Pizza!

PIZZERIA GUERRIN FOTO JUANO TESONE

PIZZERIA GUERRIN
FOTO JUANO TESONE

Continuando a saga iniciada com os hambúrgueres, escrevo um post sobre a minha (também vasta) experiência com as pizzarias de Buenos Aires – um dia chegaremos às milanesas. O encadeamento lógico das grandes pizzas que se podem encontrar na cidade deve também estar relacionado com aquele blá-blá-blá da imigração italiana, etc e tal. Mas de acordo com a minha vivência personal, a resposta seguramente iria pelo seguinte caminho: intensa vida noturna, bebedeiras homéricas, ressacas hercúleas… em que mais dá?

Os critérios usados nessa humilde crítica são sumamente subjetivos. Aqui importará mais a suculência do queijo esticando entre a boca e a fatia e a massa apenas suficientemente massuda do que os ingredientes de origem e similares babaquices. Se tiver uma boa fainá, ponto para a candidata à melhor pizza de Buenos Aires. Não conhece a fainá? Sabe de nada, inocente…

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Os Melhores Hambúrgueres de Buenos Aires

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Enquanto escrevia à exaustão sobre a morte do tal Nisman, entrevistava pessoas, fazia matérias, via programas de televisão, lia sobre ele no jornal e até num livro (!), deixei transparecer meio que de brincadeira aqui minha vontade de escrever uma matéria do tipo “melhor hambúrguer da cidade” pra variar um pouco. E não é que, no meio daquela loucura, ficou complicado mesmo cozinhar em casa e eu virei, junto com meu parceiro no crime, o maior consumidor de fast food/delivery da cidade de Buenos Aires?

Agora eu tenho material para escrever sobre quase todo o tipo de porcaria que se come por essas bandas do mundo, incluindo pizzas, choripanes, milanesas à napolitana, sorvetes, mais uma porção de iguarias estranhas & cools do Palermo Hollywood e, como não?, essa maravilha calórica que é o hambúrguer.

É interessante notar que, ainda que não se trate de uma cidade com tradição nessa obra de arte do junk, como Nova York ou São Paulo, Buenos Aires larga na frente por uma questão fundamental no reino dos hambúrgueres: nos campos argentinos é produzida possivelmente a melhor carne do mundo, mesmo que ainda tenha um caminhozinho a percorrer na categoria pão (leia-se, brioche).

Então, vamos a eles!

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Sentimentos desencontrados na Marcha do Silêncio

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Ontem (18), quinze minutos antes do início da chamada Marcha do Silêncio ou #18F, desabou um aguaceiro sobre a cidade de Buenos Aires. Se o mesmo tivesse acontecido na maioria das cidades do mundo, era de se esperar um enorme fiasco: com um comparecimento que já parecia ser massivo de, em boa parte, pessoas pra lá dos cinquenta anos de idade, nessas outras cidades a rua iria se esvaziando e os tais procuradores melancolicamente caminhariam até o palácio do governo sozinho.

Mas isso não aconteceu em Buenos Aires. De repente um mar de guarda-chuvas foi se abrindo  e a chuva forte apenas deu um tom um pouco mais lúgubre àquele lamento pela morte em estranhas circunstâncias do procurador especial da causa AMIA Alberto Nisman.0000442383

Contrário ao que propunha a convocatória, entretanto, não se tratou de uma marcha silenciosa. Como no protesto realizado dias após o sinistro, os manifestantes ora batiam palmas, ora entoavam emocionados o hino argentino: uma imagem verdadeiramente tocante capaz de derrubar qualquer cinismo com relação à natureza do evento, por si só, contraditório, polêmico e alvo de tantas críticas desde organizações próximas ao governo e mesmo do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, um costumeiro crítico da Presidenta Cristina Kirchner:

“Atrás dessa marcha vão estar oportunistas políticos que jamais defenderam os Direitos Humanos”

