Máquina pública (?!)

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Tem vezes que a política na Argentina, ao menos sob alguns aspectos, parece coisa da década de 80. Essa coisa do uso eleitoreiro da máquina pública não colou muito por essas bandas e, em meio ao pega-pra-capar que tem sido o pleito tanto a nível nacional quanto a nível local, quem fica mesmo na berlinda são esses pobres coitados que estão correndo por fora.

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Os Supervisores

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Era uma vez um país da América do Sul em que, depois de anos de governos neo-liberais, elegeu uma liderança de esquerda. Os anos foram passando e vários coleguinhas na vizinhança foram aparecendo e, com a ajuda de um longínquo e voraz companheiro de olhinhos puxados em acelerada fase de crescimento somada a uma crise generalizada entre os ricos primos do norte, nossa liderança de esquerda e seus amigos conseguiram a façanha de enriquecer sem concentrar muito.

De repente, nos idos de 2009, enquanto o resto do mundo parecia um verdadeiro desastre, a imensa península sul-americana se apresentava como o futuro mesmo. Desassossegados intelectuais do norte olhavam para cá embasbacados: Jim O’Neill metia o Brasil no BRIC, Oliver Stone fazia um documentário sobre Chávez, Joseph Stiglitz saudava a maneira argentina de enfrentar crises, os exemplos seguem.

Obviamente, tudo isso se dava sem que perdêssemos completamente o charme de Macondo. Exóticos, indígenas, negros, com elites cuspindo fogo nos editoriais dos próprios meios de comunicação, sem, no entanto, serem capazes de enfrentar os números: crescíamos a quase 6%, as vendedoras do Bloomingdale’s estavam aprendendo português, a Venezuela estava com tanta grana que se dava ao luxo de criar uma rede de TV para dar “a nossa versão do mundo”.

Mas em algum momento os mandatos daqueles líderes de esquerda tinham que terminar – a pátina final de toda a maravilha sul-americana era a democracia -, de modo que havia dois caminhos a seguir: lançar mão de toda aquela popularidade e mudar a Constituição para extender indefinidamente seus mandatos ou eleger um sucessor. Nosso país optou pelo segundo.

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Foi dada a largada!

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O páreo já estava mais ou menos dado faz algum tempo, mas podia ter sido embaralhado pela vontade de Cristina. Entretanto, a mandatária fez exatamente o que está escrito no manual para “ganhar” as eleições no próximo dia 25 de outubro: escolheu seu candidato mais popular, mas com um fiel escudeiro na retaguarda.

Com a aposta dos mais caxias, Florencio Randazzo, fora da parada, as regras do jogo estão mais claras e no melhor estilo Fla-Flu ou Boca-River, como você preferir, foi dado o apito inicial para a sucessão de Cristina.

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O polêmico tema da maioridade penal em nossos vizinhos

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O espinhoso tema da maioridade penal não é exclusivo do Brasil, nem muito menos da América do Sul. Em diversos países do mundo ele às vezes volta ao debate, em geral, estimulado por aqueles que desejam baixar os limites para que gente mais jovem possa ser presa caso cometa algum crime. Entretanto, dada as condições não apenas socioeconômicas quanto, numa visão mais ampla, de estrutura histórica e social, é no Brasil e em nossos vizinhos que a discussão não envolve uma dimensão legislativa sobre o que é ser sujeito de direito penal, civil, eleitoral, etc – mas, sim, uma grita cheia de ódio e preconceitos que, no fundo, tem sede de vingança.

No Uruguai, o tema teve um desfecho através da discutível ferramenta do plebiscito. Na Argentina, segue a polêmica. Será que dá pra refletir um pouco sobre a realidade brasileira espelhando-se no caso dos vizinhos?

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♪ ♫ Dizem que sou louco… ♫♪♫

Cristina Kirchner lele

Um dos traços mais distintivos do zeitgeist argentino é uma certa egolatria napoleônica misturada um toque de quixotismo – uma tal postura desafiadora às injustiças do mundo. Cole essa características em um cenário de turbulências econômicas, polarizações políticas e líderes sem papas na língua, e pronto!

Não digo que eles sejam loucos – no atual cenário político brasileiro, qualquer um de nós que se atreva a jogar a primeira pedra imediatamente adquire um imenso telhado de vidro sobre o nosso lábaro estrelado. Mas, juntando as características que mencionei logo acima, o caldo para uma loucurinha aqui e outra acolá é tão fértil quanto as melhores terras pampeanas.

As últimas semanas foram especialmente ricas nesse sentido.

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Pizza!

PIZZERIA GUERRIN FOTO JUANO TESONE

PIZZERIA GUERRIN
FOTO JUANO TESONE

Continuando a saga iniciada com os hambúrgueres, escrevo um post sobre a minha (também vasta) experiência com as pizzarias de Buenos Aires – um dia chegaremos às milanesas. O encadeamento lógico das grandes pizzas que se podem encontrar na cidade deve também estar relacionado com aquele blá-blá-blá da imigração italiana, etc e tal. Mas de acordo com a minha vivência personal, a resposta seguramente iria pelo seguinte caminho: intensa vida noturna, bebedeiras homéricas, ressacas hercúleas… em que mais dá?

Os critérios usados nessa humilde crítica são sumamente subjetivos. Aqui importará mais a suculência do queijo esticando entre a boca e a fatia e a massa apenas suficientemente massuda do que os ingredientes de origem e similares babaquices. Se tiver uma boa fainá, ponto para a candidata à melhor pizza de Buenos Aires. Não conhece a fainá? Sabe de nada, inocente…

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O Roteiro de Uma Boa Causa

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Ontem a Argentina acordou como se tivesse se preparando para uma festa. Nos telejornais e programas de debate à tarde, só se falava do tal evento – o fenômeno ‘Ni Una Menos’ -, mas era nas redes sociais que o negócio explodia. Milhares de hashtags, fotos de adesão; muitos comentários, uns de apoio total ou com alguma ressalva, mas todos com um clima de “Eu vou!” que, no Brasil, é muito comum na época do Rock in Rio ou Lollapalooza.

De pensar que esse burburinho (salutar sobre qualquer ponto de vista) começou naquela horripilante história da menina grávida assassinada pelo namorado!, porque, se num primeiro momento parecia que estávamos diante de mais um material sangrento para alimentar o fugaz sensacionalismo dos tabloides, é admirável observar que ganhou vulto de verdade no país na medida em que se despersonalizou. Ou seja, depois de três semanas, a bela e sinistra imagem de Chiara foi se multiplicando no rosto de tantas jovens vítimas de crime de ódio e gerando um debate sobre o tema maior que é o feminicídio. É interessante percorrer esse caminho.

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