2. A Economia

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A primeira dificuldade que tive para começar esse post foi encontrar uma foto que pudesse ilustrá-lo. Ao se meter a escrever um panorama da economia argentina em 2015, o que há de mais representativo a respeito dela: Uma bela ceifadeira trabalhando extensos campos de soja? Gruas enchendo containers no historicamente movimentado Porto de Buenos Aires? O parque industrial a pleno vapor? A praça financeira? Os arranha-céus de Puerto Madero? Uma montagem que inclua todas as anteriores? Ou uma dramática versão em preto-e-branco sugerindo decadência em algumas delas?

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Dependendo de quem se ouve, todas as alternativas são bastante possíveis e refletem também o que se vem sonhando para a economia da Argentina desde os tempos de glória da primeira metade do século XX – uma época jamais esquecida e cuja passagem para os tempos atuais se caracteriza como um dos grandes traumas sociais da nossa região.

Finalmente optei pelo dinheiro em espécie – o peso argentino – porque, como iremos ver, é a sua relação com a moeda estrangeira, ou frequentemente a falta dela, que determinou para que lado do espectro se concentrava a aposta para um futuro que permanece indefinido.

Na eleições de 2015, como aquela que se celebrou no Brasil em 2014, muito se debaterá sobre temas como a corrupção, a sanha concentradora dos Kirchner, a liberdade de imprensa, as relações internacionais, as restrições à economia, etc. Mas, no final das contas, e também à semelhança da contraparte brasileira, se estará discutindo a definição desse projeto de país que nos últimos quarenta anos esteve caracterizado por manobras radicais, deslumbramentos e tombos inevitáveis.

Mas, afinal, que cartas estão sobre a mesa?

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Briefing: Oposição fraca, um traço comum

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Menos de duas semanas depois do tão-falado protesto pedindo o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em São Paulo, as ruas do centro da capital argentina foram tomadas por manifestantes com bandeiras parecidas (tomadas talvez parcialmente, os números são conflitantes).

Aqui ninguém se arrisca a pedir uma intervenção militar. Entendo que, além dos números da ditadura local serem ainda mais assustadores que os da contraparte brasileira, os processos contra os criminosos do regime e suas condenações ajudaram a consolidar um sentimento comum de repúdio baseado na memória. Odeio hashtags, mas #ficaadica.

Entretanto, de resto, em quase tudo as reivindicações ouvidas no Microcentro na quinta passada se assemelham às da Avenida Paulista. Conhecida como 13N, com referência à data 13 de novembro, a marcha tentou repetir a mobilização que marcou o 8N em 8 de novembro de 2012, quando uma multidão foi ao Obelisco vociferar contra o governo de Cristina Kirchner.

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8N, manifestação no fim de 2012

Na época, estavam começando a ser implementadas as medidas heterodoxas pelas quais a Presidenta será lembrada, como o cepo cambiario, que feriu de morte o hábito local de economizar em moeda estrangeira. Mas dessa vez, embora não menos sérias, as bandeiras dos opositores não conseguiram atrair a multidão da foto ao lado, talvez porque corrupção e insegurança sejam percebidos como um traço menos diretamente relacionado à gestão de Cristina do que à cultura política local e à realidade, respectivamente.

Organizado nas redes sociais, o protesto causou polêmica ainda na sua gestação, porque militantes pró-governo iniciaram uma contraofensiva virtual em que se divulgava que o evento havia sido cancelado. Rapidamente, a hashtag #13NSuspendido ganhou quase tanta evidência quanto o #13N, despertando uma calorosa troca de acusações e ironias no Twitter e no Facebook.

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Na manhã de quinta, o porta-voz do governo Jorge Capitanich fez referências à manifestação durante sua habitual entrevista coletiva, pedindo respeito às instituições. Para ele, os cidadãos deveriam expressas suas diferenças políticas com o governo nas eleições  de 2015:

“Na democracia todos têm o direito de se expressar, mas sobretudo através das eleições. Todos terão a possibilidade de participar das PASO (primárias) em agosto que vem e nas eleições gerais em outubro”

A manifestação contou com a solidariedade de brasileiros no Twitter que já estavam convocando outros atos em São Paulo para 15 de novembro, dia da Proclamação da República no Brasil.

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De fato, existem mais semelhanças entre os movimentos na Argentina e no Brasil do que podem sugerir as aproximações temáticas. Tanto lá quanto aqui as impressionantes desigualdades sociais vem se reproduzindo nos regimes democráticos através das urnas, fazendo com que as bandeiras das classes mais abastadas e as dos setores populares de modo geral se alinhem a posições políticas radicalmente opostas.  Dessa maneira, ao menos um dos grupos se sente irremediavelmente não-representado.

Tanto no Brasil quanto na Argentina (mais no último), a oposição tem se mostrado incapaz de responder à essa crise de representação. Embora a contundente votação de Aécio Neves nas últimas eleições possa sugerir o contrário e os discursos imediatamente posteriores a ela possam indicar uma mudança no quadro brasileiro, é irrefutável que a oposição teve um papel pouco expressivo no Congresso, capitalizando apenas algumas vitórias no Poder Legislativo, como a revogação da CPMF (discutivelmente popular) ou a CPI da Petrobras (muito recente).

Devo acrescentar o fato de que na Argentina não há um PMDB, como muito bem lembrado pelo cientista político Alberto Carlos Almeida no Manhattan Connection a partir do minuto 11 do vídeo (por favor, desconsidere as afirmações estapafúrdias e racistas de Diogo Mainardi. Gracias!):

Nesse cenário, a oposição argentina teve ainda menos vitórias no Congresso daqui, o que talvez explique a ausência de um verdadeiro candidato desse campo político no país. Como já escrevi anteriormente, um dos favoritos para o próximo pleito é Daniel Scioli do partido do governo e o segundo colocado é Sérgio Massa, um dissidente não necessariamente ligado àquelas pessoas que compareceram no 13N.

No mais, a semana transcorreu com a fugaz apreciação do peso na cotação blue, o que como eu contei faz pouco, deixou os brasileiros que moram por aqui de cabelo em pé. Resultado de uma mega operação da autoridade fiscal argentina (a AFIP), o destino do câmbio ainda está incerto, embora o Presidente do Banco Central tenha descartado a suspensão das restrições à compra de dólares. O negócio vai ser esperar.

Com Cristina afastada do trabalho por problemas de saúde, coube à Axel Kicillof o papel de representante da Argentina no encontro do G20 na Austrália. E ele não perderia a oportunidade de pedir “apoio total ao país na reestruturação de sua dívida”. Ainda não sabemos bem o que foi conversado por lá, mas Axel parecia bastante confiante na foto que tirou com outros Chefes de Governo e/ou seus representantes.

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Até semana que vem!

O que está acontecendo com o câmbio?

