Briefing: Mecanismos Internos

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Em outros Briefings, descrevi a encruzilhada em que se encontra o governo argentino: de um lado está o “mercado”,  pedindo reformas ortodoxas, o fim das restrições ao câmbio e ao comércio, além do pagamento das dívidas do país com os credores estrangeiros; do outro estão os trabalhadores daqui que, historicamente acostumados a níveis de vida muito mais altos que a média latino-americana, vêm se estapeando para conseguir sair dessa penúria que se acentua desde a década de 80. Quando parecia dar uma afrouxada, agarrou todo mundo pelo pescoço em meados de 2012 e a crise não dá sinais de trégua.

Informações desencontradas dão conta de mais de 500 mil demissões e uma inflação de 40% nos últimos 6 meses, mas é o futuro que preocupa mais o povo daqui. Com as eleições presidenciais de 2015 se aproximando, ninguém se arrisca a dizer exatamente quem serão os candidatos, muito menos qual deles irá ganhar. E é esse cenário de incerteza que parece conflagrar tudo.

O governo descarta o terror, exibindo dados em que, por A mais B, a situação das classes populares tem melhorado muito desde a ascensão de Nestor Kirchner à presidência. Identificou o inimigo no exterior, os tão falados fundos abutres, e estendeu a classificação a certos atores internos mais conservadores e, naturalmente, mais mais ricos.

Entretanto, a situação não se apresenta como uma luta de classes como nas antigas, pois à esquerda da Presidenta estão numerosas centrais sindicais e movimentos sociais muito mais radicais que têm dado uma dor de cabeça danada. De greve em greve, manifestação em manifestação, essa gente vai deixando claro o seu discurso.

Essa semana foi a vez da greve geral, convocada há cerca de um mês por Hugo Moyano, um dos maiores líderes sindicais da Argentina.

Hugo Moyano

Hugo Moyano

Em primeiro lugar, é interessante observar quem é Hugo Moyano, secretário-geral da Central Geral do Trabalho (CGT). Com raízes no sindicato dos caminhoneiros, ele comanda uma tropa fiel de cerca de 200 mil seguidores facilmente mobilizáveis e com o poder de basicamente parar o país, já que os grãos exportados, maior fonte de divisas daqui, é transportado na boleia de seus caminhões. Sob seu comando direto, estão motoristas e funcionários dos pedágios, por exemplo; o que significa que basta Moyano se manifestar e todos cruzam os braços. Investigado por enriquecimento ilícito, o controverso líder sindicalista rompeu com o governo em 2011 – retalhando ainda mais o movimento sindical local.

Aliás, esse é um dado que se deve levar em conta: as duas centrais sindicais do país estão literalmente divididas há décadas. Moyano lidera a chamada CGT Azopardo, mas existe uma outra CGT que é liderada por Antonio Caló e que apoia o governo de Cristina Kirchner.

Por outro lado, também existe a CTA, uma dissidência da CGT, que atua de forma independente e hoje é liderada por Pablo Micheli.

A greve geral de ontem teve a adesão da CGT de Moyano e da CTA, que em teoria representam tão somente 25% do movimento sindical argentino; mas que, no entanto, como eu disse antes, controlam setores estratégicos, como transportes, e que têm grande poder de mobilização. Dessa maneira, ontem não funcionaram trens, parte dos metrôs e foram bloqueadas as maiores vias de acesso à cidade de Buenos Aires. Calcula-se que a adesão, voluntária ou não, à greve foi de 85% no final das contas, embora o governo negue.

Obs.: A greve geral de ontem foi muito menor do que a de 10 de abril desse ano. Com os ônibus funcionando, o movimento na capital estava razoável, embora algumas lojas e bancos estivessem fechados.

Durante uma grande manifestação que percorreu a Avenida de Mayo desde a Casa Rosada até o Congresso na quarta-feira (27), estive conversando com Pablo Micheli (Secretário-Geral da CTA), Alejandro Bodart e Vania Ripoll (ambos do MST, Movimento Social dos Trabalhadores). Mais do que pedir um aumento para os salários e aposentadorias, carcomidos pela inflação, eles me disseram que estão lutando também por:

  • o fim do imposto de renda para os trabalhadores, já que para eles, não sendo lucro e remunerando o trabalho, salário não deveria ser taxado;
  • uma lei que impeça as demissões e férias coletivas por um ano; e
  • expropriação estatal das empresas que demitem trabalhadores.

Em uma entrevista com Bodart no mês passado, ele foi mais longe: todo o sistema bancário da Argentina deveria ser privatizado.

Para eles, Cristina Kirchner está a favor da banca internacional, dos yankees, como eles dizem aqui, e está enganando o povo argentino com meias-reformas, maquiagens. Micheli dizia de maneira bastante contundente:

“Vimos essa situação na década de 90, não vamos deixar que se repita!”

