3. A Política

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O eixo de Buenos Aires, a numeração de todas as ruas e mesmo a ordenação do metrô está localizado numa linha reta que sai da Casa Rosada, o marco zero da capital argentina. Seguindo pela Avenida de Mayo (na verdade é a Rivadavia, mas não sejamos puristas), se descortina uma das mais belas paisagens urbanas daqui, com prédios magníficos como o Palácio Barolo e o Congresso ao fundo.

Esse caminho é entrecortado pela colossal avenida Nueve de Julio, la más ancha del mundo, o que a torna virtualmente impossível de atravessar de uma.

Não, esse não é outro post de como se encontrar em Buenos Aires. Acontece que, quando você se muda para um lugar novo, acaba se dando conta de algumas coisas que passam corriqueiras na vida dos nativos e corre o risco, inclusive, de inventar situações que não tem nada a ver no fim das contas, como eu me arrisco a fazer aqui.

José de San Martín, libertador da Argentina

José de San Martín, libertador da Argentina

Mas não seria muita coincidência que o eixo da capital comece na antiga aduana, de onde as riquezas da terra eram evadidas na época colonial, gerando uma próspera sociedade criolla nessa margem do Rio da Prata, e que daí, no cruzamento com a rua San Martín (homônima ao Libertador daqui que acabou participando da independência de metade da América Espanhola), desse lugar desague a Avenida de Mayo (homônima à Revolução que deu origem ao país) até que esta cruze mais uma vez com a maior artéria de todas, a Nueve de Julio (a data em que finalmente a Argentina declara a independência da Espanha) até chegar no Congresso, o Parlamento, símbolo da democracia?

Pois bem, eu acho impressionante essa urbanização prestando-se a contar uma história e considerei apropriado começar esse post sobre a política argentina com esse senso de direção, tão Positivista, que respirava o país naqueles idos do fim do século XIX, quando começaram também a surgir alguns dos ícones da cidade como o Teatro Colón e todo o traçado urbano inspirado em Paris.

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Quem será o próximo? O Mapa Eleitoral da Argentina para 2015

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(((Para informações mais atualizadas, clique aqui)))

Enquanto o Brasil discute essa semana quem estará à frente da presidência no próximo quadriênio, a Argentina se prepara para um dos maiores pleitos em 2015. Trata-se de um processo eleitoral emblemático.

Ao sabor da redemocratização, suas primeiras edições, em 1983 e 1989, foram marcadas pela excessão: o radical Raúl Afonsín é eleito na transição na transição de uma das mais brutais ditaduras e tem seu mandato abreviado por turbulências econômicas para ser substituído por Carlos Menem, que ficaria no poder por dez anos.

Na sequência, volta o radicalismo nas mãos de Fernando de la Rúa que, com dois anos de governo, enfrenta uma imensa crise econômica, institucional, política e por aí segue. Sai fugido da Casa Rosada de helicóptero, fechando o seu governo com a pérola:

“¡Que se vayan todos!”

Antes de que Nestor Kirchner finalmente chegue à presidência, passam por lá sem esquentar a cadeira três criaturas que sucumbem sucessivamente. Assim, se inaugura o período K, por alguns chamada de “la década ganada“, por outros de “la otra década perdida“.

Nestor conseguiu eleger a esposa por capitalizar a normalização do país; Cristina conseguiu se reeleger capitalizando a retomada do crescimento e a geração de empregos. Entretanto, seu segundo mandato foi um período de radicalização do modelo, com enfrentamento aberto contra a mídia conservadora e os fundos abutres (só para ficar nos casos mais óbvios) e a introdução de medidas heterodoxas contra os revezes econômicos do país, como as restrições à compra de dólares e às importações, além de controle de preços, sem que isso impedisse taxas de inflação que deixam os argentinos de cabelo em pé.

Assim, o pleito de 2015 será também um grande plebiscito referente ao modelo que terá como pano de fundo a radicalização, porque nesse país não existem tons de cinza – para alguns, o kirchnerismo foi uma tragédia; para outros, uma redenção.

Nesse marco, se apresentam pelo menos quatro forças políticas, a saber:

Frente para la Victoria (FpV)

fpvO Kirchnerismo logrou formar uma base sólida no Congresso Nacional que consegue aprovar qualquer projeto do governo sem contratempos, o que favoreceu ao aprofundamento do modelo. O projeto inicial era lançar Amado Boudou para a sucessão, uma fórmula que acabou sendo enfraquecida pelas numerosas suspeitas de corrupção que correm na justiça. Desde então, se apresentaram o atual Chefe de Gabinete Jorge Capitanich (equivalente à nossa Casa Civil), o Ministro do Interior Florencio Randazzo, o governador da Província de Buenos Aires Daniel Scioli e, mais recentemente, o Ministro da Economia Axel Kicillof.

Desses, o único com projeção nacional é Scioli que, entretanto, é o representante mais ‘rebelde’ do kirchnerismo, já que tem claras intenções de alçar voo solo. Nos últimos dias, se reaproximou de seu partido, fazendo coro aos apoiadores da presidenta, mas ainda gera incertezas no núcleo duro do modelo.

Assim, a escolha ainda está indefinida

Frente Renovador

Sergio-Massa-elecciones-2013-2015A maior dissidência do FpV foi liderada pelo político bonaerense Sérgio Massa, ex-Chefe de Gabinete e atual deputado federal. Acusado de oportunista, desbancou os kirchneristas nas eleições legislativas de 2013 e propõe ajustes firmes no modelo, sem, entretanto, especificar quais ajustes seriam estes. Como força no maior colégio eleitoral do país, a Província de Buenos Aires, tem pouca experiência administrativa (foi apenas prefeito da pequena municipalidade de Tigre).

Frente UNEN

sanzNum evento espetacular em meados desse ano, foi lançada a Frente UNEN, uma coalizão de tradicionais forças políticas de centro-esquerda como Elisa Carrió, Pino Solanas, os dissidentes Prat-Gay e Martín Lousteau. Além do combate à inflação, prometem dirimir a “herança perversa” da corrupção”. Seu maior expoente para a candidatura presendencial é Ernesto Sanz, um membro tradicional da UCR.