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Nos últimos dias, os brasileiros que vivem em Buenos Aires ficaram de cabelo em pé, pois de repente o Real foi perdendo valor de maneira vertiginosa. Se em 30 de outubro mil reais compravam AR$ 5.500,00 no mercado informal, hoje (11/11), com sorte, compram AR$ 4.560,00. Ou seja, uma queda de cerca de 20% em apenas duas semanas.

Como mil pesos aqui é coisa pra caramba, sobretudo para aqueles estudantes que se equilibram com o que os pais mandam ou que se habituaram a fazer o câmbio das economias de pouco a pouco para enfrentar a inflação, todo mundo está precisando refazer as contas e repensar o orçamento. Mas será que essa é uma realidade que veio pra ficar?

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Briefing: Cosmópolis da Pacha Mama ameaçada?

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Um dos insights mais marcantes que tive logo depois que cheguei a Buenos Aires foi de que a cidade era o grande centro cosmopolita da América do Sul. É óbvio que tem São Paulo com milhões de estrangeiros de todas as partes do mundo; mas a capital argentina tem uma parcela importante da população que chegou nos últimos dez anos dos países da vizinhança, inclusive do Brasil, e que empresta todo o colorido da Pacha Mama à outrora Paris ao sul do Equador.

O lugar mais óbvio para testar essa hipótese é o bairro do Abasto, com seus diversos restaurantes peruanos e hoteizinhos bem precários que hospedam os recém-chegados. Com maior detenção, entretanto, se podem encontrar os pontos de encontro da numerosa comunidade de colombianos, venezuelanos, bolivianos e por aí vai – – o que se confirma pelos números da Dirección Nacional de Migraciones. Desde 2004, quase um milhão de estrangeiros se radicaram no país, sobretudo vindos do Paraguai (38,7%), Bolívia (28,6%) e Peru (15,2%).

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O gráfico acima, publicado no jornal La Nación, demonstra ainda que os números são crescentes, atingindo a marca de 138 mil admissões só em 2013 – o que ainda é um número por baixo, porque aqui não estão considerados os “residentes temporários”, que vem por dois anos ou menos, como é o caso de muitos estudantes da região.

Além da atração natural que uma cidade como Buenos Aires tem, a brusca elevação desses números tem a ver com uma política de inclusão promovida pelo governo de Néstor e Cristina Kirchner na última década, cristalizada no Plano Pátria Grande que entrou em vigor em 2004. Destinado aos cidadãos do Mercosul e países associados (ou seja, quase toda a América do Sul), o programa buscou regularizar a sua situação migratória, somando-se às facilidades garantidas por tratados de circulação de pessoas do bloco (esse, válido somente para os cidadãos de membros permanentes).

Tudo muito bom, tudo muito bem, a verdade é que a opinião pública local se divide discretamente quanto a essa política de portas abertas. Digo discretamente porque não se vai encontrar por aí um partido que advogue publicamente a construção de uma muralha virtual no entorno da Argentina, como ocorre na Europa; mas não é incomum escutar comentários xenófobos, poucas vezes direcionados aos brasileiros (em geral bem vistos, pois são, em sua maioria, estudantes de classe média alta).

Sabe aquela lenda de que não existe racismo no Brasil? Pois bem, por aqui havia uma parecida de que a Argentina, terra de imigrantes, não era xenófoba. Em 2010, depois de um conflito entre a população vivendo em situação precária e o governo da cidade de Buenos Aires no Parque Indoamericano, repetido em 2014, chamou a atenção de analistas a respeito de um crescente ‘nacionalismo degenerado’ surgido no seio de “uma classe média baixa que se autoproclama honesta, abnegada e patriota e que, ao cumprir o sonho minimalista e individual de acesso à propriedade e ao trabalho, consideram massivamente desonestas, preguiçosas e, sobretudo, anti-pátria as classes que se situam apenas um degrau abaixo do que elas puderam alcançar”. Ou seja, uma situação-cliché não só entre nacionais e imigrantes, como se pode verificar no Brasil com a ascensão da nova classe média.

Mas e quando essa xenofobia discreta passa a ser capitalizada pelo governo? Isso começou a ocorrer num comentário do Secretário de Segurança da administração federal Sérgio Berni que, depois de um episódio no bairro de Balvanera envolvendo bandidos chilenos, pediu aos legisladores “ferramentas ágeis para que os estrangeiros que cometem crimes voltem ao seu lugar de origem e não voltem nunca mais”. Embora na mesma frase, ele esclareceu de que não se tratava de uma “declaração xenófoba”, muitas pessoas não compraram a ressalva.

Com menos sutileza, o prefeito da cidade de Tres de Febrero na Grande Buenos Aires chegou ao cúmulo de fazer uma distinção:

“Eu chamo de estrangeiros não aos que vieram da Europa e fizeram desse país seu lar, criaram seus filhos aqui. Eu falo de ilegais e outros que trabalham na rua, que roubam empregos dos argentinos”.

Apesar do debate, o comentário de Berni foi suavizado por representantes do governo, que sinalizaram para o aprofundamento da política de inclusão promovida oficialmente, conforme afirmou o diretor da Dirección Nacional de Migraciones Arias Duval em entrevista ao jornal La Nación.

Entretanto, a polêmica foi reacendida com o projeto de Reforma do Código de Processos Judiciais que inclui a expulsão rápida de estrangeiros delinquentes. O senador da Frente para a Vitória (FPV, partido do governo) Aníbal Fernández afirmou que a proposta não é xenófoba:

“Esse governo nunca impediu que os estrangeiros ficassem no país, mas também não existe razão para tolerar o que cometem crimes”.

Essa mensagem foi reforçada pela Presidenta Cristina Kirchner ao anunciar o envio da proposta ao Congresso em rede nacional:

“Nosso país tem uma política migratória como poucos no mundo em termos de generosidade e abertura, o que se deve à própria conformação do país. Não me canso de dizer que sou neta de imigrantes. (…) Mas acredito também que os argentinos merecem uma proteção frente ao que se vem observando como um fenômeno crescente de estrangeiros que vêm ao país com motivos de cometer delitos”

Ainda assim, algumas organizações de direitos humanos como a CELS (Centro de Estudos Legais e Sociais) e partidos de oposição rejeitaram a proposta. Segundo eles, a Presidenta tenta estabelecer uma conexão entre o crime e a imigração, o que não está demonstrado nas estatísticas. Os números falam de 20% de participação de estrangeiros em delitos na Argentina, mas pelo menos 60% dos casos estão relacionados às chamadas ‘mulas’, presas por situação de narcotráfico.

Em entrevista o Notas Periodismo Popular, Pablo Ceriani da Universidade de Lanús e membro do Comitê de Proteção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e seus Familiares da ONU, esclareceu:

“Não estamos falando de pessoas que vivem aqui, mas de delitos cometidos na fronteira, onde, como em qualquer outro lugar do mundo, há uma participação maior de estrangeiros. Nesse sentido, a discussão não deveria se centrar no tema migratório, mas no do narcotráfico. (…) Quando vemos as estatísticas totais sobre estrangeiros detidos na Argentina, não só por crimes federais, mas os de qualquer tipo, estamos falando de 5%, o mesmo número de 2002”.

