Gregos deveriam estudar a história recente da Argentina

Yanis-Varoufakis

O novo Ministro de Finanças grego, Yanis Varoufakis, anunciou nesta segunda-feira (2) medidas para apaziguar as relações do país com seus credores, num plano que inclui trocar uma dívida impossível de honrar por títulos vinculados ao crescimento. O titular da pasta do governo recém-eleito terá que convencer os céticos companheiros europeus de que estarão fazendo um bom negócio, o que é uma missão complicada, afinal, o partido de extrema esquerda Syriza baseou sua campanha vitoriosa na proposta de demolir as políticas de austeridade fiscal.

País em crise econômica e social profunda, novo governo progressista, problemas gravíssimos com a dívida externa, troca de títulos… Essa história não lhe soa familiar? Pois deveria! Há mais ou menos uma década, o governo de Néstor Kirchner na Argentina jogou exatamente nesse campo para tentar driblar essa fórmula draconiana dos mais conservadores para lidar com a crise: uma austeridade que tem custos insuportáveis para o povo. Kirchner também propôs uma troca (el canje de la deuda) de títulos podres por bônus vinculados ao crescimento, numa operação em duas parcelas que logrou renegociar 95% da dívida.

Varoufakis deve ter se espelhado nessa receita de sucesso que, até a crise de 2008, garantiu à Argentina a retomada no ritmo do crescimento e até um princípio de reversão do drama social que o país vivia. Entretanto, seguramente está atento às novas regras desse tipo de operação que foram postas na mesa por uma controversa decisão da Corte Suprema estadunidense: se a aceitação ao plano não for universal (100% dos credores), a renegociação pode não valer nada.

Os chamados fundos abutres, os holdouts, até hoje assombram a Argentina com o temor da moratória – aliás, com tanta confusão pós-falecimento do procurador Nisman, essa renegociação caiu num estranho esquecimento.

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3. A Política

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O eixo de Buenos Aires, a numeração de todas as ruas e mesmo a ordenação do metrô está localizado numa linha reta que sai da Casa Rosada, o marco zero da capital argentina. Seguindo pela Avenida de Mayo (na verdade é a Rivadavia, mas não sejamos puristas), se descortina uma das mais belas paisagens urbanas daqui, com prédios magníficos como o Palácio Barolo e o Congresso ao fundo.

Esse caminho é entrecortado pela colossal avenida Nueve de Julio, la más ancha del mundo, o que a torna virtualmente impossível de atravessar de uma.

Não, esse não é outro post de como se encontrar em Buenos Aires. Acontece que, quando você se muda para um lugar novo, acaba se dando conta de algumas coisas que passam corriqueiras na vida dos nativos e corre o risco, inclusive, de inventar situações que não tem nada a ver no fim das contas, como eu me arrisco a fazer aqui.

José de San Martín, libertador da Argentina

José de San Martín, libertador da Argentina

Mas não seria muita coincidência que o eixo da capital comece na antiga aduana, de onde as riquezas da terra eram evadidas na época colonial, gerando uma próspera sociedade criolla nessa margem do Rio da Prata, e que daí, no cruzamento com a rua San Martín (homônima ao Libertador daqui que acabou participando da independência de metade da América Espanhola), desse lugar desague a Avenida de Mayo (homônima à Revolução que deu origem ao país) até que esta cruze mais uma vez com a maior artéria de todas, a Nueve de Julio (a data em que finalmente a Argentina declara a independência da Espanha) até chegar no Congresso, o Parlamento, símbolo da democracia?

Pois bem, eu acho impressionante essa urbanização prestando-se a contar uma história e considerei apropriado começar esse post sobre a política argentina com esse senso de direção, tão Positivista, que respirava o país naqueles idos do fim do século XIX, quando começaram também a surgir alguns dos ícones da cidade como o Teatro Colón e todo o traçado urbano inspirado em Paris.

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2. A Economia

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A primeira dificuldade que tive para começar esse post foi encontrar uma foto que pudesse ilustrá-lo. Ao se meter a escrever um panorama da economia argentina em 2015, o que há de mais representativo a respeito dela: Uma bela ceifadeira trabalhando extensos campos de soja? Gruas enchendo containers no historicamente movimentado Porto de Buenos Aires? O parque industrial a pleno vapor? A praça financeira? Os arranha-céus de Puerto Madero? Uma montagem que inclua todas as anteriores? Ou uma dramática versão em preto-e-branco sugerindo decadência em algumas delas?