De acordo com a amiga Vera Pérez Guarnieri, que se aventurou comigo debaixo do temporal durante a cobertura do evento, aqueles senhorinhos e senhorinhas que se aboletavam debaixo do guarda-chuva tinham um motivo especial para estar lá. “Eles se lembram de um tempo em que as pessoas morriam ou sumiam para aparecer tempos mais tarde como suicidas”, me contou, “têm isso muito vivo na memória”. Um senhor que eu entrevistei no meio do caminho confirmou essa tese:

“Estamos aqui para defender a democracia. Esse país já sofreu muito na ausência dela”

Todos esses aportes somados à tanta obstinação já começavam a mudar a minha opinião sobre o 18F, que eu havia expressado aqui um dia antes, quando alguns dados foram caindo de pouco em pouco para, na verdade, reforçá-la e, ainda assim, dar àqueles senhorinhos e senhorinhas um caráter ainda mais melancólico. Vamos a eles.

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Sobre o silêncio da marcha

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A marcha marcada para amanhã (18) promete mobilizar centenas de milhares de pessoas na Praça de Maio em Buenos Aires como reação à morte do colega Nisman. Ela foi convocada por alguns procuradores argentinos. Seguindo a linha que vai costurando uma história iniciada com atentado à embaixada de Israel em 92 e continuada esses dias com uma denúncia bombástica e um suicídio/assassinato, a convocatória foi cercada de mistério: será uma marcha em silêncio.

Os procuradores não gritarão palavras de ordem nem cantarão o hino argentino nem darão entrevistas. Caminharão lado-a-lado, junto com políticos da oposição que já confirmaram presença e mais simpatizantes indignados com os últimos eventos e que ressentem uma Argentina dominada pela máfia de… (a verdade é que para esse posto existem muitos potenciais ocupantes).

“A marcha é um apoio à verdade”, comentou um dos fiscais em entrevista à rádio Mitre; “o corpo de procuradores sofreu um dado irreparável”, retrucou outro, enquanto, do lado do governo, uma chuva de críticas chegou ao ponto de caracterizá-la como um golpe de Estado judicial.

Para o secretário geral da Presidência Aníbal Fernandez, o chamado 18F foi convocado por “narcotraficantes” e “antissemitas”, de modo que é lamentável que “oportunistas” usem a marcha por benefício próprio. Num lacônico surto de otimismo, a Presidenta Cristina disparou que “a alegria vai vencer o ódio” e agregou:

“Eles sempre gostaram do silêncio porque não têm nada para dizer ou porque não podem dizer o que pensam”

E, de fato, eu me pergunto: qual seria o sentido de realizar uma marcha sem que se preste nenhuma explicação sobre contra quê está se manifestando? Haveria mais sentido se na própria convocação ao menos um manifesto fosse publicado, um release para a imprensa, algo; pois no final das contas o que está sendo divulgado são divagações sobre sentidos abstratos da justiça vindas de profissionais que estão aí metidos dentro dela.

Entende-se que cidadãos comuns se escondam atrás de uma assertiva vazia como #YoSoyNisman (ou como #JeSuisCharlie) sem, de verdade, elaborar o que significa ser qualquer um dos dois. Muitas pessoas irão à marcha com uma motivação dessa natureza: um desconforto geral com a situação catalisado por uma morte misteriosa. Mas se deveria esperar isso do corpo de Procuradores?

De acordo com um deles, Ricardo Saenz:

“Em um momento tão duro seria bom entender o que é o silêncio”

E, bem, sobre esse ponto, ele não deixa de ter razão; entretanto, considero uma irresponsabilidade indigna no serviço público “botar lenha na fogueira” num momento de incerteza institucional, sem aportar absolutamente NADA ao debate.

Amanhã eu conto como foi!

1. Quem vai às urnas?

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“Manifestación” de Antonio Berni

No primeiro texto da série em que pretendo traçar um panorama da Argentina no ano eleitoral de 2015, a escolha mais óbvia seria economia ou política, não é mesmo? Entretanto, resolvi reverter as coisas um pouquinho. Já que as eleições são a festa da democracia, por que não começar tudo pelo povo que, no final das contas, é o maior interessado em tudo isso? Existe economia ou política sem povo? Ambas estão (ou deveriam estar) à serviço de quem?