Os especialistas de Direitos Humanos da CELS temem que o novo código dará mais poder aos policiais, “que tendem a inventar casos para incriminar estrangeiros” e afirmam que a proposta “esconde um pensamento racista”.

Partidos de oposição também criticaram o Código, alegando que ele viola a Convenção Inter-Americana de Direitos Humanos. Mesmo membros do partido PRO de Maurício Macri, que outrora foi acusado de xenófobo pelos conflitos no Parque Indoamericano, qualificaram esse artigo do código de “oportunista e sem motivos”.

O projeto ainda será debatido no Senado e se espera uma grande e necessária discussão sobre o tema.

Enquanto isso, o país segue sitiado por incertezas econômicas. Uma guerra de estatísticas entre governo e jornais de oposição faz pensar que estamos falando de dois países diferentes, mas é verdade que uma das grandes preocupações por aqui, a discrepância entre o dólar oficial e o paralelo (ilegal) tem diminuído com a minidesvalorização do Peso.

Até semana que vem!

Quem será o próximo? O Mapa Eleitoral da Argentina para 2015

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(((Para informações mais atualizadas, clique aqui)))

Enquanto o Brasil discute essa semana quem estará à frente da presidência no próximo quadriênio, a Argentina se prepara para um dos maiores pleitos em 2015. Trata-se de um processo eleitoral emblemático.

Ao sabor da redemocratização, suas primeiras edições, em 1983 e 1989, foram marcadas pela excessão: o radical Raúl Afonsín é eleito na transição na transição de uma das mais brutais ditaduras e tem seu mandato abreviado por turbulências econômicas para ser substituído por Carlos Menem, que ficaria no poder por dez anos.

Na sequência, volta o radicalismo nas mãos de Fernando de la Rúa que, com dois anos de governo, enfrenta uma imensa crise econômica, institucional, política e por aí segue. Sai fugido da Casa Rosada de helicóptero, fechando o seu governo com a pérola:

“¡Que se vayan todos!”

Antes de que Nestor Kirchner finalmente chegue à presidência, passam por lá sem esquentar a cadeira três criaturas que sucumbem sucessivamente. Assim, se inaugura o período K, por alguns chamada de “la década ganada“, por outros de “la otra década perdida“.

Nestor conseguiu eleger a esposa por capitalizar a normalização do país; Cristina conseguiu se reeleger capitalizando a retomada do crescimento e a geração de empregos. Entretanto, seu segundo mandato foi um período de radicalização do modelo, com enfrentamento aberto contra a mídia conservadora e os fundos abutres (só para ficar nos casos mais óbvios) e a introdução de medidas heterodoxas contra os revezes econômicos do país, como as restrições à compra de dólares e às importações, além de controle de preços, sem que isso impedisse taxas de inflação que deixam os argentinos de cabelo em pé.

Assim, o pleito de 2015 será também um grande plebiscito referente ao modelo que terá como pano de fundo a radicalização, porque nesse país não existem tons de cinza – para alguns, o kirchnerismo foi uma tragédia; para outros, uma redenção.

Nesse marco, se apresentam pelo menos quatro forças políticas, a saber:

Frente para la Victoria (FpV)

fpvO Kirchnerismo logrou formar uma base sólida no Congresso Nacional que consegue aprovar qualquer projeto do governo sem contratempos, o que favoreceu ao aprofundamento do modelo. O projeto inicial era lançar Amado Boudou para a sucessão, uma fórmula que acabou sendo enfraquecida pelas numerosas suspeitas de corrupção que correm na justiça. Desde então, se apresentaram o atual Chefe de Gabinete Jorge Capitanich (equivalente à nossa Casa Civil), o Ministro do Interior Florencio Randazzo, o governador da Província de Buenos Aires Daniel Scioli e, mais recentemente, o Ministro da Economia Axel Kicillof.

Desses, o único com projeção nacional é Scioli que, entretanto, é o representante mais ‘rebelde’ do kirchnerismo, já que tem claras intenções de alçar voo solo. Nos últimos dias, se reaproximou de seu partido, fazendo coro aos apoiadores da presidenta, mas ainda gera incertezas no núcleo duro do modelo.

Assim, a escolha ainda está indefinida

Frente Renovador

Sergio-Massa-elecciones-2013-2015A maior dissidência do FpV foi liderada pelo político bonaerense Sérgio Massa, ex-Chefe de Gabinete e atual deputado federal. Acusado de oportunista, desbancou os kirchneristas nas eleições legislativas de 2013 e propõe ajustes firmes no modelo, sem, entretanto, especificar quais ajustes seriam estes. Como força no maior colégio eleitoral do país, a Província de Buenos Aires, tem pouca experiência administrativa (foi apenas prefeito da pequena municipalidade de Tigre).

Frente UNEN

sanzNum evento espetacular em meados desse ano, foi lançada a Frente UNEN, uma coalizão de tradicionais forças políticas de centro-esquerda como Elisa Carrió, Pino Solanas, os dissidentes Prat-Gay e Martín Lousteau. Além do combate à inflação, prometem dirimir a “herança perversa” da corrupção”. Seu maior expoente para a candidatura presendencial é Ernesto Sanz, um membro tradicional da UCR.

Pesa contra a Frente UNEN a pouca homogeneidade do bloco, que desde já vem apresentando fissuras e o fato de que os últimos presidentes de sua maior força política (a UCR de Raúl Alfonsín y De la Rúa) nunca terminaram seus mandatos.

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Mauricio-Macri-PPO partido criado pelo Chefe de Governo da capital argentina Maurício Macri é, sem dúvida, a oposição frontal ao governo de Cristina Kirchner. Odiado pelos movimentos sociais em Buenos Aires, por suas políticas na educação e duras remoções, realizou uma boa gestão no campo dos transportes com a criação do Metrobus e das ciclovias, além de ter comandado a revitalização de áreas como Barracas (ainda em processo).

Pela pouca projeção nacional, dificilmente conseguirá vencer sozinho e, por isso, vem tentando se aproximar de lideranças da Frente UNEN ou da Frente Renovador, embora seu caráter neoliberal tenha grande rejeição nesses agrupamentos.

Frente de Izquierda

pitrolaDefensores de reformas mais profundas das que realizaram os kirchneristas, associam Cristina ao mercado financeiro e a acusam de não prestar atenção suficiente às demandas dos trabalhadores. Exigem o fim do pagamento da dívida externa até que se resolva a chamada “dívida social pendente”. Ainda não sinalizaram com um candidato para o pleito de 2015, mas têm no ex-piqueteiro Nestor Pitrola uma de suas maiores lideranças.

