O Brasil balança, a Argentina teme

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Poucos sabem realmente das internas da viagem de Cristina ao Brasil para a reunião da Cúpula do Mercosul no início do mês. Sabemos da foto os bichinhos do Rio 2016 e daquele vídeo em que Dilma prestou uma homenagem à “querida amiga e Presidenta”.

Naturalmente, dá vontade danada de imaginar uma conversa entre as duas, como possivelmente já fizeram Dilma Bolada e aquela da revista Piauí (será que ainda existe?), quando, seguramente, elas trocaram algumas confidências sobre tentativas de impeachment, investigações polêmicas, perseguição da mídia e traições, entre outras amenidades.

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Buenos Aires Gay

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Buscar informação na internet sobre a vida gay em Buenos Aires é uma aventura por entre artigos desatualizados, chavões de tipo “vibrante vida noturna” e abordagens que destacam as avançadas leis argentinas, entre outros, o que, na verdade traz à discussão o que é ser um guia gay de uma cidade. É indicar locais onde homossexuais são bem aceitos? É dar dicas de festas e bares da cena local? É recomendar saunas e clubes de suruba? Outra coisa: um guia gay serve apenas os rapazes que curtem rapazes ou também lésbicas, travestis e o que mais esteja contemplado naquela sigla eternamente mutante (eu ainda uso apenas LGBT)?

Nesse post, eu não pretendo esgotar o debate sobre o tema, mas é interessante começar por aí porque a própria capital porteña desafia rótulos simplistas. Declarada em 2010 pela Associação Internacional de Viagens para Gays e Lésbicas como a nova capital gay mundial, a cidade é pouquíssimo óbvia nesse sentido, não contando, por exemplo, com um bairro gay como Castro (San Francisco), Chelsea (NYC) ou Chueca (Madri).

Mas o que é uma ‘coisa’ (qualquer coisa, inclusive uma cidade) gay, afinal?

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Algo habrán hecho

Acto apoyo a Cristina

Ninguém sabe muito bem o que será de Cristina quando ela deixar o poder. Seus seguidores mais firmes já lhe deram a conducción do peronismo – uma espécie de ‘líder espiritual’ do movimento que não tem paralelo na política brasileira. Já seus opositores esperam ir à forra depois de dezembro, levando adiante causas judiciais contra ela e sua família, como a do famoso e suposto caso de lavagem de dinheiro no resort de sua propriedade em El Calafate, o Hotesur. Existe o risco também do chamado ‘fogo amigo’, já que não é segredo que seu candidato à presidência Daniel Scioli não é um de seus fieis escudeiros e, para brilhar sozinho, poderia pelo menos lavar às mãos diante de um judiciário hostil à atual Presidenta.

No entanto, o fato é que Cristina Kirchner deixa o poder com uma popularidade recorde desde a volta da Argentina à democracia, tendo a frente uma oposição política fragmentada e monopólios midiáticos que, embora mantenham uma artilharia pesada e permanente contra ela, impossibilitados de mudar o quadro. Além disso, pese alguns revezes econômicos que ocorreram desde o início do seu governo, pode-se dizer que a situação se estabilizou nos últimos seis meses, mesmo com a insistência de um front internacional poderoso contra o seu governo.

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Ah, o exílio

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Faz uns três meses, entrevistei um ex-General da época da ditadura aqui na Argentina. Fui encontrá-lo em um café em Belgrano e, quem o via ali sentado, podia perfeitamente se confundir com um velhinho qualquer. Um amor, uma doçura. Quando se deu conta de que eu era brasileiro, começou a me perguntar o nome de alguns outros cariocas conhecidos para ver se havia alguma coincidência. “Gente muito boa, muito cheia de princípios”, dizia – e como eu poderia duvidar se eram amigos daquela simpatia?

Foi só depois quando a conversa se desenvolveu que eu comecei a visualizar quem seria essa galera que, muito provavelmente, comigo só compartilhava a cidade mesmo; pois o tal general me contou algumas das maiores barbaridades que eu já ouvi na vida assim ao vivo.

Desaparecidos durante a ditadura? “Invencionismo! Eles eram guerrilheiros que morreram em combate”. Mas e os bebês que foram forçados a adoção e que estavam aparecendo nos últimos anos? “Uma farsa também. Essas Avós da Praça de Maio são uma máfia, elas alugam netos de mentirinha para construir esse relato midiático e para que o Estado lhes pague indenizações milionárias”. Para ele, esse papo de direitos humanos era parte de uma conspiração internacional, capitaneada pela Inglaterra, para debilitar a Argentina.

Saí de lá cabisbaixo e com uma sensação de impotência. Por que não fui capaz de interromper a entrevista e me mandar dali, ao invés de, como fiz, levantar o cenho e fazer cara de interessante só pra esperar acabar? Profissionalismo? Resignação? Naquela noite assisti, novamente, esse filme recente sobre a Hannah Arendt pra relembrar aquele conceito da ‘banalidade do mal’, já que acabara de ter a oportunidade de testemunhá-lo tão próximo.

O mal é político e histórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso. A trivialização da violência corresponde ao vazio do pensamento, onde a banalidade do mal se instala.

“Peralá…”, me detive. Não teria sido preciso entrevistar a um criminoso como aquele para fazer esse tipo de associação.

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