Briefing: Encontros e Desencontros

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Aos trinta e tantos anos, mãe de quatro filhos, Estela se dividia entre a escola primária em que lecionava e as atividades domésticas. Vivia, sim, em um ambiente político, já que o marido e os filhos militavam em diferentes movimentos sociais; mas, ela mesma, pouco se envolvia nesses assuntos.

Pouco mais de um ano depois de que se instaurou o chamado Processo de Reorganização Nacional, na verdade uma brutal ditadura militar com substancial braço civil, Estela sofreu o primeiro baque: seu marido Guido foi sequestrado pelas forças armadas, torturado e só liberado depois do pagamento de um resgate de 30 mil dólares. Para pagá-lo, Estela precisou vender sua casa no centro de La Plata e se mudou para uma mais humilde na periferia.

Mas esse foi apenas um susto perto do que lhe aconteceria apenas alguns meses depois, já que sua filha de 18 anos, grávida de três meses, seria também sequestrada e nunca mais apareceria.

Durante o regime cívico-militar argentino, que durou pouco mais de sete anos, a brutalidade das torturas tinha um componente ainda mais aterrorizante: o chamados centros de detenção clandestinos. Nos porões de casas e galpões abandonados, presos políticos eram confinados e torturados privando seus familiares de qualquer informação sobre eles. O filme “Crônica de Uma Fuga” é um retrato construído a partir de relatos dessa barbárie.

Foi a um lugar desses, conhecido como La Cacha, que Laura foi levada. Grávida do também militante e músico Walmir Oscar Montoya ou simplesmente “El Puño”, com quem teve um romance na clandestinidade, ela deu à luz no dia 26 de junho, cinco horas depois do parto foi separada do seu bebê e foi assassinada um mês depois.

Mas a história não terminou aí, porque Estela iniciou uma incansável busca pela filha e pelo neto junto às outras centenas de avós que se reuniam na Plaza de Mayo para exigir explicações aos militares. Estava fundado um dos movimentos de luta pelos direitos humanos mais reconhecidos no mundo e que, até segunda-feira, havia encontrado 113 netos.

A jornalista brasileira Gisele Teixeira contou em sua coluna no Blog do Noblat em 2012 uma faceta desconhecida dessas obstinadas senhoras. Com a ajuda de centros de pesquisa científicas de todo o mundo, por conta delas, foi criado o “índice de abuelidad”, um teste que permite chegar a um 99,9% de probabilidade com testes de sangue, antes mesmo do furor dos exames de DNA. “Exigiram a exumação de cadáveres, ajudaram a criar a Equipe Argentina de Antropologia Forense, fundaram o Banco Nacional de Dados Genéticos e, principalmente, ajudaram na descoberta do DNA mitocondrial, tema sobre o qual podem dar até aulas!”, conta Gisele.

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Juan Cadandié, encontrado aos 25 anos

Juan Cabandié recuperou sua identidade em 2004 aos 25 anos. Depois de desconfiar sobre sua origem, pressionou a mãe adotiva, que afinal reconheceu que era filho de desaparecidos. A Associação das Avós da Plaza de Mayo o ajudou a encontrar sua verdadeira família e ele se também se converteu em ativista dos direitos humanos. Atualmente é Deputado Nacional pela Cidade de Buenos Aires.

Na terça-feira foi a vez do neto de Estela, músico como o pai biológico. Também desconfiado de suas origens, o rapaz de 36 anos procurou a associação e os testes confirmaram que se trata do tão buscado Guido Carlotto.

O caso arrebatou o país de uma forma impressionante – absolutamente tudo parecia menor diante da alegria dessa mulher “sequestrada” pela política há mais de três décadas. Os numerosos programas de debate na TV argentina, seja dos canais públicos, seja dos oposicionistas, se esqueceram do caso dos fundos abutres e do default, do indiciamento do Vice-Presidente, da greve dos professores em quatro províncias e na capital, da greve dos bancos, do metrô que vai aumentar para 6 pesos em dezembro, das eleições do ano que vem, etc. Todos os temas ficaram em suspenso, pelo menos por alguns dias.

Uma das primeiras pessoas que ficaram sabendo da notícia, a Presidenta Cristina Kirchner afirmou que “A Argentina é um país um pouco mais justo que ontem” e, diferente de qualquer outra frase que tenha dito nos últimos dez anos, não houve uma réplica irônica nem na boca do povo nas palavras dos cronistas de oposição.

