Os Supervisores

lulacris

Era uma vez um país da América do Sul em que, depois de anos de governos neo-liberais, elegeu uma liderança de esquerda. Os anos foram passando e vários coleguinhas na vizinhança foram aparecendo e, com a ajuda de um longínquo e voraz companheiro de olhinhos puxados em acelerada fase de crescimento somada a uma crise generalizada entre os ricos primos do norte, nossa liderança de esquerda e seus amigos conseguiram a façanha de enriquecer sem concentrar muito.

De repente, nos idos de 2009, enquanto o resto do mundo parecia um verdadeiro desastre, a imensa península sul-americana se apresentava como o futuro mesmo. Desassossegados intelectuais do norte olhavam para cá embasbacados: Jim O’Neill metia o Brasil no BRIC, Oliver Stone fazia um documentário sobre Chávez, Joseph Stiglitz saudava a maneira argentina de enfrentar crises, os exemplos seguem.

Obviamente, tudo isso se dava sem que perdêssemos completamente o charme de Macondo. Exóticos, indígenas, negros, com elites cuspindo fogo nos editoriais dos próprios meios de comunicação, sem, no entanto, serem capazes de enfrentar os números: crescíamos a quase 6%, as vendedoras do Bloomingdale’s estavam aprendendo português, a Venezuela estava com tanta grana que se dava ao luxo de criar uma rede de TV para dar “a nossa versão do mundo”.

Mas em algum momento os mandatos daqueles líderes de esquerda tinham que terminar – a pátina final de toda a maravilha sul-americana era a democracia -, de modo que havia dois caminhos a seguir: lançar mão de toda aquela popularidade e mudar a Constituição para extender indefinidamente seus mandatos ou eleger um sucessor. Nosso país optou pelo segundo.

Se essa história te parece familiar, ela também cabe justinha na Argentina – só que com um timing diferente. Da mesma maneira que Lula em 2010 lançou Dilma para disputar o Planalto, é grande a possibilidade que Cristina consiga emplacar o governador da província de Buenos Aires Daniel Scioli para a Casa Rosada. É bem verdade que a Presidenta da Argentina tinha uma ‘Dilma, muito mais Dilma’ na manga – o Ministro do Interior Florêncio Randazzo; mas, aqui não teve jeito. Diferente de Lula, Cristina preferiu não arriscar.

Muita coisa pode parecer diferente nas duas histórias, mas os pontos de encontro são notáveis. Assim como Lula em 2010, Cristina deixa o poder com índices de popularidade inéditos no período democrático, mas com uma sociedade polarizada e em vias de radicalizar suas posições. Do outro lado, tanto a oposição a Lula quanto a Cristina não tem grande força partidária, mas tem trânsito fluido entre as elites que, como já mencionei, é dona dos meios de comunicação. Os editoriais de Merval Pereira d’O Globo e de Joaquín Morales Solá do La Nación podem até tocar em temas diferentes, mas são idênticos em termos de virulência e da mensagem fundamental: chegou a hora do ajuste, do Ajuste, do AJUSTEEEEEE!

E, bem, como Dilma, sobretudo no segundo mandato, Scioli enfrentará decisões econômicas bastante complicadas se eleito no próximo dia 25 de outubro, num cenário tão ameaçado pelo fogo-amigo quanto o do PMDB. Tudo isso com a supervisão daqueles tais líderes populares, Lula e Cristina respectivamente.

Se na Argentina as coisas evoluírem como aconteceu no Brasil, Scioli será eleito e viverá o drama de não ser Cristina. Assim, não contará com o apoio incondicional dos seguidores de la Jefa (menos ainda se embarcar no tal do ajuste). Por outro lado, muito possivelmente será detestado pela elite, mesmo que faça exatamente o que ela pedir. Como Dilma, se encontrará na armadilha de não ser nem Cristina (Lula) nem Macri (Aécio-Serra), tendo que se conformar com a pecha de simplesmente não ser amado por ninguém.

A única diferença fica por conta da relação que Dilma tem com Lula e da que tem Cristina com Scioli (pensando bem, é muito provável que la jefa tenha observado o caso brasileiro na hora de descartar Randazzo). Ela apoia o governador de Buenos Aires com um pé e meio atrás, nada a ver com a dedicação do petista, guardando na manga toda uma desenvoltura para, caso as coisas evoluam para uma crise econômica e político-institucional à brasileira, possa se apresentar em 2019 como a salvadora da pátria.

Grudado em Dilma, Lula tem vivido dias infernais no papel de supervisor – seja sendo obrigado a avalizar o tal ajuste ou compartilhando drama de negociar com uma oposição (parlamentar, jurídica e mesmo no seio da sociedade) unida em ódio. Talvez se tivesse optado por lançar um tipo como Sérgio Cabral em 2010, a história teria sido diferente.

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