Briefing: Oposição fraca, um traço comum

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Menos de duas semanas depois do tão-falado protesto pedindo o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em São Paulo, as ruas do centro da capital argentina foram tomadas por manifestantes com bandeiras parecidas (tomadas talvez parcialmente, os números são conflitantes).

Aqui ninguém se arrisca a pedir uma intervenção militar. Entendo que, além dos números da ditadura local serem ainda mais assustadores que os da contraparte brasileira, os processos contra os criminosos do regime e suas condenações ajudaram a consolidar um sentimento comum de repúdio baseado na memória. Odeio hashtags, mas #ficaadica.

Entretanto, de resto, em quase tudo as reivindicações ouvidas no Microcentro na quinta passada se assemelham às da Avenida Paulista. Conhecida como 13N, com referência à data 13 de novembro, a marcha tentou repetir a mobilização que marcou o 8N em 8 de novembro de 2012, quando uma multidão foi ao Obelisco vociferar contra o governo de Cristina Kirchner.

8N

8N, manifestação no fim de 2012

Na época, estavam começando a ser implementadas as medidas heterodoxas pelas quais a Presidenta será lembrada, como o cepo cambiario, que feriu de morte o hábito local de economizar em moeda estrangeira. Mas dessa vez, embora não menos sérias, as bandeiras dos opositores não conseguiram atrair a multidão da foto ao lado, talvez porque corrupção e insegurança sejam percebidos como um traço menos diretamente relacionado à gestão de Cristina do que à cultura política local e à realidade, respectivamente.

Organizado nas redes sociais, o protesto causou polêmica ainda na sua gestação, porque militantes pró-governo iniciaram uma contraofensiva virtual em que se divulgava que o evento havia sido cancelado. Rapidamente, a hashtag #13NSuspendido ganhou quase tanta evidência quanto o #13N, despertando uma calorosa troca de acusações e ironias no Twitter e no Facebook.

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Na manhã de quinta, o porta-voz do governo Jorge Capitanich fez referências à manifestação durante sua habitual entrevista coletiva, pedindo respeito às instituições. Para ele, os cidadãos deveriam expressas suas diferenças políticas com o governo nas eleições  de 2015:

“Na democracia todos têm o direito de se expressar, mas sobretudo através das eleições. Todos terão a possibilidade de participar das PASO (primárias) em agosto que vem e nas eleições gerais em outubro”

A manifestação contou com a solidariedade de brasileiros no Twitter que já estavam convocando outros atos em São Paulo para 15 de novembro, dia da Proclamação da República no Brasil.

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De fato, existem mais semelhanças entre os movimentos na Argentina e no Brasil do que podem sugerir as aproximações temáticas. Tanto lá quanto aqui as impressionantes desigualdades sociais vem se reproduzindo nos regimes democráticos através das urnas, fazendo com que as bandeiras das classes mais abastadas e as dos setores populares de modo geral se alinhem a posições políticas radicalmente opostas.  Dessa maneira, ao menos um dos grupos se sente irremediavelmente não-representado.

Tanto no Brasil quanto na Argentina (mais no último), a oposição tem se mostrado incapaz de responder à essa crise de representação. Embora a contundente votação de Aécio Neves nas últimas eleições possa sugerir o contrário e os discursos imediatamente posteriores a ela possam indicar uma mudança no quadro brasileiro, é irrefutável que a oposição teve um papel pouco expressivo no Congresso, capitalizando apenas algumas vitórias no Poder Legislativo, como a revogação da CPMF (discutivelmente popular) ou a CPI da Petrobras (muito recente).

Devo acrescentar o fato de que na Argentina não há um PMDB, como muito bem lembrado pelo cientista político Alberto Carlos Almeida no Manhattan Connection a partir do minuto 11 do vídeo (por favor, desconsidere as afirmações estapafúrdias e racistas de Diogo Mainardi. Gracias!):

Nesse cenário, a oposição argentina teve ainda menos vitórias no Congresso daqui, o que talvez explique a ausência de um verdadeiro candidato desse campo político no país. Como já escrevi anteriormente, um dos favoritos para o próximo pleito é Daniel Scioli do partido do governo e o segundo colocado é Sérgio Massa, um dissidente não necessariamente ligado àquelas pessoas que compareceram no 13N.

No mais, a semana transcorreu com a fugaz apreciação do peso na cotação blue, o que como eu contei faz pouco, deixou os brasileiros que moram por aqui de cabelo em pé. Resultado de uma mega operação da autoridade fiscal argentina (a AFIP), o destino do câmbio ainda está incerto, embora o Presidente do Banco Central tenha descartado a suspensão das restrições à compra de dólares. O negócio vai ser esperar.

Com Cristina afastada do trabalho por problemas de saúde, coube à Axel Kicillof o papel de representante da Argentina no encontro do G20 na Austrália. E ele não perderia a oportunidade de pedir “apoio total ao país na reestruturação de sua dívida”. Ainda não sabemos bem o que foi conversado por lá, mas Axel parecia bastante confiante na foto que tirou com outros Chefes de Governo e/ou seus representantes.

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Até semana que vem!

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