Naturalmente, ainda não existem nem candidaturas oficializadas nem pesquisas eleitorais, mas a corrida já começou. Pesquisas informais e internas do partido oficialista revelam que cerca de 30% dos apoiadores de Cristina (o chamado ‘núcleo duro’) votariam em qualquer candidato que ela apoiasse; entretanto, um em cada dez desses eleitores confessou que poderia optar por Massa de acordo com a situação.

Os especialistas daqui dizem que os resultados das eleições no Brasil terão um grande impacto por aqui. De acordo com o especialista Julio Gambina, “o Brasil está nos planos de todos os candidatos”, embora não esteja claro para que objetivo. “Uma integração Brasil-Argentina deve ser crítica à hegemonia capitalista internacional”.

Briefing: Se me pasa algo…

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A semana na Argentina foi marcada por um discurso da Presidenta Cristina Kirchner na Casa Rosada em que disse:

“Têm aparecido uns artigos nos jornais sobre supostas investigações que foram feitas nos organismos de inteligência do Estado sobre a ameaça que eu estaria sofrendo por parte do ISIS, esse grupo terrorista que atua no Iraque. Fiquei sabendo pelos jornais que aparentemente o serviço de inteligência descobriu alguma evidência na Tríplice Fronteira. Primeiro, devo dizer que não acredito, porque se fosse uma revelação de organismos de Estado, a primeira que deveria ser avisada teria sido eu, que sou a Presidenta e a ameaçada, e não o Clarín. (…) Por favor me escutem. Se alguma coisa acontecer comigo, e eu estou falando sério, não olhem para o Oriente; olhem para o Norte! Porque depois de ver as coisas que estão fazendo em determinadas representações diplomáticas, depois de escutar essas declarações que verdadeiramente parece um exercício de cinismo, depois de ver as coisas que vi nas Nações Unidas, realmente, que me venham criar toda uma historinha de que o ISIS está atrás de mim para me matar ou fazer alguma maldade… por favor! Não voltem a armar uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado que não quero mencionar”

Ou seja, no meio de todas as coisas que disse Cristina nesse discurso, está uma dramática subida no tom com os Estados Unidos, conforme já se observada desde a semana passada. Uma subida dramática a la Argentina.

Mas vamos por partes.

Depois do discurso de Cristina na ONU, o juiz Thomas Griesa, como havia ameaçado antes, declarou que a Argentina estava “em desacato” por não cumprir a decisão judicial que obrigava o pagamento de US$ 1,3 milhões, além de determinar que a Lei do Pagamento Soberano é ilegal.

Como esperado, o governo argentino reagiu com força, sobretudo porque é bizarro que um juiz municipal americano se sinta em capacidade de julgar uma lei votada no Congresso de outro país. Assim, a Chancelaria daqui enviou uma carta ao Departamento de Estado alertando que os Estados Unidos incorria em responsabilidade internacional com a decisão.

A resposta do Secretário de Estado John Kerry veio à reboque, na qual afirmou que “acompanha a situação de perto” e que “espera que a Argentina prospere”.

No meio dessa troca de correspondências, a Embaixada dos EUA em Buenos Aires emitiu um comunicado em que alertava os cidadãos americanos sobre a violência no país, o que desatou a fúria do governo. Antes do trecho que publiquei anteriormente, ela afirmou, entre outras coisas:

“Eles querem dizer que vivemos na pior época do Faroeste e eu acredito que isso é realmente uma imensa provocação a qual não irei reagir. Porque seguramente o senhor que escreveu esse comunicado, que já nos acusou de estar em default [o embaixador interino Kevin Sullivan], pensou ‘agora eu provoco ela, a deixo enfurecida e eles vão me expulsar do país’. Não vai acontecer”

“Eu não entendo o que significa ‘estar acompanhando a situação de perto’. Penso que talvez esteja contribuindo, já que como não aconteceram os cataclismos sociais que alguns prenunciavam ou que queriam provocar…”

“Se [os EUA] estão tão interessados numa Argentina próspera, que participem. Primeiro, se ele se lembrasse de 2001, quando deixaram a Argentina na mão e a gente se partiu em mil pedaços depois de seguir todas as receitas que eles nos prescreveram… (…) Se tanto lhe preocupa a Argentina e a nossa prosperidade, por que não deixam que a Argentina pague a sua dívida?”

Como antecipado, esse discurso terminou com uma surpreendente declaração de que, se for assassinada, que se busquem os suspeitos no norte, ou seja, nos Estados Unidos; mas essa não é uma declaração leviana simples de ser decifrada.

No discurso na ONU, Cristina mencionou o Acordo com o Irã para solucionar o caso do atentado ao centro comunitário judio em Buenos Aires, a AMIA em 1994, que matou 84 pessoas e deixou centenas de feridos.

Investigações controversas chegaram à conclusão de que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo iraniano. Apesar de um dos acusados ter prestado depoimento na Inglaterra e liberado por falta de provas, parte da comunidade judia em Buenos Aires (reunidos na Associação de Delegações Israelitas da Argentina, a DAIA) sustentam essa tese até hoje. Entretanto, parte dos familiares de vítimas, reunidos em outra organização, sustentam que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo argentino e pedem que os arquivos confidenciais da época sejam desclassificados. Eles e outros movimentos sociais e políticos afirmam que a “pista iraniana” foi forjada para livrar os suspeitos locais.

Ao pedir no discurso dessa semana que não se “arme uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado”, a Presidenta basicamente infere que corrobora com a tese da falsificação de provas para encontrar um bode expiatório estrangeiro no caso da AMIA.

Mas as declarações bombásticas desse discurso não pararam por aí e trouxeram consequências práticas ainda mais sérias, pois a Presidenta questionou a falta de controle sobre algumas operações de câmbio e sugeriu o vazamento de informações privilegiadas do Banco Central. No dia seguinte o presidente da instituição Juan Carlos Fábrega se demitiu desatando uma crise de confiança no mercado, conforme verificado no tombo de 8% da Bolsa de Valores de Buenos Aires.

O novo presidente indicado pelo governo, Alejandro Vanoli, muito próximo do Ministro da Economia Axel Kicillof, chegou com um pacote de medidas para frear a sangria de dólares. Apesar dos comentaristas econômicos dos grandes jornais terem reagido à nomeação com temor, já que representaria um avanço dos setores mais radicais na condução da economia, de fato, o dólar desacelerou.

Até semana que vem!

Briefing: O Inimigo?

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A segunda-feira nem bem dava as caras direito e mais um quilombo se armava na Argentina, já que a edição do Clarín trazia uma entrevista do Encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires Kevin Sullivan em que, com bastante desenvoltura, desvelou muitas opiniões sobre o conflito da Argentina com os tais fundos abutres.

Atualmente desempenhando o cargo de representante máximo dos EUA por aqui, já que Washington tarda em nomear um embaixador (dizem que é retaliação), Sullivan afirmou que seu país “não apoiará o debate nas Nações Unidas porque não [lhes] parece o âmbito para encontrar uma solução eficiente”, e também porque “o mecanismo criaria incertezas”.