Pesa contra a Frente UNEN a pouca homogeneidade do bloco, que desde já vem apresentando fissuras e o fato de que os últimos presidentes de sua maior força política (a UCR de Raúl Alfonsín y De la Rúa) nunca terminaram seus mandatos.

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Mauricio-Macri-PPO partido criado pelo Chefe de Governo da capital argentina Maurício Macri é, sem dúvida, a oposição frontal ao governo de Cristina Kirchner. Odiado pelos movimentos sociais em Buenos Aires, por suas políticas na educação e duras remoções, realizou uma boa gestão no campo dos transportes com a criação do Metrobus e das ciclovias, além de ter comandado a revitalização de áreas como Barracas (ainda em processo).

Pela pouca projeção nacional, dificilmente conseguirá vencer sozinho e, por isso, vem tentando se aproximar de lideranças da Frente UNEN ou da Frente Renovador, embora seu caráter neoliberal tenha grande rejeição nesses agrupamentos.

Frente de Izquierda

pitrolaDefensores de reformas mais profundas das que realizaram os kirchneristas, associam Cristina ao mercado financeiro e a acusam de não prestar atenção suficiente às demandas dos trabalhadores. Exigem o fim do pagamento da dívida externa até que se resolva a chamada “dívida social pendente”. Ainda não sinalizaram com um candidato para o pleito de 2015, mas têm no ex-piqueteiro Nestor Pitrola uma de suas maiores lideranças.

Naturalmente, ainda não existem nem candidaturas oficializadas nem pesquisas eleitorais, mas a corrida já começou. Pesquisas informais e internas do partido oficialista revelam que cerca de 30% dos apoiadores de Cristina (o chamado ‘núcleo duro’) votariam em qualquer candidato que ela apoiasse; entretanto, um em cada dez desses eleitores confessou que poderia optar por Massa de acordo com a situação.

Os especialistas daqui dizem que os resultados das eleições no Brasil terão um grande impacto por aqui. De acordo com o especialista Julio Gambina, “o Brasil está nos planos de todos os candidatos”, embora não esteja claro para que objetivo. “Uma integração Brasil-Argentina deve ser crítica à hegemonia capitalista internacional”.

Briefing: ¡Adiós, Cerati!

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Quando começou a semana, todos estavam com os olhos e ouvidos voltados para o que já se estava chamando de “súper-miércoles“, a quarta-feira em que o Senado de la Nación votaria dois projetos altamente controversos: a lei do abastecimento e a lei do pagamento soberano. Mas quando os jornais já exibiam as capas com louros ou críticas aos resultados alcançados pelo governo, foi anunciada uma notícia terrível que calou todas as outras: morreu Gustavo Cerati, vocalista do Soda Stereo.

Desconhecido pela maioria no Brasil (que não está muito acostumada a ouvir música em espanhol), o Soda conquistou uma legião de seguidores fieis com letras inteligentes e uma mistura de diferentes vertentes do rock. Depois Cerati seguiu uma carreira solo também com bastante sucesso, até sofrer um AVC no meio de um show em Caracas na Venezuela que o deixou em coma por 4 anos. A agonia acabou essa semana.

Nota pessoal: Antes de vir morar em Buenos Aires, pesquisei músicas argentinas para embalar meus sonhos e expectativas. Tanto o Soda quanto o Cerati solo foram hits fundamentais dessa pré-estreia. Devo confessar que as imagens evocadas em ‘Ciudad de la Furia’ (Buenos aires se ve tan susceptible / Es el destino de furias lo que en sus caras persiste) me causava um misto de apreensão e empolgação. Quem não espera uma intensidade dessas às vésperas de uma aventura dessas?

Na TV e nas rádios, suas músicas eclipsaram tudo. O povo daqui, com um gosto todo especial para o drama, chora com vontade a morte do ídolo que embalou a sua juventude. Sua contraparte mais adequada no Brasil, como lembrou a jornalista brasileira também radicada aqui Márcia Carmo, seria o Cazuza. Se você ainda não conhece, aí vai uma das minhas favoritas:

De qualquer maneira, falemos da tal da super quarta-feira, né? Afinal, o governo conseguiu passar no Senado duas leis que causaram grande debate no país.

A primeira foi a Lei do Pagamento Soberano, que propõe a transferencia dos títulos da praça de Nova York (e, por isso, sob jurisdição de Thomas Griesa) para a praça de Buenos Aires ou da França. A alternativa europeia apareceu de última hora devido temores de que a restruturação não teria muita adesão se ficasse concentrada localmente. Além disso, acatando a uma velha bandeira das esquerdas daqui, a lei cria uma Comissão Permanente Bicameral que investigará e fará o seguimento de toda a dívida pública argentina contraída desde 1976.

A lei foi aprovada pela abrumadora maioria governista no Senado, mas contou com a oposição de basicamente todo o resto, desde a Frente UNEN (uma ampla coalizão de oposição que anda bastante fissurada nos últimos tempos) até o PRO de Mauricio Macri – que também fez de tudo para que a sessão não fosse presidida por Amado Boudou, que atualmente está processado por casos de corrupção.

Acusada pelo economista Fernando Mattos de “não aportar nada de inteligente a apenas obstruir debate”, os opositores dizem que o governo está fazendo mais uma gambiarra que nada resolve em prejuízo da já seriamente deteriorada reputação argentina nos mercados internacionais. Alfonso Prat-Gay, da UNEN, afirmou:

“Este governo nunca encara a questão de fundo e não se pode viver a vida inteira à margem da lei, sobretudo, se estamos falando de uma jurisdição que a Argentina elegeu para dirimir seu problema”

Ele, apesar de não concordarem com a sentença do juiz Griesa com relação aos fundos abutres, entendem que o país ofereceu emitir os títulos sob a lei americana justamente pela suposta pouca segurança jurídica que poderia ser oferecida pela Argentina. Macri do PRO concorda:

“Eles tomam medidas que pioram a situação e tornam mais agudas a recessão. Não vamos aplaudir mais um default como o de 2002”

Já a Lei do Abastecimento, que substitui uma homônima de 1974, estabelece mecanismos de intervenção do Estado, ainda que esclareça que haverá compensações às empresas prejudicadas e se restrinja às grandes empresas (micro, pequenas e médias ficaram de fora). As intervenções, como a fixação de margens de utilidade, preços de referência, níveis máximos e mínimos de preços), deverão ocorrer somente mediante autorização judicial.

