O que está acontecendo com o câmbio?

nota-de-cem

Nos últimos dias, os brasileiros que vivem em Buenos Aires ficaram de cabelo em pé, pois de repente o Real foi perdendo valor de maneira vertiginosa. Se em 30 de outubro mil reais compravam AR$ 5.500,00 no mercado informal, hoje (11/11), com sorte, compram AR$ 4.560,00. Ou seja, uma queda de cerca de 20% em apenas duas semanas.

Como mil pesos aqui é coisa pra caramba, sobretudo para aqueles estudantes que se equilibram com o que os pais mandam ou que se habituaram a fazer o câmbio das economias de pouco a pouco para enfrentar a inflação, todo mundo está precisando refazer as contas e repensar o orçamento. Mas será que essa é uma realidade que veio pra ficar?

Para responder a essa pergunta é preciso ir por partes:

Com esses dois componentes em marcha, o rico realzinho dos brasileiros está minguando, mas alguns analistas afirmam que essa situação não deve ser permanente.

Quanto ao primeiro fator, basta o governo brasileiro dar sinais mais claros sobre as mudanças na economia, como por exemplo nomear um Ministro da Fazenda para o próximo mandato, que o Real se estabiliza. Se bem é verdade que a nossa moeda mesmo com as últimas quedas, ainda está sobrevalorizada, é pouco provável que o governo escolha mantê-la no valor atual, pois isso gera pressões inflacionárias que foram tema recorrente das eleições.

Dessa maneira, anotem a data: a Presidenta Dilma anunciou que nomeará o novo ministro a partir do dia 17, quando retorna da reunião do G-20 na Austrália. Ainda que as medidas efetivas tardem um pouco mais para serem tomadas, o humor dos mercados (leia-se, dos especuladores) deve mudar com a nomeação.

Quanto ao segundo fator, as coisas são um pouco mais complicadas. Embora possa parecer vantajosa a brecha entre o dólar oficial e o chamado dólar blue (já expliquei esse tema aqui), a verdade é que todos seríamos mais felizes se a Argentina conseguisse eliminá-la. Imagina poder gastar no cartão de crédito sem drama e sacar o dinheiro direto do caixa automático, sem ter que ficar fazendo operações mirabolantes ou trazendo chumaços de dinheiro cada vez que se vai ao Brasil?

Mas a verdade é que dificilmente o governo conseguirá fechar essa brecha de maneira sustentável apenas com a repressão policial. Para isso, deveria levantar as restrições à compra de dólares (o chamado cepo cambiário), para que a cotação oficial subisse a um valor de equilíbrio – o Peso também está sobrevalorizado – e a cotação blue baixasse até o mesmo. O governo não dá sinais de que vá nessa direção.

O mercado local está animado pelo anúncio de que os exportadores de cereais venderam 95% a mais do que no ano anterior, o que representou uma entrada de cerca de US$ 640 milhões de dólares na economia argentina; mas analistas locais não acreditam que essa seja uma cotação sustentável (leia os artigos do meu professor Roberto Frenkel e de Fernando Laborda, ambos para o diário La Nación).

É preciso levar em conta que 2015 é ano de eleições e que, em cima disso, vive-se a espera de um acordo com os fundos abutres (os holdouts da dívida argentina). Nesse cenário de profundas incertezas e de construção e/ou maquiagem de expectativas, é difícil prever quais as medidas que tomará o governo de Cristina Kirchner nos 45 do segundo tempo.

Se tudo ocorrer como dizem os analistas e o Real recuperar um pouco do valor enquanto o Peso volta a desvalorizar, pelo menos por enquanto os brasileiros daqui poderão voltar a respirar tranquilos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s