O Primeiro Teste

Elecciones-Rio-Negro-Argentina

Domingo que vem, os argentinos irão às urnas para escolher, entre os candidatos de seu partido, aquele que disputará a presidência em outubro. Embora ainda não seja um embate direto entre os principais pretendentes ao posto máximo do país, trata-se de um termômetro importante do que vem pela frente, de mesma maneira que aconteceu nas eleições locais de importantes distritos eleitorais, como o da Cidade Autônoma de Buenos Aires, de Córdoba e Salta.

Pode-se dizer que as eleições na Argentina têm atualmente dois turnos obrigatórios, com a possibilidade de um terceiro. Isso porque a reforma eleitoral reforma eleitoral de 2009 instituiu as Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (conhecidas aqui pela sigla PASO), que não têm paralelo no Brasil e nada têm a ver com as famosas primárias estadunidenses.

Diferente dos EUA, onde os candidatos são escolhidos de maneira indireta por um número proporcional de delegados em cada estado da federação, aqui essa escolha mais se parece a uma eleição convencional como as realizadas no Brasil a cada dois anos. Assim, na votação são escolhidos os candidatos que representarão os partidos no pleito de fato, que se dará no dia 25 de outubro, desde que obtenham no mínimo 1,5% da totalidade de votos válidos.

O mesmo regime se reproduz a nível local e, como aqui as eleições nacionais, provinciais e municipais não ocorrem em paralelo, vários distritos já realizaram esse ano as suas PASO e mesmo as eleições de verdade, em que ficou constatado o papel das primárias como um grande termômetro eleitoral no país.

De acordo com um artigo da revista britânica The Economist, “o motivo real das PASO é evitar surpresas desagradáveis aos políticos, num país em que as pesquisas de opinião não são confiáveis”. É curioso que esta publicação não tenha também mencionado que se trata de um fenômeno mundial, já que mesmo o Reino Unido se surpreendeu nas últimas eleições com a discrepância entre as previsões das pesquisas e os resultados finais; mas o fato é que, na Cidade Autônoma de Buenos Aires, aconteceu o mesmo. Enquanto se previa que a brecha entre os dois candidatos Horacio Larreta e Martín Lousteau ficaria entre 9 e 11%, o resultado apertadíssimo (menos de 3% de diferença) causou uma saraivada de críticas aos principais institutos de pesquisa argentinos, a ponto da polêmica deputada Elisa Carrió tuitar na ocasião que os pesquisadores deveriam ser presos.

De qualquer maneira, os resultados das PASO porteñas acompanharam grosso modo o que viria a ser o resultado final das eleições na cidade, já que Larreta (do mesmo partido do presidenciável Maurício Macri) se manteve em primeiro com 47,44% e 44%, respectivamente, até vencer no segundo turno contra Lousteau.

As eleições nacionais, no entanto, não devem ter esse aspecto preditivo, já que o partido do governo, o Frente para a Vitória (FpV) não passará pelas PASO. Depois de um intenso debate interno, cheio de especulações, fecharam-se as fileiras em torno de Daniel Scioli, o atual governador da província de Buenos Aires. A decisão ficará por conta das outras siglas.

A Frente Cambiemos, que aglomera partidos importantes como o PRO e a UCR, é a maior promessa da oposição e, no próximo domingo, ficaremos sabendo se ela será encabeçada por Maurício Macri, Ernesto Sanz ou Elisa Carrió. É improvável que haja uma surpresa nesse caso.

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O atual Chefe de Governo da Cidade de Buenos Aires Maurício Macri já despontou faz algum tempo como principal candidato da oposição ao FpV. Esse favoritismo foi, até certo ponto, abalado pelas eleições que mencionei na capital porteña, pois se esperava que o partido de Macri ganharia com uma margem muito mais confortável no distrito em que disfruta de maior popularidade. Essa vitória amarga foi acompanhada de uma surpreendente virada ideológica do candidato, que desde então começou a abraçar mesmo aquelas bandeiras do kirchnerismo que vem criticando há anos, como a intransigência do governo das negociações com os credores internacionais e os programas sociais como a Asignación Universal por Hijo (similar ao nosso Bolsa Família), além de temas polêmicos como a nacionalização da YPF (a Petrobras deles) e da Aerolineas Argentinas.

Essa versão ‘paz e amor’ de um político que se consagrou na política com a fria imagem de um tecnocrata vem causando um certo desconforto, porque ora denota um certo desespero por uma iminente derrota frente Daniel Scioli, ora resulta ridícula pela falta de traquejo e até mesmo pelas ‘carícias impróprias’ em uma menina desconhecida.

Ainda assim, os outros candidatos do Cambiemos não devem representar uma ameaça à Macri.