Da outra extremidade, como eu já falei e como se lê na mídia ocidental sempre quando se fala da Argentina, Cristina está se lixando para os mercados internacionais e está levando o país a uma aventura populista de graves consequências.

Esses dias, por exemplo, um artigo do Wall Street Journal alertou que a Argentina já deve estar em recessão. De acordo com o periódico, o país convive com uma “combinação tóxica” de crescimento econômico fraco e inflação alta, enquanto as reservas internacionais desmoronam pela fuga de capitais e intervenções para conter a montanha-russa cambiária. Em cerca de dez dias, a cotação paralela do peso passou da casa dos AR$ 12 para os quase AR$ 15 – uma situação que deve piorar, já que os preços da soja no mercado internacional têm tendência de queda a partir do terceiro trimestre.

Os analistas consultados pelo WSJ são unânimes: o país está irresponsavelmente jogando com a política macroeconômica para garantir um crescimento em detrimento das reservas.

No meio desse fogo cruzado, o governo claramente tenta se posicionar ao lado dos trabalhadores. Essa semana, propôs duas leis no Congresso:

  1. a chamada “lei do pagamento soberano”, que expliquei no último Briefing; e
  2. a Lei do Abastecimento, que cria a justiça do consumidor e dá ao governo mecanismos de intervenção nas empresas

Sem poder de maneira alguma baixar a arrecadação, naturalmente nem considera a possibilidade de ceder à reivindicação dos sindicatos referente ao imposto de renda. Alega, contudo, que este imposto só atinge 10% da população e que favorece a distribuição de renda. Dessa maneira, acusa aqueles que convocaram a greve de fazer uso político de seu poder de mobilização.

Mario Wainfeld do Página/12 resumiu bem a situação:

“Pela oratória dos sindicalistas, a Argentina seria uma comunidade organizada. Harmoniosa em todos os seus estamentos, é somente perturbada por um governo avesso, depredador e até psicopata – a mesma versão infantil que propagam os meios hegemônicos, as corporações patronais, as multinacionais e, por sua vez, os principais membros da oposição. Um estranho sentido comum.

Hoje, os sindicalistas afirmaram que mais greves gerais estão por vir, o que, junto com as previsões no mínimo pessimistas dos analistas econômicos, prenunciam um fim de governo bastante conturbado para Cristina Kirchner. Não é uma novidade.

Desde que cheguei aqui, semana sim semana não aparece uma nova informação que dá conta de decretar o fim da Argentina. Na primeira vez, eu realmente cheguei a acreditar que tudo estava perdido, mas minha amiga Gabriela Grosskopf Antunes (colunista no Globo Online e jornalista da versão em português do Clarín) cantou a bola:

“Esse país é assim mesmo; amanhã aparece uma nova catástrofe e depois de amanhã tudo volta ao normal”

Até semana que vem!

Um Sartorialist Porteño

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Uma das coisas mais libertadoras sobre morar em Buenos Aires é que quando você acorda todo descabelado, cara amassada, vestindo o seu moletom mais surrado e resolve descer para comprar um café no bar da esquina, aqui esse look é estilo, é cool, é tendência.

Outrora conhecidos como a gente mais nariz em pé, mais almofadinha e mais refinada de toda a América Latina, os porteños deram uma relaxada dramática e a versão street casual daqui não tem nada de low-profile: você tem que ter ou, no mínimo, parecer ter dormido na rua. Esqueça o tal arquétipo do hipster penteadinho vestido de maneira excêntrica e ainda assim indefectível. O porteño canchero tem pelo menos um penteado, por assim dizer, barroco e/ou uma gola esgarçada e/ou uma noite passada de esbórnia estampada no rosto. O pacote é cumulativo.

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Briefing: Temperatura Máxima

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

Desde a semana passada, as ruas de Buenos Aires estão mais cheias. É gente de braços e pernas de fora, estendendo cangas nos parques e tomando um bronze – enquanto toma unos ricos mates, ¡por supuesto! Com temperaturas surpreendentemente batendo os 27 graus, esse não é o inverno a que os porteños estão acostumados e, muito menos, aquele que os brasileiros procuram para exibir o casacão comprado na Europa.

Se bem me lembro, setembro passado estávamos todos acocorados debaixo do cobertor, aquecedor à mil, esperando una nesga de sol para botar o nariz pra fora de casa. Aqui, embora as temperaturas nunca cheguem abaixo de zero, a umidade relativa do ar tremenda faz quaisquer 5 graus penetrarem nos ossos e cortar a cara quando começa a ventania.

Mas esse ano, uma massa de ar quente parece estar estacionada sobre Buenos Aires e não está jogando às alturas só a temperatura, não. A política e a economia também parecem estar afetadas.

