Os Melhores Hambúrgueres de Buenos Aires

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Enquanto escrevia à exaustão sobre a morte do tal Nisman, entrevistava pessoas, fazia matérias, via programas de televisão, lia sobre ele no jornal e até num livro (!), deixei transparecer meio que de brincadeira aqui minha vontade de escrever uma matéria do tipo “melhor hambúrguer da cidade” pra variar um pouco. E não é que, no meio daquela loucura, ficou complicado mesmo cozinhar em casa e eu virei, junto com meu parceiro no crime, o maior consumidor de fast food/delivery da cidade de Buenos Aires?

Agora eu tenho material para escrever sobre quase todo o tipo de porcaria que se come por essas bandas do mundo, incluindo pizzas, choripanes, milanesas à napolitana, sorvetes, mais uma porção de iguarias estranhas & cools do Palermo Hollywood e, como não?, essa maravilha calórica que é o hambúrguer.

É interessante notar que, ainda que não se trate de uma cidade com tradição nessa obra de arte do junk, como Nova York ou São Paulo, Buenos Aires larga na frente por uma questão fundamental no reino dos hambúrgueres: nos campos argentinos é produzida possivelmente a melhor carne do mundo, mesmo que ainda tenha um caminhozinho a percorrer na categoria pão (leia-se, brioche).

Então, vamos a eles!

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Sentimentos desencontrados na Marcha do Silêncio

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Ontem (18), quinze minutos antes do início da chamada Marcha do Silêncio ou #18F, desabou um aguaceiro sobre a cidade de Buenos Aires. Se o mesmo tivesse acontecido na maioria das cidades do mundo, era de se esperar um enorme fiasco: com um comparecimento que já parecia ser massivo de, em boa parte, pessoas pra lá dos cinquenta anos de idade, nessas outras cidades a rua iria se esvaziando e os tais procuradores melancolicamente caminhariam até o palácio do governo sozinho.

Mas isso não aconteceu em Buenos Aires. De repente um mar de guarda-chuvas foi se abrindo  e a chuva forte apenas deu um tom um pouco mais lúgubre àquele lamento pela morte em estranhas circunstâncias do procurador especial da causa AMIA Alberto Nisman.0000442383

Contrário ao que propunha a convocatória, entretanto, não se tratou de uma marcha silenciosa. Como no protesto realizado dias após o sinistro, os manifestantes ora batiam palmas, ora entoavam emocionados o hino argentino: uma imagem verdadeiramente tocante capaz de derrubar qualquer cinismo com relação à natureza do evento, por si só, contraditório, polêmico e alvo de tantas críticas desde organizações próximas ao governo e mesmo do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, um costumeiro crítico da Presidenta Cristina Kirchner:

“Atrás dessa marcha vão estar oportunistas políticos que jamais defenderam os Direitos Humanos”

De acordo com a amiga Vera Pérez Guarnieri, que se aventurou comigo debaixo do temporal durante a cobertura do evento, aqueles senhorinhos e senhorinhas que se aboletavam debaixo do guarda-chuva tinham um motivo especial para estar lá. “Eles se lembram de um tempo em que as pessoas morriam ou sumiam para aparecer tempos mais tarde como suicidas”, me contou, “têm isso muito vivo na memória”. Um senhor que eu entrevistei no meio do caminho confirmou essa tese:

“Estamos aqui para defender a democracia. Esse país já sofreu muito na ausência dela”

Todos esses aportes somados à tanta obstinação já começavam a mudar a minha opinião sobre o 18F, que eu havia expressado aqui um dia antes, quando alguns dados foram caindo de pouco em pouco para, na verdade, reforçá-la e, ainda assim, dar àqueles senhorinhos e senhorinhas um caráter ainda mais melancólico. Vamos a eles.

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Sobre o silêncio da marcha

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A marcha marcada para amanhã (18) promete mobilizar centenas de milhares de pessoas na Praça de Maio em Buenos Aires como reação à morte do colega Nisman. Ela foi convocada por alguns procuradores argentinos. Seguindo a linha que vai costurando uma história iniciada com atentado à embaixada de Israel em 92 e continuada esses dias com uma denúncia bombástica e um suicídio/assassinato, a convocatória foi cercada de mistério: será uma marcha em silêncio.