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Dependendo de quem se ouve, todas as alternativas são bastante possíveis e refletem também o que se vem sonhando para a economia da Argentina desde os tempos de glória da primeira metade do século XX – uma época jamais esquecida e cuja passagem para os tempos atuais se caracteriza como um dos grandes traumas sociais da nossa região.

Finalmente optei pelo dinheiro em espécie – o peso argentino – porque, como iremos ver, é a sua relação com a moeda estrangeira, ou frequentemente a falta dela, que determinou para que lado do espectro se concentrava a aposta para um futuro que permanece indefinido.

Na eleições de 2015, como aquela que se celebrou no Brasil em 2014, muito se debaterá sobre temas como a corrupção, a sanha concentradora dos Kirchner, a liberdade de imprensa, as relações internacionais, as restrições à economia, etc. Mas, no final das contas, e também à semelhança da contraparte brasileira, se estará discutindo a definição desse projeto de país que nos últimos quarenta anos esteve caracterizado por manobras radicais, deslumbramentos e tombos inevitáveis.

Mas, afinal, que cartas estão sobre a mesa?

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2015: o ano das grandes expectativas

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Como já é bem sabido, o ano novo em Buenos Aires não chega a ser um agito! Com a presença bastante expressiva de brasileiros ou desavisados ou determinados a fugir do tumulto, a cidade conta com opções discretas e pouco efusivas como um show de tango aqui, uma queima de fogos borocoxô acolá.

De agora até meados de fevereiro, os porteños que podem se refugiam do calor intenso no litoral daqui, do Uruguai ou do Brasil, deixando a capital-megalópole com uma calma pouco comum. Entretanto, não dá para pensar num país em férias, alheio aos acontecimentos, suavemente disfrutando das praias sul-americanas; pois o ano de 2015 protagonizará uma das transições mais importantes da democracia argentina, a ser apimentada por desafios econômicos e sociais substanciais.

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Briefing: Nao tá fácil pra ninguém

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Que liderança política estaria “satisfeita” na Argentina de hoje? Difícil saber.

Por um lado o governo vê chegar no horizonte um dezembro que promete não ser dos mais fáceis. As centrais sindicais, como a CTA que marchou com milhares de militantes esses dias pelo centro, já disseram que se algumas de suas reivindicações não forem atendidas (um bônus emergencial para os trabalhadores de AR$ 4 mil e um desconto nos impostos sobre o Aguinaldo – o 13o daqui – por exemplo), vão pegar pesado no final do ano. A central que reune o pessoal dos transportes também anunciou greves gerais e quilombo.

Além disso, o potencial quiprocó interno antecederá os arranjos esperados para janeiros com o Fundos Abutres – uma negociação absolutamente misteriosa que pode selar o triunfo ou a humilhação do governo de Cristina.

Quem poderia talvez estar sorrindo com o cantinho do rosto diante dessa situação seria a oposição, mas nem isso. Conflitos internos estão despedaçando a Frente Amplia UNEN – que foi anunciada com entusiasmo por lideranças políticas no primeiro semestre desse ano.

A primeira debandada de peso (sem trocadilho) foi Elisa “Lilita” Carrió, que vislumbrava um acordo com o conservador PRO de Maurício Macri. Sem conseguir o aval das outras lideranças, saiu atirando:

“É impossível trabalhar com gente medíocre”

Para ela, a oposição deveria se unir contra a máquina poderosa do kircherismo sem preciosismos; e talvez tivesse razão, embora nunca se sabe o que aconteceria depois de uma eventual vitória.

As outras lideranças, agrupadas na tradicional União Cívica Radical, têm uma relação traumática com composições muito complexas, ideologicamente falando. A malfadada Alianza que levou o radical Fernando de la Rúa à presidência em 1999 significou um governo fragmentado e débil que culminou com uma renúncia dois anos depois. Junto com a transição antecipada de Alfonsín em 1989, a experiência deixou o partido marcado pela pecha dos governos inacabados.

Assim, a fugaz promessa da UNEN, que já não conseguia fazer decolar nenhum de seus candidatos, está virtualmente acabada.

