Briefing: As Invasões Bárbaras

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Todas as descrições clássicas do populismo mencionam a criação de um inimigo externo. O historiador mexicano Enrique Krauze, por exemplo, diz que:

“Imune à crítica e alérgico à autocrítica, precisando apontar bodes expiatórios para os fracassos, o regime populista (mais nacionalista que patriótico) precisa desviar a atenção interna para o adversário de fora”

A ele fazem coro aqui na Argentina os principais críticos do governo de Cristina Kirchner que, nas palavras de Fernando Laborda do diário La Nación, a acusam de “persuadir a população de que, por trás das penúrias socioeconômicas do presente se esconde um poder empresarial que aposta no desemprego” e de “apresentar qualquer desarranjo da economia como consequência da ação dos fundos abutres e de uma confabulação internacional contra o país”.

Eu não me atreveria a chamar CFK de populista nem mesmo de incorrer no pantanoso debate sobre o real significado dessa adjetivação, mas a semana pelo menos deu um gás a essas acusações.

Terça-feira no Luna Park, mais prestigiosa e tradicional casa de shows da capital porteña, agremiações kirchneristas protagonizaram um ato contra os fundos abutres na comemoração pela resistência de Buenos Aires frente os invasores ingleses em 1807. Os oradores destacaram o heroísmo dos argentinos que “das sacadas de San Telmo jogavam baldes de óleo quente nas tropas imperialistas e venceram, pese à rendição de alguns cipayos” (jargão sindical local equivalente a “pelegos”). O recado estava dado: agora era a vez da militância, não só contra os abutres de fora, mas também com a mídia abutre, as empresas abutres, os jornalistas abutres. O inimigo tem variadas alcunhas, mas apenas um sobrenome.

Quarta-feira, a AFIP, autoridade fiscal da Argentina, realizou uma operação de busca na sede local do banco britânico HSBC por denúncias de lavagem de dinheiro e evasão de divisas que chegam a centenas de milhares de dólares. Não encontraram nada. Funcionários do banco, apesar de afirmarem que estão ali para esclarecer tudo o que a lei argentina pedir, alegaram que justo os documentos relacionados ao caso foram destruídos num fatídico incêndio em fevereiro deste ano.

É um banco abutre ou apenas mais um inimigo imaginário do governo?

O deputado Mário Cafioro, que não é governista, me disse que aposta na primeira hipótese:

Essa instituição é investigada por casos de lavagem no México, na Colômbia, nos Estados Unidos e na Europa, que favorecem grupos terroristas e narcotraficantes. Não quero nem pensar o que podem chegar a fazer na Argentina, onde, no afã de conseguir dólares de qualquer origem, o governo simplesmente deixou de fazer qualquer controle.

Mais à esquerda, Alejandro Bodart lembrou que o banco, “formado com capitais do comércio de ópio na China do século XIX”, esteve enrolado em todo tipo de negócio obscuro no país, desde o Corralito até o Megacanje.

Ontem foi a vez da Donnelley, uma gráfica estadunidense que operava no país há 22 anos e que pediu falência no começo da semana. Em aparição espetacular na Casa Rosada com participação da militância, Cristina anunciou que entrará na justiça contra a companhia com base na chamada Lei Antiterrorismo por “alteração da ordem econômica e financeira”. De acordo com a Presidenta, a quebra é falsa e serve para criar o temor na sociedade e minar as expectativas.

Adivinha quem estaria por trás da empresa? O fundo abutre NML de Paul Singer, a quem a Presidenta acusou de “tecer um entramado mafioso para prejudicar o país e botá-lo de joelhos”.

Os fundos abutres não querem acertar as coisas. Não é somente avareza e cobiça, mas também uma decisão política e geopolítica de querer voltar a endividar a Argentina e jogar águas em qualquer modo de restruturação da dívida soberana.

Ela criticou também os “abutres internos, que defendem essa gente e defendem atitudes como essa, ameaçadoras, que ferem a soberania e a dignidade nacional”.

Verdade ou delírio?

Cristina disparou contra todo mundo num caso que chamou de “quebra express” de uma empresa que tinha uma situação patrimonial boa:

A falência foi pedida na sexta-feira, na segunda seguinte foi aceita!

O país também entrará com um pedido ante a SEC (Comissão de Valores estadunidense) para que a companhia justifique as supostas perdas de 22 milhões de dólares alegadas na quebra e, se for comprovada atividade terrorista, será pedido um embargo dos ativos dos fundos abutres no exterior.

No meio do fogo cruzado, as notícias da economia não chegam a ser muito alentadoras: ontem a bolsa de valores mergulhou 1,8%, o dólar blue (cotação paralela) atingiu um novo recorde em AR$ 13,20 e os dados da inflação não oficial indicam uma subida de 40% desde o início do ano.

De quem será a culpa?

Se aparecerem mais pistas semana que vem, eu conto!

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