O Primeiro Teste

Elecciones-Rio-Negro-Argentina

Domingo que vem, os argentinos irão às urnas para escolher, entre os candidatos de seu partido, aquele que disputará a presidência em outubro. Embora ainda não seja um embate direto entre os principais pretendentes ao posto máximo do país, trata-se de um termômetro importante do que vem pela frente, de mesma maneira que aconteceu nas eleições locais de importantes distritos eleitorais, como o da Cidade Autônoma de Buenos Aires, de Córdoba e Salta.

Continuar lendo

Os Supervisores

lulacris

Era uma vez um país da América do Sul em que, depois de anos de governos neo-liberais, elegeu uma liderança de esquerda. Os anos foram passando e vários coleguinhas na vizinhança foram aparecendo e, com a ajuda de um longínquo e voraz companheiro de olhinhos puxados em acelerada fase de crescimento somada a uma crise generalizada entre os ricos primos do norte, nossa liderança de esquerda e seus amigos conseguiram a façanha de enriquecer sem concentrar muito.

De repente, nos idos de 2009, enquanto o resto do mundo parecia um verdadeiro desastre, a imensa península sul-americana se apresentava como o futuro mesmo. Desassossegados intelectuais do norte olhavam para cá embasbacados: Jim O’Neill metia o Brasil no BRIC, Oliver Stone fazia um documentário sobre Chávez, Joseph Stiglitz saudava a maneira argentina de enfrentar crises, os exemplos seguem.

Obviamente, tudo isso se dava sem que perdêssemos completamente o charme de Macondo. Exóticos, indígenas, negros, com elites cuspindo fogo nos editoriais dos próprios meios de comunicação, sem, no entanto, serem capazes de enfrentar os números: crescíamos a quase 6%, as vendedoras do Bloomingdale’s estavam aprendendo português, a Venezuela estava com tanta grana que se dava ao luxo de criar uma rede de TV para dar “a nossa versão do mundo”.

Mas em algum momento os mandatos daqueles líderes de esquerda tinham que terminar – a pátina final de toda a maravilha sul-americana era a democracia -, de modo que havia dois caminhos a seguir: lançar mão de toda aquela popularidade e mudar a Constituição para extender indefinidamente seus mandatos ou eleger um sucessor. Nosso país optou pelo segundo.

Continuar lendo

Foi dada a largada!

5271353616fda

O páreo já estava mais ou menos dado faz algum tempo, mas podia ter sido embaralhado pela vontade de Cristina. Entretanto, a mandatária fez exatamente o que está escrito no manual para “ganhar” as eleições no próximo dia 25 de outubro: escolheu seu candidato mais popular, mas com um fiel escudeiro na retaguarda.

Com a aposta dos mais caxias, Florencio Randazzo, fora da parada, as regras do jogo estão mais claras e no melhor estilo Fla-Flu ou Boca-River, como você preferir, foi dado o apito inicial para a sucessão de Cristina.

Continuar lendo

♪ ♫ Dizem que sou louco… ♫♪♫

Cristina Kirchner lele

Um dos traços mais distintivos do zeitgeist argentino é uma certa egolatria napoleônica misturada um toque de quixotismo – uma tal postura desafiadora às injustiças do mundo. Cole essa características em um cenário de turbulências econômicas, polarizações políticas e líderes sem papas na língua, e pronto!

Não digo que eles sejam loucos – no atual cenário político brasileiro, qualquer um de nós que se atreva a jogar a primeira pedra imediatamente adquire um imenso telhado de vidro sobre o nosso lábaro estrelado. Mas, juntando as características que mencionei logo acima, o caldo para uma loucurinha aqui e outra acolá é tão fértil quanto as melhores terras pampeanas.

As últimas semanas foram especialmente ricas nesse sentido.

Continuar lendo

A Argentinização do Brasil

BRARG 2

Ontem (13) no Brasil foi dia de manifestações de apoio ao governo de Dilma Rousseff. Debilitado por uma chuva de denúncias, por uma economia trôpega e, ainda, por uma dificuldade de comunicar-se (ao menos, com uma determinada parcela da população), o PT logrou levar um número X de pessoas a pontos-chave de diversas capitais do país para reagir à imolação do Judas que vem sofrendo pelo menos desde a posse da Presidenta.