Não pretendo entrar muito nessa questão, mas posso adiantar que, como na maioria de nossos países, a resposta óbvia nem sempre correspondeu à realidade em nosso grande irmão do Sul. Numa trajetória de vida independente de cerca de duzentos anos, o país passou por transformações demográficas e sociais impressionantes, incluindo um influxo gigantesco de imigrantes (antes europeus, agora sul-americanos) e avanços e retrocessos no nível de vida, nos aspectos educacionais, entre outros.

No Brasil, em geral nossa impressão é extremamente desencontrada sobre o que é o povo argentino. Ora vistos como arrogantes, ora como os mais bem educados da região, ora como baderneiros (vide alguns visitantes durante a Copa do Mundo), inputs gerados por uma rápida visita à Buenos Aires ou pelo magnífico cinema produzido nesse canto do mundo ou mesmo por dados soltos como os cinco prêmios Nobel concedidos a cidadãos daqui (dois de medicina, dois da paz e um de química) brigam com as notícias que nos chegam através do jornal, onde constam pobreza, desestruturação e decadência política.

Mas, fora o senso comum dos brasileiros, quem é o argentino médio? Quem elegerá o próximo mandatário daqui?

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Briefing: Cosmópolis da Pacha Mama ameaçada?

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Um dos insights mais marcantes que tive logo depois que cheguei a Buenos Aires foi de que a cidade era o grande centro cosmopolita da América do Sul. É óbvio que tem São Paulo com milhões de estrangeiros de todas as partes do mundo; mas a capital argentina tem uma parcela importante da população que chegou nos últimos dez anos dos países da vizinhança, inclusive do Brasil, e que empresta todo o colorido da Pacha Mama à outrora Paris ao sul do Equador.

O lugar mais óbvio para testar essa hipótese é o bairro do Abasto, com seus diversos restaurantes peruanos e hoteizinhos bem precários que hospedam os recém-chegados. Com maior detenção, entretanto, se podem encontrar os pontos de encontro da numerosa comunidade de colombianos, venezuelanos, bolivianos e por aí vai – – o que se confirma pelos números da Dirección Nacional de Migraciones. Desde 2004, quase um milhão de estrangeiros se radicaram no país, sobretudo vindos do Paraguai (38,7%), Bolívia (28,6%) e Peru (15,2%).

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O gráfico acima, publicado no jornal La Nación, demonstra ainda que os números são crescentes, atingindo a marca de 138 mil admissões só em 2013 – o que ainda é um número por baixo, porque aqui não estão considerados os “residentes temporários”, que vem por dois anos ou menos, como é o caso de muitos estudantes da região.

Além da atração natural que uma cidade como Buenos Aires tem, a brusca elevação desses números tem a ver com uma política de inclusão promovida pelo governo de Néstor e Cristina Kirchner na última década, cristalizada no Plano Pátria Grande que entrou em vigor em 2004. Destinado aos cidadãos do Mercosul e países associados (ou seja, quase toda a América do Sul), o programa buscou regularizar a sua situação migratória, somando-se às facilidades garantidas por tratados de circulação de pessoas do bloco (esse, válido somente para os cidadãos de membros permanentes).

Tudo muito bom, tudo muito bem, a verdade é que a opinião pública local se divide discretamente quanto a essa política de portas abertas. Digo discretamente porque não se vai encontrar por aí um partido que advogue publicamente a construção de uma muralha virtual no entorno da Argentina, como ocorre na Europa; mas não é incomum escutar comentários xenófobos, poucas vezes direcionados aos brasileiros (em geral bem vistos, pois são, em sua maioria, estudantes de classe média alta).

