2. A Economia

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A primeira dificuldade que tive para começar esse post foi encontrar uma foto que pudesse ilustrá-lo. Ao se meter a escrever um panorama da economia argentina em 2015, o que há de mais representativo a respeito dela: Uma bela ceifadeira trabalhando extensos campos de soja? Gruas enchendo containers no historicamente movimentado Porto de Buenos Aires? O parque industrial a pleno vapor? A praça financeira? Os arranha-céus de Puerto Madero? Uma montagem que inclua todas as anteriores? Ou uma dramática versão em preto-e-branco sugerindo decadência em algumas delas?

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Dependendo de quem se ouve, todas as alternativas são bastante possíveis e refletem também o que se vem sonhando para a economia da Argentina desde os tempos de glória da primeira metade do século XX – uma época jamais esquecida e cuja passagem para os tempos atuais se caracteriza como um dos grandes traumas sociais da nossa região.

Finalmente optei pelo dinheiro em espécie – o peso argentino – porque, como iremos ver, é a sua relação com a moeda estrangeira, ou frequentemente a falta dela, que determinou para que lado do espectro se concentrava a aposta para um futuro que permanece indefinido.

Na eleições de 2015, como aquela que se celebrou no Brasil em 2014, muito se debaterá sobre temas como a corrupção, a sanha concentradora dos Kirchner, a liberdade de imprensa, as relações internacionais, as restrições à economia, etc. Mas, no final das contas, e também à semelhança da contraparte brasileira, se estará discutindo a definição desse projeto de país que nos últimos quarenta anos esteve caracterizado por manobras radicais, deslumbramentos e tombos inevitáveis.

Mas, afinal, que cartas estão sobre a mesa?

Antes de classificar a Argentina como uma economia bolivariana de traços socialistas e manejada por radicais tresloucados, como pintam muitos analistas da grande imprensa, é importante identificar o tão-falado proyecto que foi se desenhando ao longo dos doze anos de governo kirchnerista.

Em comum com os proyectos anteriores, está o que eu chamaria de “eterna nostalgia argentina” – um contraponto fundamental àquela história de “Brasil-país-do-futuro”, o que considero ser a maior diferença entre nossos países. Para resumir, desde que a economia por aqui começou a desandar pelos idos da década de 1970, se vislumbra o retorno a alguma visão do passado, ora relacionado ao esplendor do campo no início do século XX, ora apontando ao sonho modernizador de figuras como Raul Prebisch (o Celso Furtado deles) que inaugurou a Argentina industrial.

Em outras palavras, à diferença do espírito brasileiro que está constantemente projetando-se para um futuro abstrato que, em linhas gerais, se espelha num mix de conquistas sociais europeias e vigor econômico estadunidense (atualmente, talvez, chinês), o argentino médio e suas lideranças políticas o fazem com base no retorno a um passado que, no final das contas também é abstrato pelo forte componente de idealização que está presente em quaisquer versões deles.

No relato dos Kirchner, o passado que se deve resgatar é aquele em que o dinheiro remunerava o trabalho e que, num país como a Argentina, só poderia ter seus postos concentrados na indústria local. Para isso, muito se fala no retorno às PyMEs industriais (pequenas e médias empresas no mundo hispanohablante) que foram destruídas no decorrer dos anos 70, 80 e 90 com políticas neoliberais que abriram o país à competição internacional de maneira brutal e súbita.

Durante o governo de Néstor, se buscou esse resgate através de aumentos de Captura de Tela 2015-01-13 às 21.43.55competitividade via alinhamento de preços. Após uma década de distorções causadas pela Convertibilidade, quando o peso valia artificialmente um dólar e o que era produzido aqui simplesmente havia se tornado caro demais, foi realizada uma série de desvalorizações, que recuperaram os níveis de atividade industrial e os níveis de emprego no setor. Ou seja, Néstor obteve um êxito incontestável numa época em que a economia do país estava em frangalhos. Os problemas surgiriam depois, já com Cristina.

Conforme a conjuntura internacional ia nublando a partir da crise a partir de 2008, foram adotadas medidas heterodoxas que foram se sobrepondo, num espiral que criou novas distorções.

As mais polêmicas na relação bilateral com o Brasil e no âmbito do Mercosul foram as chamadas “trabas a la importación“, que retiraram as licenças automáticas que autorizam a entrada de produtos no país, com o objetivo de protejer a indústria local, mas também para frear a sangria de dólares numa economia sem acesso ao crédito internacional e com a balança comercial deficitária. Houveram denúncias de corrupção na concessão das licenças, o comércio com o Brasil despencou e a falta de alguns produtos foi fortemente alardeada pela imprensa local (o último protagonista dessa história foi o absorvente feminino), sem falar do impacto nos preços. Esse é apenas mais um componente de um dos problemas mais graves percebidos atualmente na Argentina: a inflação.