Por outro lado, embora Lilita esteja negociando com Maurício Macri do PRO, é muito pouco provável que eles emplaquem uma candidatura consistente para desafiar a Frente pela Vitória (FpV, o partido da presidenta Kirchner).

E o povo?

O deputado da Unidad Popular Cláudio Lozano recentemente me destrinchou uma lista dos incômodos vividos nos últimos 15 meses:

  • mais de 480 mil postos de trabalho fechados, com taxa de desemprego próxima a 11%;
  • deterioração em torno dos 10% do poder aquisitivo dos salários;
  • aumento de 1,5 milhão no número de pobres e de 850 mil de indigentes

Para ele, existe uma noção dentro do governo de que, até o fim do mandato, a normalidade poderá ser mantida, o que leva a uma imobilidade na resolução dessas questões. Lozano não está de acordo:

“Obviamente não há tranquilidade, não só para o mês de dezembro, mas para todo o processo até a mudança de governo. A situação social irá influir muito nessa decisão democrática”

Dizem por aí que essa situação social pode produzir saques aos supermercados em dezembro – o que foi chamado recentemente pelo polêmico Secretário de Segurança Sergio Berni do país de “uma tradição de Natal argentina”.

Até a próxima!

O que está acontecendo com o câmbio?

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Nos últimos dias, os brasileiros que vivem em Buenos Aires ficaram de cabelo em pé, pois de repente o Real foi perdendo valor de maneira vertiginosa. Se em 30 de outubro mil reais compravam AR$ 5.500,00 no mercado informal, hoje (11/11), com sorte, compram AR$ 4.560,00. Ou seja, uma queda de cerca de 20% em apenas duas semanas.

Como mil pesos aqui é coisa pra caramba, sobretudo para aqueles estudantes que se equilibram com o que os pais mandam ou que se habituaram a fazer o câmbio das economias de pouco a pouco para enfrentar a inflação, todo mundo está precisando refazer as contas e repensar o orçamento. Mas será que essa é uma realidade que veio pra ficar?

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Quem será o próximo? O Mapa Eleitoral da Argentina para 2015

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(((Para informações mais atualizadas, clique aqui)))

Enquanto o Brasil discute essa semana quem estará à frente da presidência no próximo quadriênio, a Argentina se prepara para um dos maiores pleitos em 2015. Trata-se de um processo eleitoral emblemático.

Ao sabor da redemocratização, suas primeiras edições, em 1983 e 1989, foram marcadas pela excessão: o radical Raúl Afonsín é eleito na transição na transição de uma das mais brutais ditaduras e tem seu mandato abreviado por turbulências econômicas para ser substituído por Carlos Menem, que ficaria no poder por dez anos.

Na sequência, volta o radicalismo nas mãos de Fernando de la Rúa que, com dois anos de governo, enfrenta uma imensa crise econômica, institucional, política e por aí segue. Sai fugido da Casa Rosada de helicóptero, fechando o seu governo com a pérola:

“¡Que se vayan todos!”

Antes de que Nestor Kirchner finalmente chegue à presidência, passam por lá sem esquentar a cadeira três criaturas que sucumbem sucessivamente. Assim, se inaugura o período K, por alguns chamada de “la década ganada“, por outros de “la otra década perdida“.

Nestor conseguiu eleger a esposa por capitalizar a normalização do país; Cristina conseguiu se reeleger capitalizando a retomada do crescimento e a geração de empregos. Entretanto, seu segundo mandato foi um período de radicalização do modelo, com enfrentamento aberto contra a mídia conservadora e os fundos abutres (só para ficar nos casos mais óbvios) e a introdução de medidas heterodoxas contra os revezes econômicos do país, como as restrições à compra de dólares e às importações, além de controle de preços, sem que isso impedisse taxas de inflação que deixam os argentinos de cabelo em pé.

Assim, o pleito de 2015 será também um grande plebiscito referente ao modelo que terá como pano de fundo a radicalização, porque nesse país não existem tons de cinza – para alguns, o kirchnerismo foi uma tragédia; para outros, uma redenção.