Nenhuma novidade. Desde que a Argentina decidiu levar aos órgãos multilaterais a questão da restruturação das dívidas soberanas como a OEA e a ONU, sempre angariando o apoio da maioria, os Estados Unidos votaram contra.

Mas ele não parou por aí e mencionou uma palavrinha que provocou a ira do governo argentino:

“É importante que a Argentina saia do default o quanto antes para poder retornar ao caminho do crescimento econômico sustentável e atrair os investimentos de que necessita”

Foi a primeira vez que um funcionário do governo dos Estados Unidos falou em default, mesmo que a Argentina venha questionando essa situação. Na lógica da Casa Rosada, se o país tem dinheiro para pagar, realizou o pagamento e teve o depósito bloqueado no Banco de Nova York por uma decisão de um juiz americano, isso não se caracterizaria como um default, senão um problema técnico da praça financeira estadunidense.

Em dura nota emitida no dia seguinte, a Chancelaria afirmou que:

“[As palavras do diplomata] não têm nenhum valor fatídico e, sim, coincidem com a postura dos fundos abutres em contraposição aos interesses dos 92,4% de credores que aceitaram a restruturação da dívida”.

De acordo com o governo, o país tanto tem fundos e vontades de realizar seus pagamentos que aprovou no Congresso a chamada Lei do Pagamento Soberano da Dívida Externa para driblar os problemas técnicos da praça financeira de Nova York.

Prosseguindo, a nota afirma que a Argentina deplora (palavra fortíssima nos meios diplomáticos) que os EUA não tenham aceito a jurisdição da Corte Internacional de Haia para resolver a questão “segundo critérios legais, equitativos e justos” com juízes independentes; e provocou:

“Os EUA tampouco aceitam a jurisdição da Corte Inter-americana e da Corte Penal Internacional em temas vinculados aos direitos humanos”

Por fim, ameaçou com as mais severas medidas se “esse tipo de intromissão nos assuntos internos” voltarem a se repetir, lembrando que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

De fato, é pouco comum ver entrevistas de diplomatas em jornais do país onde estão em serviço (sobretudo um jornal claramente de oposição) dando recomendações dessa natureza (sobretudo num tema tão sensível na agenda bilateral), pois influenciar a opinião pública local pode ser considerado uma intromissão em assuntos internos.

Para os críticos do governo, trata-se de mais um capítulo na tendência ao conflito do governo de Cristina Kirchner. Em entrevista ao Infobae, o ex-Vice-Chanceler Andrés Cisneros analisou a questão:

“A declaração de Sullivan não contém uma receita ou indicação de uma maneira em que o país estrangeiro pretenda nos ‘ensinar’ como exercer nossa soberania. Ele simplesmente enuncia um desejo de boa vontade com o qual é difícil não coincidir: sair do default, o que é o objetivo de todos os argentinos. (…) É preciso evitar que um caso como este se converta em outro ‘mini-round’ de um ‘Braden-Perón’ artificialmente criado”

Ele se referia à histórica disputa entre o Presidente argentino e o diplomata estadunidense Spruille Braden, que, na ‘defesa dos interesses daquele país’, não economizou intromissões e conspirações contra o governo.

No diário La Nación, o colunista Martín Dinatale cunhou a atitude do Palácio San Martin (sede da Chancelaria argentina) de “a diplomacia da sobreatuação”:

“Será que Cristina não aprendeu suficientemente aquela frase de Perón que dizia que ‘do ridículo não se retorna’? A diplomacia argentina liderada pelo kirchnerismo faz tempo é regida pelas normas da política doméstica. Os gestos externos são dirigidos ao público local.”

Mas o governo não terminou por aí. Na quarta-feira, em entrevista à uma radio, o Ministro da Economia afirmou que as declarações de Sullivan e a desvalorização da cotação paralela da moeda (o chamado dólar blue) não são coincidências, mas fazem parte de um plano de cinco pontos elaborado pelos fundos abutres para desestabilizar a Argentina. Seriam eles:

  1. Atacar a moeda para forçar a desvalorização
  2. Atacar a pessoa da Presidenta
  3. Impedir o pagamento local da dívida nos próximos vencimentos
  4. Bloquear o financiamento do país
  5. Esperar 2016 (quando o país terá um novo mandatário)

E, por fim, ontem a Presidenta Cristina relacionou a limitação na venda de passagens da American Airlines com esse suposto ataque ao governo e ao país.

Essa semana, a companhia aérea estadunidense restringiu a compra de suas passagens a 90 dias de prazo – ou seja, um argentino atualmente não pode comprar uma passagem para Miami com data de janeiro de 2015. De acordo com o La Nación, essa medida estaria relacionada às restrições do câmbio (o chamado cepo cambiario‘), já que os operadores não querem reter pesos com medo da desvalorização.

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Em sua conta no Twitter e Facebook (a Presidenta é bastante afeita às redes sociais), Cristina disparou contra a voadora.

“Não existe nenhum tipo de restrição para o pagamento de passagens e pacotes turísticos com divisas. (…) Que não fiquem dúvidas que [eles] estão querendo gerar, através de mentiras, expectativas negativas e ataques especulativos à nossa moeda.

A presidenta também citou as declarações de Sullivan, os tais cinco pontos anteriormente citados por Kicillof e, por fim, fechou o relato com chave ouro:

“A partir de dezembro de 2013, James Albaugh, a quem não tenho o prazer de conhecer, tornou-se diretor da American Airlines. (…) Ele é o assessor principal do The Blackstone Group LP, um dos mais importantes fundos de investimento financeiros detentor de títulos da dívida argentina. Como eu digo sempre: Se joga com tudo. E na Argentina, mais do que em qualquer outro país”

Saindo um pouco desses qüiproquós entre Estados Unidos e Argentina, os analistas daqui continuam demonstrando preocupação com uma eventual vitória de Marina Silva nas eleições presidenciais brasileiras, como antecipei em artigo anterior. Em artigo para Buenos Aires Herald, Carolina Thibaud afirmou que esse resultado pode trazer consequências importantes para a América Latina e, sobretudo para a Argentina, com quem o país manteria uma “paciência estratégica”:

“A ambientalista e evangélica tem sugerido que o tempo da ‘paciência estratégica’ com a Argentina terminaria rapidamente se ela ganhasse a presidência. (…) Apesar da pressão das elites industriais do Brasil por uma postura mais dura com relação à Argentina, Rousseff tem sido discutivelmente precavida em seus negócios com Buenos Aires, ainda que o protecionismo argentino tenha muitas vezes trabalho contra a integração regional e impedido o Mercosul de avançar como bloco unificado.

