Briefing: A quem incomoda o governo Nac & Pop?

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Nac & Pop é uma simpática rede de lanchonetes da capital porteña que serve, madrugada a dentro, uma versão a la Argentina do famoso podrão: ricas bondiolas, choripanes hamburguesas con huevo, panceta y queso a preços bastante acessíveis. Para os que curtem uma bebedeira e, por acaso, se sentirem desalentados com o fato de que, por lei, não se vende álcool nos quiosques da cidade depois das cinco da manhã, o Nac & Pop é um refúgio seguro, que conta ainda com uma decoração bastante despojada com caricaturas de ícones argentinos (de Manuel Belgrano ao Che, de Carlos Gardel a Gustavo Ceratti) e com uma trilha sonora estridente só de música nacional.

Esqueça o tango! A Argentina que toca no Nac & Pop nada tem a ver com refinado imaginário que remontam os acordes de Piazzolla. É muito mais provável que você se encontre com as cumbias de Gladys La Bomba Tucumana ou com algum hit do prolífico rock local.

Sabe aquele sujeito que fazia barulho e zoeira na porta da sua casa durante a Copa? Então, ele provavelmente frequenta o Nac & Pop, só toma vinho (em caixa tetrapak) se puder misturá-lo com Fanta ou Coca-Cola e não se beneficiou da afamada prodigiosa educação pública da Argentina. Mas muito diferente do nosso povão, ou pelo menos da maioria dele, é ativo politicamente. Embora engrosse os protestos possivelmente com o uma garrafinha de Fernet à tira colo, entoa palavras de ordem e cantorias que evocam Perón e Evita com intimidade (Brasil, decíme que se siente é apenas uma versão modificada de uma melodia multiuso que é hit nas marchas por aqui). Ele milita em movimentos sociais como a Cámpora, Quebracho, Barrios de Pie e Movimiento Evita ou centrais sindicais, como a CGT – se bobear em mais de um deles.

Esse sujeito (pejorativamente chamado pelas elites argentinas de negro de mierdapibe chorrocroto e por aí vai), categoricamente não quer que a Argentina pague nem um centavo aos fundos abutres.

Eu já fui em diversas manifestações em que essa mensagem foi passada muito claramente. Ontem, nos jardins da Casa Rosada, enquanto se pronunciava em rede nacional a Presidenta Cristina Kirchner, eles estavam lá reforçando esse desejo aos gritos de:

¡Cristina! ¡Cristina! ¡Cristina corazón! ¡Acá tenés los pibes para la liberación!

Muito se fala, sobretudo agora, da “irresponsabilidade argentina” nesse e em diversos casos do relacionamento desse país com o mundo. O tema do momento é, naturalmente, como um déjà vu, a dívida externa. O periódico britânico The Economist destacou o melodrama como um dos ingredientes familiares da eterna batalha do país com os hold-outs; o próprio juiz Thomas Griesa lamentou as expressões “altamente desencaminhadas” do governo, pedindo que a Argentina “tome passos para deixar de difundir informações enganosas”.

Já os meios locais não foram menos mordazes. Eduardo Van De Kooy do Clarín afirmou que [no ato que mencionei anteriormente, ontem na Casa Rosada] Cristina “armou uma coreografia militante para comunicar que a vida continua”; enquanto Carlos Pagni de La Nación alertou para o “alto custo de um capricho ideológico”.

De qualquer maneira, esse é apenas mais um capítulo de uma história diversas vezes marcada pelo perfil voluntarioso desse país. Na Segunda Guerra Mundial, se recusou a abandonar a neutralidade, provocando a ira dos Estados Unidos, que respondeu, segundo o historiador Carlos Escudé, com um informal embargo político e econômico por mais de uma década.

Como base nessa hipótese, bastante documentada e fundamentada, Escudé montou a Teoria do Realismo Periférico que afirma que:

“o dano que uma superpotência hegemônica pode causar a um Estado periférico com que está antagonizado se agrava se, por questões econômicas e geoestratégicas, esse país periférico não for relevante aos interesses vitais dessa superpotência”

Com grande ressonância no Giro Realista da política exterior argentina nos anos 1990, o conselho básico de Escudé era e é de que a Argentina devia, trocando em miúdos, baixar a bola e seguir a cartilha (naquela época isso significava “Consenso de Washington”). Dito e feito.

O problema é que o negro de mierda de que eu tanto falei no início desse briefing não está de acordo com essa proposta e tem no trauma da crise de 2001 um subsídio bastante recente para rejeitá-la e chamar de vende-pátria quem a defende. Ele não dá a mínima para a opinião de The Economist e se sente até orgulhoso quando o FMI critica a política econômica do país, pois se lembra que a primeira dizia que “Carlos Menem foi o melhor presidente da história da Argentina” e que o segundo celebrou o Plano de Convertibilidade (quando um peso valia um dólar) por suas “grandes conquistas”.

E mais: ele vê na figura de Nestor Kirchner um herói nacional, não só porque ele instituiu programas de emergência social numa época terrível, mas porque ele enfrentou os mercados internacionais para aliviar os sacrifícios do povo.

É para essa mistura de orgulho e autovitimização, que tanto se identifica com o ethos argentino, que a Presidenta dirigiu sua mensagem ontem.

“Temos de estar muito unidos, porque vão tentar nos dividir! (…) Nós temos mil coisas para discutir e debater, mas para defender o futuro contra os que querem nos fazer assinar qualquer [acordo], não contem comigo. (…) Sabe qual foi o grande valor dele [Néstor]? Mudar o que nos diziam ser impossível. Diziam que se não fazíamos como nos dizia o FMI, o mundo cairia. Ele disse que não”.

Esse discurso, diversas vezes entrecortado por gritos de “¡Patria sí! ¡Colonia no!”, demonstra a sintonia do governo e de seu projeto oportunamente chamado de “Nacional e Popular” (carinhosamente “Nac & Pop”) com a vontade dessa militância barulhenta e mais coesa do que qualquer outra corrente política argentina.

A desarticulação da oposição aqui é tamanha, que nenhum dos presidenciáveis para as eleições do ano que vem deu as caras para dizer o que faria nessa situação. Nem o grupo mais conservador, o PRO de Maurício Macri, usou os grandes meios de comunicação para dizer que o melhor é pagar os fundos abutres e enfrentar as consequências. Suas críticas são genéricas e apresentam poucas propostas – um pouco como acontece no Brasil – e o motivo é só um: se tomar essa posição, não serão eleitos.

Em que pesem todos os argumentos em contrário, o que se espera da democracia argentina diante desse cenário?

***

Mas a semana na Argentina não foi só de fundos abutres.

Aos 82 anos e há 34 anos no comando da Associação de Futebol Argentina (a CBF dos hermanos) morreu, deixando um legado de uma Copa do Mundo, diversos Mundiais Sub-20 e duas medalhas olímpicas.

Foi alvo de diversas críticas por sua convivência com a Ditadura Militar, desmesurado amor ao poder e fidelidade aos grandes cartolas da FIFA, que atualmente não gozam de muita unanimidade, como Blatter e Havelange.

Embora fosse desafeto do luminar quasi-divino Diego Maradona, sua despedida contou com o carinho de Messi (que interrompeu suas férias para ir ao funeral), o goleiro-herói Romero e outras figuras importantes do futebol argentino.

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