Nesse caso, a oposição afirma que a Argentina está indo pelo caminho da Venezuela, onde o resultado foi desabastecimento e ainda mais inflação. Em duro editorial, o jornal La Nación cunhou o nome Argenzuela para descrever uma situação de crescente intervenção estatal na economia, e em outro, disse que este se trata de um governo dos piores:

“O desprezo do governo nacional pela liberdade de expressão, as instituições, a independência da justiça, sua política comercial arbitrária, sua política diplomática conflitiva e que não leva a nada e sua dependência do clientelismo voraz são contrários ao diálogo e à busca dos consensos próprios de uma democracia que se entenda como progressista e moderna”

O governo, por sua vez, afirma que a lei protege não só consumidores, mas também os pequenos e médios empresários que compram num atacado “dominado por grupos concentrados”. O Chefe de Gabinete Jorge Capitanich rebateu as críticas da oposição:

“Os grupos opositores empresariais ou frentes eleitorais pretendem invalidar a aplicação desta norma a partir de uma visão negativa de estímulos ao emprego e ao investimento”

Enquanto o governo pisa o acelerador em suas medidas pouco ortodoxas, seguem insinuações de corrupção, sobretudo agora que foram divulgados dados do patrimônio dos principais líderes políticos do país. O de Cristina teria subido 30%, o de fulano 40%, o de ciclano 50%. Os dados abundam, mas não passam muito disso.

E, no meio de tudo isso, o salário mínimo aumentou 31%, o que, se visto pelos níveis oficiais de inflação está de acordo, mas se visto pelas medições informais (cerca de 40% desde o início do ano), simplesmente não alcançam.

Como se pode ver, existem duas argentinas que não se comunicam. Trocam acusações e se presumem do lado da razão sempre.

Nesse fogo cruzado, só uma copa do mundo ou a morte de um ícone é capaz de gerar consensos. Gustavo Cerati gerou o consenso da semana – dá uma olhada nas capaz de La Nación, Página/12, Clarín e Telam: estão todos com ele.

Que descanse em paz.

Briefing: Encontros e Desencontros

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Aos trinta e tantos anos, mãe de quatro filhos, Estela se dividia entre a escola primária em que lecionava e as atividades domésticas. Vivia, sim, em um ambiente político, já que o marido e os filhos militavam em diferentes movimentos sociais; mas, ela mesma, pouco se envolvia nesses assuntos.

Pouco mais de um ano depois de que se instaurou o chamado Processo de Reorganização Nacional, na verdade uma brutal ditadura militar com substancial braço civil, Estela sofreu o primeiro baque: seu marido Guido foi sequestrado pelas forças armadas, torturado e só liberado depois do pagamento de um resgate de 30 mil dólares. Para pagá-lo, Estela precisou vender sua casa no centro de La Plata e se mudou para uma mais humilde na periferia.

Mas esse foi apenas um susto perto do que lhe aconteceria apenas alguns meses depois, já que sua filha de 18 anos, grávida de três meses, seria também sequestrada e nunca mais apareceria.

Durante o regime cívico-militar argentino, que durou pouco mais de sete anos, a brutalidade das torturas tinha um componente ainda mais aterrorizante: o chamados centros de detenção clandestinos. Nos porões de casas e galpões abandonados, presos políticos eram confinados e torturados privando seus familiares de qualquer informação sobre eles. O filme “Crônica de Uma Fuga” é um retrato construído a partir de relatos dessa barbárie.

Foi a um lugar desses, conhecido como La Cacha, que Laura foi levada. Grávida do também militante e músico Walmir Oscar Montoya ou simplesmente “El Puño”, com quem teve um romance na clandestinidade, ela deu à luz no dia 26 de junho, cinco horas depois do parto foi separada do seu bebê e foi assassinada um mês depois.

Mas a história não terminou aí, porque Estela iniciou uma incansável busca pela filha e pelo neto junto às outras centenas de avós que se reuniam na Plaza de Mayo para exigir explicações aos militares. Estava fundado um dos movimentos de luta pelos direitos humanos mais reconhecidos no mundo e que, até segunda-feira, havia encontrado 113 netos.

A jornalista brasileira Gisele Teixeira contou em sua coluna no Blog do Noblat em 2012 uma faceta desconhecida dessas obstinadas senhoras. Com a ajuda de centros de pesquisa científicas de todo o mundo, por conta delas, foi criado o “índice de abuelidad”, um teste que permite chegar a um 99,9% de probabilidade com testes de sangue, antes mesmo do furor dos exames de DNA. “Exigiram a exumação de cadáveres, ajudaram a criar a Equipe Argentina de Antropologia Forense, fundaram o Banco Nacional de Dados Genéticos e, principalmente, ajudaram na descoberta do DNA mitocondrial, tema sobre o qual podem dar até aulas!”, conta Gisele.

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Juan Cadandié, encontrado aos 25 anos

Juan Cabandié recuperou sua identidade em 2004 aos 25 anos. Depois de desconfiar sobre sua origem, pressionou a mãe adotiva, que afinal reconheceu que era filho de desaparecidos. A Associação das Avós da Plaza de Mayo o ajudou a encontrar sua verdadeira família e ele se também se converteu em ativista dos direitos humanos. Atualmente é Deputado Nacional pela Cidade de Buenos Aires.

Na terça-feira foi a vez do neto de Estela, músico como o pai biológico. Também desconfiado de suas origens, o rapaz de 36 anos procurou a associação e os testes confirmaram que se trata do tão buscado Guido Carlotto.

O caso arrebatou o país de uma forma impressionante – absolutamente tudo parecia menor diante da alegria dessa mulher “sequestrada” pela política há mais de três décadas. Os numerosos programas de debate na TV argentina, seja dos canais públicos, seja dos oposicionistas, se esqueceram do caso dos fundos abutres e do default, do indiciamento do Vice-Presidente, da greve dos professores em quatro províncias e na capital, da greve dos bancos, do metrô que vai aumentar para 6 pesos em dezembro, das eleições do ano que vem, etc. Todos os temas ficaram em suspenso, pelo menos por alguns dias.

