Algo habrán hecho

Acto apoyo a Cristina

Ninguém sabe muito bem o que será de Cristina quando ela deixar o poder. Seus seguidores mais firmes já lhe deram a conducción do peronismo – uma espécie de ‘líder espiritual’ do movimento que não tem paralelo na política brasileira. Já seus opositores esperam ir à forra depois de dezembro, levando adiante causas judiciais contra ela e sua família, como a do famoso e suposto caso de lavagem de dinheiro no resort de sua propriedade em El Calafate, o Hotesur. Existe o risco também do chamado ‘fogo amigo’, já que não é segredo que seu candidato à presidência Daniel Scioli não é um de seus fieis escudeiros e, para brilhar sozinho, poderia pelo menos lavar às mãos diante de um judiciário hostil à atual Presidenta.

No entanto, o fato é que Cristina Kirchner deixa o poder com uma popularidade recorde desde a volta da Argentina à democracia, tendo a frente uma oposição política fragmentada e monopólios midiáticos que, embora mantenham uma artilharia pesada e permanente contra ela, impossibilitados de mudar o quadro. Além disso, pese alguns revezes econômicos que ocorreram desde o início do seu governo, pode-se dizer que a situação se estabilizou nos últimos seis meses, mesmo com a insistência de um front internacional poderoso contra o seu governo.

Desenhada como uma déspota lunática pelos meios hegemônicos brasileiros, Cristina já deu motivos para corroborar a ideia. Fora algumas declarações infelizes e outros sinceridícios, ela levou adiante algumas batalhas durante o seu governo que fazem Lula e Dilma parecerem duas ovelhinhas comportadíssimas.

Considerando seu governo e o de seu marido, o finado Néstor, pode-se dizer que se operou uma revolução na muito mais instável Argentina, pois a lista de transformações, envolvendo atores poderosíssimos no país e no mundo, é impressionante.

Assim que Néstor ascendeu à presidência em 2003, ele exonerou os ex-ditadores Jorge Videla e Reynaldo Bignone dos quadros do Colégio Militar. Essa seria uma medida emblemática, já que abriria caminho para que as Leis do Ponto Final e da Obediência Devida (equivalentes a nossa Lei da Anistia) fossem revogadas e os agentes repressores acusados de crime de lesa humanidade fossem levados ao banco dos réus – ainda hoje esses julgamentos estão em curso. Pode-se mencionar também a transformação da Ex-Escola de Mecânica da Armada, um complexo de edifícios que albergou o maior centro de torturas do país na época da ditadura, em um centro de promoção de direitos humanos e cidadania.

Já no governo de Cristina, foi sancionado um marco legal avançadíssimo em comparação com padrões internacionais. Muito antes da Suprema Corte dos Estados Unidos declarar legal o casamento gay naquele país, aqui já havia não só a chamada ‘lei do matrimônio igualitário’, mas também a ‘lei da identidade de gênero’, considerada a mais avançada do mundo já que permite às pessoas trans (travestis, transexuais e transgêneros) figurem com o nome e o sexo com os quais se identificam nos documentos oficiais. Mesmo na legislação que criminaliza o ‘feminicídio’, as pessoas trans também estão contempladas.

Apesar das críticas de que esses avanços no Congresso já eram bandeiras bastante discutidas por movimentos sociais e que teriam encampadas de maneira oportunista pelo kirchnerismo, o ativista Daniel Molina, em declarações ao jornal Ámbito Financiero recordou que o apoio explícito de Néstor e Cristina foi fundamental contra o peso e a influência da Igreja Católica, inclusive contra o então Cardeal Jorge Bergoglio. Na época, o atualmente ‘doce’ Papa Francisco considerou a lei “um plano para destruir os desígnios de Deus”.

A brigalhada não terminou por aí. Numa época em que Obama nem sonhava em sentar-se na mesa de negociações com os aiatolás, Cristina assinava o Memorando de Entendimento com os iranianos para levar adiante a investigação do atentado à AMIA – o que lhe valeu a rejeição das entidades locais judias, a condenação de Israel e até uma acusação de cumplicidade com terroristas (a suspeita morte do procurador Alberto Nisman no início desse ano botou um pouco mais de lenha na fogueira).