Os procuradores não gritarão palavras de ordem nem cantarão o hino argentino nem darão entrevistas. Caminharão lado-a-lado, junto com políticos da oposição que já confirmaram presença e mais simpatizantes indignados com os últimos eventos e que ressentem uma Argentina dominada pela máfia de… (a verdade é que para esse posto existem muitos potenciais ocupantes).

“A marcha é um apoio à verdade”, comentou um dos fiscais em entrevista à rádio Mitre; “o corpo de procuradores sofreu um dado irreparável”, retrucou outro, enquanto, do lado do governo, uma chuva de críticas chegou ao ponto de caracterizá-la como um golpe de Estado judicial.

Para o secretário geral da Presidência Aníbal Fernandez, o chamado 18F foi convocado por “narcotraficantes” e “antissemitas”, de modo que é lamentável que “oportunistas” usem a marcha por benefício próprio. Num lacônico surto de otimismo, a Presidenta Cristina disparou que “a alegria vai vencer o ódio” e agregou:

“Eles sempre gostaram do silêncio porque não têm nada para dizer ou porque não podem dizer o que pensam”

E, de fato, eu me pergunto: qual seria o sentido de realizar uma marcha sem que se preste nenhuma explicação sobre contra quê está se manifestando? Haveria mais sentido se na própria convocação ao menos um manifesto fosse publicado, um release para a imprensa, algo; pois no final das contas o que está sendo divulgado são divagações sobre sentidos abstratos da justiça vindas de profissionais que estão aí metidos dentro dela.

Entende-se que cidadãos comuns se escondam atrás de uma assertiva vazia como #YoSoyNisman (ou como #JeSuisCharlie) sem, de verdade, elaborar o que significa ser qualquer um dos dois. Muitas pessoas irão à marcha com uma motivação dessa natureza: um desconforto geral com a situação catalisado por uma morte misteriosa. Mas se deveria esperar isso do corpo de Procuradores?

De acordo com um deles, Ricardo Saenz:

“Em um momento tão duro seria bom entender o que é o silêncio”

E, bem, sobre esse ponto, ele não deixa de ter razão; entretanto, considero uma irresponsabilidade indigna no serviço público “botar lenha na fogueira” num momento de incerteza institucional, sem aportar absolutamente NADA ao debate.

Amanhã eu conto como foi!

O Agente Stiusso

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Eu prometo que o meu próximo post será sobre os melhores hambúrgueres de Buenos Aires, compras ou algum assunto assim que trate de equilibrar esse blog. Mas por enquanto, não resta alternativa: temos que falar de Jaime Stiusso, o agente tão secreto, mas tão secreto, que até outro dia não tinha nem rosto e que, desde a morte do procurador Alberto Nisman, está dando o que falar por aqui.

O que sabemos dele não vem de uma página da Wikipedia, de uma autobiografia ou de alguma entrevista que tenha dado em algum momento. Stiusso é um mistério que vem se desvelando de uma acusação aqui e de um rumor dali que, sempre desmentidos, aumentam a fumaça no seu entorno. O certo, seguro e comprovado é que o engenheiro de 61 anos atuou na antiga Secretaria de Inteligência do Estado (a ex-SIDE) entre 1972 e dezembro do ano passado, o que, como veremos, é o suficiente para congelar a espinha!

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Gregos deveriam estudar a história recente da Argentina

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O novo Ministro de Finanças grego, Yanis Varoufakis, anunciou nesta segunda-feira (2) medidas para apaziguar as relações do país com seus credores, num plano que inclui trocar uma dívida impossível de honrar por títulos vinculados ao crescimento. O titular da pasta do governo recém-eleito terá que convencer os céticos companheiros europeus de que estarão fazendo um bom negócio, o que é uma missão complicada, afinal, o partido de extrema esquerda Syriza baseou sua campanha vitoriosa na proposta de demolir as políticas de austeridade fiscal.

País em crise econômica e social profunda, novo governo progressista, problemas gravíssimos com a dívida externa, troca de títulos… Essa história não lhe soa familiar? Pois deveria! Há mais ou menos uma década, o governo de Néstor Kirchner na Argentina jogou exatamente nesse campo para tentar driblar essa fórmula draconiana dos mais conservadores para lidar com a crise: uma austeridade que tem custos insuportáveis para o povo. Kirchner também propôs uma troca (el canje de la deuda) de títulos podres por bônus vinculados ao crescimento, numa operação em duas parcelas que logrou renegociar 95% da dívida.

