O Roteiro de Uma Boa Causa

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Ontem a Argentina acordou como se tivesse se preparando para uma festa. Nos telejornais e programas de debate à tarde, só se falava do tal evento – o fenômeno ‘Ni Una Menos’ -, mas era nas redes sociais que o negócio explodia. Milhares de hashtags, fotos de adesão; muitos comentários, uns de apoio total ou com alguma ressalva, mas todos com um clima de “Eu vou!” que, no Brasil, é muito comum na época do Rock in Rio ou Lollapalooza.

De pensar que esse burburinho (salutar sobre qualquer ponto de vista) começou naquela horripilante história da menina grávida assassinada pelo namorado!, porque, se num primeiro momento parecia que estávamos diante de mais um material sangrento para alimentar o fugaz sensacionalismo dos tabloides, é admirável observar que ganhou vulto de verdade no país na medida em que se despersonalizou. Ou seja, depois de três semanas, a bela e sinistra imagem de Chiara foi se multiplicando no rosto de tantas jovens vítimas de crime de ódio e gerando um debate sobre o tema maior que é o feminicídio. É interessante percorrer esse caminho.

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Quando saíram os primeiros detalhes da tragédia de Chiara, com todos os requintes macabros que se pode imaginar – 14 anos, esperando um bebê indesejado pelo namorado, a brutalidade dentro de casa, o enterro no quintal, ajudado por um adulto – a foto acima foi uma das mais compartilhadas. Sendo a Argentina um país em cujo zeitgeist esse tipo de relato tem um trânsito bastante fluido (pense nas letras de tango), rapidamente tornou-se no tema obrigatório de qualquer papo furado.

Foram as redes sociais – sobretudo o Facebook e o Twitter – as grandes caixas de ressonância do repúdio que, como se é de esperar, vinha etiquetado de hashtags. A mais popular delas, porém sugeria que a indignação já não se restringia ao caso de Chiara, mas ao de todas essas mulheres vítimas de um horror transformado em cotidiano a cada 36 horas.

#NiUnaMenos (nem uma a menos) era a exigência inundou o ciberespaço por aqui, o que, diferente de uma hipotética #JusticiaPorChiara, extrapolava o caso isolado. Essa tendência também se confirmou pelas fotos compartilhadas a partir de então, já que o rosto ensolarado da menina assassinada foi sendo substituído por desenhos de artistas como Liniers, Maitena e Erlich.

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Dos traços dos cartunistas ou da divulgação de estatísticas no mínimo tristes sobre a discrepância entre a realidade (uma mulher, sobretudo entre 17 e 21 anos, morta a cada 36 horas; 277 em 2014; 1800 desde 2008) e a resposta do Estado (uma lei e um orçamento minguado; uma justiça demorada e permissiva; agentes policiais destreinados e, de última, machistas eles mesmos), fomos conhecendo mais o horror do feminicídio (e, de maneira coadjuvante todos os crimes de ódio) e levantando questões ainda não respondidas: mas e os crimes contra travestis e transgêneros? Também estão contemplados nessa categoria? É possível relativizar de alguma maneira uma coisa dessas se a mulher for uma “piranha”, “pervertida”, “desavergonhada”? Será que esses programas de TV que coisificam a mulher e a colocam num papel de objeto sexual não têm sua parcela de culpa nesse tipo de relativização?

De repente, todas essas questões foram colocadas sobre a mesa, dando voz a movimentos sociais que até então lutavam para serem escutados e forçando a políticos, que jamais haviam tocado no tema, a dar sua opinião. Foi dessa maneira que a convocatória para o protesto marcado para o dia 3 de junho em frente ao Congresso também foi desapropriada por um certo grupo de organizadores e, de volta às redes sociais, se pluralizou nas postagens tanto de gente comum quanto autoridades, políticos (de TODAS as correntes) e artistas.

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Um outro fato que se deve destacar à mobilização foi que tampouco permaneceu no abstrato que é tão comum em repúdios dessa natureza. No Brasil, por exemplo, estamos muito acostumados a reclamar contra o monstro da corrupção, da violência (sem querer saber exatamente o que é ele, de onde realmente vem, nem como efetivamente atacá-lo). Os movimentos sociais se apressaram em apresentar suas propostas e fazer circular manifestos que, em comum, pediam grana e força política para impulsar um Plano Nacional de Ação para a Prevenção, Assistência e Erradicação da Violência contra as Mulheres – um amplo conjunto de políticas públicas para fazer valer uma lei que já está vigente, mas que, por enquanto, ficou só no papel.

Foram essas bandeiras que lotaram a Plaza de Congreso e imediações ontem a partir das 5 – a festa que eu falei no início. Aí apareceram famílias inteiras, homens, mulheres, jovens e idosos, organizações como a Cruz Vermelha e o Exército da Salvação, políticos, movimentos sociais, feministas, humanistas – quase todo mundo com um cartaz ou uma mensagem de alerta, que no final das contas protestavam por uma agenda positiva, garante de mais direitos que deveriam ser universais.

No total, cerca de 70 cidades argentinas aderiram ao evento e realizaram manifestações em suas praças principais – além de Montevideo, no Uruguai, e Santiago no Chile. Pese as acusações de “espetacularização” e o temor de que, passado o frenesi, o tema volte àquele nefasto business as usual, é impossível não ter esperanças de que uma coisa desse tamanho não teve o poder de pelo menos incutir uma mensagem básica na cabeça de todo mundo por aqui.

Parabéns, Argentina ❤

http://cdntx.lanacion.com.ar/anexos/Videos/02/86202.mp4

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