O Brasil balança, a Argentina teme

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Poucos sabem realmente das internas da viagem de Cristina ao Brasil para a reunião da Cúpula do Mercosul no início do mês. Sabemos da foto os bichinhos do Rio 2016 e daquele vídeo em que Dilma prestou uma homenagem à “querida amiga e Presidenta”.

Naturalmente, dá vontade danada de imaginar uma conversa entre as duas, como possivelmente já fizeram Dilma Bolada e aquela da revista Piauí (será que ainda existe?), quando, seguramente, elas trocaram algumas confidências sobre tentativas de impeachment, investigações polêmicas, perseguição da mídia e traições, entre outras amenidades.

De acordo com o colunista Mariano Obarrio do diário La Nación, ‘altas fontes do governo’ daqui lhe teriam confidenciado que Dilma, em meio a uma crise institucional, política, econômica e de popularidade, “pediu ajuda de maneira reservada à Cristina Kirchner”, que viria não apenas na forma de respaldo em fóruns internacionais. Obarrio quase usa a palavra ‘consultoria’ quando menciona “conselhos políticos e jurídicos para sair do seu atoleiro, (…) porque Cristina, pese seus problemas judiciais, mantém a sua popularidade”. E Cristina não destoou de seu batido discurso da solidariedade latino-americana.

Com Bachelet do Chile nas cordas também, é um fato que Cristina se tornou uma referência regional em crisis management, pois, como se sabe, durante o seu governo até o Vice-Presidente foi indiciado e ela, acusada de lavagem de dinheiro, de negociar com terroristas por contratos de importação, de não só interferir na justiça como até ordenar o assassinato de um Procurador. Se Dilma seguir os conselhos da Cristina que os jornalões daqui gostam de pintar, o juiz Sérgio Moro aparecerá suicidado qualquer dia desses no seu apartamento, o Procurador da República no DF (o que abriu inquérito contra o Lula) será transferido para uma comarca no interior do Acre e Eduardo Cunha irá se transformar numa espécie de Sérgio Massa, jogado no escanteio depois de um delírio de poder.

Por outro lado, se quem de fato existir é a Cristina retratada na mídia progressista, que aqui na Argentina também conta com jornais impressos e até canais de TV, a tal ajuda viria de uma maneira bastante diferente.

No último fim de semana, o correspondente em Brasília do periódico Página/12, Darío Pignotti, afirmou que “a campanha suja contra Lula se reavivou”, lembrando da fraude eleitoral cometida em 1989 na ocasião do debate presidencial entre o ex-presidente e Collor pela TV Globo, “a única força política (sic) que sobreviveu impune aos 21 anos de ditadura”. Tendo como base esse zeitgeist, Cristina aconselharia Dilma a endurecer com los medios golpistas, embora dificilmente a presidenta brasileira conseguisse a façanha da contraparte argentina: fazer passar no Congresso a famosa e polêmica Lei de Meios daqui. Talvez reduzir a publicidade oficial nos jornais e evitar que os supermercados o façam também seja uma.

Agora, por mais solidariedade que haja nessa nossa Latino-América, pode ser que a motivação de Cristina não seja tão altruista, já que o Brasil desse jeito afeta muito a economia daqui. Com uma escalada no preço do dólar paralelo nas últimas semanas, crescem as especulações a respeito da desvalorização do real e seu efeito na balança comercial entre os dois países. Altos funcionários do governo têm minimizado a preocupação. Para o Ministro da Economia Axel Kicillof, os analistas sobredimensionam a valorização do dólar ilegal. Já o Chefe de Gabinete Aníbal Fernández descartou medidas nesse momento, mas disse que “a situação é monitorada de maneira permanente”.

Axel Kicillof

Axel Kicillof

Entretanto, o jornalista Ricardo Kirschbaum, em editorial no Clarín, acusa o governo e, em especial, o Ministro Kicillof de “empurrar com a barriga” da mesma maneira que ocorreu em 1998, quando uma desvalorização deu um duro golpe na chamada Convertibilidade (um peso = um dólar) e prenunciou as catástrofes econômicas dos anos seguintes. Pode ser um exagero comparar os dias de hoje com àquela época, mas La Nación recorda que essa desvalorização chega justo durante um 2015 em que as exportações para o Brasil caíram 23%.

Kicillof não quer saber. “Não falem de atraso cambial porque [essas medidas] atrapalham a vida do povo (…) e a estabilidade da moeda dá certeza para todo o mundo”, contou em entrevista ao canal A24. “[Essas medidas no] Brasil estão afetando o nível de emprego e na Argentina isso não está acontecendo. Vamos seguir incentivando a atividade interna”.

(Espaço para que a esquerda brasileira, desiludida com a austeridade petista, suspire)

Quem deve estar efetivamente de cabelo em pé com essas coisas que estão rolando no Brasil, entretanto, são os executivos da companhia de engenharia ítalo-argentina Techint, que figura nas investigações da Lava Jato. Depois que o diretor-geral Ricardo Ouriques Marques prestou depoimento perante à justiça brasileira, a empresa emitiu uma nota esclarecendo que “forneceu todas as informações requeridas e que permanece à disposição das autoridades”. Tanta tranquilidade só poderia ser abalada por essa última tendência da justiça no Brasil de sair prendendo todo mundo pelas dúvidas, mesmo antes de um julgamento.

Mas curioso mesmo é a pouca atenção dada à crise política no Brasil pelos grandes jornais daqui, como Clarín e La Nación. Fora uma nota mais para descritiva aqui e outra ali, nenhum colunista entra em muito detalhe na coisa, como fez Pignotti do Página/12. Talvez seja porque, em época de campanha eleitoral, seja melhor não misturar as coisas nem estabelecer relações entre o que acontece aqui e lá, já que Lula goza de grande prestígio entre os argentinos. Foi até citado essa semana pelo candidato da situação Daniel Scioli quando este anunciou que criará o ‘Ministério das Cidades’.

Até a próxima! 😉

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