Uma das primeiras pessoas que ficaram sabendo da notícia, a Presidenta Cristina Kirchner afirmou que “A Argentina é um país um pouco mais justo que ontem” e, diferente de qualquer outra frase que tenha dito nos últimos dez anos, não houve uma réplica irônica nem na boca do povo nas palavras dos cronistas de oposição.

Uma das pouquíssimas unanimidades, talvez a única, do polêmico governo de CFK é a política de direitos humanos. Ainda no governo do marido, a Lei do Ponto Final e da Obediência Devida (uma contraparte da Lei da Anistia brasileira) foi anulada, tornando possível que agentes acusados de terrorismo de Estado fossem processados. Em paralelo, foram promovidas inovadoras políticas, como a criminalização do femicídio e o matrimônio igualitário (o casamento gay).

Sobre o reencontro de Estela Carlotto com o neto, o prêmio Nobel da Paz Pérez Esquivel falou de “reparação”, o Papa se disse “emocionado”; e dos dois dos maiores jogadores da história da Argentina, Messi e Maradona, resumiram o clima da semana:

“Não só o futebol pode nos unir!”

Mas deve ser mesmo só o futebol e o trauma da ditadura que seja capaz de unir esse país, já que em todos os outros temas há uma visão pró-governo e uma visão contra-governo.

Na primeira sessão do Senado presidida pelo Vice Amado Boudou, a oposição simplesmente não foi em protesto. Boudou está indiciado pela justiça pelo affair Ciccone. “Ele nos dá vergonha”, alegou o senador do radicalismo Gerardo Morales, enquanto Luis Juez da Frente Cívica descrevia o incômodo com a mera presença dele:

“Esse incômodo que grande parte da oposição manifesta não tem precedentes na história do Senado!”

O Chefe de Gabinete Jorge Capitanich questionou a atitude da oposição, afirmando que esta submete o governo a insultos, desqualificações permanentes e também a um vazio na comunicação. Quanto ao sumiço, foi taxativo:

“No mês passado também se retiraram com a desculpa de que se estava mudando o regulamento. Hoje, fazem o mesmo. O que eles fazem é utilizar essa desculpa para não debater, com uma perspectiva absolutamente autoritária ou porque não têm argumentos.”

Ele lembrou ainda que Boudou tem sofrido uma “campanha de escárnio” por parte dos meios de comunicação. Verdades ou não, dia sim dia também aparece alguma denúncia contra o Vice Presidente nos jornais e noticiários do país.

O assunto dos fundos abutres também é um desencontro danado. Enquanto o governo joga o “caso” no ventilador, acusando a justiça americana de atuar com parcialidade (em favor dos especuladores) e levando os Estados Unidos à Corte Internacional de Justiça na Haia, meios opositores acusam o governo de ser irresponsável.

Um dos principais colunistas do Clarín, Eduardo Van Der Kooy, escreveu que a Argentina está refém de Cristina e Kicillof:

“A manobra [do governo] implica potencializar um conflito inexplicável e irracional. (…) Cristina e Kicillof estão eufóricos com a luta épica contra os abutres. Entusiasmaram-se com o algumas pesquisas de opinião que haviam melhorado modicamente a imagem presidencial. Se verá por quanto tempo. Apostam na solidariedade verbal que colheram na região e no mundo para continuar com a aventura. [Entretanto], em vários aspectos, essa aventura tem tudo para se assemelhar com aquela que transformou a ditadura na tragédia das Malvinas. A Presidenta disse com desprendimento que jamais pensou em se parecer com o [prócer da independência] José de San Martín. Deveria tomar cuidado para não ficar na história como [o ditador] Leopoldo Galtieri.”

Luis Alberto Romero do La Nación também teceu a relação entre esse conflito e aquela guerra de 1982:

“(…) o governo está colhendo alguns sucesso notáveis. Talvez efêmeros, como os de Galtieri [durante a Guerra das Malvinas] (…) el pegou o assunto dos holdouts como uma ocasião para agitar o nacionalismo e somar um novo inimigo a seu amplo repertório de poderes concentrados que conspiram contra a nossa grandeza”.

A seara política, entretanto, segue bastante discreta, com excessão do ex-Presidente do Banco Central Alfonso Prat-Gay, membro da Frente Ampla UNEN (uma coalizão de partidos à esquerda que inclui o Radicalismo). Mais comedido, lembrou que sempre foi crítico à negociação da dívida de Lavagna e Néstor Kirchner e culpou a Lei Cerrojo pelo imbroglio. A lei estabelece que aqueles que não ingressaram na reestruturação da dívida em 2005 não poderiam fazê-lo nunca mais.

“Com a lei, a Argentina disse ‘entrem agora porque nunca mais vamos pagá-los’. Essa foi uma ideia de Lavagna e foi o que nos levou a essa decisão [do juiz estadunidense Thomas Griesa]”

Prat-Gay, entretanto, concorda com a visão governamental de que o juiz agiu com arbitrariedade.

Até semana que vem!

Briefing: Os Dribles da Argentina

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Sim, a Argentina chegou às Semifinais. Depois da fatídica derrota que nos infligiu, tirando-nos do Mundial da Itália em 1990 (uma obsessão nacional), nossos hermanos nunca mais tinham ficado entre os quatro melhores. Na Copa de 2002 (Coreia e Japão), eles sequer passaram às Oitavas; e nas outras (Estados Unidos, França, Alemanha e África do Sul), esbarraram em alguma equipe europeia justamente nas Quartas de Final.

Por esse motivo, a vitória contra a Bélgica por 1 x 0 ganhou contornos épicos no país e foi celebrada à altura nas ruas de Buenos Aires. Buzinaços, fogos de artifício, gritaria na janela e locutores enlouquecidos na televisão (“¡Que lindo es volver a verte, Argentina!“) deram o tom da chuvosa tardecita porteña no sábado.

O comentarista do diário La Nación Daniel Arcucci, logo após a vitória, ressaltou que, apesar da equipe não ter apresentado uma melhora substantiva em qualidade, “jogou diferente (…), graças às modificações de Sabella na defesa e com a entrada de Gago”.