Sabe aquela lenda de que não existe racismo no Brasil? Pois bem, por aqui havia uma parecida de que a Argentina, terra de imigrantes, não era xenófoba. Em 2010, depois de um conflito entre a população vivendo em situação precária e o governo da cidade de Buenos Aires no Parque Indoamericano, repetido em 2014, chamou a atenção de analistas a respeito de um crescente ‘nacionalismo degenerado’ surgido no seio de “uma classe média baixa que se autoproclama honesta, abnegada e patriota e que, ao cumprir o sonho minimalista e individual de acesso à propriedade e ao trabalho, consideram massivamente desonestas, preguiçosas e, sobretudo, anti-pátria as classes que se situam apenas um degrau abaixo do que elas puderam alcançar”. Ou seja, uma situação-cliché não só entre nacionais e imigrantes, como se pode verificar no Brasil com a ascensão da nova classe média.

Mas e quando essa xenofobia discreta passa a ser capitalizada pelo governo? Isso começou a ocorrer num comentário do Secretário de Segurança da administração federal Sérgio Berni que, depois de um episódio no bairro de Balvanera envolvendo bandidos chilenos, pediu aos legisladores “ferramentas ágeis para que os estrangeiros que cometem crimes voltem ao seu lugar de origem e não voltem nunca mais”. Embora na mesma frase, ele esclareceu de que não se tratava de uma “declaração xenófoba”, muitas pessoas não compraram a ressalva.

Com menos sutileza, o prefeito da cidade de Tres de Febrero na Grande Buenos Aires chegou ao cúmulo de fazer uma distinção:

“Eu chamo de estrangeiros não aos que vieram da Europa e fizeram desse país seu lar, criaram seus filhos aqui. Eu falo de ilegais e outros que trabalham na rua, que roubam empregos dos argentinos”.

Apesar do debate, o comentário de Berni foi suavizado por representantes do governo, que sinalizaram para o aprofundamento da política de inclusão promovida oficialmente, conforme afirmou o diretor da Dirección Nacional de Migraciones Arias Duval em entrevista ao jornal La Nación.

Entretanto, a polêmica foi reacendida com o projeto de Reforma do Código de Processos Judiciais que inclui a expulsão rápida de estrangeiros delinquentes. O senador da Frente para a Vitória (FPV, partido do governo) Aníbal Fernández afirmou que a proposta não é xenófoba:

“Esse governo nunca impediu que os estrangeiros ficassem no país, mas também não existe razão para tolerar o que cometem crimes”.

Essa mensagem foi reforçada pela Presidenta Cristina Kirchner ao anunciar o envio da proposta ao Congresso em rede nacional:

“Nosso país tem uma política migratória como poucos no mundo em termos de generosidade e abertura, o que se deve à própria conformação do país. Não me canso de dizer que sou neta de imigrantes. (…) Mas acredito também que os argentinos merecem uma proteção frente ao que se vem observando como um fenômeno crescente de estrangeiros que vêm ao país com motivos de cometer delitos”

Ainda assim, algumas organizações de direitos humanos como a CELS (Centro de Estudos Legais e Sociais) e partidos de oposição rejeitaram a proposta. Segundo eles, a Presidenta tenta estabelecer uma conexão entre o crime e a imigração, o que não está demonstrado nas estatísticas. Os números falam de 20% de participação de estrangeiros em delitos na Argentina, mas pelo menos 60% dos casos estão relacionados às chamadas ‘mulas’, presas por situação de narcotráfico.

Em entrevista o Notas Periodismo Popular, Pablo Ceriani da Universidade de Lanús e membro do Comitê de Proteção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e seus Familiares da ONU, esclareceu:

“Não estamos falando de pessoas que vivem aqui, mas de delitos cometidos na fronteira, onde, como em qualquer outro lugar do mundo, há uma participação maior de estrangeiros. Nesse sentido, a discussão não deveria se centrar no tema migratório, mas no do narcotráfico. (…) Quando vemos as estatísticas totais sobre estrangeiros detidos na Argentina, não só por crimes federais, mas os de qualquer tipo, estamos falando de 5%, o mesmo número de 2002”.

Os especialistas de Direitos Humanos da CELS temem que o novo código dará mais poder aos policiais, “que tendem a inventar casos para incriminar estrangeiros” e afirmam que a proposta “esconde um pensamento racista”.

