China: a salvação da lavoura?

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Em visita ao Brasil essa semana, o primeiro-ministro chinês Li Keqiang chegou distribuindo sorrisos – e propostas. De acordo com o que vem circulando pelos corredores do Planalto, estão na mesa de negociações acordos de investimento na ordem de 50 bilhões de dólares em diversas áreas da nossa estremecida economia. Entre os projetos que podem ser contemplados com a disposição dos asiáticos está uma obra de infraestrutura que pode, literalmente, revolucionar o país e, de quebra, toda a América do Sul: uma ferrovia que ligará as costas do Atlântico (no Brasil) às do Pacífico (Perú), escancarando as portas do mercado asiático para os países do lado de cá.

Mas engana-se quem pensa que aqueles olhinhos puxados estejam virados somente para seus parceiros sul-americanos no BRICS. Há cerca de uma semana, era a vez de Cristina Kirchner receber uma delegação chinesa para, igualmente, discutir projetos ambiciosos aos sul do rio da Prata. Meses antes, ela visitava Pequim para expandir a chamada “associação estratégica” que incluirá a construção de uma central nuclear, duas hidrelétricas e um parque eólico, que tem especial importância aqui dado o déficit energético do país.

Entretanto, como provavelmente acontecerá no Brasil, aqui, os acordos foram alvo de críticas duríssimas por parte de analistas, meios e políticos opositores.

Os primeiros a externarem preocupação foram os industriais (agrupados na Unión Industrial Argentina – UIA – a CNI deles) , que lançaramum alerta de tipo: “não existe almoço grátis”. Foram criticadas sobretudo as cláusulas que permitem obras sem licitação (o que favoreceria as companhias chinesas) e a permissão de ‘importar’ mão-de-obra de lá. Até o Brasil entrou no assunto, já que os industriais fizeram questão de sublinhar que nosso país assinou acordos similares “sem tantas concessões”.

Alguns especialistas em energia (entre eles, Emilio Apud, Julio César Aráoz, Enrique Devoto, Roberto Echarte, Alieto Guadagni, Jorge Lapeña, Daniel Montamat e Raúl Olocco) também saíram para criticar os acordos, em um documento que afirma: “ao limitar a convocatória de ofertantes de maneira transparente, as concessões de grandes obras públicas constituem fonte de sobrepreço, baixa qualidade de insumos e comissões excessivas para os concessionários e intermediários”.

Em termos mais abstratos, diversos intelectuais renome, reunidos no chamado Grupo Consenso, divulgaram um manifesto com vinte pontos que questiona as opções do governo K por alianças com atores controvertidos (China e Rússia), advogando pela revalorização das “relações com os países que são centros de decisão internacional, (…) a Europa e os Estados Unidos”.

Os críticos vêm comparando os acordos ao infame Pacto Roca-Runciman, entre a Argentina e o Reino Unido na década de 1930, que teve um forte impacto sobre as exportações de carne à então potência europeia enquanto baixou as tarifas de importação para os produtos ingleses. Ainda hoje é considerado um dos episódios mais humilhantes da história argentina.

Essa comparação é, naturalmente, rechaçada pelo governo e analistas afins. De acordo com eles, os investimentos chineses, sobretudo na geração de energia, irão baratear esse insumo básico à industrialização, abrindo um ciclo auspicioso de mais competitividade. Tudo depende, advertem, de como se irá gestionar os acordos e da política levada a cabo pelo governo.

A história da Argentina, e do Brasil também, sempre teve dilemas dessa natureza. Com uma persistente escassez de divisas, nossos países tiveram que continuamente buscar financiamento sustentável externo, às vezes em condições favoráveis (como no caso da instalação da CSN em Volta Redonda no contexto prévio à 2a Guerra Mundial), às vezes em condições análogas ao da abertura desenfreada e desastrosa dos anos 1990.

Deve-se destacar, entretanto, que estamos em um momento internacional mais parecido com o mundo em plen reorganização geopolítica do entreguerras do que o unipolarismo do Consenso de Washington; e, nos conta a história, que quem obteve os melhores resultados não foi a Argentina (reforçando relações com uma potência decadente, na época, o Reino Unido), mas o Brasil (habilmente jogando com as potências emergentes, os EUA e a Alemanha).

Nesse contexto, é salutar criar e manter vínculos com o novo dragão chinês – mas sem descuidar de ouvir as propostas dos tais “parceiros tradicionais”. É no pêndulo, não nos alinhamentos automáticos, que a gente historicamente saiu ganhando.

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