Em conjunto com a nacionalização de duas empresas que haviam sido privatizadas nos anos 90, a Aerolineas Argentinas e a YPF (a Petrobras deles), todas as iniciativas anteriores se valeram da maioria coesa que o kirchnerismo tem no Congresso – nada a ver com a frágil contraparte brasileira PT-PMDB. Mas deve-se dizer que a articulação política de Cristina no legislativo recebeu críticas de ser análoga ao expediente usado pelo infame Eduardo Cunha em Brasília: propostas apressadas e sem debate seguidas de votações express que muitas vezes foram contestadas na Suprema Corte local. Esse comportamento valeu à Presidenta a adjetivação de ‘ditatorial’ tanto em meios argentinos quanto internacionais.

Essa acusação também se vale da suposta intromissão do Executivo no Judiciário, no qual algumas facções são abertamente chamadas pela Presidenta e aliados de ‘partido judicial’. Da mesma maneira que no Brasil, o poder menos democrático das Repúblicas também está bastante conflagrado ao sul do rio da Prata, sendo que aqui as tintas sempre são mais fortes. Nessa batalha, no entanto, Cristina não obteve o mesmo êxito que em outras áreas: sua controversíssima reforma que incluiria a eleição direta para magistrados jamais saiu do papel.

Com uma chuva de acusações de corrupção e populismo, contra si (notadamente no caso Hotesur) e seu Vice-Presidente Amado Boudou (em vários casos), a popularidade de Cristina jamais flertou com menos de 25%, mesmo quando o país se convulsionava com o caso da morte de Nisman, em que ela era pintada como uma verdadeira gangster pelos meios opositores.

Pois talvez tenha sido contra eles que CFK travou o embate mais ferrenho de seu governo. Não é preciso dizer que, como no Brasil, os meios hegemônicos têm na Argentina um virtual monopólio da informação. O grupo Clarín é dono não só do jornal de maior circulação da América Latina, mas também de canais de televisão e cabo. Quando sua relação com o governo já estava mais que deteriorada, a Presidenta tirou da gaveta um projeto que também é discutido no Brasil: a polêmica Lei de Meios (o nome oficial é Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual). Aprovada unanimemente pelas duas casas do Congresso, a lei criou dispositivos que impedem a formação de monopólios no setor: por exemplo, uma empresa responsável pela distribuição de sinal de cabo não pode também criar o conteúdo exibido neles.

Obviamente essa legislação foi acusada de ser um ataque direcionado a desmantelar o Grupo Clarín, que ainda hoje interpõe uma saraivada de medidas cautelares contra a sua implementação.

O certo é que a aprovação da lei significou uma declaração de uma guerra aberta entre governo e tais meios hegemônicos (do qual o tradicional diário La Nación também é parte). Eles acusam a Presidenta de debilitar o jornalismo crítico a sua administração ao mesmo tempo que fortalece grupos de mídia afins (inclusive utilizando a máquina de comunicação do governo com a TV Pública e a agência de notícias Télam), como os jornais de propriedade do empresário Cristóbal López. Dono do Ámbito Financiero e do Buenos Aires Herald, ele teria relações bastante obscuras com Cristina.

Mesmo com inimigos do quilate de todos os principais meios de comunicação do país, grupos financeiros internacionais (chamado pelo governo de ‘fundos abutres’ pela persiste contestação da renegociação da dívida argentina), a igreja, setores militares mais conservadores, ruralistas (crise com o campo), entidades judaicas, etc, etc, etc, como já mencionei, a popularidade da presidenta permanece alta, o que se refletiu inclusive nas eleições locais da capital porteña.

Seu principal opositor Maurício Macri obteve uma vitória apertadíssima para eleger o sucessor em Buenos Aires (menos de três pontos percentuais), justamente no distrito eleitoral que é tradicionalmente mais hostil aos governos nacionais (sobretudo peronistas). Sem ser unanimidade nem mesmo onde teria sua principal fortaleza, o ambiente da campanha de Macri para as eleições nacionais parece cada vez mais complicado – uma visão que é corroborada inclusive pelas pesquisas de opinião, em que o candidato governista Daniel Scioli aparece confortavelmente em primeiro lugar.

Esse cenário coloca em relevo o contraste entre o combativo governo de Cristina e o conciliatório governo de Dilma Rousseff. Fora o carisma da Presidenta argentina, a quilômetros de distância da ‘gerentona’ brasileira, é de se perguntar como uma mandatária que jamais seguiu os conselhos do ‘mercado’ na gestão da economia e que manteve uma relação duríssima contra opositores e aliados rebeldes (como ex-Chefe de Gabinete Sérgio Massa, o ex-Vice Presidente Julio Cobos e o ex-Ministro da Economia Martín Lousteau), obteve um consenso no seio da sociedade muito maior do que Rousseff e sua postura amigável.

Deixemos a história julgar como terminará tudo isso.

Até mais! 😉

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