Eleições na América do Sul confirmam a esquerda no poder, mas com ressalvas

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Em março de 2014, Michele Bachelet voltou ao poder no Chile prometendo democratizar a educação do país – uma bandeira que sacudia as ruas das maiores cidades do país. Ela estava abrindo um novo round eleitoral no subcontinente em que o modelo dos chamados governos progressistas foi questionado, em diferentes medidas, de país a país. Depois foi a vez de Evo Morales na Bolívia que, com folga, foi eleito para um terceiro mandato no país andino, seguida do Brasil e Uruguai no último domingo.

Embora o Uruguai ainda tenha que passar por um segundo turno no fim de novembro, a porcentagem atingida por Tabaré Vazquez da Frente Ampla (cerca de 47% contra os quase 31% do adversário) sugere que o partido do atual presidente José Mujica permanecerá no comando daquele país no próximo quinquênio. No Brasil, Dilma levou no segundo turno mais disputado desde a redemocratização.

A política externa não teve um papel protagônico no embate eleitoral brasileiro, ofuscada pela onda de acusações de corrupção que dominou o cenário dos debates. Ainda assim, menções desencontradas da oposição deram conta de criticar as relações próximas do governo do PT com os vizinhos, chamados de bolivarianos, ao mesmo tempo que destacavam o crescimento econômico mais expressivo dos países da região.

Naturalmente, Aécio Neves não se referia à Venezuela ou à Argentina, mas é importante lembrar que tanto o Peru quanto o Chile, dois dos exemplos mais frequentes mencionados pelo candidato do PSDB, são governados por partidos historicamente mais identificados com a esquerda; sem falar da Bolívia, que também tem apresentado taxas de crescimento bastante expressivas.

Esses dados refutam ideia equivocada de que a América do Sul está antagonizada de maneira simplista entre os neoliberais da Aliança do Pacífico e os bolivarianos do Mercosul, embora qualquer análise um pouco mais aprofundada do cenário subcontinental já revelasse que, mais do que uma cisão ideológica, convivem aqui dois modelos de desenvolvimento que mais respondem às características históricas e econômicas do que necessariamente a posicionamentos geopolíticos.

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Na década passada, um espetacular giro à esquerda em praticamente todos os países da região produziu um consenso sem precedente ao redor de bandeiras como a redução da pobreza e da desigualdade. Sem entrar no mérito do sucesso da implementação interna de projetos conexos, a coincidência ideológica dos países desaguou no fortalecimento de iniciativas regionais, cujo maior símbolo foi a criação da UNASUL, um bloco político que tem buscado superar a lógica meramente comercial do que se entende por integração, incluindo em pé de igualdade aqueles temas sociais que mencionei agora pouco. Muito criticado como praticamente todas as instituições multilaterais por sua “imobilidade”,  e ainda por uma suposta “conivência com regimes ditatoriais”, o bloco que tem apenas 6 anos de vida efetiva tornou-se inequivocamente um forum de concertação, que proporciona, antes de qualquer outra coisa, um canal permanente de diálogo entre os países da América do Sul, levado a cabo sobretudo nas instituições criadas no seu marco, como aquela dedicada à saúde (ISAGS) e à defesa (CEED).

Entretanto, de lá pra cá, a conjuntura internacional mudou. A combinação de um mundo desenvolvido ainda em crise e de uma nova China mais voltada ao fortalecimento do mercado interno deu um golpe na exportação de commodities da região. Em efeito dominó, alguns países, marcadamente a Argentina, adotaram medidas protecionistas para poder fechar as contas, contaminando também o comércio intrarregional. Adicione-se a isso o desgaste natural de qualquer partido há mais de dez anos na frente de um governo e meios tradicionais (leia-se jornais e canais de TV) mais alinhados à setores liberais, e o resultado foi uma onda de insatisfação, conforme visto na Argentina em 2012 (o chamado 8N), no Brasil em 2013 (as Jornadas de Junho), nas manifestações em Táchira na Venezuela em 2014, para ficar naqueles de grande envergadura.