“Em seu manifesto de campanha, Marina defendeu mais integração com a Aliança do Pacífico e a ideia de uma solução de duas velocidades para o Mercosul, onde o Brasil, o Uruguai e o Paraguai poderiam assinar Acordos de Livre Comércio com a União Europeia, por exemplo, mesmo se a Argentina se recusar”

No mesmo artigo, entretanto, o analista de política internacional da Universidad de San Andrés Federico Merke destacou que Marina teria uma boa relação tanto com o candidato à presidência da Argentina Mauricio Macri (conservador) e Sérgio Massa (um ex-kirchnerista arrependido):

“Os assessores da brasileira e dos dois candidatos pedem por mais liberalização”

Daí, uma pergunta não cala para mim: na visão de CFK e seus correligionários, seria Marina Silva uma candidata abutre?

Até semana que vem!

 

Briefing: Mecanismos Internos

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Em outros Briefings, descrevi a encruzilhada em que se encontra o governo argentino: de um lado está o “mercado”,  pedindo reformas ortodoxas, o fim das restrições ao câmbio e ao comércio, além do pagamento das dívidas do país com os credores estrangeiros; do outro estão os trabalhadores daqui que, historicamente acostumados a níveis de vida muito mais altos que a média latino-americana, vêm se estapeando para conseguir sair dessa penúria que se acentua desde a década de 80. Quando parecia dar uma afrouxada, agarrou todo mundo pelo pescoço em meados de 2012 e a crise não dá sinais de trégua.

Informações desencontradas dão conta de mais de 500 mil demissões e uma inflação de 40% nos últimos 6 meses, mas é o futuro que preocupa mais o povo daqui. Com as eleições presidenciais de 2015 se aproximando, ninguém se arrisca a dizer exatamente quem serão os candidatos, muito menos qual deles irá ganhar. E é esse cenário de incerteza que parece conflagrar tudo.

O governo descarta o terror, exibindo dados em que, por A mais B, a situação das classes populares tem melhorado muito desde a ascensão de Nestor Kirchner à presidência. Identificou o inimigo no exterior, os tão falados fundos abutres, e estendeu a classificação a certos atores internos mais conservadores e, naturalmente, mais mais ricos.

Entretanto, a situação não se apresenta como uma luta de classes como nas antigas, pois à esquerda da Presidenta estão numerosas centrais sindicais e movimentos sociais muito mais radicais que têm dado uma dor de cabeça danada. De greve em greve, manifestação em manifestação, essa gente vai deixando claro o seu discurso.

Essa semana foi a vez da greve geral, convocada há cerca de um mês por Hugo Moyano, um dos maiores líderes sindicais da Argentina.

Hugo Moyano

Hugo Moyano

Em primeiro lugar, é interessante observar quem é Hugo Moyano, secretário-geral da Central Geral do Trabalho (CGT). Com raízes no sindicato dos caminhoneiros, ele comanda uma tropa fiel de cerca de 200 mil seguidores facilmente mobilizáveis e com o poder de basicamente parar o país, já que os grãos exportados, maior fonte de divisas daqui, é transportado na boleia de seus caminhões. Sob seu comando direto, estão motoristas e funcionários dos pedágios, por exemplo; o que significa que basta Moyano se manifestar e todos cruzam os braços. Investigado por enriquecimento ilícito, o controverso líder sindicalista rompeu com o governo em 2011 – retalhando ainda mais o movimento sindical local.

Aliás, esse é um dado que se deve levar em conta: as duas centrais sindicais do país estão literalmente divididas há décadas. Moyano lidera a chamada CGT Azopardo, mas existe uma outra CGT que é liderada por Antonio Caló e que apoia o governo de Cristina Kirchner.

Por outro lado, também existe a CTA, uma dissidência da CGT, que atua de forma independente e hoje é liderada por Pablo Micheli.

A greve geral de ontem teve a adesão da CGT de Moyano e da CTA, que em teoria representam tão somente 25% do movimento sindical argentino; mas que, no entanto, como eu disse antes, controlam setores estratégicos, como transportes, e que têm grande poder de mobilização. Dessa maneira, ontem não funcionaram trens, parte dos metrôs e foram bloqueadas as maiores vias de acesso à cidade de Buenos Aires. Calcula-se que a adesão, voluntária ou não, à greve foi de 85% no final das contas, embora o governo negue.

Obs.: A greve geral de ontem foi muito menor do que a de 10 de abril desse ano. Com os ônibus funcionando, o movimento na capital estava razoável, embora algumas lojas e bancos estivessem fechados.

Durante uma grande manifestação que percorreu a Avenida de Mayo desde a Casa Rosada até o Congresso na quarta-feira (27), estive conversando com Pablo Micheli (Secretário-Geral da CTA), Alejandro Bodart e Vania Ripoll (ambos do MST, Movimento Social dos Trabalhadores). Mais do que pedir um aumento para os salários e aposentadorias, carcomidos pela inflação, eles me disseram que estão lutando também por:

  • o fim do imposto de renda para os trabalhadores, já que para eles, não sendo lucro e remunerando o trabalho, salário não deveria ser taxado;
  • uma lei que impeça as demissões e férias coletivas por um ano; e
  • expropriação estatal das empresas que demitem trabalhadores.

Em uma entrevista com Bodart no mês passado, ele foi mais longe: todo o sistema bancário da Argentina deveria ser privatizado.

Para eles, Cristina Kirchner está a favor da banca internacional, dos yankees, como eles dizem aqui, e está enganando o povo argentino com meias-reformas, maquiagens. Micheli dizia de maneira bastante contundente:

“Vimos essa situação na década de 90, não vamos deixar que se repita!”

Da outra extremidade, como eu já falei e como se lê na mídia ocidental sempre quando se fala da Argentina, Cristina está se lixando para os mercados internacionais e está levando o país a uma aventura populista de graves consequências.

Esses dias, por exemplo, um artigo do Wall Street Journal alertou que a Argentina já deve estar em recessão. De acordo com o periódico, o país convive com uma “combinação tóxica” de crescimento econômico fraco e inflação alta, enquanto as reservas internacionais desmoronam pela fuga de capitais e intervenções para conter a montanha-russa cambiária. Em cerca de dez dias, a cotação paralela do peso passou da casa dos AR$ 12 para os quase AR$ 15 – uma situação que deve piorar, já que os preços da soja no mercado internacional têm tendência de queda a partir do terceiro trimestre.

Os analistas consultados pelo WSJ são unânimes: o país está irresponsavelmente jogando com a política macroeconômica para garantir um crescimento em detrimento das reservas.

No meio desse fogo cruzado, o governo claramente tenta se posicionar ao lado dos trabalhadores. Essa semana, propôs duas leis no Congresso:

  1. a chamada “lei do pagamento soberano”, que expliquei no último Briefing; e
  2. a Lei do Abastecimento, que cria a justiça do consumidor e dá ao governo mecanismos de intervenção nas empresas

Sem poder de maneira alguma baixar a arrecadação, naturalmente nem considera a possibilidade de ceder à reivindicação dos sindicatos referente ao imposto de renda. Alega, contudo, que este imposto só atinge 10% da população e que favorece a distribuição de renda. Dessa maneira, acusa aqueles que convocaram a greve de fazer uso político de seu poder de mobilização.

