As eleições no Brasil, segundo os argentinos

bandeirola

Fora dos campos de futebol, a Argentina e o Brasil construíram desde a década de 80 uma relação simbiótica que vai muito mais longe do que os alardeados números do comércio bilateral. Não só turistas de lá e de cá estabelecem uma ponte diária entre os dois países, vide os argentinos em Floripa e a brasileirada na calle Florida, mas também a academia, músicos, escritores, cineastas e por aí vai. Através dos anos, a ideia de que os dois países já estiveram à beira de um conflito militar foi se tornando completamente estapafúrdia e a rivalidade virou motivo de piada nas mesas de bar.

Assim, é natural o interesse que os hermanos têm pelo Brasil – sobretudo num assunto sério como é a sucessão presidencial este ano.

A relação bilateral têm sofrido nos últimos tempos com ambiente econômico morno dos dois países. É como diz Pablo Fernández Blanco do La Nación:

“Em tempos de recessão, as economias da Argentina e do Brasil são como um casal em que cada um faz mal ao outro. [E] a má sorte de um é um problema para o outro”

Em sua coluna de opinião, Fernández Blanco destrincha alguns números ilustrativos. Nos primeiros seis meses desse ano, a Argentina reduziu em 18% as importações vindas do Brasil, enquanto o Brasil comprou 20% menos automóveis do vizinho. Isso é uma péssima notícia para as políticas industriais dos dois países, já que encontramos na região sem dúvida o mercado mais importante para nossos produtos de maior valor agregado, como, além dos carros, eletrodomésticos, plásticos e químicos.

Fernández Blanco vaticina:

“O esfriamento do consumo doméstico, quase uma novidade nos anos do kirchnerismo, chega à Dilma num momento em que ela mais necessita seu aliado comercial para enfrentar as disputadas eleições do próximo 5 de outubro”

De fato, o cenário econômico tem dominado a cobertura do pleito brasileiro, que deu destaque à reviravolta da morte de Eduardo Campos mês passado e da chamada “Ola Marina” desde então. Em artigo para o Clarín, o ex-chanceler Roberto Garcia Mortián especulou quais seriam as eventuais conseqüências de uma vitória dela.

“Em política exterior, salvo pela plataforma partidária, as precisões pessoais têm sido ainda muito limitadas. De qualquer maneira, por estilo e preferência temáticas, poderia impulsionar uma variedade de matizes diferenciadas com relação ao ciclo promovido por Lula e Dilma Rousseff.

“As expressões de Marina Silva, ao destacar que o Brasil se encontra isolado no cenário internacional, poderiam ser interpretadas como uma intenção de inclinar o Brasil à posições com maior afinidade aos Estados Unidos e à União Europeia. (…) Marina tem sido muito crítica a respeito da ineficiência do Mercosul e destacou a necessidade de encontrar uma saída ao atual estado de “paralisia” com uma maior abertura em direção a um espaço mais amplo de livre comércio.

“Essas expressões sobre o Mercosul, que em termos diplomáticos poderiam ser um eufemismo referente à Argentina, deveriam ser lidas com atenção já que, em caso de uma vitória eleitoral, poderiam ser eixos centrais de eventuais conversações com Buenos Aires”

De fato, o jornal Perfil sugere que uma eventual vitória de Marina representaria o fim da “paciência estratégica” de Lula e Dilma com a Argentina, mas, em entrevista ao Página/12, o jornalista Pablo Gentili, radicado há 20 anos no Brasil, dá nome aos bois:

“O Brasil não determina a política argentina e o panorama é complexo, mas no Brasil há uma clara intenção de dar continuidade à [política regional]. Dilma tem uma clara perspectiva de integração regional e não se diferencia em nada com Lula – inclusive aprofundou muitas dessas políticas regionais que se fortaleceram em seu governo. Como argentinos, não devemos nos deixar seduzir pelo canto da sereia de uma candidata que é na realidade a única possibilidade da direita para evitar a reeleição de Dilma”

Já o perfil da correspondente Eleonora Gosman do Clarín também coloca a nova candidata sensação no campo das ideias conservadoras:

“[No] capítulo econômico [de seu programa de governo], as orientações aceitas por Marina são aquelas dos anos 90, como as que praticaram Carlos Menem na Argentina e Fernando Collor de Mello no Brasil. Abertura comercial, ajuste fiscal, câmbio livre sem intervenção estatal e as empresas estatais, que serão provavelmente destrinchadas e parcial ou totalmente privatizadas.

Por outro lado, Patricio Navia do Buenos Aires Herald, destacou que, caso Dilma perca, será culpa dela mesma, já que ela tem pouco carisma e falhar em se conectar com o povo em nível pessoal ou na televisão:

“Além de ter desapontado fortemente a maioria dos brasileiros, ela é uma péssima candidata e não mudará sua personalidade para tornar-se mais carismática aos 66 anos”

Uma impressão que dá nos olhos, entretanto, é a amnésia coletiva na imprensa daqui com relação ao candidato do PSDB Aécio Neves. Em absolutamente todos os artigos que eu tenho lido aqui nos últimos tempos, não há sequer uma menção à ele ou ao seu programa de governo. El cruce, dizem os jornalistas argentinos, já é entre a candidata da situação Dilma Rousseff e a “conservadora” (aqui não parece haver dúvida) Marina Silva.

Com as eleições deles mesmos à vista, deve ser um bom laboratório observar o que acontece do outro lado da fronteira. Embora com matizes e intensidades muito diferentes (sendo a Argentina sempre a irmã mais porra-louca), o debate a cerca do modelo de desenvolvimento é muito parecido nos dois países. Quando os brasileiros escolherem quem viverá os próximos quatro anos no Palácio da Alvorada, é bastante provável que essa decisão influencie o povo daqui com relação à Casa Rosada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s