Uma das pouquíssimas unanimidades, talvez a única, do polêmico governo de CFK é a política de direitos humanos. Ainda no governo do marido, a Lei do Ponto Final e da Obediência Devida (uma contraparte da Lei da Anistia brasileira) foi anulada, tornando possível que agentes acusados de terrorismo de Estado fossem processados. Em paralelo, foram promovidas inovadoras políticas, como a criminalização do femicídio e o matrimônio igualitário (o casamento gay).

Sobre o reencontro de Estela Carlotto com o neto, o prêmio Nobel da Paz Pérez Esquivel falou de “reparação”, o Papa se disse “emocionado”; e dos dois dos maiores jogadores da história da Argentina, Messi e Maradona, resumiram o clima da semana:

“Não só o futebol pode nos unir!”

Mas deve ser mesmo só o futebol e o trauma da ditadura que seja capaz de unir esse país, já que em todos os outros temas há uma visão pró-governo e uma visão contra-governo.

Na primeira sessão do Senado presidida pelo Vice Amado Boudou, a oposição simplesmente não foi em protesto. Boudou está indiciado pela justiça pelo affair Ciccone. “Ele nos dá vergonha”, alegou o senador do radicalismo Gerardo Morales, enquanto Luis Juez da Frente Cívica descrevia o incômodo com a mera presença dele:

“Esse incômodo que grande parte da oposição manifesta não tem precedentes na história do Senado!”

O Chefe de Gabinete Jorge Capitanich questionou a atitude da oposição, afirmando que esta submete o governo a insultos, desqualificações permanentes e também a um vazio na comunicação. Quanto ao sumiço, foi taxativo:

“No mês passado também se retiraram com a desculpa de que se estava mudando o regulamento. Hoje, fazem o mesmo. O que eles fazem é utilizar essa desculpa para não debater, com uma perspectiva absolutamente autoritária ou porque não têm argumentos.”

Ele lembrou ainda que Boudou tem sofrido uma “campanha de escárnio” por parte dos meios de comunicação. Verdades ou não, dia sim dia também aparece alguma denúncia contra o Vice Presidente nos jornais e noticiários do país.

O assunto dos fundos abutres também é um desencontro danado. Enquanto o governo joga o “caso” no ventilador, acusando a justiça americana de atuar com parcialidade (em favor dos especuladores) e levando os Estados Unidos à Corte Internacional de Justiça na Haia, meios opositores acusam o governo de ser irresponsável.

Um dos principais colunistas do Clarín, Eduardo Van Der Kooy, escreveu que a Argentina está refém de Cristina e Kicillof:

“A manobra [do governo] implica potencializar um conflito inexplicável e irracional. (…) Cristina e Kicillof estão eufóricos com a luta épica contra os abutres. Entusiasmaram-se com o algumas pesquisas de opinião que haviam melhorado modicamente a imagem presidencial. Se verá por quanto tempo. Apostam na solidariedade verbal que colheram na região e no mundo para continuar com a aventura. [Entretanto], em vários aspectos, essa aventura tem tudo para se assemelhar com aquela que transformou a ditadura na tragédia das Malvinas. A Presidenta disse com desprendimento que jamais pensou em se parecer com o [prócer da independência] José de San Martín. Deveria tomar cuidado para não ficar na história como [o ditador] Leopoldo Galtieri.”

Luis Alberto Romero do La Nación também teceu a relação entre esse conflito e aquela guerra de 1982:

“(…) o governo está colhendo alguns sucesso notáveis. Talvez efêmeros, como os de Galtieri [durante a Guerra das Malvinas] (…) el pegou o assunto dos holdouts como uma ocasião para agitar o nacionalismo e somar um novo inimigo a seu amplo repertório de poderes concentrados que conspiram contra a nossa grandeza”.

A seara política, entretanto, segue bastante discreta, com excessão do ex-Presidente do Banco Central Alfonso Prat-Gay, membro da Frente Ampla UNEN (uma coalizão de partidos à esquerda que inclui o Radicalismo). Mais comedido, lembrou que sempre foi crítico à negociação da dívida de Lavagna e Néstor Kirchner e culpou a Lei Cerrojo pelo imbroglio. A lei estabelece que aqueles que não ingressaram na reestruturação da dívida em 2005 não poderiam fazê-lo nunca mais.

“Com a lei, a Argentina disse ‘entrem agora porque nunca mais vamos pagá-los’. Essa foi uma ideia de Lavagna e foi o que nos levou a essa decisão [do juiz estadunidense Thomas Griesa]”

Prat-Gay, entretanto, concorda com a visão governamental de que o juiz agiu com arbitrariedade.

Até semana que vem!

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