2. A Economia

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A primeira dificuldade que tive para começar esse post foi encontrar uma foto que pudesse ilustrá-lo. Ao se meter a escrever um panorama da economia argentina em 2015, o que há de mais representativo a respeito dela: Uma bela ceifadeira trabalhando extensos campos de soja? Gruas enchendo containers no historicamente movimentado Porto de Buenos Aires? O parque industrial a pleno vapor? A praça financeira? Os arranha-céus de Puerto Madero? Uma montagem que inclua todas as anteriores? Ou uma dramática versão em preto-e-branco sugerindo decadência em algumas delas?

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Dependendo de quem se ouve, todas as alternativas são bastante possíveis e refletem também o que se vem sonhando para a economia da Argentina desde os tempos de glória da primeira metade do século XX – uma época jamais esquecida e cuja passagem para os tempos atuais se caracteriza como um dos grandes traumas sociais da nossa região.

Finalmente optei pelo dinheiro em espécie – o peso argentino – porque, como iremos ver, é a sua relação com a moeda estrangeira, ou frequentemente a falta dela, que determinou para que lado do espectro se concentrava a aposta para um futuro que permanece indefinido.

Na eleições de 2015, como aquela que se celebrou no Brasil em 2014, muito se debaterá sobre temas como a corrupção, a sanha concentradora dos Kirchner, a liberdade de imprensa, as relações internacionais, as restrições à economia, etc. Mas, no final das contas, e também à semelhança da contraparte brasileira, se estará discutindo a definição desse projeto de país que nos últimos quarenta anos esteve caracterizado por manobras radicais, deslumbramentos e tombos inevitáveis.

Mas, afinal, que cartas estão sobre a mesa?

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1. Quem vai às urnas?

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“Manifestación” de Antonio Berni

No primeiro texto da série em que pretendo traçar um panorama da Argentina no ano eleitoral de 2015, a escolha mais óbvia seria economia ou política, não é mesmo? Entretanto, resolvi reverter as coisas um pouquinho. Já que as eleições são a festa da democracia, por que não começar tudo pelo povo que, no final das contas, é o maior interessado em tudo isso? Existe economia ou política sem povo? Ambas estão (ou deveriam estar) à serviço de quem?

Não pretendo entrar muito nessa questão, mas posso adiantar que, como na maioria de nossos países, a resposta óbvia nem sempre correspondeu à realidade em nosso grande irmão do Sul. Numa trajetória de vida independente de cerca de duzentos anos, o país passou por transformações demográficas e sociais impressionantes, incluindo um influxo gigantesco de imigrantes (antes europeus, agora sul-americanos) e avanços e retrocessos no nível de vida, nos aspectos educacionais, entre outros.

No Brasil, em geral nossa impressão é extremamente desencontrada sobre o que é o povo argentino. Ora vistos como arrogantes, ora como os mais bem educados da região, ora como baderneiros (vide alguns visitantes durante a Copa do Mundo), inputs gerados por uma rápida visita à Buenos Aires ou pelo magnífico cinema produzido nesse canto do mundo ou mesmo por dados soltos como os cinco prêmios Nobel concedidos a cidadãos daqui (dois de medicina, dois da paz e um de química) brigam com as notícias que nos chegam através do jornal, onde constam pobreza, desestruturação e decadência política.

Mas, fora o senso comum dos brasileiros, quem é o argentino médio? Quem elegerá o próximo mandatário daqui?

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2015: o ano das grandes expectativas

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Como já é bem sabido, o ano novo em Buenos Aires não chega a ser um agito! Com a presença bastante expressiva de brasileiros ou desavisados ou determinados a fugir do tumulto, a cidade conta com opções discretas e pouco efusivas como um show de tango aqui, uma queima de fogos borocoxô acolá.

De agora até meados de fevereiro, os porteños que podem se refugiam do calor intenso no litoral daqui, do Uruguai ou do Brasil, deixando a capital-megalópole com uma calma pouco comum. Entretanto, não dá para pensar num país em férias, alheio aos acontecimentos, suavemente disfrutando das praias sul-americanas; pois o ano de 2015 protagonizará uma das transições mais importantes da democracia argentina, a ser apimentada por desafios econômicos e sociais substanciais.

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Briefing: Nao tá fácil pra ninguém

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Que liderança política estaria “satisfeita” na Argentina de hoje? Difícil saber.