Partidos de oposição também criticaram o Código, alegando que ele viola a Convenção Inter-Americana de Direitos Humanos. Mesmo membros do partido PRO de Maurício Macri, que outrora foi acusado de xenófobo pelos conflitos no Parque Indoamericano, qualificaram esse artigo do código de “oportunista e sem motivos”.

O projeto ainda será debatido no Senado e se espera uma grande e necessária discussão sobre o tema.

Enquanto isso, o país segue sitiado por incertezas econômicas. Uma guerra de estatísticas entre governo e jornais de oposição faz pensar que estamos falando de dois países diferentes, mas é verdade que uma das grandes preocupações por aqui, a discrepância entre o dólar oficial e o paralelo (ilegal) tem diminuído com a minidesvalorização do Peso.

Até semana que vem!

Os Melhores Bares Porteños

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Dizem por aí que a Argentina está em crise, outros refutam essa tese. E se tem uma coisa que dá uma força para o segundo grupo é a vida noturna da cidade, mundialmente conhecida pela variedade e pela animação. Não importa qual é a sua… da intensa oferta cultural nos grandes teatros da avenida Corrientes ou nos núcleos independentes do Abasto e Almagro, até os famosos boliches (as boates daqui), passando por milongas, clubes de salsa e um calendário de festivais impressionante, Buenos Aires explode mesmo a noite, de preferência a partir das duas da manhã.

Não me perguntem como é que os porteños fazem para trabalhar no dia seguinte nem o que os mantém ligados hasta las mil (ingenuamente, eu diria champagne con speed), mas a verdade é que de domingo a domingo tem gente na farra até o sol nascer.

E no meio disso tudo tem os bares, cenários inevitáveis de prévias ou drinks antes de dormir. Pra você ir direto ao ponto sem erro, convidei um verdadeiro especialista na arte de desbravar a night porteña para compartilhar um roteiro essencial para os barhunters de carteirinha. Com vocês, as dicas de Pablo Manu Lee!

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Quem será o próximo? O Mapa Eleitoral da Argentina para 2015

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(((Para informações mais atualizadas, clique aqui)))

Enquanto o Brasil discute essa semana quem estará à frente da presidência no próximo quadriênio, a Argentina se prepara para um dos maiores pleitos em 2015. Trata-se de um processo eleitoral emblemático.

Ao sabor da redemocratização, suas primeiras edições, em 1983 e 1989, foram marcadas pela excessão: o radical Raúl Afonsín é eleito na transição na transição de uma das mais brutais ditaduras e tem seu mandato abreviado por turbulências econômicas para ser substituído por Carlos Menem, que ficaria no poder por dez anos.

Na sequência, volta o radicalismo nas mãos de Fernando de la Rúa que, com dois anos de governo, enfrenta uma imensa crise econômica, institucional, política e por aí segue. Sai fugido da Casa Rosada de helicóptero, fechando o seu governo com a pérola:

“¡Que se vayan todos!”

Antes de que Nestor Kirchner finalmente chegue à presidência, passam por lá sem esquentar a cadeira três criaturas que sucumbem sucessivamente. Assim, se inaugura o período K, por alguns chamada de “la década ganada“, por outros de “la otra década perdida“.

Nestor conseguiu eleger a esposa por capitalizar a normalização do país; Cristina conseguiu se reeleger capitalizando a retomada do crescimento e a geração de empregos. Entretanto, seu segundo mandato foi um período de radicalização do modelo, com enfrentamento aberto contra a mídia conservadora e os fundos abutres (só para ficar nos casos mais óbvios) e a introdução de medidas heterodoxas contra os revezes econômicos do país, como as restrições à compra de dólares e às importações, além de controle de preços, sem que isso impedisse taxas de inflação que deixam os argentinos de cabelo em pé.

Assim, o pleito de 2015 será também um grande plebiscito referente ao modelo que terá como pano de fundo a radicalização, porque nesse país não existem tons de cinza – para alguns, o kirchnerismo foi uma tragédia; para outros, uma redenção.

