Crônica de um país conflagrado

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Num famoso manual para estudantes em dúvidas quanto a sua vocação, sugestivamente publicado pela mesma editora responsável pela revista Veja, a descrição da profissão de jornalista dista um pouco da realidade:

“Ele investiga e divulga fatos e informações de interesse público, redige e edita reportagens, entrevistas e artigos, adaptando o tamanho, a abordagem e a linguagem dos textos ao veículo e ao público a que se destinam”

No Brasil e na Argentina, creio que na maior parte do mundo também, essa relação é distorcida. Para perceber isso, basta passar o olho nos principais veículos em tempos de escândalos potentes como os casos de corrupção na Petrobras lá e a morte do Procurador Nisman aqui. Dessa análise despreocupada, se depreende que o jornalista:

“Investiga e divulga fatos e informações de interesse particular, redige e edita reportagens, entrevistas e artigos, condicionando o tamanho, a abordagem e a linguagem dos textos ao veículo e à pré-disposição do público a que se destinam”

Trata-se de uma mudança sutil, mas fundamental à profissão jornalística, o que tem suscitado debates a cerca da regulação da atividade de informar em geral.

Não entremos nesse pântano caudaloso, mesmo porque a lei de meios (aprovada na Argentina, cogitada no Brasil) também é condicionada nas análises disponíveis pelos grandes veículos de comunicação (“É censura!”). Entretanto, é interessante observar que, se no Brasil, mais do que chegar à verdade sobre os procedimentos mau-cheirosos que mancham a reputação da Petrobras, busca-se desesperadamente vinculá-los ou desvinculá-los à Presidenta Dilma; na Argentina, a morte do Procurador Nisman tornou-se a oportunidade de derrubar ou legitimar um governo.

Aqui, no entanto, como em quase todas as searas, o bate-boca é mais evidente. A sensação generalizada é que se vive em dois países que subsistem em paralelo se você resolver acompanhar o caso através dos olhos de Clarín e La Nación ou Página/12 e Infonews, para dar alguns exemplos.Captura de Tela 2015-01-24 às 14.58.02

O caso mais anedótico da cobertura jornalística essa semana foi certamente as informações bombásticas fornecidas pelo chaveiro que abriu a porta do apartamento de Nisman. Para uns, ele disse com todas as palavras que a porta de serviço estava aberta; para outros, a chave estava apenas metida na fechadura do lado de dentro, o que facilitaria a sua abertura, mas a porta estava fechadíssima. Qual é a verdade verdadeira? Ninguém sabe, pois quando a guerra de versões foi se tornando complicada demais, já era hora de passar ao próximo ato do espetáculo.

Concorrendo por una cabeza como a informação mais contraditória do momento está a distância do disparo. No sábado, o Clarín arrancou de “fontes judiciais” que a arma estaria a mais de 15 centímetros da cabeça, “o que que seria absolutamente anormal para um caso de suicídio”. Já a Telam, agência oficial de notícias, apareceu domingo com declarações da procuradora responsável pela investigação do crime (?) Vivina Fein que assegurou: “a distância do disparo de acordo com a autópsia não foi mais de um centímetro”. Nesse caso, a possibilidade de suicídio volta à baila?

Essas pequenas histórias obviamente pareceriam desconcertantes não fosse a disputa generalizada de quem consegue inventar a história mais mirabolante e macabra, de preferência temperada com a participação de serviços de inteligência, superpotências, porões análogos aos da ditadura e agentes duplos prontos para dar uma declaração que muda tudo do dia para a noite. Em outras palavras, trata-se apenas de mais uns fios desencapados de uma cobertura mediática em pleno curto-circuito.

O caso mais emblemático é certamente a própria denúncia de Nisman que, apresentada com requintes de nitroglicerina pura, de furo do século, terminou um pouco esquecida e ridicularizada nos meios jurídicos e mesmo acadêmicos. O filósofo de esquerda Fernando Buen Abad Domínguez me contou que, sem entrar no mérito das acusações individualmente, o trabalho realizado por Nisman deixava a desejar grotescamente desde um ponto de vista metodológico. “Se eu faço uma pesquisa de seis meses numa universidade e apresento uma coisa assim, eu saio queimado como profissional”, contou, “sobretudo se eu recebesse proporcionalmente o que foi despejado na investigação dele”.