Varoufakis deve ter se espelhado nessa receita de sucesso que, até a crise de 2008, garantiu à Argentina a retomada no ritmo do crescimento e até um princípio de reversão do drama social que o país vivia. Entretanto, seguramente está atento às novas regras desse tipo de operação que foram postas na mesa por uma controversa decisão da Corte Suprema estadunidense: se a aceitação ao plano não for universal (100% dos credores), a renegociação pode não valer nada.

Os chamados fundos abutres, os holdouts, até hoje assombram a Argentina com o temor da moratória – aliás, com tanta confusão pós-falecimento do procurador Nisman, essa renegociação caiu num estranho esquecimento.

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Lagomarsino: temos um suspeito?

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O último lance do thriller Nisman na Argentina foi a emocionante entrevista do especialista em informática, amigo, confidente e fiel escudeiro do procurador assassinado faz mais de dez dias.

Sua foto já andava circulando nos jornais e canais de TV dias antes, mas a verdade é que pouco se sabia dele. Isso, entretanto, não interferia em nossa imaginação, frequentemente alimentada por elementos soltos como “um salário de 40 mil pesos”, a foto dele  curtindo uma pescaria, as duas visitas que fez ao edifício Le Parc em Puerto Madero – uma das quais, teria sido no fatídico domingo –, o empréstimo da arma do crime. Uma mistura de nerd, playboy e frio assassino que não casa.

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Crônica de um país conflagrado

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Num famoso manual para estudantes em dúvidas quanto a sua vocação, sugestivamente publicado pela mesma editora responsável pela revista Veja, a descrição da profissão de jornalista dista um pouco da realidade:

“Ele investiga e divulga fatos e informações de interesse público, redige e edita reportagens, entrevistas e artigos, adaptando o tamanho, a abordagem e a linguagem dos textos ao veículo e ao público a que se destinam”

No Brasil e na Argentina, creio que na maior parte do mundo também, essa relação é distorcida. Para perceber isso, basta passar o olho nos principais veículos em tempos de escândalos potentes como os casos de corrupção na Petrobras lá e a morte do Procurador Nisman aqui. Dessa análise despreocupada, se depreende que o jornalista:

“Investiga e divulga fatos e informações de interesse particular, redige e edita reportagens, entrevistas e artigos, condicionando o tamanho, a abordagem e a linguagem dos textos ao veículo e à pré-disposição do público a que se destinam”

Trata-se de uma mudança sutil, mas fundamental à profissão jornalística, o que tem suscitado debates a cerca da regulação da atividade de informar em geral.

Não entremos nesse pântano caudaloso, mesmo porque a lei de meios (aprovada na Argentina, cogitada no Brasil) também é condicionada nas análises disponíveis pelos grandes veículos de comunicação (“É censura!”). Entretanto, é interessante observar que, se no Brasil, mais do que chegar à verdade sobre os procedimentos mau-cheirosos que mancham a reputação da Petrobras, busca-se desesperadamente vinculá-los ou desvinculá-los à Presidenta Dilma; na Argentina, a morte do Procurador Nisman tornou-se a oportunidade de derrubar ou legitimar um governo.

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3. A Política

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O eixo de Buenos Aires, a numeração de todas as ruas e mesmo a ordenação do metrô está localizado numa linha reta que sai da Casa Rosada, o marco zero da capital argentina. Seguindo pela Avenida de Mayo (na verdade é a Rivadavia, mas não sejamos puristas), se descortina uma das mais belas paisagens urbanas daqui, com prédios magníficos como o Palácio Barolo e o Congresso ao fundo.

Esse caminho é entrecortado pela colossal avenida Nueve de Julio, la más ancha del mundo, o que a torna virtualmente impossível de atravessar de uma.

Não, esse não é outro post de como se encontrar em Buenos Aires. Acontece que, quando você se muda para um lugar novo, acaba se dando conta de algumas coisas que passam corriqueiras na vida dos nativos e corre o risco, inclusive, de inventar situações que não tem nada a ver no fim das contas, como eu me arrisco a fazer aqui.