Na disputa pelo ponto mais alto do termômetro está indiscutivelmente Axel Kicillof. O ministro quarentão tem recibidoCaptura de Tela 2014-08-21 às 23.21.58 diversos apelidinhos nos últimos tempos, o que, para o mal ou para o bem, diz um pouco de sua popularidade. #KiciLove para as tietes, “chiquitito, pero cumplidor” nas palavras (com inesperado duplo sentido) da Presidenta Cristina, “galã do calote” como num perfil da revista Exame, ou até “o político mais perigoso da América Latina” de acordo com um periódico de Cingapura, Axel acordou com a macaca na última segunda e começou a colocar as cartas da Argentina na mesa:

“[Se os buitres quiserem receber], podem vir e trocar os títulos aqui. Se fizerem, vão ter um lucro de 300%. Isso é pouco para o senhor Singer? Sim, porque ele é um abutre, mas se ele quiser, vamos pagar”

Kicillof se referia à Paul Singer, dono do fundo NML e uma das vozes mais ativas contra a restruturação da dívida externa argentina, mas o recado foi geral: o governo mandou um projeto de lei para o Congresso que abre a possibilidade de todos os credores da Argentina trocarem os títulos sob jurisdição nova-iorquina (truncados pela famosa decisão do juiz Thomas Griesa) por bônus emitidos na jurisdição local.

“Ninguém está obrigado a aderir, mas criamos essa alternativa devido às dificuldades que encontramos em pagar o serviço da dívida”

Pra completar, respondendo à acusação de Griesa de que o projeto seria ilegal, Kicillof afirmou que o juiz estadunidense pretende “condicionar o Congresso argentino”.

“O juiz convocou uma audiência para debater um suposto desacato da República, em mais um excesso de jurisdição e demonstrando desconhecimento do conceito de soberania. (…) Longe de agir com justiça e gerar condições equilibradas entre as partes, Griesa só quer favorecer aos abutres”

Outro que estava on fire era o Ministro das Relações Exteriores Héctor Timerman. Comentando as alegações dos EUA de que não aceitavam a competência da Corte Internacional de Justiça por conta da divisão de poderes, o chanceler afirmou que a desculpa é “produto de uma certa ignorância”. Para ele, a decisão de um país sobre como deve pagar sua dívida externa é soberana e, se um juiz dos Estados Unidos ameaça feri-la, o país pode ser responsabilizado internacionalmente por isso.

Depois de acusar o Paul Singer, sempre ele, de doar mais de 10 milhões de dólares para congressistas estadunidenses, esclareceu que levará esse país à CIJ, mesmo suspeitando de que não vá dar em nada:

“[Os EUA] várias vezes não acataram as sentenças [da Corte] contra suas violações do direito internacional”

Também cutucando várias onças com a vara curta (ou cumprida, vai saber), a Presidenta Cristina Kirchner foi novamente à rede nacional com um discurso não tão leve como os anteriores para explicar o projeto de lei que, segundo ela, trata-se de uma solução para um problema que não foi criado nem pelo seu governo nem pelo de seu marido.

“Não contraímos essa dívida. A partir do golpe de Estado e continuando com os sucessivos governos democráticos, a dívida externa foi crescendo e se transformando num condicionante ao crescimento do país. Na última década, vivemos anos de desendividamento, mas também de desenvolvimento, porque tudo isso não se pagou com a fome do povo. Perdão pelo nervosismo. Vocês sempre me veem mais aprumada, mas estou nervosa com a injustiça que estamos vivendo!”

Embora possam ter sido encaradas com desgosto pelo Nobel da Paz (sic) Barack Obama, as medidas do governo argentino foram celebradas pelo Nobel da Economia Joseph Stiglitz:

“De uma perspectiva global, não é possível entender porque um juiz chega a ter o direito de julgar qualquer bônus no mundo. A extra-territorialidade deveria ser inaceitável. (…) De um ponto de vista econômico, [a troca proposta pelo governo] é o que eu teria recomendado”

Internamente, entretanto, o ex-Presidente do Banco Central Prat-Gay acusou o governo de “como sempre, se esquivar de resolver as questões de fundo”, afirmando que “não se pode viver sempre à margem da lei”. Já um dos líderes mais ferozes da oposição, Maurício Macri, anunciou que seu partido votará contra o projeto do governo, usando como metáfora uma das maiores paixões argentinas:

“É como se nós agora disséssemos que a final da Copa do Mundo não valeu porque o goleiro da Alemanha cometeu um pênalti [não marcado] e convidássemos eles a jogar outra partida na Argentina apitada por Oyarbide (famoso juiz argentino)”

Os editoriais dos jornalões  locais acompanharam o ponto de vista, dizendo que o governo “embandeira um falso nacionalismo, colocar-se a um passo do desacato e afetar ainda mais a imagem do país no exterior”. Já para Ricardo Roa do Clarín, nas falas de Kicillof, el principito, faltam argumentos e sobra prepotência.

