sociais, perguntei ao Deputado Luis D’Elia o que aquela gente toda estava fazendo lá. Havia gente do Movimento Evita, Marea Popular, MILES e Frente Popular Darío Santillan, entre outros – uma turma que eu, geralmente, encontro nos protestos contra o Imperialismo, a precarização do trabalho, deterioração do salário, essas coisas, e que agora cantava a plenos pulmões:

¡Volveremos, volveremos!

¡Volveremos otra vez!

¡Volveremos a Palestina,

capital Jerusalém!

D’Elia, acusado de fervoroso antissemita pelas organizações judaicas locais AMIA e DAIA, me explicou que as esquerdas argentinas sempre foram inspiradas pela causa palestina, desde os tempos do terrorista Yasser Arafat na década de 70. Para ele, existe um paralelo claro entre a situação colonial das Ilhas Malvinas, ocupadas pela Grã-Bretanha, e a implantação do Estado de Israel em 1948, quando a Palestina estava sob mandato britânico. No final, depois de um suspiro reflexivo, D’Elia arrematou:

Os abutres que hoje em dia querem cercear o desenvolvimento da Argentina e os falcões da guerra que bombardeiam Gaza vêm do mesmo ninho.

E, com essa introdução, que demonstra a face holística dos movimentos sociais argentinos, voltamos à causa nacional do momento, o caso dos fundos abutres que, com idas e vindas, parece se encaminhar para uma conclusão não muito favorável para o país nos próximos dias.

Pressionado pelos representantes do fundo e também pelos bancos que receberam o pagamento do governo para saldar a conta mensal dos bônus restruturados, o juiz estadunidense Thomas Griesa marcou uma audiência para a próxima terça-feira, dia 22, para decidir o que fazer com esse dinheiro. Ele já havia orientado os bancos a devolvê-lo à Argentina, pois em sua interpretação do pari passu, os detentores dos bônus restruturados só podem ser pagos se os holdouts (os chamados “fundos abutres”) também forem.

Mas, enquanto os bancos não resolviam se devolviam ou não, o governo argentino urgia ao juiz que restabelecesse a medida cautelar (o “stay“) que deixava sem efeito a sua decisão para que o país pudesse negociar com os fundos.

Alguns analistas entendem que o governo busca tempo desesperadamente para que chegue logo o fim do ano. À essa época, a chamada cláusula RUFO (Direitos sobre Ofertas Futuras) nos contratos dos bônus restruturados terá caducado, o que impediria que eles entrassem na justiça para pedir o pagamento em iguais condições que os fundos abutres e levassem, de fato, o país à bancarrota.

Entretanto, é remota a possibilidade de que o stay seja restabelecido. E se Griesa determinar, na semana que vem, a devolução do dinheiro depositado, ao fim desse mês a Argentina entrará em default técnico.

Enquanto seu lobo não vem, a diplomacia local continua angariando apoios internacionais. Depois do Mercosul, Unasul, UNCTAD e OEA, agora foi a vez dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que prometeram levar o caso à próxima reunião do G-20 na Austrália.

Existia alguma expectativa de que a Argentina passaria a integrar esse grupo a partir desse ano. Meses atrás o governo anunciou que a Rússia havia sinalizado com a possibilidade e o convite para que a Presidenta Cristina Kirchner fosse à reunião em Fortaleza parecia confirmá-la.

Entretanto, antes ainda do final da Copa (não falarei mais desse assunto, prometo), Dilma antecipou que, ao menos nesse encontro, não seria discutida a admissão de novos membros. A imprensa local interpretou que houve um veto por parte do Brasil.

Para Eleonora Gosman, do Clarín, esse suposto veto seria um sinal de que o Brasil relega a Argentina e a região em favor dos sócios emergentes pesos pesados.

As incertezas financeiras que dominam a economia da Argentina, por causa da ação dos fundos abutres, seriam um obstáculo para pensar em sua incorporação.

Mas quem deu essa opinião no Brasil, foi Presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Robson Andrade, que afirmou que o país apresenta problemas de segurança jurídica além de “não caminhar por uma democracia plena”.

Ele não deu mais detalhes, embora uma notícia divulgada no portal da CNI entitulada “A indústria brasileira se aproxima da Aliança do Pacífico para estimular fortalecimento do comércio bilateral” dê uma pista do posicionamento geopolítico que estimulou essas declarações.

De qualquer jeito, as empreitadas argentinas no campo externo já deram alguns frutos.

Na visita do Presidente russo Vladmir Putin, sábado passado, em que foi recebido nas portas da Casa Rosada por uma multidão de manifestantes pró-gays e uns pouquinhos pró-Ucrânia, os dois países anunciaram uma parceria estratégica que inclui:

  • um acordo em matéria nuclear de transferência de tecnologia, com vistas à construção de uma nova central atômica
  • um acordo de cooperação em comunicações, o que permitirá a transmissão do canal RT na Argentina
  • um acordo de extradição, translado de condenados e cooperação recíproca em matéria penal
  • a realização ano que vem do Ano da Argentina na Rússia e vice-e-versa, quando os dois países comemoram 130 de relações diplomáticas

Agora é a vez do mandatário chinês Xi Jinping, que chega para uma visita de fim de semana. Já foi anunciado que haverá uma injeção de cerca de US$ 3 bi no Banco Central argentino por conta de um investimento chinês na construção de duas represas na província de Santa Cruz. Mas a expectativa é de que ele traga notícias ainda melhores.

Semana que vem eu conto… Até lá!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s