2015: o ano das grandes expectativas

ano novo

Como já é bem sabido, o ano novo em Buenos Aires não chega a ser um agito! Com a presença bastante expressiva de brasileiros ou desavisados ou determinados a fugir do tumulto, a cidade conta com opções discretas e pouco efusivas como um show de tango aqui, uma queima de fogos borocoxô acolá.

De agora até meados de fevereiro, os porteños que podem se refugiam do calor intenso no litoral daqui, do Uruguai ou do Brasil, deixando a capital-megalópole com uma calma pouco comum. Entretanto, não dá para pensar num país em férias, alheio aos acontecimentos, suavemente disfrutando das praias sul-americanas; pois o ano de 2015 protagonizará uma das transições mais importantes da democracia argentina, a ser apimentada por desafios econômicos e sociais substanciais.

É o ano de despedida de Cristina, depois de mais de uma década de governo dos Kirchner. Com um estilo mais, por assim dizer, extravagante que o de seu marido, ela consolidou um modelo controverso que está longe de gerar unanimidades. Muito pelo contrário. Os que amam Cristina entoam cânticos de “vamos por más“, enquanto aqueles que a odeiam concentram todas as suas esperanças na sua incapacidade de fazer sucessor. Já os mais céticos, ponderam que talvez uma derrota estratégica esteja nos planos da atual presidenta, para voltar daqui a quatro anos como a salvadora da pátria.

Por outro lado, o ano começa já pegando fogo ao sabor da tão-falada renegociação com os fundos abutres. Com o fim da vigência da cláusula RUFO (que inviabilizava o acerto de contas com os mesmos sem disparar um devastador efeito em cascata nos títulos da dívida já renegociados), abre-se a possibilidade de Cristina-Kirchneracordo. Ainda assim, no caso do governo simplesmente optar por pagar, seu discurso de enfrentamento cai por terra e, a não ser que faça uma mirabolante e genial manobra de retórica, pode enveredar numa contradição humilhante justamente em ano eleitoral.

No mais, a renegociação pode ditar os rumos de um errante cenário econômico que tem sido caracterizado nos últimos três anos por crescimento pífio, altíssimas taxas de inflação, situação de emprego preocupante e aumento dos níveis de pobreza. Mesmo com um governo que se orgulha de haver implementado um modelo que por muito tempo deu bons sinais (sobretudo nos tempos de Néstor), está claro que a desestruturação pela que passa a Argentina desde meados da década de 1970 segue sem soluções consistentes. Dessa maneira, aqueles que pretendem tomar as rédeas do país a partir de 2016 ou apostam numa redenção demagógica e vazia, ou apresentam um verdadeiro plano de reposicionamento do país na economia global, considerando a delicada situação regional (com seu maior parceiro comercial, o Brasil, mal das pernas e o Mercosul num impasse) e a reconfiguração cheia de incertezas dos fluxos ao redor do mundo.

Aproveitando esse momento de reflexão que é a passagem do ano e tomando em conta tudo que mencionei acima, vou tirar o mês de janeiro para repassar com mais profundidade os temas mais quentes da agenda argentina para o ano que vem. Numa série de textos sobre a economia, a política, os temas sociais e o cenário externo do país, pretendo consultar a opinião de especialistas e contextualizar melhor o que muitas vezes aparece solto no jornalismo fatual do dia a dia.

Afinal, que país é esse que já gerou tantas expectativas positivas no passado e que atualmente é, sobretudo ao lado da Venezuela, um dos bad boys da América do Sul?

Aguardem as atualizações das próximas semanas e feliz 2015!

Índice de textos já publicados:

1. Quem vai às urnas?

2. A Economia

3. A Política

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