Enquanto as forças políticas se atritam, a fagulhas acendem os problemas econômicos: o chamado dólar blue (paralelo, negociado em estabelecimentos ilegais e em cada esquina do Microcentro) se afasta cada vez mais da cotação oficial, quase batendo a marca recorde de 14 pesos. Se não bastasse o efeito inflacionário dessa discrepância, conforme alertou o economista Augustín D’Attellis, a disparada do dólar seca as reservas, que só ontem, sofreram um desfalque de US$ 89 milhões.

E pra completar, tem as greves…

Ontem foi a vez da saúde pública da província de Buenos Aires, que parou por 24 horas. Fiz uma visita ao Hospital Fioretto em Avellaneda hoje pela manhã e a neurocirurgiã Silvia Stepaniuk me contou que o motivo de sempre é o salário, mas que os problemas não terminam aí. Sem equipamentos básicos como um tomógrafo, insumos como chapas de raio X ou mesmo gaze e soro, eles não têm como atender aos pacientes e nem como transferi-los, porque tampouco funciona a ambulância. Ela disse que os familiares ficam tão indignados, que às vezes até agem com violência.

“Nós é que botamos a nossa cara à tapa; as pessoas não vão reclamar com o governador nem com o ministro. Elas vêm pra cima da gente”

Semana que vem, as previsões do tempo garantem que a temperatura vai voltar ao normal e baixar para a casa dos 10 graus, mas parece que as mudanças ficarão restritas ao clima. Na quinta-feira (28), tem greve geral de 24 horas convocada pelo controverso sindicalista da oposição Hugo Moyano. Assim, se você tiver viagem marcada para esse dia, é melhor remarcar.

Até mais!

Briefing: As Invasões Bárbaras

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Todas as descrições clássicas do populismo mencionam a criação de um inimigo externo. O historiador mexicano Enrique Krauze, por exemplo, diz que:

“Imune à crítica e alérgico à autocrítica, precisando apontar bodes expiatórios para os fracassos, o regime populista (mais nacionalista que patriótico) precisa desviar a atenção interna para o adversário de fora”

A ele fazem coro aqui na Argentina os principais críticos do governo de Cristina Kirchner que, nas palavras de Fernando Laborda do diário La Nación, a acusam de “persuadir a população de que, por trás das penúrias socioeconômicas do presente se esconde um poder empresarial que aposta no desemprego” e de “apresentar qualquer desarranjo da economia como consequência da ação dos fundos abutres e de uma confabulação internacional contra o país”.

Eu não me atreveria a chamar CFK de populista nem mesmo de incorrer no pantanoso debate sobre o real significado dessa adjetivação, mas a semana pelo menos deu um gás a essas acusações.

Terça-feira no Luna Park, mais prestigiosa e tradicional casa de shows da capital porteña, agremiações kirchneristas protagonizaram um ato contra os fundos abutres na comemoração pela resistência de Buenos Aires frente os invasores ingleses em 1807. Os oradores destacaram o heroísmo dos argentinos que “das sacadas de San Telmo jogavam baldes de óleo quente nas tropas imperialistas e venceram, pese à rendição de alguns cipayos” (jargão sindical local equivalente a “pelegos”). O recado estava dado: agora era a vez da militância, não só contra os abutres de fora, mas também com a mídia abutre, as empresas abutres, os jornalistas abutres. O inimigo tem variadas alcunhas, mas apenas um sobrenome.

Quarta-feira, a AFIP, autoridade fiscal da Argentina, realizou uma operação de busca na sede local do banco britânico HSBC por denúncias de lavagem de dinheiro e evasão de divisas que chegam a centenas de milhares de dólares. Não encontraram nada. Funcionários do banco, apesar de afirmarem que estão ali para esclarecer tudo o que a lei argentina pedir, alegaram que justo os documentos relacionados ao caso foram destruídos num fatídico incêndio em fevereiro deste ano.

É um banco abutre ou apenas mais um inimigo imaginário do governo?

O deputado Mário Cafioro, que não é governista, me disse que aposta na primeira hipótese:

Essa instituição é investigada por casos de lavagem no México, na Colômbia, nos Estados Unidos e na Europa, que favorecem grupos terroristas e narcotraficantes. Não quero nem pensar o que podem chegar a fazer na Argentina, onde, no afã de conseguir dólares de qualquer origem, o governo simplesmente deixou de fazer qualquer controle.

Mais à esquerda, Alejandro Bodart lembrou que o banco, “formado com capitais do comércio de ópio na China do século XIX”, esteve enrolado em todo tipo de negócio obscuro no país, desde o Corralito até o Megacanje.