Mario Wainfeld do Página/12 resumiu bem a situação:

“Pela oratória dos sindicalistas, a Argentina seria uma comunidade organizada. Harmoniosa em todos os seus estamentos, é somente perturbada por um governo avesso, depredador e até psicopata – a mesma versão infantil que propagam os meios hegemônicos, as corporações patronais, as multinacionais e, por sua vez, os principais membros da oposição. Um estranho sentido comum.

Hoje, os sindicalistas afirmaram que mais greves gerais estão por vir, o que, junto com as previsões no mínimo pessimistas dos analistas econômicos, prenunciam um fim de governo bastante conturbado para Cristina Kirchner. Não é uma novidade.

Desde que cheguei aqui, semana sim semana não aparece uma nova informação que dá conta de decretar o fim da Argentina. Na primeira vez, eu realmente cheguei a acreditar que tudo estava perdido, mas minha amiga Gabriela Grosskopf Antunes (colunista no Globo Online e jornalista da versão em português do Clarín) cantou a bola:

“Esse país é assim mesmo; amanhã aparece uma nova catástrofe e depois de amanhã tudo volta ao normal”

Até semana que vem!

Briefing: Temperatura Máxima

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

Desde a semana passada, as ruas de Buenos Aires estão mais cheias. É gente de braços e pernas de fora, estendendo cangas nos parques e tomando um bronze – enquanto toma unos ricos mates, ¡por supuesto! Com temperaturas surpreendentemente batendo os 27 graus, esse não é o inverno a que os porteños estão acostumados e, muito menos, aquele que os brasileiros procuram para exibir o casacão comprado na Europa.

Se bem me lembro, setembro passado estávamos todos acocorados debaixo do cobertor, aquecedor à mil, esperando una nesga de sol para botar o nariz pra fora de casa. Aqui, embora as temperaturas nunca cheguem abaixo de zero, a umidade relativa do ar tremenda faz quaisquer 5 graus penetrarem nos ossos e cortar a cara quando começa a ventania.

Mas esse ano, uma massa de ar quente parece estar estacionada sobre Buenos Aires e não está jogando às alturas só a temperatura, não. A política e a economia também parecem estar afetadas.

Na disputa pelo ponto mais alto do termômetro está indiscutivelmente Axel Kicillof. O ministro quarentão tem recibidoCaptura de Tela 2014-08-21 às 23.21.58 diversos apelidinhos nos últimos tempos, o que, para o mal ou para o bem, diz um pouco de sua popularidade. #KiciLove para as tietes, “chiquitito, pero cumplidor” nas palavras (com inesperado duplo sentido) da Presidenta Cristina, “galã do calote” como num perfil da revista Exame, ou até “o político mais perigoso da América Latina” de acordo com um periódico de Cingapura, Axel acordou com a macaca na última segunda e começou a colocar as cartas da Argentina na mesa:

“[Se os buitres quiserem receber], podem vir e trocar os títulos aqui. Se fizerem, vão ter um lucro de 300%. Isso é pouco para o senhor Singer? Sim, porque ele é um abutre, mas se ele quiser, vamos pagar”

Kicillof se referia à Paul Singer, dono do fundo NML e uma das vozes mais ativas contra a restruturação da dívida externa argentina, mas o recado foi geral: o governo mandou um projeto de lei para o Congresso que abre a possibilidade de todos os credores da Argentina trocarem os títulos sob jurisdição nova-iorquina (truncados pela famosa decisão do juiz Thomas Griesa) por bônus emitidos na jurisdição local.

“Ninguém está obrigado a aderir, mas criamos essa alternativa devido às dificuldades que encontramos em pagar o serviço da dívida”

Pra completar, respondendo à acusação de Griesa de que o projeto seria ilegal, Kicillof afirmou que o juiz estadunidense pretende “condicionar o Congresso argentino”.

“O juiz convocou uma audiência para debater um suposto desacato da República, em mais um excesso de jurisdição e demonstrando desconhecimento do conceito de soberania. (…) Longe de agir com justiça e gerar condições equilibradas entre as partes, Griesa só quer favorecer aos abutres”

Outro que estava on fire era o Ministro das Relações Exteriores Héctor Timerman. Comentando as alegações dos EUA de que não aceitavam a competência da Corte Internacional de Justiça por conta da divisão de poderes, o chanceler afirmou que a desculpa é “produto de uma certa ignorância”. Para ele, a decisão de um país sobre como deve pagar sua dívida externa é soberana e, se um juiz dos Estados Unidos ameaça feri-la, o país pode ser responsabilizado internacionalmente por isso.

Depois de acusar o Paul Singer, sempre ele, de doar mais de 10 milhões de dólares para congressistas estadunidenses, esclareceu que levará esse país à CIJ, mesmo suspeitando de que não vá dar em nada:

“[Os EUA] várias vezes não acataram as sentenças [da Corte] contra suas violações do direito internacional”

Também cutucando várias onças com a vara curta (ou cumprida, vai saber), a Presidenta Cristina Kirchner foi novamente à rede nacional com um discurso não tão leve como os anteriores para explicar o projeto de lei que, segundo ela, trata-se de uma solução para um problema que não foi criado nem pelo seu governo nem pelo de seu marido.

“Não contraímos essa dívida. A partir do golpe de Estado e continuando com os sucessivos governos democráticos, a dívida externa foi crescendo e se transformando num condicionante ao crescimento do país. Na última década, vivemos anos de desendividamento, mas também de desenvolvimento, porque tudo isso não se pagou com a fome do povo. Perdão pelo nervosismo. Vocês sempre me veem mais aprumada, mas estou nervosa com a injustiça que estamos vivendo!”

Embora possam ter sido encaradas com desgosto pelo Nobel da Paz (sic) Barack Obama, as medidas do governo argentino foram celebradas pelo Nobel da Economia Joseph Stiglitz:

“De uma perspectiva global, não é possível entender porque um juiz chega a ter o direito de julgar qualquer bônus no mundo. A extra-territorialidade deveria ser inaceitável. (…) De um ponto de vista econômico, [a troca proposta pelo governo] é o que eu teria recomendado”

Internamente, entretanto, o ex-Presidente do Banco Central Prat-Gay acusou o governo de “como sempre, se esquivar de resolver as questões de fundo”, afirmando que “não se pode viver sempre à margem da lei”. Já um dos líderes mais ferozes da oposição, Maurício Macri, anunciou que seu partido votará contra o projeto do governo, usando como metáfora uma das maiores paixões argentinas:

“É como se nós agora disséssemos que a final da Copa do Mundo não valeu porque o goleiro da Alemanha cometeu um pênalti [não marcado] e convidássemos eles a jogar outra partida na Argentina apitada por Oyarbide (famoso juiz argentino)”

Os editoriais dos jornalões  locais acompanharam o ponto de vista, dizendo que o governo “embandeira um falso nacionalismo, colocar-se a um passo do desacato e afetar ainda mais a imagem do país no exterior”. Já para Ricardo Roa do Clarín, nas falas de Kicillof, el principito, faltam argumentos e sobra prepotência.