Ninguém está particularmente otimista já que este ainda não é o Mundial do Messi(as) como se esperava e que, fora essa última, a Argentina ganhou praticamente todas as partidas no sufoco. Meus grandes informantes do mundo da bola, os taxistas, estão muito críticos do que chamam de “futebol medíocre” que sua seleção tem apresentado em campo. Na coletiva de imprensa antes da partida contra a Bélgica, o treinador da equipe Alejandro Sabella parecia compartilhar dessa opinião.

Entretanto, torcedores e comentaristas parecem apostar na mística, na paixão e no milagre. Já os brasileiros se encantaram com a resoluta opinião de um pequeno analista esportivo, cujo vídeo ganhou destaque nas redes sociais.

A vitória foi apenas o ponto final “para cima” de uma semana que começou com a euforia midiática pelo indiciamento do Vice-Presidente Boudou. Buscando vincular o caso com as acusações de tráfico de influência contra Nicolas Sarkozy, o relato do processo judicial inferiu que, em países sérios, mesmo altas autoridades “devem acertar suas contas com a justiça”, conforme sugeriu o editor do Clarín Ricardo Roa. Enquanto isso, analistas alinhados ao governo, embora comecem a reconhecer que podem ter acontecido “manejos turvos, talvez mais ligados a decisões políticas mal operadas”, se perguntam: “Não seria óbvio demais que, com o processo contra Boudou justo agora [enquanto o governo enfrenta a batalha contra os fundos abutres], estamos diante uma armação, um aproveitamento, um golpe obsceno [contra CFK]?”, como colocado por Eduardo Aliverti do Página/12.

A oposição tentou levar o caso às mãos do Congresso com a proposta de um juízo político equivalente no Brasil a uma CPI e com um pedido de licença ao Vice-Presidente; mas a maioria governista da Frente para a Vitória no Legislativo não deixou que o caso fosse adiante. O Clarín acusa o governo de não só proteger Boudou, mas a si mesmo, baseando-se na hipótese de que ele seguia ordens “de cima” e afirma: o apoio ao vice na base está cada vez mais escasso e só se sustenta pela vontade da presidenta Cristina Kirchner.

Outra batalha judicial, que está eriçando uma oposição que não parece disposta a esperar até o ano que vem para golpear o governo, é o processo por improbidade contra o juiz José María Campagnoli. Para os opositores, trata-se de mais uma ofensiva kirchnerista contra o Poder Judiciário; para aliados do governo, trata-se de um oportunista a favor dos meios dominantes.

No meio de mais essa guerra de acusações absolutamente polarizadas, em que não há espaço para relativizar, resta o mal estar do povo que vive com uma crise à espreita.

O caso dos fundos abutres segue sem resolução e é tema de qualquer conversa, manifestação ou talk show no país. A sensação é que se vai resolver, mas não sem sacrifícios. Em entrevista com o economista Fausto Spotorno e com o cientista político Pablo Kornblum, os dois afirmaram que a ninguém interessa a catástrofe de um default por míseros US$ 1,3 bilhões.

Contudo, para um governo acusado de ter sido bastante generoso na resolução de suas contendas com a Repsol, o Clube de Paris e o CIADI, assediado pelos movimentos da sociedade civil que reclamam o pagamento da chamada “dívida social” antes da dívida externa e comprometido até o pescoço com um discurso de repúdio à ganância dos fundos abutres, o impasse político pode deslegitimar qualquer esforço negociador.

Em pleno “evento de default”, um período cautelar de 30 dias antes de que se consolide a insolvência, a Argentina segue colhendo apoios, como o da Organização dos Estados Americanos essa semana. Mesmo com a abstenção de EUA e Canadá, a assembleia extraordinária do organismo aprovou uma moção de respaldo ao país “na reestruturação de sua dívida soberana”.

O chanceler brasileiro Luiz Figueredo manifestou a “solidariedade e apoio à Argentina, que leva com seriedade e êxito um trabalhoso exercício de reestruturação de uma dívida que vem pagando desde então”. De acordo com ele, “o precedente argentino deve ser visto como um sinal de alerta” e que é “muito importante que nos manifestemos coletivamente sobre a forma de evitar que a ação de uns poucos agentes possa botar em risco o bem-estar de milhões de pessoas e países inteiros”.

Já a britânica The Economist encerrou a trégua dos periódicos liberais internacionais com a Argentina. Com um artigo entitulado “O Luiz Suárez das finanças internacionais“, com referência ao craque uruguaio suspenso por ter mordido um jogador italiano, afirma que o país tem uma “atitude adolescente em que as regras existem para ser quebradas”. O artigo menciona o conceito de viveza criolla (o equivalente local para o jeitinho brasileiro) para descrever o manejo econômico dos Kirchner.

A noção de que pode jogar com as próprias regras ao invés das regras econômicas e do resto do mundo é simbolizada pela negação do governo do impacto inflacionário das suas políticas de expansão através do falseamento do índice de preços.

De acordo com a publicação, o país tardou muito em reestruturar suas dívidas e ainda aprovou duas vezes leis explicitamente banindo qualquer reabertura do swap de títulos ou acordo com os holdouts.

Alguns dizem que é pela condição pós-colonial da região. Se é, depois de 200 anos de independência, está na hora de crescer. O objetivo é trabalhar para mudar regras injustas, não ignorá-las. (…) Como Suárez descobriu, você quebra regras a seu próprio risco. Mais cedo ou mais tarde, a realidade encontra uma maneira de retrucar.

É um fato que a Argentina não agiu no caso dos fundos abutres de forma mais coordenada e precavida. O economista Fausto Spotorno me disse, por exemplo, que nada disso estaria acontecendo se o país tivesse renegociado a cláusula RUFO (Rights Upon Future Offer) com os detentores de bônus reestruturados. Essa cláusula garante que nenhum investidor terá condições mais favoráveis que outro. É a pedra no sapato de qualquer tentativa convencional da Argentina cumprir com a decisão do tribunal nova-iorquino.

Mesmo assim, The Economist claramente faz ginástica para conectar os pontos nesse artigo. Em poucas palavras, a revista britânica expõe que a viveza criolla dos Kirchner está sempre querendo driblar as regras internacionais ao mesmo tempo que se refugia no clássico argumento latino-americano de que já fomos colônia.