Ontem foi a vez da Donnelley, uma gráfica estadunidense que operava no país há 22 anos e que pediu falência no começo da semana. Em aparição espetacular na Casa Rosada com participação da militância, Cristina anunciou que entrará na justiça contra a companhia com base na chamada Lei Antiterrorismo por “alteração da ordem econômica e financeira”. De acordo com a Presidenta, a quebra é falsa e serve para criar o temor na sociedade e minar as expectativas.

Adivinha quem estaria por trás da empresa? O fundo abutre NML de Paul Singer, a quem a Presidenta acusou de “tecer um entramado mafioso para prejudicar o país e botá-lo de joelhos”.

Os fundos abutres não querem acertar as coisas. Não é somente avareza e cobiça, mas também uma decisão política e geopolítica de querer voltar a endividar a Argentina e jogar águas em qualquer modo de restruturação da dívida soberana.

Ela criticou também os “abutres internos, que defendem essa gente e defendem atitudes como essa, ameaçadoras, que ferem a soberania e a dignidade nacional”.

Verdade ou delírio?

Cristina disparou contra todo mundo num caso que chamou de “quebra express” de uma empresa que tinha uma situação patrimonial boa:

A falência foi pedida na sexta-feira, na segunda seguinte foi aceita!

O país também entrará com um pedido ante a SEC (Comissão de Valores estadunidense) para que a companhia justifique as supostas perdas de 22 milhões de dólares alegadas na quebra e, se for comprovada atividade terrorista, será pedido um embargo dos ativos dos fundos abutres no exterior.

No meio do fogo cruzado, as notícias da economia não chegam a ser muito alentadoras: ontem a bolsa de valores mergulhou 1,8%, o dólar blue (cotação paralela) atingiu um novo recorde em AR$ 13,20 e os dados da inflação não oficial indicam uma subida de 40% desde o início do ano.

De quem será a culpa?

Se aparecerem mais pistas semana que vem, eu conto!

Briefing: Encontros e Desencontros

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Aos trinta e tantos anos, mãe de quatro filhos, Estela se dividia entre a escola primária em que lecionava e as atividades domésticas. Vivia, sim, em um ambiente político, já que o marido e os filhos militavam em diferentes movimentos sociais; mas, ela mesma, pouco se envolvia nesses assuntos.

Pouco mais de um ano depois de que se instaurou o chamado Processo de Reorganização Nacional, na verdade uma brutal ditadura militar com substancial braço civil, Estela sofreu o primeiro baque: seu marido Guido foi sequestrado pelas forças armadas, torturado e só liberado depois do pagamento de um resgate de 30 mil dólares. Para pagá-lo, Estela precisou vender sua casa no centro de La Plata e se mudou para uma mais humilde na periferia.

Mas esse foi apenas um susto perto do que lhe aconteceria apenas alguns meses depois, já que sua filha de 18 anos, grávida de três meses, seria também sequestrada e nunca mais apareceria.

Durante o regime cívico-militar argentino, que durou pouco mais de sete anos, a brutalidade das torturas tinha um componente ainda mais aterrorizante: o chamados centros de detenção clandestinos. Nos porões de casas e galpões abandonados, presos políticos eram confinados e torturados privando seus familiares de qualquer informação sobre eles. O filme “Crônica de Uma Fuga” é um retrato construído a partir de relatos dessa barbárie.

Foi a um lugar desses, conhecido como La Cacha, que Laura foi levada. Grávida do também militante e músico Walmir Oscar Montoya ou simplesmente “El Puño”, com quem teve um romance na clandestinidade, ela deu à luz no dia 26 de junho, cinco horas depois do parto foi separada do seu bebê e foi assassinada um mês depois.

Mas a história não terminou aí, porque Estela iniciou uma incansável busca pela filha e pelo neto junto às outras centenas de avós que se reuniam na Plaza de Mayo para exigir explicações aos militares. Estava fundado um dos movimentos de luta pelos direitos humanos mais reconhecidos no mundo e que, até segunda-feira, havia encontrado 113 netos.

A jornalista brasileira Gisele Teixeira contou em sua coluna no Blog do Noblat em 2012 uma faceta desconhecida dessas obstinadas senhoras. Com a ajuda de centros de pesquisa científicas de todo o mundo, por conta delas, foi criado o “índice de abuelidad”, um teste que permite chegar a um 99,9% de probabilidade com testes de sangue, antes mesmo do furor dos exames de DNA. “Exigiram a exumação de cadáveres, ajudaram a criar a Equipe Argentina de Antropologia Forense, fundaram o Banco Nacional de Dados Genéticos e, principalmente, ajudaram na descoberta do DNA mitocondrial, tema sobre o qual podem dar até aulas!”, conta Gisele.