Abad Domínguez se refere ao montante destinado à Fiscalía Especial criada para solucionar o caso AMIA que tem um orçamento milionário e está há dez anos sem fornecer uma pista consistente sequer sobre o embroglio. Quando parecia que o procurador ia finalmente aportar algo de novo, aparece um chumaço de 300 páginas que poderia ter sido escrito por um discípulo pouco esforçado de Ágata Christie.

E enquanto os jornais opositores se retorciam para alertar que tudo ali tinha “fundo” de verdade e que o legado do honorável Nisman deveria ser levado a diante, a Presidenta Kirchner se encarregava de colocar mais lenha na fogueira mudando a versão inicial de que ele havia cometido um suicídio e sugerindo a tese assassinato:

“Hoje não tenho provas, mas tampouco tenho dúvidas. Era preciso trazê-lo urgentemente ao país para aproveitar o clamor internacional provocado pelos atos terroristas ocorridos na França. Nisman mesmo fala disso no Whatsapp quando afirma que não imaginava [voltar] tão rapidamente, referindo-se ao que seria o retorno imprevisto. O que ele nunca poderia imaginar é que o tempo não somente havia começado a correr para a ‘denúncia do século’, mas também para sua própria vida”

Cristina sugere forças chafurdando num esgoto de intrigas e conspirações sem, no entanto, apontar o dedo para ninguém em específico. Quem leva as especulações adiante é Juan Gabriel Labaké, famoso e polêmico advogado argentino que há pouco tempo escreveu um relatório sobre as ligações de Nisman com os serviços secretos de Estados Unidos e Israel. De acordo com ele, o procurador utilizou um informe criado pela CIA e pelo Mossad, traduzido pelo araponga argentino Antonio Stiusso, e que teria o objetivo de derrubar o governo de Cristina enquanto criava um pretexto para uma ação militar no Irã.

“A morte de Nisman tem o dedo da CIA!”

É possível que eu esteja redondamente enganado, não nego, mas é impossível não sentir muitas vezes que a Argentina sofre de uma egocêntrica megalomania geopolítica: centro das atenções da CIA, da Al Qaeda, da KGB e da GESTAPO – como se chama o serviço de inteligência do Irã mesmo?

Tudo, é claro, embalado com aquela precariedade criolla de Nuestra América. Se a suposta célula do Hizbollah na Argentina era uma modesta quitanda no bairro do Palermo, é quase instintivo imaginar a SIDE (a central de inteligência daqui) operando com datilógrafos e agentes bigodudos usando óculos rayban aviador.

Entretanto, fora do mundo da imaginação, muita coisa corrobora a sensação de que aqui vivemos uma versão subtropicale de House of Cards: jornalista refugiado em Israel (vítima ou fanfarrão?), o Twitter da presidência revelando informações confidenciais (é crime?), comunicado de uma associação de jornalistas denunciando um momento de “tensão e medo” na classe… Enfim, agora é esperar que mais fontes judiciais joguem suas informações quentinhas no ventilador e que se sejam desmentidas logo em seguida, até que esse caso transcenda ao hall de enigmas argentinos jamais resolvidos.

Porque uma coisa é certa: como nas outras ocasiões, não há resultado para essa investigação que agrade tanto ao governo quanto à oposição. Seria fantástico se eles se satisfizessem com “a verdade”, mas, na raiz desse caso, estão “verdades” que não podem e que dificilmente serão contadas.

Se a perícia comprovar que ele se suicidou, os 70% de argentinos que não acreditam nessa tese (a Presidenta, inclusive) levantarão o cenho com desconfiança e tratarão de mitificar o caso da maneira que melhor lhes convenha – uns ambientados nas quitandas do Hizbollah, outros nas lojinhas do Mossad, outros nos aparelhos clandestinos da Cámpora e outros diretamente do Pentágono.

Delírio? Vai saber…

 

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