Briefing: Temperatura Máxima

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

Desde a semana passada, as ruas de Buenos Aires estão mais cheias. É gente de braços e pernas de fora, estendendo cangas nos parques e tomando um bronze – enquanto toma unos ricos mates, ¡por supuesto! Com temperaturas surpreendentemente batendo os 27 graus, esse não é o inverno a que os porteños estão acostumados e, muito menos, aquele que os brasileiros procuram para exibir o casacão comprado na Europa.

Se bem me lembro, setembro passado estávamos todos acocorados debaixo do cobertor, aquecedor à mil, esperando una nesga de sol para botar o nariz pra fora de casa. Aqui, embora as temperaturas nunca cheguem abaixo de zero, a umidade relativa do ar tremenda faz quaisquer 5 graus penetrarem nos ossos e cortar a cara quando começa a ventania.

Mas esse ano, uma massa de ar quente parece estar estacionada sobre Buenos Aires e não está jogando às alturas só a temperatura, não. A política e a economia também parecem estar afetadas.

Na disputa pelo ponto mais alto do termômetro está indiscutivelmente Axel Kicillof. O ministro quarentão tem recibidoCaptura de Tela 2014-08-21 às 23.21.58 diversos apelidinhos nos últimos tempos, o que, para o mal ou para o bem, diz um pouco de sua popularidade. #KiciLove para as tietes, “chiquitito, pero cumplidor” nas palavras (com inesperado duplo sentido) da Presidenta Cristina, “galã do calote” como num perfil da revista Exame, ou até “o político mais perigoso da América Latina” de acordo com um periódico de Cingapura, Axel acordou com a macaca na última segunda e começou a colocar as cartas da Argentina na mesa:

“[Se os buitres quiserem receber], podem vir e trocar os títulos aqui. Se fizerem, vão ter um lucro de 300%. Isso é pouco para o senhor Singer? Sim, porque ele é um abutre, mas se ele quiser, vamos pagar”

Kicillof se referia à Paul Singer, dono do fundo NML e uma das vozes mais ativas contra a restruturação da dívida externa argentina, mas o recado foi geral: o governo mandou um projeto de lei para o Congresso que abre a possibilidade de todos os credores da Argentina trocarem os títulos sob jurisdição nova-iorquina (truncados pela famosa decisão do juiz Thomas Griesa) por bônus emitidos na jurisdição local.

“Ninguém está obrigado a aderir, mas criamos essa alternativa devido às dificuldades que encontramos em pagar o serviço da dívida”

Pra completar, respondendo à acusação de Griesa de que o projeto seria ilegal, Kicillof afirmou que o juiz estadunidense pretende “condicionar o Congresso argentino”.

“O juiz convocou uma audiência para debater um suposto desacato da República, em mais um excesso de jurisdição e demonstrando desconhecimento do conceito de soberania. (…) Longe de agir com justiça e gerar condições equilibradas entre as partes, Griesa só quer favorecer aos abutres”

Outro que estava on fire era o Ministro das Relações Exteriores Héctor Timerman. Comentando as alegações dos EUA de que não aceitavam a competência da Corte Internacional de Justiça por conta da divisão de poderes, o chanceler afirmou que a desculpa é “produto de uma certa ignorância”. Para ele, a decisão de um país sobre como deve pagar sua dívida externa é soberana e, se um juiz dos Estados Unidos ameaça feri-la, o país pode ser responsabilizado internacionalmente por isso.

Depois de acusar o Paul Singer, sempre ele, de doar mais de 10 milhões de dólares para congressistas estadunidenses, esclareceu que levará esse país à CIJ, mesmo suspeitando de que não vá dar em nada:

“[Os EUA] várias vezes não acataram as sentenças [da Corte] contra suas violações do direito internacional”

Também cutucando várias onças com a vara curta (ou cumprida, vai saber), a Presidenta Cristina Kirchner foi novamente à rede nacional com um discurso não tão leve como os anteriores para explicar o projeto de lei que, segundo ela, trata-se de uma solução para um problema que não foi criado nem pelo seu governo nem pelo de seu marido.

“Não contraímos essa dívida. A partir do golpe de Estado e continuando com os sucessivos governos democráticos, a dívida externa foi crescendo e se transformando num condicionante ao crescimento do país. Na última década, vivemos anos de desendividamento, mas também de desenvolvimento, porque tudo isso não se pagou com a fome do povo. Perdão pelo nervosismo. Vocês sempre me veem mais aprumada, mas estou nervosa com a injustiça que estamos vivendo!”

Embora possam ter sido encaradas com desgosto pelo Nobel da Paz (sic) Barack Obama, as medidas do governo argentino foram celebradas pelo Nobel da Economia Joseph Stiglitz:

“De uma perspectiva global, não é possível entender porque um juiz chega a ter o direito de julgar qualquer bônus no mundo. A extra-territorialidade deveria ser inaceitável. (…) De um ponto de vista econômico, [a troca proposta pelo governo] é o que eu teria recomendado”

Internamente, entretanto, o ex-Presidente do Banco Central Prat-Gay acusou o governo de “como sempre, se esquivar de resolver as questões de fundo”, afirmando que “não se pode viver sempre à margem da lei”. Já um dos líderes mais ferozes da oposição, Maurício Macri, anunciou que seu partido votará contra o projeto do governo, usando como metáfora uma das maiores paixões argentinas:

“É como se nós agora disséssemos que a final da Copa do Mundo não valeu porque o goleiro da Alemanha cometeu um pênalti [não marcado] e convidássemos eles a jogar outra partida na Argentina apitada por Oyarbide (famoso juiz argentino)”

Os editoriais dos jornalões  locais acompanharam o ponto de vista, dizendo que o governo “embandeira um falso nacionalismo, colocar-se a um passo do desacato e afetar ainda mais a imagem do país no exterior”. Já para Ricardo Roa do Clarín, nas falas de Kicillof, el principito, faltam argumentos e sobra prepotência.

Enquanto as forças políticas se atritam, a fagulhas acendem os problemas econômicos: o chamado dólar blue (paralelo, negociado em estabelecimentos ilegais e em cada esquina do Microcentro) se afasta cada vez mais da cotação oficial, quase batendo a marca recorde de 14 pesos. Se não bastasse o efeito inflacionário dessa discrepância, conforme alertou o economista Augustín D’Attellis, a disparada do dólar seca as reservas, que só ontem, sofreram um desfalque de US$ 89 milhões.

E pra completar, tem as greves…

Ontem foi a vez da saúde pública da província de Buenos Aires, que parou por 24 horas. Fiz uma visita ao Hospital Fioretto em Avellaneda hoje pela manhã e a neurocirurgiã Silvia Stepaniuk me contou que o motivo de sempre é o salário, mas que os problemas não terminam aí. Sem equipamentos básicos como um tomógrafo, insumos como chapas de raio X ou mesmo gaze e soro, eles não têm como atender aos pacientes e nem como transferi-los, porque tampouco funciona a ambulância. Ela disse que os familiares ficam tão indignados, que às vezes até agem com violência.

“Nós é que botamos a nossa cara à tapa; as pessoas não vão reclamar com o governador nem com o ministro. Elas vêm pra cima da gente”

Semana que vem, as previsões do tempo garantem que a temperatura vai voltar ao normal e baixar para a casa dos 10 graus, mas parece que as mudanças ficarão restritas ao clima. Na quinta-feira (28), tem greve geral de 24 horas convocada pelo controverso sindicalista da oposição Hugo Moyano. Assim, se você tiver viagem marcada para esse dia, é melhor remarcar.

Até mais!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s