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Juan Cadandié, encontrado aos 25 anos

Juan Cabandié recuperou sua identidade em 2004 aos 25 anos. Depois de desconfiar sobre sua origem, pressionou a mãe adotiva, que afinal reconheceu que era filho de desaparecidos. A Associação das Avós da Plaza de Mayo o ajudou a encontrar sua verdadeira família e ele se também se converteu em ativista dos direitos humanos. Atualmente é Deputado Nacional pela Cidade de Buenos Aires.

Na terça-feira foi a vez do neto de Estela, músico como o pai biológico. Também desconfiado de suas origens, o rapaz de 36 anos procurou a associação e os testes confirmaram que se trata do tão buscado Guido Carlotto.

O caso arrebatou o país de uma forma impressionante – absolutamente tudo parecia menor diante da alegria dessa mulher “sequestrada” pela política há mais de três décadas. Os numerosos programas de debate na TV argentina, seja dos canais públicos, seja dos oposicionistas, se esqueceram do caso dos fundos abutres e do default, do indiciamento do Vice-Presidente, da greve dos professores em quatro províncias e na capital, da greve dos bancos, do metrô que vai aumentar para 6 pesos em dezembro, das eleições do ano que vem, etc. Todos os temas ficaram em suspenso, pelo menos por alguns dias.

Uma das primeiras pessoas que ficaram sabendo da notícia, a Presidenta Cristina Kirchner afirmou que “A Argentina é um país um pouco mais justo que ontem” e, diferente de qualquer outra frase que tenha dito nos últimos dez anos, não houve uma réplica irônica nem na boca do povo nas palavras dos cronistas de oposição.

Uma das pouquíssimas unanimidades, talvez a única, do polêmico governo de CFK é a política de direitos humanos. Ainda no governo do marido, a Lei do Ponto Final e da Obediência Devida (uma contraparte da Lei da Anistia brasileira) foi anulada, tornando possível que agentes acusados de terrorismo de Estado fossem processados. Em paralelo, foram promovidas inovadoras políticas, como a criminalização do femicídio e o matrimônio igualitário (o casamento gay).

Sobre o reencontro de Estela Carlotto com o neto, o prêmio Nobel da Paz Pérez Esquivel falou de “reparação”, o Papa se disse “emocionado”; e dos dois dos maiores jogadores da história da Argentina, Messi e Maradona, resumiram o clima da semana:

“Não só o futebol pode nos unir!”

Mas deve ser mesmo só o futebol e o trauma da ditadura que seja capaz de unir esse país, já que em todos os outros temas há uma visão pró-governo e uma visão contra-governo.

Na primeira sessão do Senado presidida pelo Vice Amado Boudou, a oposição simplesmente não foi em protesto. Boudou está indiciado pela justiça pelo affair Ciccone. “Ele nos dá vergonha”, alegou o senador do radicalismo Gerardo Morales, enquanto Luis Juez da Frente Cívica descrevia o incômodo com a mera presença dele:

“Esse incômodo que grande parte da oposição manifesta não tem precedentes na história do Senado!”

O Chefe de Gabinete Jorge Capitanich questionou a atitude da oposição, afirmando que esta submete o governo a insultos, desqualificações permanentes e também a um vazio na comunicação. Quanto ao sumiço, foi taxativo:

“No mês passado também se retiraram com a desculpa de que se estava mudando o regulamento. Hoje, fazem o mesmo. O que eles fazem é utilizar essa desculpa para não debater, com uma perspectiva absolutamente autoritária ou porque não têm argumentos.”

Ele lembrou ainda que Boudou tem sofrido uma “campanha de escárnio” por parte dos meios de comunicação. Verdades ou não, dia sim dia também aparece alguma denúncia contra o Vice Presidente nos jornais e noticiários do país.

O assunto dos fundos abutres também é um desencontro danado. Enquanto o governo joga o “caso” no ventilador, acusando a justiça americana de atuar com parcialidade (em favor dos especuladores) e levando os Estados Unidos à Corte Internacional de Justiça na Haia, meios opositores acusam o governo de ser irresponsável.

Um dos principais colunistas do Clarín, Eduardo Van Der Kooy, escreveu que a Argentina está refém de Cristina e Kicillof:

“A manobra [do governo] implica potencializar um conflito inexplicável e irracional. (…) Cristina e Kicillof estão eufóricos com a luta épica contra os abutres. Entusiasmaram-se com o algumas pesquisas de opinião que haviam melhorado modicamente a imagem presidencial. Se verá por quanto tempo. Apostam na solidariedade verbal que colheram na região e no mundo para continuar com a aventura. [Entretanto], em vários aspectos, essa aventura tem tudo para se assemelhar com aquela que transformou a ditadura na tragédia das Malvinas. A Presidenta disse com desprendimento que jamais pensou em se parecer com o [prócer da independência] José de San Martín. Deveria tomar cuidado para não ficar na história como [o ditador] Leopoldo Galtieri.”