José de San Martín, libertador da Argentina

José de San Martín, libertador da Argentina

Mas não seria muita coincidência que o eixo da capital comece na antiga aduana, de onde as riquezas da terra eram evadidas na época colonial, gerando uma próspera sociedade criolla nessa margem do Rio da Prata, e que daí, no cruzamento com a rua San Martín (homônima ao Libertador daqui que acabou participando da independência de metade da América Espanhola), desse lugar desague a Avenida de Mayo (homônima à Revolução que deu origem ao país) até que esta cruze mais uma vez com a maior artéria de todas, a Nueve de Julio (a data em que finalmente a Argentina declara a independência da Espanha) até chegar no Congresso, o Parlamento, símbolo da democracia?

Pois bem, eu acho impressionante essa urbanização prestando-se a contar uma história e considerei apropriado começar esse post sobre a política argentina com esse senso de direção, tão Positivista, que respirava o país naqueles idos do fim do século XIX, quando começaram também a surgir alguns dos ícones da cidade como o Teatro Colón e todo o traçado urbano inspirado em Paris.

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2. A Economia

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A primeira dificuldade que tive para começar esse post foi encontrar uma foto que pudesse ilustrá-lo. Ao se meter a escrever um panorama da economia argentina em 2015, o que há de mais representativo a respeito dela: Uma bela ceifadeira trabalhando extensos campos de soja? Gruas enchendo containers no historicamente movimentado Porto de Buenos Aires? O parque industrial a pleno vapor? A praça financeira? Os arranha-céus de Puerto Madero? Uma montagem que inclua todas as anteriores? Ou uma dramática versão em preto-e-branco sugerindo decadência em algumas delas?

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Dependendo de quem se ouve, todas as alternativas são bastante possíveis e refletem também o que se vem sonhando para a economia da Argentina desde os tempos de glória da primeira metade do século XX – uma época jamais esquecida e cuja passagem para os tempos atuais se caracteriza como um dos grandes traumas sociais da nossa região.

Finalmente optei pelo dinheiro em espécie – o peso argentino – porque, como iremos ver, é a sua relação com a moeda estrangeira, ou frequentemente a falta dela, que determinou para que lado do espectro se concentrava a aposta para um futuro que permanece indefinido.

Na eleições de 2015, como aquela que se celebrou no Brasil em 2014, muito se debaterá sobre temas como a corrupção, a sanha concentradora dos Kirchner, a liberdade de imprensa, as relações internacionais, as restrições à economia, etc. Mas, no final das contas, e também à semelhança da contraparte brasileira, se estará discutindo a definição desse projeto de país que nos últimos quarenta anos esteve caracterizado por manobras radicais, deslumbramentos e tombos inevitáveis.

Mas, afinal, que cartas estão sobre a mesa?

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1. Quem vai às urnas?

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“Manifestación” de Antonio Berni

No primeiro texto da série em que pretendo traçar um panorama da Argentina no ano eleitoral de 2015, a escolha mais óbvia seria economia ou política, não é mesmo? Entretanto, resolvi reverter as coisas um pouquinho. Já que as eleições são a festa da democracia, por que não começar tudo pelo povo que, no final das contas, é o maior interessado em tudo isso? Existe economia ou política sem povo? Ambas estão (ou deveriam estar) à serviço de quem?

Não pretendo entrar muito nessa questão, mas posso adiantar que, como na maioria de nossos países, a resposta óbvia nem sempre correspondeu à realidade em nosso grande irmão do Sul. Numa trajetória de vida independente de cerca de duzentos anos, o país passou por transformações demográficas e sociais impressionantes, incluindo um influxo gigantesco de imigrantes (antes europeus, agora sul-americanos) e avanços e retrocessos no nível de vida, nos aspectos educacionais, entre outros.

No Brasil, em geral nossa impressão é extremamente desencontrada sobre o que é o povo argentino. Ora vistos como arrogantes, ora como os mais bem educados da região, ora como baderneiros (vide alguns visitantes durante a Copa do Mundo), inputs gerados por uma rápida visita à Buenos Aires ou pelo magnífico cinema produzido nesse canto do mundo ou mesmo por dados soltos como os cinco prêmios Nobel concedidos a cidadãos daqui (dois de medicina, dois da paz e um de química) brigam com as notícias que nos chegam através do jornal, onde constam pobreza, desestruturação e decadência política.

Mas, fora o senso comum dos brasileiros, quem é o argentino médio? Quem elegerá o próximo mandatário daqui?

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