Na redes sociais, a hashtag #Dia13DiadeLuta vinha acompanhada de imagens de uma onda vermelha entusiasmada e confiante. O perfil de Alexandre Padilha, candidato petista derrotado ao governo de São Paulo na eleições de 2015, falava de pelo menos 50 mil pessoas na Avenida Paulista; mas sugeria que o número poderia chegar até a casa dos 100 mil. No Rio de Janeiro, a imagem da emblemática Cinelândia lotada também dava conta de asseverar: o ato foi um verdadeiro sucesso!

Entretanto, não se tratou de uma interpretação unânime. Para o jornal O Globo, foram mil pessoas no Rio, 12 mil em São Paulo – ao redor de 33 mil em 24 capitais. Ou seja, uma média de 24 estádios vazios no país inteiro em que, de acordo com a Folha, se defendeu Dilma e se criticou o governo (?!). Essas manchetes vieram acompanhadas de dados contundentes sobre o que virá amanhã (15), quando será a vez dos insatisfeitos: 15 mil policiais serão recrutados, a estrela máxima do pop nacional Wanessa Camargo cantará o hino nacional, possivelmente acompanhada do craque Ronaldinho Fenômeno. Se tudo der certo, o #15deMarco será uma versão elevada à potência do “surpreendente” panelaço do domingo passado.

Sim, estamos falando do mesmo panelaço que, de acordo com alguns blogs afins do governo, só foi escutado no créme-de-la-créme da alta sociedade paulista e carioca.

Se você fizer uma retrospectiva dos posts desse Passa em Buenos Aires em que cobri a situação política da Argentina, verá que em diversos momentos demonstrei o meu desconcerto pelas duas versões de país diametralmente opostas apresentadas de um lado pela dupla dinâmica Clarín e La Nación e, de outro, pela Telam (agência oficial de notícias), Página/12 e mais uma tropa de anões obstinados.

Continuar lendo

Sentimentos desencontrados na Marcha do Silêncio

0000442228

Ontem (18), quinze minutos antes do início da chamada Marcha do Silêncio ou #18F, desabou um aguaceiro sobre a cidade de Buenos Aires. Se o mesmo tivesse acontecido na maioria das cidades do mundo, era de se esperar um enorme fiasco: com um comparecimento que já parecia ser massivo de, em boa parte, pessoas pra lá dos cinquenta anos de idade, nessas outras cidades a rua iria se esvaziando e os tais procuradores melancolicamente caminhariam até o palácio do governo sozinho.

Mas isso não aconteceu em Buenos Aires. De repente um mar de guarda-chuvas foi se abrindo  e a chuva forte apenas deu um tom um pouco mais lúgubre àquele lamento pela morte em estranhas circunstâncias do procurador especial da causa AMIA Alberto Nisman.0000442383

Contrário ao que propunha a convocatória, entretanto, não se tratou de uma marcha silenciosa. Como no protesto realizado dias após o sinistro, os manifestantes ora batiam palmas, ora entoavam emocionados o hino argentino: uma imagem verdadeiramente tocante capaz de derrubar qualquer cinismo com relação à natureza do evento, por si só, contraditório, polêmico e alvo de tantas críticas desde organizações próximas ao governo e mesmo do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, um costumeiro crítico da Presidenta Cristina Kirchner:

“Atrás dessa marcha vão estar oportunistas políticos que jamais defenderam os Direitos Humanos”

De acordo com a amiga Vera Pérez Guarnieri, que se aventurou comigo debaixo do temporal durante a cobertura do evento, aqueles senhorinhos e senhorinhas que se aboletavam debaixo do guarda-chuva tinham um motivo especial para estar lá. “Eles se lembram de um tempo em que as pessoas morriam ou sumiam para aparecer tempos mais tarde como suicidas”, me contou, “têm isso muito vivo na memória”. Um senhor que eu entrevistei no meio do caminho confirmou essa tese:

“Estamos aqui para defender a democracia. Esse país já sofreu muito na ausência dela”

Todos esses aportes somados à tanta obstinação já começavam a mudar a minha opinião sobre o 18F, que eu havia expressado aqui um dia antes, quando alguns dados foram caindo de pouco em pouco para, na verdade, reforçá-la e, ainda assim, dar àqueles senhorinhos e senhorinhas um caráter ainda mais melancólico. Vamos a eles.