Luis Alberto Romero do La Nación também teceu a relação entre esse conflito e aquela guerra de 1982:

“(…) o governo está colhendo alguns sucesso notáveis. Talvez efêmeros, como os de Galtieri [durante a Guerra das Malvinas] (…) el pegou o assunto dos holdouts como uma ocasião para agitar o nacionalismo e somar um novo inimigo a seu amplo repertório de poderes concentrados que conspiram contra a nossa grandeza”.

A seara política, entretanto, segue bastante discreta, com excessão do ex-Presidente do Banco Central Alfonso Prat-Gay, membro da Frente Ampla UNEN (uma coalizão de partidos à esquerda que inclui o Radicalismo). Mais comedido, lembrou que sempre foi crítico à negociação da dívida de Lavagna e Néstor Kirchner e culpou a Lei Cerrojo pelo imbroglio. A lei estabelece que aqueles que não ingressaram na reestruturação da dívida em 2005 não poderiam fazê-lo nunca mais.

“Com a lei, a Argentina disse ‘entrem agora porque nunca mais vamos pagá-los’. Essa foi uma ideia de Lavagna e foi o que nos levou a essa decisão [do juiz estadunidense Thomas Griesa]”

Prat-Gay, entretanto, concorda com a visão governamental de que o juiz agiu com arbitrariedade.

Até semana que vem!

As Pechinchas de Buenos Aires

El Once

El Once

Se você achava que fazer compras em Buenos Aires era barato, é porque você ainda não conheceu alguns segredos muito bem guardados que só os locais conhecem. Por isso, chamei um autêntico porteño, Sebastián Espinoza, para soltar o verbo e contar um pouco onde encontrar essas jóias escondidas sem muito esforço. Esqueça a Calle Florida ou Mercado de Antiguidades de San Telmo – é só abrir um pouco a cabeça que tem um mundo baratíssimo ao seu alcance na cidade.

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Briefing: A quem incomoda o governo Nac & Pop?

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Nac & Pop é uma simpática rede de lanchonetes da capital porteña que serve, madrugada a dentro, uma versão a la Argentina do famoso podrão: ricas bondiolas, choripanes hamburguesas con huevo, panceta y queso a preços bastante acessíveis. Para os que curtem uma bebedeira e, por acaso, se sentirem desalentados com o fato de que, por lei, não se vende álcool nos quiosques da cidade depois das cinco da manhã, o Nac & Pop é um refúgio seguro, que conta ainda com uma decoração bastante despojada com caricaturas de ícones argentinos (de Manuel Belgrano ao Che, de Carlos Gardel a Gustavo Ceratti) e com uma trilha sonora estridente só de música nacional.

Esqueça o tango! A Argentina que toca no Nac & Pop nada tem a ver com refinado imaginário que remontam os acordes de Piazzolla. É muito mais provável que você se encontre com as cumbias de Gladys La Bomba Tucumana ou com algum hit do prolífico rock local.

Sabe aquele sujeito que fazia barulho e zoeira na porta da sua casa durante a Copa? Então, ele provavelmente frequenta o Nac & Pop, só toma vinho (em caixa tetrapak) se puder misturá-lo com Fanta ou Coca-Cola e não se beneficiou da afamada prodigiosa educação pública da Argentina. Mas muito diferente do nosso povão, ou pelo menos da maioria dele, é ativo politicamente. Embora engrosse os protestos possivelmente com o uma garrafinha de Fernet à tira colo, entoa palavras de ordem e cantorias que evocam Perón e Evita com intimidade (Brasil, decíme que se siente é apenas uma versão modificada de uma melodia multiuso que é hit nas marchas por aqui). Ele milita em movimentos sociais como a Cámpora, Quebracho, Barrios de Pie e Movimiento Evita ou centrais sindicais, como a CGT – se bobear em mais de um deles.

Esse sujeito (pejorativamente chamado pelas elites argentinas de negro de mierdapibe chorrocroto e por aí vai), categoricamente não quer que a Argentina pague nem um centavo aos fundos abutres.

Eu já fui em diversas manifestações em que essa mensagem foi passada muito claramente. Ontem, nos jardins da Casa Rosada, enquanto se pronunciava em rede nacional a Presidenta Cristina Kirchner, eles estavam lá reforçando esse desejo aos gritos de:

¡Cristina! ¡Cristina! ¡Cristina corazón! ¡Acá tenés los pibes para la liberación!