Nesse marco, se apresentam pelo menos quatro forças políticas, a saber:

Frente para la Victoria (FpV)

fpvO Kirchnerismo logrou formar uma base sólida no Congresso Nacional que consegue aprovar qualquer projeto do governo sem contratempos, o que favoreceu ao aprofundamento do modelo. O projeto inicial era lançar Amado Boudou para a sucessão, uma fórmula que acabou sendo enfraquecida pelas numerosas suspeitas de corrupção que correm na justiça. Desde então, se apresentaram o atual Chefe de Gabinete Jorge Capitanich (equivalente à nossa Casa Civil), o Ministro do Interior Florencio Randazzo, o governador da Província de Buenos Aires Daniel Scioli e, mais recentemente, o Ministro da Economia Axel Kicillof.

Desses, o único com projeção nacional é Scioli que, entretanto, é o representante mais ‘rebelde’ do kirchnerismo, já que tem claras intenções de alçar voo solo. Nos últimos dias, se reaproximou de seu partido, fazendo coro aos apoiadores da presidenta, mas ainda gera incertezas no núcleo duro do modelo.

Assim, a escolha ainda está indefinida

Frente Renovador

Sergio-Massa-elecciones-2013-2015A maior dissidência do FpV foi liderada pelo político bonaerense Sérgio Massa, ex-Chefe de Gabinete e atual deputado federal. Acusado de oportunista, desbancou os kirchneristas nas eleições legislativas de 2013 e propõe ajustes firmes no modelo, sem, entretanto, especificar quais ajustes seriam estes. Como força no maior colégio eleitoral do país, a Província de Buenos Aires, tem pouca experiência administrativa (foi apenas prefeito da pequena municipalidade de Tigre).

Frente UNEN

sanzNum evento espetacular em meados desse ano, foi lançada a Frente UNEN, uma coalizão de tradicionais forças políticas de centro-esquerda como Elisa Carrió, Pino Solanas, os dissidentes Prat-Gay e Martín Lousteau. Além do combate à inflação, prometem dirimir a “herança perversa” da corrupção”. Seu maior expoente para a candidatura presendencial é Ernesto Sanz, um membro tradicional da UCR.

Pesa contra a Frente UNEN a pouca homogeneidade do bloco, que desde já vem apresentando fissuras e o fato de que os últimos presidentes de sua maior força política (a UCR de Raúl Alfonsín y De la Rúa) nunca terminaram seus mandatos.

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Mauricio-Macri-PPO partido criado pelo Chefe de Governo da capital argentina Maurício Macri é, sem dúvida, a oposição frontal ao governo de Cristina Kirchner. Odiado pelos movimentos sociais em Buenos Aires, por suas políticas na educação e duras remoções, realizou uma boa gestão no campo dos transportes com a criação do Metrobus e das ciclovias, além de ter comandado a revitalização de áreas como Barracas (ainda em processo).

Pela pouca projeção nacional, dificilmente conseguirá vencer sozinho e, por isso, vem tentando se aproximar de lideranças da Frente UNEN ou da Frente Renovador, embora seu caráter neoliberal tenha grande rejeição nesses agrupamentos.

Frente de Izquierda

pitrolaDefensores de reformas mais profundas das que realizaram os kirchneristas, associam Cristina ao mercado financeiro e a acusam de não prestar atenção suficiente às demandas dos trabalhadores. Exigem o fim do pagamento da dívida externa até que se resolva a chamada “dívida social pendente”. Ainda não sinalizaram com um candidato para o pleito de 2015, mas têm no ex-piqueteiro Nestor Pitrola uma de suas maiores lideranças.

Naturalmente, ainda não existem nem candidaturas oficializadas nem pesquisas eleitorais, mas a corrida já começou. Pesquisas informais e internas do partido oficialista revelam que cerca de 30% dos apoiadores de Cristina (o chamado ‘núcleo duro’) votariam em qualquer candidato que ela apoiasse; entretanto, um em cada dez desses eleitores confessou que poderia optar por Massa de acordo com a situação.

Os especialistas daqui dizem que os resultados das eleições no Brasil terão um grande impacto por aqui. De acordo com o especialista Julio Gambina, “o Brasil está nos planos de todos os candidatos”, embora não esteja claro para que objetivo. “Uma integração Brasil-Argentina deve ser crítica à hegemonia capitalista internacional”.