Continuar lendo

Sobre o silêncio da marcha

Captura de pantalla 2015-02-17 a la(s) 20.40.31

A marcha marcada para amanhã (18) promete mobilizar centenas de milhares de pessoas na Praça de Maio em Buenos Aires como reação à morte do colega Nisman. Ela foi convocada por alguns procuradores argentinos. Seguindo a linha que vai costurando uma história iniciada com atentado à embaixada de Israel em 92 e continuada esses dias com uma denúncia bombástica e um suicídio/assassinato, a convocatória foi cercada de mistério: será uma marcha em silêncio.

Os procuradores não gritarão palavras de ordem nem cantarão o hino argentino nem darão entrevistas. Caminharão lado-a-lado, junto com políticos da oposição que já confirmaram presença e mais simpatizantes indignados com os últimos eventos e que ressentem uma Argentina dominada pela máfia de… (a verdade é que para esse posto existem muitos potenciais ocupantes).

“A marcha é um apoio à verdade”, comentou um dos fiscais em entrevista à rádio Mitre; “o corpo de procuradores sofreu um dado irreparável”, retrucou outro, enquanto, do lado do governo, uma chuva de críticas chegou ao ponto de caracterizá-la como um golpe de Estado judicial.

Para o secretário geral da Presidência Aníbal Fernandez, o chamado 18F foi convocado por “narcotraficantes” e “antissemitas”, de modo que é lamentável que “oportunistas” usem a marcha por benefício próprio. Num lacônico surto de otimismo, a Presidenta Cristina disparou que “a alegria vai vencer o ódio” e agregou:

“Eles sempre gostaram do silêncio porque não têm nada para dizer ou porque não podem dizer o que pensam”

E, de fato, eu me pergunto: qual seria o sentido de realizar uma marcha sem que se preste nenhuma explicação sobre contra quê está se manifestando? Haveria mais sentido se na própria convocação ao menos um manifesto fosse publicado, um release para a imprensa, algo; pois no final das contas o que está sendo divulgado são divagações sobre sentidos abstratos da justiça vindas de profissionais que estão aí metidos dentro dela.

Entende-se que cidadãos comuns se escondam atrás de uma assertiva vazia como #YoSoyNisman (ou como #JeSuisCharlie) sem, de verdade, elaborar o que significa ser qualquer um dos dois. Muitas pessoas irão à marcha com uma motivação dessa natureza: um desconforto geral com a situação catalisado por uma morte misteriosa. Mas se deveria esperar isso do corpo de Procuradores?

De acordo com um deles, Ricardo Saenz:

“Em um momento tão duro seria bom entender o que é o silêncio”

E, bem, sobre esse ponto, ele não deixa de ter razão; entretanto, considero uma irresponsabilidade indigna no serviço público “botar lenha na fogueira” num momento de incerteza institucional, sem aportar absolutamente NADA ao debate.

Amanhã eu conto como foi!

O Agente Stiusso

Captura de Tela 2015-02-06 às 14.40.57

Eu prometo que o meu próximo post será sobre os melhores hambúrgueres de Buenos Aires, compras ou algum assunto assim que trate de equilibrar esse blog. Mas por enquanto, não resta alternativa: temos que falar de Jaime Stiusso, o agente tão secreto, mas tão secreto, que até outro dia não tinha nem rosto e que, desde a morte do procurador Alberto Nisman, está dando o que falar por aqui.

