Briefing: Se me pasa algo…

250505

A semana na Argentina foi marcada por um discurso da Presidenta Cristina Kirchner na Casa Rosada em que disse:

“Têm aparecido uns artigos nos jornais sobre supostas investigações que foram feitas nos organismos de inteligência do Estado sobre a ameaça que eu estaria sofrendo por parte do ISIS, esse grupo terrorista que atua no Iraque. Fiquei sabendo pelos jornais que aparentemente o serviço de inteligência descobriu alguma evidência na Tríplice Fronteira. Primeiro, devo dizer que não acredito, porque se fosse uma revelação de organismos de Estado, a primeira que deveria ser avisada teria sido eu, que sou a Presidenta e a ameaçada, e não o Clarín. (…) Por favor me escutem. Se alguma coisa acontecer comigo, e eu estou falando sério, não olhem para o Oriente; olhem para o Norte! Porque depois de ver as coisas que estão fazendo em determinadas representações diplomáticas, depois de escutar essas declarações que verdadeiramente parece um exercício de cinismo, depois de ver as coisas que vi nas Nações Unidas, realmente, que me venham criar toda uma historinha de que o ISIS está atrás de mim para me matar ou fazer alguma maldade… por favor! Não voltem a armar uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado que não quero mencionar”

Ou seja, no meio de todas as coisas que disse Cristina nesse discurso, está uma dramática subida no tom com os Estados Unidos, conforme já se observada desde a semana passada. Uma subida dramática a la Argentina.

Mas vamos por partes.

Depois do discurso de Cristina na ONU, o juiz Thomas Griesa, como havia ameaçado antes, declarou que a Argentina estava “em desacato” por não cumprir a decisão judicial que obrigava o pagamento de US$ 1,3 milhões, além de determinar que a Lei do Pagamento Soberano é ilegal.

Como esperado, o governo argentino reagiu com força, sobretudo porque é bizarro que um juiz municipal americano se sinta em capacidade de julgar uma lei votada no Congresso de outro país. Assim, a Chancelaria daqui enviou uma carta ao Departamento de Estado alertando que os Estados Unidos incorria em responsabilidade internacional com a decisão.

A resposta do Secretário de Estado John Kerry veio à reboque, na qual afirmou que “acompanha a situação de perto” e que “espera que a Argentina prospere”.

No meio dessa troca de correspondências, a Embaixada dos EUA em Buenos Aires emitiu um comunicado em que alertava os cidadãos americanos sobre a violência no país, o que desatou a fúria do governo. Antes do trecho que publiquei anteriormente, ela afirmou, entre outras coisas:

“Eles querem dizer que vivemos na pior época do Faroeste e eu acredito que isso é realmente uma imensa provocação a qual não irei reagir. Porque seguramente o senhor que escreveu esse comunicado, que já nos acusou de estar em default [o embaixador interino Kevin Sullivan], pensou ‘agora eu provoco ela, a deixo enfurecida e eles vão me expulsar do país’. Não vai acontecer”

“Eu não entendo o que significa ‘estar acompanhando a situação de perto’. Penso que talvez esteja contribuindo, já que como não aconteceram os cataclismos sociais que alguns prenunciavam ou que queriam provocar…”

“Se [os EUA] estão tão interessados numa Argentina próspera, que participem. Primeiro, se ele se lembrasse de 2001, quando deixaram a Argentina na mão e a gente se partiu em mil pedaços depois de seguir todas as receitas que eles nos prescreveram… (…) Se tanto lhe preocupa a Argentina e a nossa prosperidade, por que não deixam que a Argentina pague a sua dívida?”

Como antecipado, esse discurso terminou com uma surpreendente declaração de que, se for assassinada, que se busquem os suspeitos no norte, ou seja, nos Estados Unidos; mas essa não é uma declaração leviana simples de ser decifrada.

No discurso na ONU, Cristina mencionou o Acordo com o Irã para solucionar o caso do atentado ao centro comunitário judio em Buenos Aires, a AMIA em 1994, que matou 84 pessoas e deixou centenas de feridos.

Investigações controversas chegaram à conclusão de que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo iraniano. Apesar de um dos acusados ter prestado depoimento na Inglaterra e liberado por falta de provas, parte da comunidade judia em Buenos Aires (reunidos na Associação de Delegações Israelitas da Argentina, a DAIA) sustentam essa tese até hoje. Entretanto, parte dos familiares de vítimas, reunidos em outra organização, sustentam que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo argentino e pedem que os arquivos confidenciais da época sejam desclassificados. Eles e outros movimentos sociais e políticos afirmam que a “pista iraniana” foi forjada para livrar os suspeitos locais.

Ao pedir no discurso dessa semana que não se “arme uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado”, a Presidenta basicamente infere que corrobora com a tese da falsificação de provas para encontrar um bode expiatório estrangeiro no caso da AMIA.

Mas as declarações bombásticas desse discurso não pararam por aí e trouxeram consequências práticas ainda mais sérias, pois a Presidenta questionou a falta de controle sobre algumas operações de câmbio e sugeriu o vazamento de informações privilegiadas do Banco Central. No dia seguinte o presidente da instituição Juan Carlos Fábrega se demitiu desatando uma crise de confiança no mercado, conforme verificado no tombo de 8% da Bolsa de Valores de Buenos Aires.

O novo presidente indicado pelo governo, Alejandro Vanoli, muito próximo do Ministro da Economia Axel Kicillof, chegou com um pacote de medidas para frear a sangria de dólares. Apesar dos comentaristas econômicos dos grandes jornais terem reagido à nomeação com temor, já que representaria um avanço dos setores mais radicais na condução da economia, de fato, o dólar desacelerou.

Até semana que vem!

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