Nesse marco, se apresentam pelo menos quatro forças políticas, a saber:

Frente para la Victoria (FpV)

fpvO Kirchnerismo logrou formar uma base sólida no Congresso Nacional que consegue aprovar qualquer projeto do governo sem contratempos, o que favoreceu ao aprofundamento do modelo. O projeto inicial era lançar Amado Boudou para a sucessão, uma fórmula que acabou sendo enfraquecida pelas numerosas suspeitas de corrupção que correm na justiça. Desde então, se apresentaram o atual Chefe de Gabinete Jorge Capitanich (equivalente à nossa Casa Civil), o Ministro do Interior Florencio Randazzo, o governador da Província de Buenos Aires Daniel Scioli e, mais recentemente, o Ministro da Economia Axel Kicillof.

Desses, o único com projeção nacional é Scioli que, entretanto, é o representante mais ‘rebelde’ do kirchnerismo, já que tem claras intenções de alçar voo solo. Nos últimos dias, se reaproximou de seu partido, fazendo coro aos apoiadores da presidenta, mas ainda gera incertezas no núcleo duro do modelo.

Assim, a escolha ainda está indefinida

Frente Renovador

Sergio-Massa-elecciones-2013-2015A maior dissidência do FpV foi liderada pelo político bonaerense Sérgio Massa, ex-Chefe de Gabinete e atual deputado federal. Acusado de oportunista, desbancou os kirchneristas nas eleições legislativas de 2013 e propõe ajustes firmes no modelo, sem, entretanto, especificar quais ajustes seriam estes. Como força no maior colégio eleitoral do país, a Província de Buenos Aires, tem pouca experiência administrativa (foi apenas prefeito da pequena municipalidade de Tigre).

Frente UNEN

sanzNum evento espetacular em meados desse ano, foi lançada a Frente UNEN, uma coalizão de tradicionais forças políticas de centro-esquerda como Elisa Carrió, Pino Solanas, os dissidentes Prat-Gay e Martín Lousteau. Além do combate à inflação, prometem dirimir a “herança perversa” da corrupção”. Seu maior expoente para a candidatura presendencial é Ernesto Sanz, um membro tradicional da UCR.

Pesa contra a Frente UNEN a pouca homogeneidade do bloco, que desde já vem apresentando fissuras e o fato de que os últimos presidentes de sua maior força política (a UCR de Raúl Alfonsín y De la Rúa) nunca terminaram seus mandatos.

PRO

Mauricio-Macri-PPO partido criado pelo Chefe de Governo da capital argentina Maurício Macri é, sem dúvida, a oposição frontal ao governo de Cristina Kirchner. Odiado pelos movimentos sociais em Buenos Aires, por suas políticas na educação e duras remoções, realizou uma boa gestão no campo dos transportes com a criação do Metrobus e das ciclovias, além de ter comandado a revitalização de áreas como Barracas (ainda em processo).

Pela pouca projeção nacional, dificilmente conseguirá vencer sozinho e, por isso, vem tentando se aproximar de lideranças da Frente UNEN ou da Frente Renovador, embora seu caráter neoliberal tenha grande rejeição nesses agrupamentos.

Frente de Izquierda

pitrolaDefensores de reformas mais profundas das que realizaram os kirchneristas, associam Cristina ao mercado financeiro e a acusam de não prestar atenção suficiente às demandas dos trabalhadores. Exigem o fim do pagamento da dívida externa até que se resolva a chamada “dívida social pendente”. Ainda não sinalizaram com um candidato para o pleito de 2015, mas têm no ex-piqueteiro Nestor Pitrola uma de suas maiores lideranças.

Naturalmente, ainda não existem nem candidaturas oficializadas nem pesquisas eleitorais, mas a corrida já começou. Pesquisas informais e internas do partido oficialista revelam que cerca de 30% dos apoiadores de Cristina (o chamado ‘núcleo duro’) votariam em qualquer candidato que ela apoiasse; entretanto, um em cada dez desses eleitores confessou que poderia optar por Massa de acordo com a situação.

Os especialistas daqui dizem que os resultados das eleições no Brasil terão um grande impacto por aqui. De acordo com o especialista Julio Gambina, “o Brasil está nos planos de todos os candidatos”, embora não esteja claro para que objetivo. “Uma integração Brasil-Argentina deve ser crítica à hegemonia capitalista internacional”.

