Máquina pública (?!)

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Tem vezes que a política na Argentina, ao menos sob alguns aspectos, parece coisa da década de 80. Essa coisa do uso eleitoreiro da máquina pública não colou muito por essas bandas e, em meio ao pega-pra-capar que tem sido o pleito tanto a nível nacional quanto a nível local, quem fica mesmo na berlinda são esses pobres coitados que estão correndo por fora.

Esse sujeito da foto aí em cima é Mariano Recalde, candidato a Chefe de Governo da Cidade de Buenos Aires (equivalente no Brasil ao cargo de Governador do Distrito Federal). De uma família politicamente bastante ativa e sendo um dos cabeças da Campora (um grupo político que seria a Juventude Peronista-Kirchnerista), Recalde se projetou na política depois de 2009, a partir de que foi designado presidente da recém-nacionalizada Aerolineas Argentinas.

Seu sucesso a frente da companhia aérea “de bandeira” não está claro. A oposição e os tradicionais meios de comunicação (leia-se Clarín/La Nación) dizem que se trata de uma empresa permanentemente deficitária, com prejuízos milionários a cada ano e casos escabrosos de improvisação; já o governo de Cristina e meios afins não economizam elogios: é o “orgullo de los argentinos“, tem um papel importantíssimo na integração nacional, é, em parte, responsável pelo retumbando boom do turismo interno. Não me atrevo a dar um veredito, nem esse é o caso.

O negócio é que se você assistir o comercial que está sendo vinculado da Aerolineas, só no final perceberá que não se trata de parte da campanha de Recalde (sobretudo no momento 0:28).

Mas esse é apenas um caso em um país onde a linha entre o público e o partidário é bastante tênue. Talvez o exemplo mais significativo seja a Agência de Notícias Pública Télam que, com uma vista rápida, pode tranquilamente passar por um meio de comunicação pró-governo, mas não só isso, já que qualquer oportunidade para criticar o atual governo da cidade de Buenos Aires (comandado pela oposição) torna-se notícia e ganha destaque. Na capa de hoje (30/7/15), Recalde também está com toda!

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Nem é preciso comentar que a notícia ao lado é sobre o fechamento de tradicionais milongas de tango na capital porteña. Adivinha quem é o vilão?

A utilização da máquina pública foi denunciada por um grupo de jornalistas do Canal 7, a TV Pública, em um comunicado emitido mês passado:

“Este inadmissível aproveitamento partidário dos telejornais da Televisão Pública é parte da mesma lógica pela qual Carlos Figueroa, sem deixar o cargo de gerente de notícias, como mandaria a mais elementar ética pública, e com flagrante incompatibilidade, trabalha de maneira paralela e em tempo praticamente integral na campanha de Recalde”

De acordo com estatísticas preparadas pelos próprios jornalistas, na campanha pelo governo de Buenos Aires, o tempo dos telejornais dedicado à Frente para la Victoria (FpV, partido de Cristina Kirchner) foi de 1 hora e 9 minutos, enquanto o PRO (principal partido de oposição) recebeu pouco menos de 9 minutos e outros partidos (ECO, Frente de Esquerda e Frente Renovadora) ficaram com cerca de 5 minutos cada.

Com meios hegemônicos em uníssono contra o governo da presidenta, pode ser que a utilização da máquina pública seja a maneira se encontrou para alcançar uma “isonomia midiática”; mas a utilização que o PRO faz na máquina pública a nível local dá a impressão que falta por aqui uma Justiça Eleitoral que estabeleça regras claras para proteger o patrimônio público de ambições políticas pessoais.

Ano passado, o partido opositor gastou 700 mil pesos por dia (algo como R$ 200 mil, dependendo do tipo de cotação) em publicidade oficial, que segundo a deputada Rocío Sánchez Andía teria como objetivo “projetar Macri como candidato a nível nacional”. Nos últimos dias, um caso emblemático serviu para aliviar um pouco o peso do governo nacional dessa pecha. O governo da cidade promoveu um show gratuito de Ricky Martin nos parques do Palermo junto com diversos cantores locais sábado a noite e, como era de se esperar, lá estavam o presidenciável Maurício Macri acompanhado tanto do candidato a Chefe de Governo Horácio Larreta quanto a candidato a governadora da Província de Buenos Aires María Eugenia Vidal.

A cereja do bolo foi posta ontem no programa do Tinelli (como já falei aqui, uma mistura de Luciano Hulk, Faustão e Gugu). Ricky foi a atração principal – mas quem estava na plateia e ganhou destaque durante a transmissão? Horácio Larreta!

Baires. Junio27 de 2015. El jefe de Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires, Mauricio Macri, saludó hoy al cantante puertorriqueño Ricky Martin, quien participó como figura invitada del show gratuito que dieron “Las Elegidas & Los Elegidos: Duetos” en el Parque de San Benito de Belgrano. Del encuentro participaron, Maria Eugenia Vidal, vice jefe de Gobierno y Horacio Rodriguez Larreta, jefe de Gabinete de Ministros.-  Foto Mónica Martinez-gv/GCBA.-

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