Muito se fala, sobretudo agora, da “irresponsabilidade argentina” nesse e em diversos casos do relacionamento desse país com o mundo. O tema do momento é, naturalmente, como um déjà vu, a dívida externa. O periódico britânico The Economist destacou o melodrama como um dos ingredientes familiares da eterna batalha do país com os hold-outs; o próprio juiz Thomas Griesa lamentou as expressões “altamente desencaminhadas” do governo, pedindo que a Argentina “tome passos para deixar de difundir informações enganosas”.

Já os meios locais não foram menos mordazes. Eduardo Van De Kooy do Clarín afirmou que [no ato que mencionei anteriormente, ontem na Casa Rosada] Cristina “armou uma coreografia militante para comunicar que a vida continua”; enquanto Carlos Pagni de La Nación alertou para o “alto custo de um capricho ideológico”.

De qualquer maneira, esse é apenas mais um capítulo de uma história diversas vezes marcada pelo perfil voluntarioso desse país. Na Segunda Guerra Mundial, se recusou a abandonar a neutralidade, provocando a ira dos Estados Unidos, que respondeu, segundo o historiador Carlos Escudé, com um informal embargo político e econômico por mais de uma década.

Como base nessa hipótese, bastante documentada e fundamentada, Escudé montou a Teoria do Realismo Periférico que afirma que:

“o dano que uma superpotência hegemônica pode causar a um Estado periférico com que está antagonizado se agrava se, por questões econômicas e geoestratégicas, esse país periférico não for relevante aos interesses vitais dessa superpotência”

Com grande ressonância no Giro Realista da política exterior argentina nos anos 1990, o conselho básico de Escudé era e é de que a Argentina devia, trocando em miúdos, baixar a bola e seguir a cartilha (naquela época isso significava “Consenso de Washington”). Dito e feito.

O problema é que o negro de mierda de que eu tanto falei no início desse briefing não está de acordo com essa proposta e tem no trauma da crise de 2001 um subsídio bastante recente para rejeitá-la e chamar de vende-pátria quem a defende. Ele não dá a mínima para a opinião de The Economist e se sente até orgulhoso quando o FMI critica a política econômica do país, pois se lembra que a primeira dizia que “Carlos Menem foi o melhor presidente da história da Argentina” e que o segundo celebrou o Plano de Convertibilidade (quando um peso valia um dólar) por suas “grandes conquistas”.

E mais: ele vê na figura de Nestor Kirchner um herói nacional, não só porque ele instituiu programas de emergência social numa época terrível, mas porque ele enfrentou os mercados internacionais para aliviar os sacrifícios do povo.

É para essa mistura de orgulho e autovitimização, que tanto se identifica com o ethos argentino, que a Presidenta dirigiu sua mensagem ontem.

“Temos de estar muito unidos, porque vão tentar nos dividir! (…) Nós temos mil coisas para discutir e debater, mas para defender o futuro contra os que querem nos fazer assinar qualquer [acordo], não contem comigo. (…) Sabe qual foi o grande valor dele [Néstor]? Mudar o que nos diziam ser impossível. Diziam que se não fazíamos como nos dizia o FMI, o mundo cairia. Ele disse que não”.

Esse discurso, diversas vezes entrecortado por gritos de “¡Patria sí! ¡Colonia no!”, demonstra a sintonia do governo e de seu projeto oportunamente chamado de “Nacional e Popular” (carinhosamente “Nac & Pop”) com a vontade dessa militância barulhenta e mais coesa do que qualquer outra corrente política argentina.

A desarticulação da oposição aqui é tamanha, que nenhum dos presidenciáveis para as eleições do ano que vem deu as caras para dizer o que faria nessa situação. Nem o grupo mais conservador, o PRO de Maurício Macri, usou os grandes meios de comunicação para dizer que o melhor é pagar os fundos abutres e enfrentar as consequências. Suas críticas são genéricas e apresentam poucas propostas – um pouco como acontece no Brasil – e o motivo é só um: se tomar essa posição, não serão eleitos.

Em que pesem todos os argumentos em contrário, o que se espera da democracia argentina diante desse cenário?

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Mas a semana na Argentina não foi só de fundos abutres.

Aos 82 anos e há 34 anos no comando da Associação de Futebol Argentina (a CBF dos hermanos) morreu, deixando um legado de uma Copa do Mundo, diversos Mundiais Sub-20 e duas medalhas olímpicas.

Foi alvo de diversas críticas por sua convivência com a Ditadura Militar, desmesurado amor ao poder e fidelidade aos grandes cartolas da FIFA, que atualmente não gozam de muita unanimidade, como Blatter e Havelange.

Embora fosse desafeto do luminar quasi-divino Diego Maradona, sua despedida contou com o carinho de Messi (que interrompeu suas férias para ir ao funeral), o goleiro-herói Romero e outras figuras importantes do futebol argentino.