Briefing: Se me pasa algo…

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A semana na Argentina foi marcada por um discurso da Presidenta Cristina Kirchner na Casa Rosada em que disse:

“Têm aparecido uns artigos nos jornais sobre supostas investigações que foram feitas nos organismos de inteligência do Estado sobre a ameaça que eu estaria sofrendo por parte do ISIS, esse grupo terrorista que atua no Iraque. Fiquei sabendo pelos jornais que aparentemente o serviço de inteligência descobriu alguma evidência na Tríplice Fronteira. Primeiro, devo dizer que não acredito, porque se fosse uma revelação de organismos de Estado, a primeira que deveria ser avisada teria sido eu, que sou a Presidenta e a ameaçada, e não o Clarín. (…) Por favor me escutem. Se alguma coisa acontecer comigo, e eu estou falando sério, não olhem para o Oriente; olhem para o Norte! Porque depois de ver as coisas que estão fazendo em determinadas representações diplomáticas, depois de escutar essas declarações que verdadeiramente parece um exercício de cinismo, depois de ver as coisas que vi nas Nações Unidas, realmente, que me venham criar toda uma historinha de que o ISIS está atrás de mim para me matar ou fazer alguma maldade… por favor! Não voltem a armar uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado que não quero mencionar”

Ou seja, no meio de todas as coisas que disse Cristina nesse discurso, está uma dramática subida no tom com os Estados Unidos, conforme já se observada desde a semana passada. Uma subida dramática a la Argentina.

Mas vamos por partes.

Depois do discurso de Cristina na ONU, o juiz Thomas Griesa, como havia ameaçado antes, declarou que a Argentina estava “em desacato” por não cumprir a decisão judicial que obrigava o pagamento de US$ 1,3 milhões, além de determinar que a Lei do Pagamento Soberano é ilegal.

Como esperado, o governo argentino reagiu com força, sobretudo porque é bizarro que um juiz municipal americano se sinta em capacidade de julgar uma lei votada no Congresso de outro país. Assim, a Chancelaria daqui enviou uma carta ao Departamento de Estado alertando que os Estados Unidos incorria em responsabilidade internacional com a decisão.

A resposta do Secretário de Estado John Kerry veio à reboque, na qual afirmou que “acompanha a situação de perto” e que “espera que a Argentina prospere”.

No meio dessa troca de correspondências, a Embaixada dos EUA em Buenos Aires emitiu um comunicado em que alertava os cidadãos americanos sobre a violência no país, o que desatou a fúria do governo. Antes do trecho que publiquei anteriormente, ela afirmou, entre outras coisas:

“Eles querem dizer que vivemos na pior época do Faroeste e eu acredito que isso é realmente uma imensa provocação a qual não irei reagir. Porque seguramente o senhor que escreveu esse comunicado, que já nos acusou de estar em default [o embaixador interino Kevin Sullivan], pensou ‘agora eu provoco ela, a deixo enfurecida e eles vão me expulsar do país’. Não vai acontecer”

“Eu não entendo o que significa ‘estar acompanhando a situação de perto’. Penso que talvez esteja contribuindo, já que como não aconteceram os cataclismos sociais que alguns prenunciavam ou que queriam provocar…”

“Se [os EUA] estão tão interessados numa Argentina próspera, que participem. Primeiro, se ele se lembrasse de 2001, quando deixaram a Argentina na mão e a gente se partiu em mil pedaços depois de seguir todas as receitas que eles nos prescreveram… (…) Se tanto lhe preocupa a Argentina e a nossa prosperidade, por que não deixam que a Argentina pague a sua dívida?”

Como antecipado, esse discurso terminou com uma surpreendente declaração de que, se for assassinada, que se busquem os suspeitos no norte, ou seja, nos Estados Unidos; mas essa não é uma declaração leviana simples de ser decifrada.

No discurso na ONU, Cristina mencionou o Acordo com o Irã para solucionar o caso do atentado ao centro comunitário judio em Buenos Aires, a AMIA em 1994, que matou 84 pessoas e deixou centenas de feridos.

