O Agente Stiusso

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Eu prometo que o meu próximo post será sobre os melhores hambúrgueres de Buenos Aires, compras ou algum assunto assim que trate de equilibrar esse blog. Mas por enquanto, não resta alternativa: temos que falar de Jaime Stiusso, o agente tão secreto, mas tão secreto, que até outro dia não tinha nem rosto e que, desde a morte do procurador Alberto Nisman, está dando o que falar por aqui.

O que sabemos dele não vem de uma página da Wikipedia, de uma autobiografia ou de alguma entrevista que tenha dado em algum momento. Stiusso é um mistério que vem se desvelando de uma acusação aqui e de um rumor dali que, sempre desmentidos, aumentam a fumaça no seu entorno. O certo, seguro e comprovado é que o engenheiro de 61 anos atuou na antiga Secretaria de Inteligência do Estado (a ex-SIDE) entre 1972 e dezembro do ano passado, o que, como veremos, é o suficiente para congelar a espinha!

(para acompanhar o texto, recomendo para trilha sonora)

Chamado a prestar depoimento no caso da morte de Nisman, lhe foi concedida a permissão para falar TUDO o que sabe e o que fez enquanto esteve em serviço, ou seja, ele está livre da confidencialidade que exigia sua posição. Para alguns analistas, inclusive para este que vos escreve, o governo deu assim uma demonstração de destemor – num movimento que se iniciou com a desclassificação de todos os documentos relacionados à investigação da causa AMIA.

Mas nem tudo é tão simples quanto parece… Trata-se de um agente que esteve metido em um dos órgãos mais controversos do Estado argentino desde a década de 1970, passando por uma das ditaduras mais brutais do mundo, pelo polêmico governo de Carlos Menem (cheio de crimes indecifráveis, como a explosão de Rio Terceiro e a morte do filho do presidente – um atentado?) e, finalmente, por quase todo o período K (por vezes, acusado de usar os serviços de inteligência para fins políticos). Teria contatos diretos com a CIA estadunidense e o MOSSAD de Israel, tendo trabalhado lado-a-lado com Nisman para convalidar a linha de investigações sobre o atentado da AMIA patrocinada por essas duas agências, segundo cabos vazados do Wikileaks. E, como se não bastasse, evidências comprovam que falou com Nisman ao telefone por mais de dez minutos horas antes de seu assassinato/suicídio/suicídio induzido.

Mas o que estará disposto a falar esse araponga com mais de quarenta anos de experiência surfando nesse mar de mortes e mistérios?

Será que nos contará que papel ele teve na elaboração da denúncia apresentada por Nisman antes de morrer? Logo após que se revelou o teor da mesma, ficou claro que muito pouco provavelmente foi escrita pelo procurador. Cheia de imprecisões jurídicas e crassa falta de provas, seria bizarro que Nisman, um jurista com tantos anos de experiência, fosse capaz de apresentar algo assim. Junto com a informação consistentemente desencontrada de que ele teria interrompido intempestivamente uma viagem à Europa para apresentar a denúncia, muito se especula que Stiusso a presenteou como forma de vingar-se da Presidenta Kirchner, pela demissão em dezembro. Ou tudo não teria sido uma armação para encurralar Nisman e, finalmente, induzí-lo ao suicídio?

Será que vai dar detalhes da investigação da causa AMIA e se tinha, de fato, contato com Diego Lagomarsino?Captura de Tela 2015-02-06 às 20.46.33

Será que contará sobre a relação estreita que manteria com deputada opositora, até aqui irreprensível, Elisa Carrió, como indicou o também deputado (ex-correligionário) e também irrepreensível Pino Solanas? A guinada de Lilita à oposição total ao governo nos últimos meses, aliando-se até ao conservador Chefe de Governo de Buenos Aires Maurício Macri e apresentando uma denúncia contra a Presidenta por encobrimento do caso Nisman (além de acusá-la textualmente de ser artífice de sua morte) tem adicionado mais lenha à fogueira. O Secretário da Presidência Aníbal Fernández a acusou de “guarda-costas de Stiusso”, lembrando que Solanas está longe de ser um aliado do governo. Carrió negou veementemente ter qualquer contato com Stiusso.

Com tudo que está acontecendo por aqui esses dias, absolutamente ninguém mais quer ser amigo do recluso ex-agente secreto (que só deu uma entrevista até hoje). Ele tem sido passado adiante como num jogo de batata-quente, primeiro no colo de Lagomarsino (que negou), depois no colo da Presidenta e de seu falecido marido, agora, Lilita. Entretanto, tudo pode mudar quando o homem abrir a boca.

Salve-se quem puder!

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