Encontrando-se em Buenos Aires

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Buenos Aires é uma das maiores cidades do mundo. Embora sua população seja menor do que a de São Paulo ou mesmo o Rio de Janeiro, a imensa “periferia”, o chamado conurbano, atrai um fluxo imenso à cidade todos os dias – isso sem falar da densidade, que aqui é o daquela encontrada na grande megalópole brasileira.

Ainda assim, as pessoas daqui não enfrentam um trânsito tão ruim quanto se poderia esperar. A cidade que tem a segunda melhor qualidade de vida da América do Sul (atrás apenas de Montevideo), consegue se resolver nesse tema com um complexo esquema de transportes públicos, ênfase nos meios alternativos, sistemas de informação bastante precisos e uma malha rodoviária surpreendentemente organizada.

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Briefing: Buenos Aires continua linda

 

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Todos esperávamos um discurso bombástico de Cristina Kirchner na Assembleia Geral da ONU – e a Presidenta não decepcionou.

“Não só são terroristas aqueles que botam bombas, mas também são terroristas econômicos os que desestabilizam a economia dos países e provocam fome, miséria e pobreza!”

Todos esperávamos que ela seria criticada – e os jornalões saíram pela tangente: apenas disseram que Obama tirou os fones da tradução simultânea enquanto a mandatária argentina vociferava contra os algozes do país.

Mas antes disso, teve um ministro alemão, Wolfgang Schäube, que botou lenha na fogueira. Advertiu que a Argentina deveria parar que insultar aos fundos ao chamá-los de abutres porque “o problema é a própria Argentina”; no que respondeu o Chefe de Governo Jorge Capitanich:

“Não é casualidade a opinião dele, porque seu país sempre teve uma atitude hostil. É de se refletir por quê as grandes potências não têm uma atitude firme contra grupos minúsculos. Parece que estão cooptados pelos grupos financeiros e pelos fundos abutres que efetivamente condicionam sua atitude, vontade e expressões”

Será que alguém na Alemanha vai se dar ao trabalho da tréplica? Será preciso esperar. Por aqui, naturalmente as opiniões se dividiram entre os elogiaram a atitude firme do governo e os que o acusaram de criar inimigos em meio mundo.

Portanto, até aqui nenhuma novidade. Explicando a uma jornalista brasileira de férias por aqui o que raios acontece nesse país, eu lhe contei que não tem mistério: é como só existissem Reinaldos Azevedos e Lucianas Genros tanto na classe política quanto nos meios de comunicação. Uma radicalização difícil de reconciliar.

Enquanto isso o povo espera a catástrofe ou a redenção. Um professor da faculdade me falou de seu temor por uma hiperinflação; o povo das ruas quer saber disso? Não. As notícias mais lidas, seja no Tiempo Argentino, Página/12, La Nación ou Clarín – da esquerda à direita – são aquelas dedicadas às tragédias do momento ou polêmicas do star system local.

É o caso do roubo gravado pelas lentes da GoPro de um turista canadense, repetido ad nauseam nas cadeias de televisão:

E também a morte de uma adolescente depois de uma festa. E também a filha da veterana vedete Moria Casan que tirou uma foto grávida nua em defesa da legalização do aborto. E também o convite do político Martín Insaurralde com a celebrity Jésica Cirio que veio com a sugestiva frase:

“Let’s party, mother fuckers!”

Alguém mais aguenta falar de abutres, inflação e crise?

Para nada!, como se diz aqui. O povo implora por um pouco de circo na certeza que pão de alguma forma se arruma. Até uma correspondente internacional amiga andou me dizendo: “Não aguento mais falar mal da Argentina – eu vivo tão bem aqui!”.

E quer saber? É verdade!

Para os que veem de fora, pode-se até inferir que a vida na Argentina anda insuportável, mas a verdade é bem mais complexa do que parece. Buenos Aires continua linda, ainda mais na primavera.

Até semana que vem!