Um Sartorialist Porteño

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Uma das coisas mais libertadoras sobre morar em Buenos Aires é que quando você acorda todo descabelado, cara amassada, vestindo o seu moletom mais surrado e resolve descer para comprar um café no bar da esquina, aqui esse look é estilo, é cool, é tendência.

Outrora conhecidos como a gente mais nariz em pé, mais almofadinha e mais refinada de toda a América Latina, os porteños deram uma relaxada dramática e a versão street casual daqui não tem nada de low-profile: você tem que ter ou, no mínimo, parecer ter dormido na rua. Esqueça o tal arquétipo do hipster penteadinho vestido de maneira excêntrica e ainda assim indefectível. O porteño canchero tem pelo menos um penteado, por assim dizer, barroco e/ou uma gola esgarçada e/ou uma noite passada de esbórnia estampada no rosto. O pacote é cumulativo.

Um dos detalhes mais chamativos e marca registrada do povo daqui é definitivamente o cabelo. Lembra no fim da menem-presdécada de 80, começo dos 90, quando o protótipo da juventude bem sucedida no Brasil estava cristalizada no jeitão yuppie e saudável do presidenciável Collor de Melo? Pois bem, a contraparte argentina era o controverso líder peronista (sic) Carlos Saúl Menem.

Com a mão pesada no mullet e deixando-o seguir revolto rosto a dentro, o menemismo de raiz não tinha nada daquele topete armado ainda que em cima de um jet ski. E, se você bem se lembra, seja porque já tinha idade para visitar Buenos Aires com um mínimo olhar para o estilo, seja porque viu no videoteipe Maradona e Canniggia maltratarem o Brasil na Copa de 90, o despojo capilar nesse canto do mundo não era capricho de um homem só.

Pode até se argumentar que, na época, o punk ressonava em vertente mais bruta na recém nascida revolução grunge – o que, em teoria, faria dos argentinos o povo mais in do pedaço. Mas o que distingue os hermanos de verdade, é que, neste país, não foi uma questão de modismo: as costeletas ainda estão lá na baby-face do Kicillof e os mullets estão por todos os lados, não dá pra ficar imune a esse fenômeno.

Se o velho prolongamento traseiro ainda faz a cabeça dos homens, nas mulheres, rapar todo um trecho da cabeleira é parte do nada discreto charme da burguesia local. As mais contidas irão contentar-se somente com uma das laterais, as mais ousadas irão por todas. De quebra, pode até rolar uma mecha percorrendo todo o delineado da testa, ora caindo desleixada sobre o rosto, ora preso na orelha oposta.

foto 4 (1)Mas o cabelo é só o mais óbvio. Ainda com as chicas, uma verdadeira tendência fashion por aqui são os sapatos com plataforma. Não sei se vou ser capaz de descrevê-los, assim, na dúvida, vai a foto de uma vitrine fresquinha para que você possa entender (ainda nem tirei a tal foto, daqui a pouco saio e estou seguro seguríssimo que eles estarão lá!).

As argentinas não são exatamente conhecidas pela estatura. De um modo geral, como todo mundo por aqui, seus traços são uma formidável mescla de raças – dependendo de onde você está, pendendo mais para o europeu ou para o nuestro americano -, mas estão mais para peticitas. E, nessas condições, a opção mais popular por aqui é um palmo de sola a mais. De certa forma funciona, né? Mas me dá a impressão de que prejudica a postura, o que nas pré-adolescentes em fase de crescimento ganha proporções de uma corcundinha.

Provavelmente, a maior representante do fashion porteño é a marca Kosiuko, que ficou mundialmente famosa por ter sido a escolha de Britney Spears no clipe “Overprotected” há pouco mais de dez anos atrás. Sem muito traquejo para a crítica de moda e certo de que Britney fez uma seleção bastante superlativa, não vou me meter aí; mas é indiscutível que aquela história de menos é mais não calou muito fundo em Buenos Aires. É ver para crer.

Para os rapazes do campo mais popular, o hit absoluto, sim, é bastante discreto. Extravagante mesmo é o fato de que grupos inteiros vestem basicamente (mesmo) o mesmo look: conjuntos esportivos. Em geral são da seleção argentina, mas o soft spot daqui por tudo que seja europeu também dá uma chance para as grandes equipes europeias, como o Barcelona, Paris Saint-Germain e por aí vai.

Saí por aí tirando fotos de alguns representantes dessas baboseiras sobre as quais escrevi anteriormente. Digo baboseiras porque este, como todos os artigos do gênero, está repleto de generalizações, exageros e tolices. Entretanto, em meu favor estão as fotos – provas irrefutáveis de tudo que eu descrevi.

No mais, é como eu disse: a sensação é de liberdade por essa Buenos Aires cosmopolita e cheia de personalidade.

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