Por um lado o governo vê chegar no horizonte um dezembro que promete não ser dos mais fáceis. As centrais sindicais, como a CTA que marchou com milhares de militantes esses dias pelo centro, já disseram que se algumas de suas reivindicações não forem atendidas (um bônus emergencial para os trabalhadores de AR$ 4 mil e um desconto nos impostos sobre o Aguinaldo – o 13o daqui – por exemplo), vão pegar pesado no final do ano. A central que reune o pessoal dos transportes também anunciou greves gerais e quilombo.

Além disso, o potencial quiprocó interno antecederá os arranjos esperados para janeiros com o Fundos Abutres – uma negociação absolutamente misteriosa que pode selar o triunfo ou a humilhação do governo de Cristina.

Quem poderia talvez estar sorrindo com o cantinho do rosto diante dessa situação seria a oposição, mas nem isso. Conflitos internos estão despedaçando a Frente Amplia UNEN – que foi anunciada com entusiasmo por lideranças políticas no primeiro semestre desse ano.

A primeira debandada de peso (sem trocadilho) foi Elisa “Lilita” Carrió, que vislumbrava um acordo com o conservador PRO de Maurício Macri. Sem conseguir o aval das outras lideranças, saiu atirando:

“É impossível trabalhar com gente medíocre”

Para ela, a oposição deveria se unir contra a máquina poderosa do kircherismo sem preciosismos; e talvez tivesse razão, embora nunca se sabe o que aconteceria depois de uma eventual vitória.

As outras lideranças, agrupadas na tradicional União Cívica Radical, têm uma relação traumática com composições muito complexas, ideologicamente falando. A malfadada Alianza que levou o radical Fernando de la Rúa à presidência em 1999 significou um governo fragmentado e débil que culminou com uma renúncia dois anos depois. Junto com a transição antecipada de Alfonsín em 1989, a experiência deixou o partido marcado pela pecha dos governos inacabados.

Assim, a fugaz promessa da UNEN, que já não conseguia fazer decolar nenhum de seus candidatos, está virtualmente acabada.

Por outro lado, embora Lilita esteja negociando com Maurício Macri do PRO, é muito pouco provável que eles emplaquem uma candidatura consistente para desafiar a Frente pela Vitória (FpV, o partido da presidenta Kirchner).

E o povo?

O deputado da Unidad Popular Cláudio Lozano recentemente me destrinchou uma lista dos incômodos vividos nos últimos 15 meses:

  • mais de 480 mil postos de trabalho fechados, com taxa de desemprego próxima a 11%;
  • deterioração em torno dos 10% do poder aquisitivo dos salários;
  • aumento de 1,5 milhão no número de pobres e de 850 mil de indigentes

Para ele, existe uma noção dentro do governo de que, até o fim do mandato, a normalidade poderá ser mantida, o que leva a uma imobilidade na resolução dessas questões. Lozano não está de acordo:

“Obviamente não há tranquilidade, não só para o mês de dezembro, mas para todo o processo até a mudança de governo. A situação social irá influir muito nessa decisão democrática”

Dizem por aí que essa situação social pode produzir saques aos supermercados em dezembro – o que foi chamado recentemente pelo polêmico Secretário de Segurança Sergio Berni do país de “uma tradição de Natal argentina”.

Até a próxima!

O que está acontecendo com o câmbio?

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Nos últimos dias, os brasileiros que vivem em Buenos Aires ficaram de cabelo em pé, pois de repente o Real foi perdendo valor de maneira vertiginosa. Se em 30 de outubro mil reais compravam AR$ 5.500,00 no mercado informal, hoje (11/11), com sorte, compram AR$ 4.560,00. Ou seja, uma queda de cerca de 20% em apenas duas semanas.

Como mil pesos aqui é coisa pra caramba, sobretudo para aqueles estudantes que se equilibram com o que os pais mandam ou que se habituaram a fazer o câmbio das economias de pouco a pouco para enfrentar a inflação, todo mundo está precisando refazer as contas e repensar o orçamento. Mas será que essa é uma realidade que veio pra ficar?

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Quem será o próximo? O Mapa Eleitoral da Argentina para 2015

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(((Para informações mais atualizadas, clique aqui)))

Enquanto o Brasil discute essa semana quem estará à frente da presidência no próximo quadriênio, a Argentina se prepara para um dos maiores pleitos em 2015. Trata-se de um processo eleitoral emblemático.