A última expressão dessa insatisfação pode ser constatada no sufoco para a reeleição de Dilma Rousseff no Brasil. Antes mesmo do placar acirrado as fissuras no país ficaram claras com uma campanha feroz e ativismo igualmente tendencioso por parte da mídia, culminando com a famosa capa da revista Veja. No pacato vizinho Uruguai não foi muito diferente, como descrito pelo próprio presidente José Mujica:

“Existem campanhas sistemáticas da imprensa. Veja o que aconteceu com as pesquisas de opinião: mesmo companheiros nossos chegaram a pensar que não iríamos bem. [Por outro lado] se inflaram as notícias policiais criando uma atmosfera de que não podíamos mais sair na rua”

Com os resultados da semana, o mapa político da região permaneceu inalterado – e, com a volta de Bachelet ao poder no Chile, na América do Sul voltam a predominar os partidos da esquerda progressista. Em comparação com aquele momento na década passada de que falei anteriormente, fora o interregno de Piñera no Chile, só o Paraguai deu uma guinada drástica à direita, mesmo assim através do questionável processo de impeachment de Fernando Lugo.

Para Martín Granovsky do Página/12, a reeleição de Dilma no último domingo foi a “vitória eleitoral mais importante dos projetos de reforma com inclusão na América do Sul”:

“O triunfo no Brasil foi recebido com euforia na Argentina, Uruguai, Venezuela, Bolívia, Equador e Chine; e com satisfação pelo colombiano Juan Manuel Santos (…). A derrota de Aécio Neves, que pregava uma mudança externa para o Brasil, consolida a chance de fortalecer o Mercosul, afirmar a Unasul como a convergência de diversas políticas, além da integração energética e de infraestrutura. À noite [de domingo], esteve claro que as forças políticas alinhadas com o PT na América do Sul sentiram o mesmo que os votantes de Dilma. Não somente alegria. Também um enorme e prazeroso alívio”

De fato, sobretudo após as fortes declarações de Aécio Neves na reta final da campanha que pregavam o fim do Mercosul e acusavam os vizinhos de contribuir com a violência no país pelo tráfico de drogas, um possível triunfo do PSDB alarmou os países da região.

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Cristina parabeniza Dilma: “uma grande vitória da inclusão social e da integração regional”

Ainda assim, esse temor não era compartilhado pelo grandes conglomerados de comunicação da Argentina, por exemplo. O editorial do La Nación, Neves, uma esperança para o Brasil e para a Região, dias antes das eleições do Brasil afirmava que “se Aécio conseguir reunir o consenso necessário para alcançar a presidência do Brasil no segundo turno, a América Latina estaria diante de um fator de mudança de primeira magnitude. Em primeiro lugar, porque o Brasil poderia projetar sobre o resto da região uma gestão que pretende demonstrar que é impossível alcançar o progresso social corrompendo a função pública, abandonando a qualidade administrativa e menosprezando o saber técnico. E, em segundo lugar, porque assentaria as bases para um modelo sustentado na iniciativa privada e não no populismo que tanto avançou nos países como Venezuela e Argentina”. Depois de domingo, o próprio jornal fez ressalvas à vitória, afirmando que o resultado no Brasil e também no Uruguai revelou países fraturados.

No fundo, se Aécio ganhasse as eleições, isso representaria um grande alento para a oposição na Argentina, que quer desbancar o partido do governo nas próximas eleições de 2015. Não à toa, Daniel Scioli, um dos candidatos do oficialismo à sucessão de Cristina, já demonstrou que tenta capitalizar o resultado:

“‘Mudança, mudança, mudança’, repetem o tempo todo no Brasil, Uruguai e aqui, e observem qual foi a resposta do povo. De que mudança eles estão falando? A mudança verdadeira é a que nós fazemos avançar, melhorando a cada dia. A mudança são as decisões que dão mais proteção aos trabalhadores que necessitam cada vez mais do Estado. Que bom que estejam unidas as correntes políticas dos países latino-americanos para juntos encararmos novas etapas desses processos e não voltar atrás, não voltar ao passado”

A conflagração entre os governos progressistas e as classes mais altas do países sul-americanos (que aparelham os conglomerados midiáticos) não é nova, mas chega a um novo pico de tensão. Se em algum momento, pudores democráticos davam um tom de discrição à oposição conservadora, atualmente se fala abertamente em mudanças radicais, mesmo aquelas que prescindem o processo eleitoral, como o impeachment (de golpe mesmo, só falam alguns lunáticos nas redes sociais).

Assim, o grande desafio desses governos no novo ciclo que se inicia está em avançar nos ganhos sociais, retomando o vigor econômico perdido nos últimos anos enquanto dá respostas às denúncias de corrupção. Tudo isso ao mesmo tempo em que tenta transpor a nuvem de ruídos promovidos pela imprensa opositora.

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