O Uruguai de Mujica

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Se houvesse uma pesquisa no exterior, não daria n’outra. O atual presidente do Uruguai José “Pepe” Mujica ganharia qualquer eleição, em qualquer país. Alçado à condição de pop star da esquerda mundial, angariou a admiração de gregos e troianos ao redor do mundo com declarações cheias de sinceridade e poucas papas na língua e com ousadias que colocaram o pequeno Uruguai no mapa-mundi.

Da legalização da maconha ao estilo de vida abnegado, Mujica incorporou uma aura alternativa e simples a um universo político viciado em cinismos, quartos de hotéis cinco estrelas, jatinhos espetaculares e glamour. A imagem de sua casa (uma chácara na periferia de Montevideo) e de seu carro (um fusca), tendo como pano de fundo o bucólico irmão franzino do Mercosul, foi embalada por discursos absolutamente estranhos ao mundo capitalista atual:

“Eu não sou pobre; pobres são os que acreditam que eu seja pobre. Tenho poucas coisas, isso é certo. O mínimo. Mas isso é só para poder ser rico. Quero ter tempo para dedicar às coisas que me motivam; e se tivesse muitas coisas, teria que me ocupar com elas ao invés de fazer o que realmente me interessa. Essa é a verdadeira liberdade: a austeridade, o consumir pouco. [Se tivesse uma casa grande], seria necessário uma empregada – uma interventora dentro de casa. Não, com três ambientes tenho o suficiente. Eu e minha velha passamos um pano e é tudo”

Por isso, talvez tenha soado estranho o resultado do primeiro turno naquele país – realizado em paralelo ao segundo turno no Brasil. Como pouco mais de 30% dos uruguaios puderam optar no candidato da oposição Lacalle Pou e não em Tabaré Vázquez, apoiado por Mujica? Como apenas 60% dos uruguaios consideram o seu governo ótimo ou bom? Quem é essa outra metade?

A resposta intuitiva é necessariamente: a elite reacionária – para quem o estilo franciscano do Presidente seria ridículo e/ou populista e para quem suas políticas sociais seriam esmola.

Mas uma análise mais realista do estado das coisas no vizinho Uruguai revela que seu governo não chegou a ser uma unanimidade. Gastando mais do que arrecada e com resultados econômicos que, segundo o analista Martín Aguirre do periódico local El País, dão cada vez mais “sinais amarelos”, Mujica teve o mandato questionado diversas vezes, apresentando fossos de aprovação em determinados momentos de seu governo.

“A produção industrial, o crescimento econômico, as exportações e até as rendas do turismo estão em baixa. A competitividade em queda e o déficit fiscal em alta. Em geral, a sensação é de que o caminho à frente será bem mais incômodo do que foi percorrido anteriormente, sobretudo na hora de encarar as reformas fundamentais para o país, como na educação, no aparato estatal e na infraestrutura – que durante esse período foram protagonistas nos discursos, mas ausentes em concreto”

A educação, por exemplo, é um campo que desperta grande preocupação nos uruguaios. Em 1990, a taxa de graduados no país era de 32% – somente superada por Argentina, Chile e Panamá, mas acima do Brasil, do Peru e da Colômbia. Vinte anos depois, todos os países haviam avançado muito, com o Chile batendo a casa dos 80%, enquanto a Argentina e o Peru seguiam de perto e o Brasil superava os 50%. A do Uruguai permanece a mesma.

Outra preocupação é a segurança pública. Embora ostente uma das taxas mais baixas da região, a percepção de insegurança no país é a segunda mais alta da América do Sul, superada apenas pela Venezuela.

De fato, quando visitei Montevideo ano passado, as pessoas me recomendaram com certo pavor não caminhar pelo centro histórico depois de certa hora, quando as ruas estavam absolutamente vazias – o que provavelmente se deve ao aumento contínuo de delitos no país na última década.

De acordo com dados do Observatório Nacional sobre Violência e Criminalidade, o número de homicídios registrados em 2012 foi 62% superior ao registrado em 2010, assim como subiu em 48% o número de estupros e 12% o número de roubos violentos.

Para um país que convivia com números absolutamente estranhos ao entorno regional, como o Brasil, o Paraguai e a Argentina, mais que os números absolutos, foi o crescimento dos casos que mais chamou a atenção.

De qualquer maneira, hoje os mais de 2,6 milhões de uruguaios devem eleger Tabaré Vázquez, o candidato de Mujica, o próximo presidente do país, prometendo:

“[Convocar] um grande encontro nacional para os temas que importam aos uruguaios, como o econômico, o social e o político, para assim, desenhar o futuro do país com todos”

Vázquez defende mais integração regional, mas terá que enfrentar um contexto complicado, com o Brasil crescendo pouco (e com um Ministro da Fazenda “austero”) e a Argentina estagnada e eivada de tensões políticas pré-eleitorais.

Há dez anos no poder, o partido Frente Ampla enfrentará desafios similares ao do PT no Brasil, cristalizados em poucas palavras: crescimento econômico, reforma política, oposição fortalecida (ou mais confiante) e ganhos sociais. Tanto lá como no nosso país, uma parcela considerável da população ascendeu da pobreza e tem reivindicações mais ambiciosas do que ter o que comer; ou seja, provavelmente não compre tanto o elogio à humildade de Mujica.

E, voltado ao nosso velho amigo Pepe, deixo um pequeno doc sobre ele do político argentino Daniel Filmus. Pese às críticas que alguns uruguaios podem (e tem o direito) de ter sobre o seu governo, é inegável que na fauna política internacional, ele vai deixar saudades! ❤

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