Primeiro, trata-se de um deboche que reúne elementos do selvagem jogador uruguaio, da tresloucada política argentina e da laxa moral latino-americana com o propósito de estigmatizar; segundo, minimiza o passado histórico da nossa região, como se o colonialismo fosse uma pequena mancha que já deveria ter sido superada (uma visão bastante cômoda para um meio britânico), com o propósito de desmerecer; e terceiro, desconsidera as condições nas quais o governo dos Kirchner teve que operar depois da gravíssima crise de 2001, com o propósito de simplificar. No final das contas, o editorial poderia levar o subtítulo: “Porque, no fundo, os abutres têm razão”.

É como Emir Sader explicou no artigo “A Contra-ofensiva da Direita Internacional“:

(…) Os meios – Financial Times, Wall Street Journal, The Economist, El País – atacam sistematicamente esses governos que nao aceitaram os ditames do Consenso de Washington. (…) A formidável arquitetura de renegociação da dívida argentina nunca foi assimilada por eles. Querem que seja um mau exemplo para Grécia, Portugal, Espanha, Egito, Ucrânia e tantos outros países aprisionados em armadilhas do FMI. Têm que demonstrar que os ditames das ditadura do capital especulativo são inevitáveis.

Até semana que vem!

Briefing: Horas Decisivas

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Uma semana de definições ou de aumento de tensões? A Argentina vai jogando em três fronts com lances inesperados. Depois de uma entrevista sobre o caso dos fundos abutres, o advogado e analista de relações internacionais Jorge Castro me disse: “fica aqui na Argentina, meu caro, tem sempre alguma coisa acontecendo!”. E não dá pra negar que ele tenha razão.

Com os olhos voltados à Copa do Mundo, os grandes protagonistas do evento para os argentinos não chegam a ser Messi, que até agora não brilhou além da fama de chegar para decidir, e muito menos Higuaín, que só dá bola fora. Os argentinos só falam do sexy (há controvérsias) e pícaro Lavezzi e da torcida barulhenta que invadiu o Brasil para alentar al seleccionado. Seja de avião, ônibus, carona ou motorhome, a hinchada lota ruas e estádios e amacia o ego apaixonado do país.

Agora começa o mata-mata das Oitavas de Final e nem o tanquinho do Lavezzi nem o canto da torcida vão ser suficientes para garantir que a Argentina siga em frente no sonho futebolístico. Os analistas daqui reclamam mais técnica e garra dos seus jogadores.

E a muitos convém que a seleção continue hipnotizando o povão nos estádios brasileiros, porque o mau humor de uma eliminação combinado com as coisas que têm acontecido por aqui pode ser um coquetel explosivo.

Por um lado, o Vice-Presidente do país, Amado Boudou, foi finalmente indiciado na Justiça pelo affair Ciccone. Os advogados afirmam que o juiz Ariel Lijo não tem provas e que fez um corta-e-cola de denúncias da grande imprensa para basear o indiciamento; assim, afirmam que vão apelar. Mas a oposição não quer conversa: dirigentes dos maiores partidos opositores PRO, Frente Renovadora e UNEN já anteciparam que Boudou deve renunciar e que irão pedir uma CPI no Congresso.

Sérgio Massa, da Frente Renovadora (e, em algum momento do passado, unha-e-carne com Boudou), instruiu à sua bancada para que “articule com o resto da oposição o julgamento político do Vice-Presidente”.

É uma situação sem precedentes na Argentina que um membro do Poder Executivo esteja indiciado pela justiça e ninguém do governo se pronunciou sobre isso ainda. Em viagem à Cuba, o Vice-Presidente tampouco deu pistas do que irá fazer.

Por outro lado, depois de algumas idas e vindas sobre como proceder no affair dos fundos abutres, o governo resolveu adotar uma estratégia múltipla.

Na política externa, reúne apoios de governos e organizações multilaterais. O G77+China mandou uma carta para o juiz Thomas Griesa e ao governo dos Estados Unidos defendendo a Argentina e alertando para os efeitos sistêmicos da medida. A UNCTAD, autoridade de comércio da ONU, também. Agora, o país busca o apoio institucional da Organização dos Estados Americanos em uma reunião extraordinária.

Alguns desses apoios vieram de tradicionais críticos da política argentina, como as publicações liberais Financial Times e The Economist. Na minha opinião, a melhor análise sobre o tema foi feita por Felix Salmon na edição de 24 de junho da Foreign Affairs. Com o título “Hedge Funds versus Soberania“, ele explica porque a decisão da Suprema Corte de não aceitar a apelação do Estado argentino ao reclamo dos hold-outs foi uma tremenda irresponsabilidade:

[Depois da decisão de um juiz exasperado], era dever da corte de apelação confrontar-se com a sua decisão e pensar nas suas implicações.  Mas evitou esse questionamento (…) e deixou abertos assuntos como a imunidade soberana, o futuro da restruturação de débitos soberanos e o futuro de Nova York como centro financeiro.

O artigo aponta para algumas alternativas para o país:

  • negociar com o fundo abutre – o que teria suas limitações pelo histórico de teimosia das partes
  • iniciar uma nova troca de títulos (canje), em que os detentores de bônus já renegociados os trocariam por títulos sob lei argentina, fora do alcance da jurisdição americana
  • comprar os títulos dos abutres no mercado secundário ao invés de pagar os dividendos

Mas o país optou pelo “nenhuma das anteriores” e simplesmente depositou o dinheiro dos detentores dos bônus restruturados como se nada tivesse acontecido. Griesa disse que era uma operação ilegal, mas não embargou e pediu ao banco Mellon de Nova York devolver o dinheiro à Argentina.

Na sexta à noite, o Ministério da Economia argentino emitiu um comunicado em que afirmou:

A República Argentina, em cumprimento com o previsto e com o contrato vigente com os detentores que aderiram voluntariamente à troca de títulos da dívidas no período 2005-2010, realizou o pagamento dos serviços de capital e juros de seus bônus pelo equivalente a US$ 832 bi. (…). Com esse pagamento, o país ratifica sua firme e irrestrita vontade de cumprir, honrar suas dívidas.

