Sentimentos desencontrados na Marcha do Silêncio

0000442228

Ontem (18), quinze minutos antes do início da chamada Marcha do Silêncio ou #18F, desabou um aguaceiro sobre a cidade de Buenos Aires. Se o mesmo tivesse acontecido na maioria das cidades do mundo, era de se esperar um enorme fiasco: com um comparecimento que já parecia ser massivo de, em boa parte, pessoas pra lá dos cinquenta anos de idade, nessas outras cidades a rua iria se esvaziando e os tais procuradores melancolicamente caminhariam até o palácio do governo sozinho.

Mas isso não aconteceu em Buenos Aires. De repente um mar de guarda-chuvas foi se abrindo  e a chuva forte apenas deu um tom um pouco mais lúgubre àquele lamento pela morte em estranhas circunstâncias do procurador especial da causa AMIA Alberto Nisman.0000442383

Contrário ao que propunha a convocatória, entretanto, não se tratou de uma marcha silenciosa. Como no protesto realizado dias após o sinistro, os manifestantes ora batiam palmas, ora entoavam emocionados o hino argentino: uma imagem verdadeiramente tocante capaz de derrubar qualquer cinismo com relação à natureza do evento, por si só, contraditório, polêmico e alvo de tantas críticas desde organizações próximas ao governo e mesmo do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, um costumeiro crítico da Presidenta Cristina Kirchner:

“Atrás dessa marcha vão estar oportunistas políticos que jamais defenderam os Direitos Humanos”

De acordo com a amiga Vera Pérez Guarnieri, que se aventurou comigo debaixo do temporal durante a cobertura do evento, aqueles senhorinhos e senhorinhas que se aboletavam debaixo do guarda-chuva tinham um motivo especial para estar lá. “Eles se lembram de um tempo em que as pessoas morriam ou sumiam para aparecer tempos mais tarde como suicidas”, me contou, “têm isso muito vivo na memória”. Um senhor que eu entrevistei no meio do caminho confirmou essa tese:

“Estamos aqui para defender a democracia. Esse país já sofreu muito na ausência dela”

Todos esses aportes somados à tanta obstinação já começavam a mudar a minha opinião sobre o 18F, que eu havia expressado aqui um dia antes, quando alguns dados foram caindo de pouco em pouco para, na verdade, reforçá-la e, ainda assim, dar àqueles senhorinhos e senhorinhas um caráter ainda mais melancólico. Vamos a eles.

A marcha foi convocada por um grupo de procuradores sob o signo de que se tratava de um tributo à memória de Nisman, não um protesto contra quem quer que fosse. Guillermo Marijuan, Raúl Plee, José María Campagnoli, Carlos Stornelli, Germán Moldes e Ricardo Sáenz, defendendo-se da contradição de “pedir justiça” sendo parte do corpo judicial, desde o início remarcaram o caráter de homenagem, embora, de pouco a pouco, fossem se somando políticos da oposição e apoios nas redes sociais que confirmavam: essa seria uma marcha contra o governo e carregaria um pedido de justiça.

Justiça por quem? Pela morte de Nisman, pelo atentado à Mutual Israelita AMIA em 94 que ele investigava? O silêncio não nos deixou saber, mas se fosse pela primeira hipótese, não seria cedo demais para fazer esse pedido?

Nisman apareceu morto em seu apartamento faz um mês e as investigações estão em pleno curso, sendo seguidas de perto pela população através da imprensa. A Procuradora Viviana Fein aparece todos os dias para dar um detalhe a mais sobre o caso (tendo, inclusive, sido apelidada pelo Secretário da Presidência de “Droopy”, aquele cachorrinho que aparece em vários lugares ao mesmo tempo dos desenhos animados). Embora várias irregularidades já tenham transparecido, desde a autópsia até nos procedimentos do dia-a-dia, seria injusto acusar o governo de obstruí-las (senão pela falastrice de Cristina e seus colaboradores, que não se tolhem de juntar-se ao mar de especulações). Preocupante seria se já houvessem sido apontados culpados em menos de quatro semanas, num momento em que ainda se ventila a hipótese de suicídio. Se, de fato, houver se suicidado, para quem seria o pedido de justiça?

Por aqui se diz que, independente da confirmação da tese de assassinato ou suicídio, o governo poderia ser cobrado pela pressão exercida contra ele, sobretudo depois que Nisman anunciou a denúncia contra a Presidenta Kirchner e alguns dos seus mais altos funcionários. Não dá pra entrar em méritos específicos sobre essa tal pressão (mesmo porque, em seu silêncio, os procuradores jamais explicitaram a natureza dela), mas o que se viu no fim de semana entre a denúncia e morte de Nisman foi apenas uma chuva de declarações em defesa própria – algo muito natural.

Já se fosse pela segunda hipótese (justiça pelo caso da AMIA, objeto das investigações de Nisman) seria estranho que se protestasse ao lado desses procuradores. Nisman mesmo, que investigou o caso por dez anos contando com um orçamento milionário, já havia sido acusado por grupos de familiares de vítimas do atentado pela morosidade e até encobrimento. “É um salafrário”, me disse Sérgio Burstein do coletivo 18-J dias antes da morte do procurador.

Captura de pantalla 2015-02-19 a la(s) 11.51.59

O Papa Francisco se encontra com Sérgio Burstein no mesmo dia da marcha

Desses procuradores que fizeram a convocatória da marcha de ontem, pelo menos Raúl Plee e Germán Moldes também já foram acusados pelos familiares das vítimas de trabalhar contra a resolução do caso, como lembrou Diana Malamud do grupo Memória Ativa. Tanto para ela quanto para Burstein, esses procuradores convocaram essa marcha para desviar a atenção do julgamento que se dará a partir de julho sobre os “encobridores” da causa AMIA, no qual Plee e Moldes estão no banco dos réus.

É interessante notar que o Papa Francisco recebeu no Vaticano a visita de Sérgio Burstein, oferecendo “qualquer tipo” de ajuda para a sua organização e para as vítimas do atentado da AMIA. Já que esse encontro ocorreu justamente no dia da Marcha, poderia se inferir uma mensagem política do santo pontífice?

Nos debates imediatamente posteriores à manifestação que dominaram a TV argentina, muito se falou do significado do ato. Enquanto opositores em canais opositores destacaram a quantidade de pessoas presentes, fazendo até comparações estapafúrdias com o dia da independência argentina, nos meios mais críticos se levantaram questionamentos que eu julgo absolutamente pertinentes. Será que aquelas pessoas sabem exatamente pelo quê estavam protestando? Qual o papel dos meios de comunicação nessas contradições?

Cabe perguntar também se isso realmente importa, porque, de tudo isso, se pode ao menos depreender que o governo de Cristina Kirchner está sob fogo cruzado. Nos próximos meses, terá que enfrentar uma oposição em que se misturam questões legítimas (como o combate à corrupção, o manejo errático da economia, etc.) e questões verdadeiramente espúrias (como tramas corporativas no meio judicial e dos serviços de inteligência, além de oportunismos eleitorais).

E, nisso, na forma de comunicar-se, tanto a Presidenta quanto seus funcionários mais próximos têm se mostrado um desastre. Quando confrontados com acusações, mesmo as mais infundadas, eles falham em desqualificar o seu teor, concentrando-se em desmoralizar o acusador, envolvendo-o em teorias de conspiração geopolítica internacional que, embora possam ter um fundo de verdade, confundem mais do que informam.

¡A ver lo que pasa en los próximos días!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s