O que sabemos dele não vem de uma página da Wikipedia, de uma autobiografia ou de alguma entrevista que tenha dado em algum momento. Stiusso é um mistério que vem se desvelando de uma acusação aqui e de um rumor dali que, sempre desmentidos, aumentam a fumaça no seu entorno. O certo, seguro e comprovado é que o engenheiro de 61 anos atuou na antiga Secretaria de Inteligência do Estado (a ex-SIDE) entre 1972 e dezembro do ano passado, o que, como veremos, é o suficiente para congelar a espinha!

Continuar lendo

Chuva de especulações sobre a morte de Nisman

Miles-personas-marcharon-esclarecimiento-Nisman_IECIMA20150119_0065_17

Se alguém pensava que janeiro ia ser tranquilo na Argentina, certamente não imaginava que, de repente, vamos por partes:

  1. o procurador Alberto Nisman interromperia suas férias sem motivo aparente, deixando sua filha de 13 anos sozinha no aeroporto internacional de Madrid à espera da mãe;
  2. faria uma denúncia bombástica contra a Presidenta da República, demonstrando um grau de confiança impressionante nas entrevistas que deu para canais de televisão;
  3. seria chamado para dar explicações no Congresso argentinos tão logo passasse o fim de semana;
  4. e, finalmente, apareceria morto no banheiro de seu apartamento, após mandar uma mensagem a amigos que pouco remete a uma carta de despedida (veja abaixo)

nisman_mensaje.jpg_2069580699Desde então, a Argentina foi tomada de surpresa numa trama que tem gerado desconfiança, mistério e, devo mencionar, descrédito. Enquanto os opositores mais ferrenhos têm denunciado fortemente o governo até de ser o autor do crime, salta à vista um clima de decepção com as instituições de um país que já viu crimes estranhíssimos jamais serem solucionados, como a morte do filho de Menem na década de 90 e o desaparecimento de Jorge Julio Lopez.

E no meio desse clima de consternação, seja pela morte de Nisman, seja pelas acusações que ele fez, seja pelas denúncias de que o governo estaria envolvido, seja pela sorte de um país onde esse tipo de coisa acontece (e, na maioria das vezes, não aparecem respostas), é difícil não ficar desorientado com a quantidade de informações quentíssimas que vão retroalimentando as incertezas. Vamos a elas!

Continuar lendo

3. A Política

avemayo

O eixo de Buenos Aires, a numeração de todas as ruas e mesmo a ordenação do metrô está localizado numa linha reta que sai da Casa Rosada, o marco zero da capital argentina. Seguindo pela Avenida de Mayo (na verdade é a Rivadavia, mas não sejamos puristas), se descortina uma das mais belas paisagens urbanas daqui, com prédios magníficos como o Palácio Barolo e o Congresso ao fundo.

Esse caminho é entrecortado pela colossal avenida Nueve de Julio, la más ancha del mundo, o que a torna virtualmente impossível de atravessar de uma.

Não, esse não é outro post de como se encontrar em Buenos Aires. Acontece que, quando você se muda para um lugar novo, acaba se dando conta de algumas coisas que passam corriqueiras na vida dos nativos e corre o risco, inclusive, de inventar situações que não tem nada a ver no fim das contas, como eu me arrisco a fazer aqui.

José de San Martín, libertador da Argentina

José de San Martín, libertador da Argentina

Mas não seria muita coincidência que o eixo da capital comece na antiga aduana, de onde as riquezas da terra eram evadidas na época colonial, gerando uma próspera sociedade criolla nessa margem do Rio da Prata, e que daí, no cruzamento com a rua San Martín (homônima ao Libertador daqui que acabou participando da independência de metade da América Espanhola), desse lugar desague a Avenida de Mayo (homônima à Revolução que deu origem ao país) até que esta cruze mais uma vez com a maior artéria de todas, a Nueve de Julio (a data em que finalmente a Argentina declara a independência da Espanha) até chegar no Congresso, o Parlamento, símbolo da democracia?

Pois bem, eu acho impressionante essa urbanização prestando-se a contar uma história e considerei apropriado começar esse post sobre a política argentina com esse senso de direção, tão Positivista, que respirava o país naqueles idos do fim do século XIX, quando começaram também a surgir alguns dos ícones da cidade como o Teatro Colón e todo o traçado urbano inspirado em Paris.

Continuar lendo