Em outras palavras, o país passou a bola para o juiz. Se ele quiser obstruir o pagamento aos detentores de bônus, ele estará “abusando de sua autoridade e excedendo sua jurisdição, porque os bônus renegociados não são objeto de litígio”. Assim, ele estará forçando o default técnico da Argentina. Saberemos o resultado na segunda-feira (30/07), quando vencem os pagamentos dos títulos renegociados.

Para os analistas alinhados com o governo, foi uma tacada de mestre. Já para os críticos, como o colunista Jorge Oviedo de La Nación, o governo simula que tem uma tática ao invés de confusão.

A verdade unânime é que se o governo argentino simplesmente optar por pagar, além de potencialmente ter que enfrentar uma enxurrada de cobranças em efeito dominó (que pode chegar ao valor de USD 150 bi), o custo político será enorme para o governo de Cristina Kirchner. Diante dessa possibilidade, o governo irá preferir partir para o confronto e jogar com a autovitimização para se salvar politicamente. É preciso se lembrar que um dos ápices de popularidade de Néstor Kirchner foi justamente quando ele “enfrentou” o FMI e os mercados financeiros internacionais para não impor ao país um ajuste muito duro.

Esse é, na verdade, mais um capítulo dessa história. O dado novo é que, dessa vez, a Argentina que se apresenta na disputa é um país que tem se esforçado para normalizar sua situação financeira com o mundo – recentemente chegou a um acordo com a Repsol (sobre a reestatização da YPF), com o Clube de Paris e com o CIAIDI.

Nesse contexto, estará a justiça americana incentivando o país a viver à margem do sistema financeiro? A maioria dos analistas, governos e organismos multilaterais acham que sim.

Até semana que vem!

 

 

Briefing: Copa invade as manchetes

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Samba argentino na Avenida Atlântica

Tá vendo essa foto aí em cima? Não, não são os bosques de Palermo. É a Praia de Copacabana! Foi só o “mundial” (como eles chamam aqui) começar que todas as outras notícias simplesmente deram uma sumida. Ninguém quer mais saber se o Boudou é culpado, se o Acordo com o Clube de Paris é positivo, se o Memorandum de Entendimento com o Irã no caso AMIA é legítimo ou se a Corte Suprema dos EUA vai acolher a apelação argentina no caso dos fundos abutres. A questão do momento é: será que a Argentina vai mostrar mais do que na apertada vitória em 2 a 1 contra a Bósnia?

A cobertura da Copa do Mundo pelos meios argentinos tem sido muito positiva. Já escutei mais de um repórter elogiando a infra-estrutura dos estádios, a calorosa recepção dos brasileiros e a organização rigorosa antes, durante e depois das partidas. Nas últimas análises sobre os protestos que assediaram a segurança da estreia na última quinta-feira, os comentaristas argentinos, em geral, embora estejam de acordo que as reivindicações são apropriadas, têm ponderado que há um mal-entendido a cerca dos benefícios que traz esse grande evento esportivo ao país. Eles se referem aos números do turismo, à futura utilização dos estádios (não só para jogos de futebol, como também shows, festas populares, etc) e aos ganhos relativos à imagem do país no mundo. Nem uma palavra sobre as ofensas à presidenta Dilma Rousseff.

Entretanto, por mais que o povo esteja disposto a relaxar quanto às grandes questões do país para concentrar-se em torcer, há algumas expectativas que pulsam por debaixo dessa euforia.

Na última quinta-feira, enquanto o Brasil ganhava a partida contra a Croácia (sob circunstâncias que os meios daqui não deixaram de questionar), em Washington a Corte Suprema se reunia para a última sessão da causa dos fundos abutres contra a Argentina.

Após a crise de 2001, o país reestruturou sua dívida com grande parte dos investidores detentores dos títulos. Alguns desses investidores não aceitaram renegociá-los e exige o pagamento integral com juros no valor de cerca de USD 1,5 bilhões. Embora alguns analistas concordem que a Argentina teria condições fiscais de arcar com esse compromisso pontual, uma vitória desses hold-outs, os chamados fundos abutres, poderia levar àquela maioria que concordou em renegociar a reivindicar também o pagamento integral, o que colocaria a Argentina em default técnico – uma verdadeira catástrofe econômica.

Mais que isso, conforme alertou a Presidente Cristina Kirchner perante a assembleia do G77+China na Bolívia hoje, “[a vitória desses] pequenos grupos financeiros na justiça americana põe em risco todo o sistema financeiro internacional”, já que criaria uma jurisprudência desfavorável a qualquer reestruturação de dívida soberana. Não à toa, o país tem colhido importantes aliados políticos nessa disputa, entre eles o Brasil, a administração Obama nos Estados Unidos e até alguns deputados do Reino Unido (que está em constante atrito com a Argentina ultimamente).

A decisão sai na próxima segunda-feira (16).

Já o caso Boudou progrediu pouco. A justiça ouviu Vandenbroele, que leu uma declaração, mas não respondeu a perguntas, além de um funcionário da AFIP (que supostamente complicou um pouco a situação do Vice-Presidente ao confirmar insinuações de tráfico de influência) e um genro da família Ciccone, que contradisse Boudou em seu depoimento. Entretanto, não apareceu nada de novo e o Vice-Presidente continua em compasso de espera da decisão do juiz Ariel Lijo, que deve pronunciá-la ainda essa semana.

A rotina dos porteños foi alterada durante a semana com duas greves setoriais que geralmente incomodam muito a vida do cidadão comum: metrô e bancos. O primeiro parou por duas horas na manhã de quinta, em protesto por mais segurança nas estações, e o segundo não funcionou na sexta-feira, ainda pelas reivindicações relativas ao caso do banco em Tucumán, província ao norte da Argentina.

Mês passado, a Caja Popular de Ahorros de Tucumán demitiu 36 funcionários. Os sindicatos do setor denunciaram que as demissões foram causadas pela militância desses trabalhadores e foram duramente reprimidos num protesto na capital da província, que deixou 22 feridos. Este episódio deu projeção nacional à causa e já resultou em duas paralisações desde então.