Investigações controversas chegaram à conclusão de que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo iraniano. Apesar de um dos acusados ter prestado depoimento na Inglaterra e liberado por falta de provas, parte da comunidade judia em Buenos Aires (reunidos na Associação de Delegações Israelitas da Argentina, a DAIA) sustentam essa tese até hoje. Entretanto, parte dos familiares de vítimas, reunidos em outra organização, sustentam que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo argentino e pedem que os arquivos confidenciais da época sejam desclassificados. Eles e outros movimentos sociais e políticos afirmam que a “pista iraniana” foi forjada para livrar os suspeitos locais.

Ao pedir no discurso dessa semana que não se “arme uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado”, a Presidenta basicamente infere que corrobora com a tese da falsificação de provas para encontrar um bode expiatório estrangeiro no caso da AMIA.

Mas as declarações bombásticas desse discurso não pararam por aí e trouxeram consequências práticas ainda mais sérias, pois a Presidenta questionou a falta de controle sobre algumas operações de câmbio e sugeriu o vazamento de informações privilegiadas do Banco Central. No dia seguinte o presidente da instituição Juan Carlos Fábrega se demitiu desatando uma crise de confiança no mercado, conforme verificado no tombo de 8% da Bolsa de Valores de Buenos Aires.

O novo presidente indicado pelo governo, Alejandro Vanoli, muito próximo do Ministro da Economia Axel Kicillof, chegou com um pacote de medidas para frear a sangria de dólares. Apesar dos comentaristas econômicos dos grandes jornais terem reagido à nomeação com temor, já que representaria um avanço dos setores mais radicais na condução da economia, de fato, o dólar desacelerou.

Até semana que vem!

Briefing: Buenos Aires continua linda

 

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Todos esperávamos um discurso bombástico de Cristina Kirchner na Assembleia Geral da ONU – e a Presidenta não decepcionou.

“Não só são terroristas aqueles que botam bombas, mas também são terroristas econômicos os que desestabilizam a economia dos países e provocam fome, miséria e pobreza!”

Todos esperávamos que ela seria criticada – e os jornalões saíram pela tangente: apenas disseram que Obama tirou os fones da tradução simultânea enquanto a mandatária argentina vociferava contra os algozes do país.

Mas antes disso, teve um ministro alemão, Wolfgang Schäube, que botou lenha na fogueira. Advertiu que a Argentina deveria parar que insultar aos fundos ao chamá-los de abutres porque “o problema é a própria Argentina”; no que respondeu o Chefe de Governo Jorge Capitanich:

“Não é casualidade a opinião dele, porque seu país sempre teve uma atitude hostil. É de se refletir por quê as grandes potências não têm uma atitude firme contra grupos minúsculos. Parece que estão cooptados pelos grupos financeiros e pelos fundos abutres que efetivamente condicionam sua atitude, vontade e expressões”

Será que alguém na Alemanha vai se dar ao trabalho da tréplica? Será preciso esperar. Por aqui, naturalmente as opiniões se dividiram entre os elogiaram a atitude firme do governo e os que o acusaram de criar inimigos em meio mundo.

Portanto, até aqui nenhuma novidade. Explicando a uma jornalista brasileira de férias por aqui o que raios acontece nesse país, eu lhe contei que não tem mistério: é como só existissem Reinaldos Azevedos e Lucianas Genros tanto na classe política quanto nos meios de comunicação. Uma radicalização difícil de reconciliar.

Enquanto isso o povo espera a catástrofe ou a redenção. Um professor da faculdade me falou de seu temor por uma hiperinflação; o povo das ruas quer saber disso? Não. As notícias mais lidas, seja no Tiempo Argentino, Página/12, La Nación ou Clarín – da esquerda à direita – são aquelas dedicadas às tragédias do momento ou polêmicas do star system local.

É o caso do roubo gravado pelas lentes da GoPro de um turista canadense, repetido ad nauseam nas cadeias de televisão:

E também a morte de uma adolescente depois de uma festa. E também a filha da veterana vedete Moria Casan que tirou uma foto grávida nua em defesa da legalização do aborto. E também o convite do político Martín Insaurralde com a celebrity Jésica Cirio que veio com a sugestiva frase:

“Let’s party, mother fuckers!”

Alguém mais aguenta falar de abutres, inflação e crise?

Para nada!, como se diz aqui. O povo implora por um pouco de circo na certeza que pão de alguma forma se arruma. Até uma correspondente internacional amiga andou me dizendo: “Não aguento mais falar mal da Argentina – eu vivo tão bem aqui!”.