Por um lado, Sanz não consegue fazer a sua candidatura decolar de nenhuma Sanzmaneira, em parte pela inconsistência de seu partido, a tradicional União Cívica Radical (UCR), que vem tendo dificuldades em se situar no espectro político argentino pelo menos desde o desastroso governo do radical De La Rúa (1999-2001). Eleito por uma aliança ampla em um período de severa instabilidade, foi forçado a renunciar depois de uma renegociação draconiana da dívida argentina. No primeiro governo de Cristina, o partido fez parte da chapa presidencial até que o Vice-Presidente Julio Cobos ‘traiu’ o governo, bandeando-se para a oposição justamente quando Cristina enfrentava a grave crise com o setor agropecuário do país. Na corrida presidencial desse ano, o partido não conseguiu livrar-se da pecha de ‘instável’, demorando até os 45 do segundo tempo até se decidir a juntar-se à frente Cambiemos, ao lado daquele que sempre foi tão criticado pelo partido, Maurício Macri. Mesmo após a decisão, a UCR ainda não conseguiu entrar na disputa de maneira coesa e, assim, Sanz é hoje carta fora do baralho.

Já Elisa Carrió, a emblemática ‘Lilita’, também tem derrapado na sua campanha. lilitaA sua habitual metralhadora de críticas, soltando acusações sem provas à esmo, não inspira confiança num país francamente cansado de confusão – mesmo ainda pela curiosa aliança da política tradicionalmente identificada no campo da esquerda com o Maurício Macri, no extremo oposto do espectro. A última polêmica em que se envolveu Lilita foi o caso da denúncia gravíssima contra o Chefe de Gabinete de Cristina e candidato ao Governo da Província de Buenos Aires Aníbal Fernández exibida no programa do jornalista ultra-opositor Jorge Lanata. A entrevista bombástica de um sujeito que busca vincular Fernández ao crime organizado e ao narcotráfico teria sido gravada no apartamento de Lilita, o que não só daria à denúncia um tom conspiratório, como também seria simbólico da adesão da candidata aos setores mais conservadores do país.

Correndo por fora, está a coalizão Unidos por uma Nova Alternativa (UNA), que até o ano passado despontava com a terceira alternativa para o governo do país.

Massa

O popular prefeito da pequena cidade de Tigre nos arredores de Buenos Aires, Sérgio Massa, após romper com o kirchnerismo em 2009, aparecia nas pesquisas até 2014 como o favorito para a sucessão presidencial, mesmo após o Wikileaks revelar que o candidato teve reuniões frequentes na Embaixada dos Estados Unidos (uma acusação mortal em um país onde os yankees têm uma reputação de imperialistas). Nessas conversas, realizadas enquanto Massa ainda era parte do governo de Cristina, ele diz que Néstor Kirchner era “um psicopata perverso e covarde”, o que grudou na imagem dele a pecha de traidor.

Ainda assim, num ambiente de forte contestação à administração de Cristina em 2013 e 2014, sua candidatura decolou trazendo uma grande dor de cabeça a Macri, até então o principal opositor do governo. Entretanto, tudo indica que foi um voo de galinha, pois sua posição nas pesquisas vem baixando progressivamente e hoje está cravada no terceiro lugar com míseros 15% na melhor das hipóteses. Acreditando em um novo fracasso dos institutos de pesquisa, Massa promete uma surpresa domingo que vem.

Seu concorrente dentro da UNA é José Manuel De La Sota, atual governador da 52ed49711f399_largeprovíncia de Córdoba e embaixador no Brasil durante os primeiros anos do governo Menem. Embora venha pegando pesado nas declarações polêmicas e um vídeo de campanha que causou graça nas redes sociais, o cordobês, que vem sendo assessorado pelo marqueteiro brasileiro João Santana (o mesmo de Lula e Dilma) não consegue subir nas pesquisas e, como Sanz, é praticamente ignorado pela cobertura midiática das eleições.

Todos eles e mais os nanicos, como Margarita Stolbizer (Progressistas), Jorge Altamira e Nicolás del Caño (Frente de Esquerda), querem chegar fortes em outubro para enfrentar a máquina do governo em torno de Daniel Scioli, que aparece nas pesquisas em um primeiro lugar confortável.

Scioli-III

Pelo visto, Scioli seguirá com sua estratégia de apresentar-se como o candidato da situação que irá “melhorar” o projeto de Cristina Kirchner, sem abandoná-lo. Nunca tendo sido um aliado muito próximo da Presidenta, a discrição de Scioli lhe garantiu um posição firme em cima do muro em muitas questões em que, se tivesse mergulhado de cabeça, poderia abalar o frágil equilíbrio de boa parcela do seu eleitorado – aqueles que desejam uma mudança, ma non troppo.

O analista político e especialista em estatísticas Raúl Aragon me disse que o kirchnerismo puro, ou seja, os mais fervorosos seguidores de Cristina, transfere cerca de 30% de votos a Scioli, o que não seria o suficiente para que ele superasse Macri num eventual segundo turno. “Existe o ‘sciolismo’ e mais um grupo de eleitores pouco convictos que poderão garantir a Scioli a presidência”.

Entretanto, conforme análise da jornalista Márcia Carmo do Clarín em Português, não se pode falar de cartas marcadas nessa eleição, que vem sendo marcada pelo 25% do eleitorado que se declarou ‘indiferente’ nas últimas pesquisas de opinião.

Domingo que vem eu apareço aqui com os resultados. Até lá!

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