Numa marcha pelo centro de Buenos Aires em 29 de maio, o Secretário-Geral da Asociación Bancaria me disse que “está ocorrendo uma severa perseguição política no país” e que a repressão em Tucumán era uma “violação dos direitos humanos”. No mesmo dia, o Chefe de Gabinete do governo nacional Jorge Capitanich afirmou que havia espaço para a negociação e que estava confiante numa resolução rápida para o caso. Pelo visto, não está sendo tão fácil assim.

Também nessa semana, o governo argentino foi acusado pelo funcionário do Foreign Office britânico para a América Latina Hugo Swire de estar praticando bullying com os habitantes das Ilhas Malvinas (ele as chama de Falklands, naturalmente). De acordo com ele, “os esforços do Governo da Argentina para amedrontar e coibir essa comunidade não só falharam, como se provaram contra-produtivos [já que] os habitantes descobriram um sentido renovado na confiança e no orgulho de sua identidade”. Ele ainda criticou o país por “usar instituições como o futebol argentino para transmitir mensagens de cunho político”, referindo-se à faixa com os dizeres “As Malvinas são Argentinas” que os jogadores empunharam no último amistoso da seleção antes da Copa.

Enquanto isso, o governo britânico realizou uma bateria de leilões para a concessão de licenças de exploração de recursos naturais nas ilhas.

Até semana que vem!

Briefing: Um balde de água fria?

Boudou passou por alguns entreveros recentemente

Boudou passou por alguns entreveros recentemente

As últimas semanas vieram com novidades positivas para o governo argentino, mas também com uma situação complicada.

O jovem Ministro da Economia Axel Kicillof mais uma vez mostrou a que veio. Substituindo o polêmico Guillermo Moreno (que nem era Ministro, mas que definitivamente estava à frente da política econômica do governo Cristina Kirchner), ele vem impulsando uma série de iniciativas mais ortodoxas para “normalizar” a situação da Argentina e fazer as pazes (talvez, tentar uma aproximação) com os mercados. Se o antecessor havia criado medidas de restrição para a compra de dólares, além de manter com uma dose considerável de histrionismo um discurso contra o pagamento da dívida externa, Kicillof tem flexibilizado o regime de câmbio, fechou um acordo com a Repsol no valor de USD 5 bi pela nacionalização da YPF e, agora, foi a vez de acertar as contas com o Clube de Paris.

Celebrado pelo governo como um acordo que respeita a soberania nacional já que não será avalizado pelo FMI, suas vantagem têm sido contestadas por membros mais virulentos da oposição e da imprensa, além de setores mais radicais da militância e sindicatos. De todos os modos, a classe média porteña respira um pouco aliviada. Para muitos daqueles que o-d-e-i-a-m a Cristina, seja porque é louca, feia, prolixa ou por qualquer outro motivo, a percepção anterior era de que a Presidenta iria até o fim para deixar a bomba explodir na mão do sucessor depois de 2015, fosse quem fosse. As novas manobras do governo, portanto, acalmaram um pouco essa expectativa.

O governo afirma que, ao obter de volta o acesso ao crédito internacional, poderá realizar os necessários investimentos em infra-estrutura que o país precisa. Esse reposicionamento tem sido encarado com desconfiança, quando nunca por aqueles que acusam a Presidenta e sua equipe de trair o programa “nacional e popular”, cujo eixo paradigmático incluía o repúdio aos tradicionais credores internacionais, como FMI e Clube de Paris.

No front diplomático, as autoridades receberam, com entusiasmo, o convite para participar da próxima Cúpula dos BRICS em Fortaleza logo depois da Copa e o apoio de basicamente todo mundo na Assembleia Geral da OEA pelo histórico reclamo contra a ocupação das Ilhas Malvinas (menos dos EUA e Canadá, é óbvio). Embora alguns analistas tenham minimizado o segundo feito, uma vez que o país já tinha o apoio desses países na causa, é importante lembrar que cada declaração dessa natureza reforça o caminho elegido por este governo, a solução pacífica, para, ao menos, reiniciar as negociações com o Reino Unido.

Junto com essa vitória argentina na OEA, o convite a Cuba para participar da próxima Cúpula das Américas no Panamá ano que vem, revelou o isolamento do Canadá e dos Estados Unidos no organismo hemisférico.

Já no campo das esperanças, não é que a Argentina pode vir a se tornar no novo eldorado do petróleo e do gás no continente? O Presidente da YPF Miguel Galuccio aparece dia sim, dia também pra anunciar seja uma nova descoberta da estatal, seja uma joint-venture bilhardária com alguma major do ramo.

Tudo muito bom, tudo muito bem… mas parece que o Vice-Presidente Amado Boudou está se enrolando. Chamado a depor por um juiz federal, diz que está tranquilo por poder provar a sua inocência. Mas a verdade é que não está convencendo muito e é um baita incentivo para aqueles que acusam o governo de ser o mais corrupto de todos os tempos.

Boudou é acusado de usar a sua influência na venda da gráfica Ciccone, que é responsável pela impressão das notas de Peso Argentino, e na assinatura de contratos dessa empresa com o governo e o partido oficialista.

O deputado Miguel Bazze, do partido opositor UCR, me contou que Boudou deveria renunciar porque, como na Argentina o vice também é investido constitucionalmente com a presidência do Senado, ele tem muito poder para influenciar no caso. O radicalista afirmou que Boudou foi responsável pelo afastamento de um juiz federal logo quando apareceram as primeiras acusações.

Esse caso e a divulgação de um novo índice da UCA revelando o aumento da pobreza na Grande Buenos Aires abalaram um pouco a sequência de boas notícias, mas nada parecido com o início do ano, quando a cotação do dólar e a inflação pareciam estar fora de controle. Semana que vem as atenções vão se dividir entre as notícias diárias do Vice-Presidente e o início da Copa.

Obviamente, no mundo das fofocas do star-system local, o circo continua sendo televisionado com uma baixaria atrás da outra. A semana teve acusações de práticas de magia negra, de alpinismo social, declarações da ex do Maradona, chororô de uma egressa do rehab e por aí vai. Mas sem um pouco de sangue, suor e lágrimas, não seria BsAs, né?

Até semana que vem!