E quer saber? É verdade!

Para os que veem de fora, pode-se até inferir que a vida na Argentina anda insuportável, mas a verdade é bem mais complexa do que parece. Buenos Aires continua linda, ainda mais na primavera.

Até semana que vem!

Briefing: O Inimigo?

Kevin-Sullivan

A segunda-feira nem bem dava as caras direito e mais um quilombo se armava na Argentina, já que a edição do Clarín trazia uma entrevista do Encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires Kevin Sullivan em que, com bastante desenvoltura, desvelou muitas opiniões sobre o conflito da Argentina com os tais fundos abutres.

Atualmente desempenhando o cargo de representante máximo dos EUA por aqui, já que Washington tarda em nomear um embaixador (dizem que é retaliação), Sullivan afirmou que seu país “não apoiará o debate nas Nações Unidas porque não [lhes] parece o âmbito para encontrar uma solução eficiente”, e também porque “o mecanismo criaria incertezas”.

Nenhuma novidade. Desde que a Argentina decidiu levar aos órgãos multilaterais a questão da restruturação das dívidas soberanas como a OEA e a ONU, sempre angariando o apoio da maioria, os Estados Unidos votaram contra.

Mas ele não parou por aí e mencionou uma palavrinha que provocou a ira do governo argentino:

“É importante que a Argentina saia do default o quanto antes para poder retornar ao caminho do crescimento econômico sustentável e atrair os investimentos de que necessita”

Foi a primeira vez que um funcionário do governo dos Estados Unidos falou em default, mesmo que a Argentina venha questionando essa situação. Na lógica da Casa Rosada, se o país tem dinheiro para pagar, realizou o pagamento e teve o depósito bloqueado no Banco de Nova York por uma decisão de um juiz americano, isso não se caracterizaria como um default, senão um problema técnico da praça financeira estadunidense.

Em dura nota emitida no dia seguinte, a Chancelaria afirmou que:

“[As palavras do diplomata] não têm nenhum valor fatídico e, sim, coincidem com a postura dos fundos abutres em contraposição aos interesses dos 92,4% de credores que aceitaram a restruturação da dívida”.

De acordo com o governo, o país tanto tem fundos e vontades de realizar seus pagamentos que aprovou no Congresso a chamada Lei do Pagamento Soberano da Dívida Externa para driblar os problemas técnicos da praça financeira de Nova York.

Prosseguindo, a nota afirma que a Argentina deplora (palavra fortíssima nos meios diplomáticos) que os EUA não tenham aceito a jurisdição da Corte Internacional de Haia para resolver a questão “segundo critérios legais, equitativos e justos” com juízes independentes; e provocou:

“Os EUA tampouco aceitam a jurisdição da Corte Inter-americana e da Corte Penal Internacional em temas vinculados aos direitos humanos”

Por fim, ameaçou com as mais severas medidas se “esse tipo de intromissão nos assuntos internos” voltarem a se repetir, lembrando que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

De fato, é pouco comum ver entrevistas de diplomatas em jornais do país onde estão em serviço (sobretudo um jornal claramente de oposição) dando recomendações dessa natureza (sobretudo num tema tão sensível na agenda bilateral), pois influenciar a opinião pública local pode ser considerado uma intromissão em assuntos internos.

Para os críticos do governo, trata-se de mais um capítulo na tendência ao conflito do governo de Cristina Kirchner. Em entrevista ao Infobae, o ex-Vice-Chanceler Andrés Cisneros analisou a questão:

“A declaração de Sullivan não contém uma receita ou indicação de uma maneira em que o país estrangeiro pretenda nos ‘ensinar’ como exercer nossa soberania. Ele simplesmente enuncia um desejo de boa vontade com o qual é difícil não coincidir: sair do default, o que é o objetivo de todos os argentinos. (…) É preciso evitar que um caso como este se converta em outro ‘mini-round’ de um ‘Braden-Perón’ artificialmente criado”

Ele se referia à histórica disputa entre o Presidente argentino e o diplomata estadunidense Spruille Braden, que, na ‘defesa dos interesses daquele país’, não economizou intromissões e conspirações contra o governo.

