Eleições no Brasil, repercussões na Argentina

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O primeiro turno das eleições presidenciais de 2014 foi acompanhado de perto na Argentina. O resultado deu capa nos principais jornais no país e, com a sorpresiva volta por cima de Aécio Neves, foi debatido com ares de política local.

O kirchnerismo e o governo do PT têm proximidades que estimulam os argentinos a pensar nas eleições brasileiras como termômetro do que acontecerá por aqui ano que vem. Ambos estão há pouco mais de uma década no poder, fizeram da América do Sul um espaço privilegiado para suas políticas externas e, (em diferentes níveis) avessos ao neoliberalismo, conduziram políticas econômicas que tiveram bastante êxito até a crise financeira internacional.

Na época de Lula, os jornais opositores daqui usavam os sucessos brasileiros para espizinhar o governo dos Kirchner como dizendo: “com mais moderação, o vizinho está indo bem melhor”; pois foi no grau das “reformas progressistas” que as duas administrações de distanciaram. Por exemplo:

  1. os Kirchner abriram fogo contra os monopólios da comunicação locais, escancarando o embate tanto no discurso quanto na legislação (leia-se, Ley de Medios)
  2. reestatizaram empresas importantes como a Aerolineas Argentinas, YPF (a Petrobras deles) e o sistema de previdência social
  3. impuseram travas ao câmbio (o chamado cepo cambiário)
  4. protegeram tanto a indústria local que criaram situações incômodas aos sócios do MERCOSUL
  5. abriram a caixa negra e caudalosa da dívida externa
  6. e, mais recentemente, criaram uma Lei do Abastecimento que prevê intervenções estatais nos chamados oligopólios econômicos

Com Dilma, a imprensa daqui sempre foi mais cautelosa, embora os comentaristas mais próximos do governo sempre reforçassem seu apoio aos governos do PT, vistos como bolivarianos a la brasilera.

Mas agora, a característica polarização argentina se refletiu com bastante claridade na cobertura da imprensa local do segundo turno do Brasil, pois agora se discutem modelos de desenvolvimento.

Para Mercedes López San Miguel do Página/12, “a disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves representa dois modelos de inserção internacional em debate”:

“Um aposta na integração regional e o outro se propõe a debilitar o Mercosul para abri-lo ao mundo. (…) O opositor Neves quer flexibilizar as regras do bloco para que o Brasil possa realizar acordos bilaterais caso os sócios não comprem essa ideia. (…) Para ele, abertamente anti-chavista, o exemplo a se seguir é o da Aliança do Pacífico, que é o projeto mais afim aos planos norte-americanos de uma integração hemisférica com abertura comercial”

Do outro lado do espectro ideológico, Carlos Pagni do La Nación, parece mais afeito à candidatura de Aécio Neves, já que o candidato tucano teria mais condições de fazer as mudanças que o país precisa para tirar o Brasil da estagnação; mas, de qualquer maneira, prenuncia problemas para os vizinhos, incluindo a Argentina, caso ele vença:

“As reformas que ele propõe causarão prejuízos inevitáveis para os países da área, pois a economia brasileira não irá recuperar sua competitividade sem uma desvalorização da moeda ou sem uma maior abertura do comércio. Ou ainda, sem ambas decisões de uma só vez. (…) Aécio lançará também outra questão: Por quanto tempo mais estará congelada a relação do Brasil com os Estados Unidos [depois do escândalo da espionagem]? (…) A reparação da ponte entre Washington e Brasília, que ele garante, reduziria o espaço de uma política regional inspirada no velho imaginário anti-imperialista, que hoje predomina na Venezuela, Argentina, Bolívia e Equador”

Para outros analistas do jornal, como Inés Capdevila e Francisco Díaz Hermelo, o grande fator decisivo dessa reviravolta tucana é a economia. Citando a inflação, as taxas de juros e o déficit em conta corrente, Díaz Hermelo considera que:

“A conta de descalabros de curto prazo que continua pendente é bastante expressiva; e ainda nem falamos da conta de longo prazo, que ninguém quis mencionar seriamente na campanha, como as reformas estruturais que permitam mais produtividade, um sistema tributário mas simples e equitativo, regulações e leis que permitam maior investimento de longo prazo, sobretudo em infra-estrutura, melhoras no sistema educativo que elevem a qualidade e um melhor sistema de saúde”.

Já Capdevila arrisca um prognóstico:

“Se a sua mensagem econômica foi acertada para derrotar aquela que até uma semana atrás era a rival a vencer [Marina Silva], talvez não seja suficiente para derrotar a promessa ambiciosa de Aécio de uma economia mais dinâmica”

Por fim, se destacou por aqui que as eleições mobilizaram o maior número de postagens e comentários no Facebook desde sempre.

Em tempo, nas urnas da embaixada brasileira em Buenos Aires, os resultados foram:

  • Dilma: 38,62%
  • Aécio: 36,22%
  • Marina: 15,68%

Luciana Genro foi a mais votada entre os outros candidatos e, pasmem, 10 pessoas votaram em Levy Fidelix.

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