Enquanto as forças políticas se atritam, a fagulhas acendem os problemas econômicos: o chamado dólar blue (paralelo, negociado em estabelecimentos ilegais e em cada esquina do Microcentro) se afasta cada vez mais da cotação oficial, quase batendo a marca recorde de 14 pesos. Se não bastasse o efeito inflacionário dessa discrepância, conforme alertou o economista Augustín D’Attellis, a disparada do dólar seca as reservas, que só ontem, sofreram um desfalque de US$ 89 milhões.

E pra completar, tem as greves…

Ontem foi a vez da saúde pública da província de Buenos Aires, que parou por 24 horas. Fiz uma visita ao Hospital Fioretto em Avellaneda hoje pela manhã e a neurocirurgiã Silvia Stepaniuk me contou que o motivo de sempre é o salário, mas que os problemas não terminam aí. Sem equipamentos básicos como um tomógrafo, insumos como chapas de raio X ou mesmo gaze e soro, eles não têm como atender aos pacientes e nem como transferi-los, porque tampouco funciona a ambulância. Ela disse que os familiares ficam tão indignados, que às vezes até agem com violência.

“Nós é que botamos a nossa cara à tapa; as pessoas não vão reclamar com o governador nem com o ministro. Elas vêm pra cima da gente”

Semana que vem, as previsões do tempo garantem que a temperatura vai voltar ao normal e baixar para a casa dos 10 graus, mas parece que as mudanças ficarão restritas ao clima. Na quinta-feira (28), tem greve geral de 24 horas convocada pelo controverso sindicalista da oposição Hugo Moyano. Assim, se você tiver viagem marcada para esse dia, é melhor remarcar.

Até mais!

Briefing: As Invasões Bárbaras

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Todas as descrições clássicas do populismo mencionam a criação de um inimigo externo. O historiador mexicano Enrique Krauze, por exemplo, diz que:

“Imune à crítica e alérgico à autocrítica, precisando apontar bodes expiatórios para os fracassos, o regime populista (mais nacionalista que patriótico) precisa desviar a atenção interna para o adversário de fora”

A ele fazem coro aqui na Argentina os principais críticos do governo de Cristina Kirchner que, nas palavras de Fernando Laborda do diário La Nación, a acusam de “persuadir a população de que, por trás das penúrias socioeconômicas do presente se esconde um poder empresarial que aposta no desemprego” e de “apresentar qualquer desarranjo da economia como consequência da ação dos fundos abutres e de uma confabulação internacional contra o país”.

Eu não me atreveria a chamar CFK de populista nem mesmo de incorrer no pantanoso debate sobre o real significado dessa adjetivação, mas a semana pelo menos deu um gás a essas acusações.

Terça-feira no Luna Park, mais prestigiosa e tradicional casa de shows da capital porteña, agremiações kirchneristas protagonizaram um ato contra os fundos abutres na comemoração pela resistência de Buenos Aires frente os invasores ingleses em 1807. Os oradores destacaram o heroísmo dos argentinos que “das sacadas de San Telmo jogavam baldes de óleo quente nas tropas imperialistas e venceram, pese à rendição de alguns cipayos” (jargão sindical local equivalente a “pelegos”). O recado estava dado: agora era a vez da militância, não só contra os abutres de fora, mas também com a mídia abutre, as empresas abutres, os jornalistas abutres. O inimigo tem variadas alcunhas, mas apenas um sobrenome.

Quarta-feira, a AFIP, autoridade fiscal da Argentina, realizou uma operação de busca na sede local do banco britânico HSBC por denúncias de lavagem de dinheiro e evasão de divisas que chegam a centenas de milhares de dólares. Não encontraram nada. Funcionários do banco, apesar de afirmarem que estão ali para esclarecer tudo o que a lei argentina pedir, alegaram que justo os documentos relacionados ao caso foram destruídos num fatídico incêndio em fevereiro deste ano.

É um banco abutre ou apenas mais um inimigo imaginário do governo?

O deputado Mário Cafioro, que não é governista, me disse que aposta na primeira hipótese:

Essa instituição é investigada por casos de lavagem no México, na Colômbia, nos Estados Unidos e na Europa, que favorecem grupos terroristas e narcotraficantes. Não quero nem pensar o que podem chegar a fazer na Argentina, onde, no afã de conseguir dólares de qualquer origem, o governo simplesmente deixou de fazer qualquer controle.

Mais à esquerda, Alejandro Bodart lembrou que o banco, “formado com capitais do comércio de ópio na China do século XIX”, esteve enrolado em todo tipo de negócio obscuro no país, desde o Corralito até o Megacanje.

Ontem foi a vez da Donnelley, uma gráfica estadunidense que operava no país há 22 anos e que pediu falência no começo da semana. Em aparição espetacular na Casa Rosada com participação da militância, Cristina anunciou que entrará na justiça contra a companhia com base na chamada Lei Antiterrorismo por “alteração da ordem econômica e financeira”. De acordo com a Presidenta, a quebra é falsa e serve para criar o temor na sociedade e minar as expectativas.

Adivinha quem estaria por trás da empresa? O fundo abutre NML de Paul Singer, a quem a Presidenta acusou de “tecer um entramado mafioso para prejudicar o país e botá-lo de joelhos”.

Os fundos abutres não querem acertar as coisas. Não é somente avareza e cobiça, mas também uma decisão política e geopolítica de querer voltar a endividar a Argentina e jogar águas em qualquer modo de restruturação da dívida soberana.

Ela criticou também os “abutres internos, que defendem essa gente e defendem atitudes como essa, ameaçadoras, que ferem a soberania e a dignidade nacional”.

Verdade ou delírio?

Cristina disparou contra todo mundo num caso que chamou de “quebra express” de uma empresa que tinha uma situação patrimonial boa:

A falência foi pedida na sexta-feira, na segunda seguinte foi aceita!

O país também entrará com um pedido ante a SEC (Comissão de Valores estadunidense) para que a companhia justifique as supostas perdas de 22 milhões de dólares alegadas na quebra e, se for comprovada atividade terrorista, será pedido um embargo dos ativos dos fundos abutres no exterior.

No meio do fogo cruzado, as notícias da economia não chegam a ser muito alentadoras: ontem a bolsa de valores mergulhou 1,8%, o dólar blue (cotação paralela) atingiu um novo recorde em AR$ 13,20 e os dados da inflação não oficial indicam uma subida de 40% desde o início do ano.

De quem será a culpa?

Se aparecerem mais pistas semana que vem, eu conto!