No diário La Nación, o colunista Martín Dinatale cunhou a atitude do Palácio San Martin (sede da Chancelaria argentina) de “a diplomacia da sobreatuação”:

“Será que Cristina não aprendeu suficientemente aquela frase de Perón que dizia que ‘do ridículo não se retorna’? A diplomacia argentina liderada pelo kirchnerismo faz tempo é regida pelas normas da política doméstica. Os gestos externos são dirigidos ao público local.”

Mas o governo não terminou por aí. Na quarta-feira, em entrevista à uma radio, o Ministro da Economia afirmou que as declarações de Sullivan e a desvalorização da cotação paralela da moeda (o chamado dólar blue) não são coincidências, mas fazem parte de um plano de cinco pontos elaborado pelos fundos abutres para desestabilizar a Argentina. Seriam eles:

  1. Atacar a moeda para forçar a desvalorização
  2. Atacar a pessoa da Presidenta
  3. Impedir o pagamento local da dívida nos próximos vencimentos
  4. Bloquear o financiamento do país
  5. Esperar 2016 (quando o país terá um novo mandatário)

E, por fim, ontem a Presidenta Cristina relacionou a limitação na venda de passagens da American Airlines com esse suposto ataque ao governo e ao país.

Essa semana, a companhia aérea estadunidense restringiu a compra de suas passagens a 90 dias de prazo – ou seja, um argentino atualmente não pode comprar uma passagem para Miami com data de janeiro de 2015. De acordo com o La Nación, essa medida estaria relacionada às restrições do câmbio (o chamado cepo cambiario‘), já que os operadores não querem reter pesos com medo da desvalorização.

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Em sua conta no Twitter e Facebook (a Presidenta é bastante afeita às redes sociais), Cristina disparou contra a voadora.

“Não existe nenhum tipo de restrição para o pagamento de passagens e pacotes turísticos com divisas. (…) Que não fiquem dúvidas que [eles] estão querendo gerar, através de mentiras, expectativas negativas e ataques especulativos à nossa moeda.

A presidenta também citou as declarações de Sullivan, os tais cinco pontos anteriormente citados por Kicillof e, por fim, fechou o relato com chave ouro:

“A partir de dezembro de 2013, James Albaugh, a quem não tenho o prazer de conhecer, tornou-se diretor da American Airlines. (…) Ele é o assessor principal do The Blackstone Group LP, um dos mais importantes fundos de investimento financeiros detentor de títulos da dívida argentina. Como eu digo sempre: Se joga com tudo. E na Argentina, mais do que em qualquer outro país”

Saindo um pouco desses qüiproquós entre Estados Unidos e Argentina, os analistas daqui continuam demonstrando preocupação com uma eventual vitória de Marina Silva nas eleições presidenciais brasileiras, como antecipei em artigo anterior. Em artigo para Buenos Aires Herald, Carolina Thibaud afirmou que esse resultado pode trazer consequências importantes para a América Latina e, sobretudo para a Argentina, com quem o país manteria uma “paciência estratégica”:

“A ambientalista e evangélica tem sugerido que o tempo da ‘paciência estratégica’ com a Argentina terminaria rapidamente se ela ganhasse a presidência. (…) Apesar da pressão das elites industriais do Brasil por uma postura mais dura com relação à Argentina, Rousseff tem sido discutivelmente precavida em seus negócios com Buenos Aires, ainda que o protecionismo argentino tenha muitas vezes trabalho contra a integração regional e impedido o Mercosul de avançar como bloco unificado.

“Em seu manifesto de campanha, Marina defendeu mais integração com a Aliança do Pacífico e a ideia de uma solução de duas velocidades para o Mercosul, onde o Brasil, o Uruguai e o Paraguai poderiam assinar Acordos de Livre Comércio com a União Europeia, por exemplo, mesmo se a Argentina se recusar”

No mesmo artigo, entretanto, o analista de política internacional da Universidad de San Andrés Federico Merke destacou que Marina teria uma boa relação tanto com o candidato à presidência da Argentina Mauricio Macri (conservador) e Sérgio Massa (um ex-kirchnerista arrependido):

“Os assessores da brasileira e dos dois candidatos pedem por mais liberalização”

Daí, uma pergunta não cala para mim: na visão de CFK e seus correligionários, seria Marina Silva uma candidata abutre?

Até semana que vem!