Uma desvalorização para aumentar a competitividade dos preços de um país no comércio internacional não pode ser seguida de inflação, se não gera apenas uma alteração nominal perigosa pois pode fazer disparar um bicho que depois é difícil de controlar. Nos tempos de Néstor, funcionou da melhor maneira, mas depois da crise, o governo foi forçado a emitir dinheiro para fazer frente aos gastos correntes. Sem a possibilidade de esterilizar a desvalorização com a emissão de títulos da dívida pública (lembre-se que a Argentina declarou a maior moratória da história em 2001), a história foi diferente.

Talvez para não gerar uma espiral de más expectativas, o governo começou a interferir na medição da inflação, o que no final das contas só serviu para minar um pouco mais a confiança no IBGE deles (o INDEC) e fazer proliferarem medições alternativas, como Captura de Tela 2015-01-13 às 21.46.10aquela realizada por uma comissão do Congresso, por consultorias privadas e até centrais sindicais. Em 2014, o INDEC registrou pouco mais de 22%, enquanto se falava em até 40% entre meios não-oficiais.

Outra medida tomada para controlar a inflação foi o Precios Cuidados, um programa no qual o governo fez um acordo com produtores e varejistas para oferecer uma cesta de insumos com preços controlados. Pelo lado dos serviços públicos, subsidiou pesadamente algumas tarifas, aliviando o bolso das família daqui, mas com prejuízo de investimentos na infraestrutura.

Alguns resultados já foram notados nos índices, mas certamente não é possível dizer que um conjunto de medidas dessa natureza não causem distorções que em algum momento baterão na porta da Argentina, isso sem falar de problemas como cortes de luz e falhas no sistema de transmissão de dados – consequências diretas da falta de investimento em expansão e manutenção da infraestrutura.

Uma galinha velha que bateu porta do país depois de anos aparentemente adormecida foram os famigerados fundos abutres, aqueles agentes financeiros internacionais que jamais aceitaram negociar as trocas de títulos da dívida realizadas em 2005 e 2010. Em franca negociação, agora em condições menos catastróficas para o governo, qualquer resolução do conflito terá consequências, seja interna ou internacionalmente. Se a Argentina correr da dívida, se consolida como bad boy das finanças internacionais; se pagar, se deslegitimiza ante uma horda anti-imperialista na qual o governo vem se entrincheirando desde que o assunto veio à baila.

Se optar pela primeira alternativa, o problema fica de herança para o governo eleito em 2015, assim como o drama de fechar as contas no fim do mês sem poder rolar a dívida de alguma maneira, o que, na falta de dólares, só tem sido possível via outro mecanismo criativos: sugar ao máximo as rendas obtidas com o competitivo e eficiente setor agropecuário e as restrições ao câmbio.

O primeiro caso gerou uma das inimizades mais importantes dos Kirchner: basicamente o setor mais dinâmico da economia argentina. No segundo, embora o governo tenha flexibilizado o regime muito nos últimos tempos, ainda existe uma brecha de cerca de pouco mais de 50% entre a cotação oficial da moeda americana e a cotação negociada nas ruas (o chamado dólar blue).

Com a inflação em alta e a falta de confiança dos argentinos nos bancos do país desde o corralito em 2001, existe uma grande quantidade de economias dos cidadãos, sem falar das empresas, que correm à margem do sistema financeiro, seja guardadas debaixo do colchão em dólares, seja evadidas ilegalmente do país (o escândalo do HSBC foi apenas o que veio à tona; é difícil imaginar que o rombo não seja maior).

Como vimos, a política econômica argentina tem se caracterizado nos últimos anos por uma série de dribles que em algum momento foram considerados até por um prêmio Nobel uma maneira original de lidar com crises de dívida externa, mas que, no fim das contas, abalam a confiança no país. E não estou falando nem do famigerado mercado e dos investidores avessos ao risco, mas da população em geral acostumada à contramarchas e derrapagens.

Veremos no post seguinte, onde serão discutidas as forças políticas daqui, que as propostas nesse sentido são pouco claras. É difícil dizer em época de eleições o que poderá ser feito para ir substituindo essas gambiarras por bases econômicas mais sólidas – sobretudo quando isso deve incluir cortes de gastos e ajustes recessivos para “limpar a casa”.

Entretanto, uma coisa é certa: o povo não irá tolerar mais um giro de 180 graus como aquele dado pelo governo de Isabelita Perón em 1975 (o chamado Rodrigazo), pela Junta Militar alguns anos depois, por Menem na década de 1990 ou por De La Rúa no princípio dos anos 2000. O equilíbrio de forças no país é delicado e os anos de 2013 e 2014 foram marcados por grandes demonstrações das centrais sindicais (como greves gerais) contrárias aos ajustes.

Talvez trafegar nesse terreno caudaloso seja o maior desafio do próximo ocupante da Casa Rosada. De onde ele sairá?

Até a próxima!

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