Ao sabor da redemocratização, suas primeiras edições, em 1983 e 1989, foram marcadas pela excessão: o radical Raúl Afonsín é eleito na transição na transição de uma das mais brutais ditaduras e tem seu mandato abreviado por turbulências econômicas para ser substituído por Carlos Menem, que ficaria no poder por dez anos.

Na sequência, volta o radicalismo nas mãos de Fernando de la Rúa que, com dois anos de governo, enfrenta uma imensa crise econômica, institucional, política e por aí segue. Sai fugido da Casa Rosada de helicóptero, fechando o seu governo com a pérola:

“¡Que se vayan todos!”

Antes de que Nestor Kirchner finalmente chegue à presidência, passam por lá sem esquentar a cadeira três criaturas que sucumbem sucessivamente. Assim, se inaugura o período K, por alguns chamada de “la década ganada“, por outros de “la otra década perdida“.

Nestor conseguiu eleger a esposa por capitalizar a normalização do país; Cristina conseguiu se reeleger capitalizando a retomada do crescimento e a geração de empregos. Entretanto, seu segundo mandato foi um período de radicalização do modelo, com enfrentamento aberto contra a mídia conservadora e os fundos abutres (só para ficar nos casos mais óbvios) e a introdução de medidas heterodoxas contra os revezes econômicos do país, como as restrições à compra de dólares e às importações, além de controle de preços, sem que isso impedisse taxas de inflação que deixam os argentinos de cabelo em pé.

Assim, o pleito de 2015 será também um grande plebiscito referente ao modelo que terá como pano de fundo a radicalização, porque nesse país não existem tons de cinza – para alguns, o kirchnerismo foi uma tragédia; para outros, uma redenção.

Nesse marco, se apresentam pelo menos quatro forças políticas, a saber:

Frente para la Victoria (FpV)

fpvO Kirchnerismo logrou formar uma base sólida no Congresso Nacional que consegue aprovar qualquer projeto do governo sem contratempos, o que favoreceu ao aprofundamento do modelo. O projeto inicial era lançar Amado Boudou para a sucessão, uma fórmula que acabou sendo enfraquecida pelas numerosas suspeitas de corrupção que correm na justiça. Desde então, se apresentaram o atual Chefe de Gabinete Jorge Capitanich (equivalente à nossa Casa Civil), o Ministro do Interior Florencio Randazzo, o governador da Província de Buenos Aires Daniel Scioli e, mais recentemente, o Ministro da Economia Axel Kicillof.

Desses, o único com projeção nacional é Scioli que, entretanto, é o representante mais ‘rebelde’ do kirchnerismo, já que tem claras intenções de alçar voo solo. Nos últimos dias, se reaproximou de seu partido, fazendo coro aos apoiadores da presidenta, mas ainda gera incertezas no núcleo duro do modelo.

Assim, a escolha ainda está indefinida

Frente Renovador

Sergio-Massa-elecciones-2013-2015A maior dissidência do FpV foi liderada pelo político bonaerense Sérgio Massa, ex-Chefe de Gabinete e atual deputado federal. Acusado de oportunista, desbancou os kirchneristas nas eleições legislativas de 2013 e propõe ajustes firmes no modelo, sem, entretanto, especificar quais ajustes seriam estes. Como força no maior colégio eleitoral do país, a Província de Buenos Aires, tem pouca experiência administrativa (foi apenas prefeito da pequena municipalidade de Tigre).

Frente UNEN

sanzNum evento espetacular em meados desse ano, foi lançada a Frente UNEN, uma coalizão de tradicionais forças políticas de centro-esquerda como Elisa Carrió, Pino Solanas, os dissidentes Prat-Gay e Martín Lousteau. Além do combate à inflação, prometem dirimir a “herança perversa” da corrupção”. Seu maior expoente para a candidatura presendencial é Ernesto Sanz, um membro tradicional da UCR.

Pesa contra a Frente UNEN a pouca homogeneidade do bloco, que desde já vem apresentando fissuras e o fato de que os últimos presidentes de sua maior força política (a UCR de Raúl Alfonsín y De la Rúa) nunca terminaram seus mandatos.

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Mauricio-Macri-PPO partido criado pelo Chefe de Governo da capital argentina Maurício Macri é, sem dúvida, a oposição frontal ao governo de Cristina Kirchner. Odiado pelos movimentos sociais em Buenos Aires, por suas políticas na educação e duras remoções, realizou uma boa gestão no campo dos transportes com a criação do Metrobus e das ciclovias, além de ter comandado a revitalização de áreas como Barracas (ainda em processo).

Pela pouca projeção nacional, dificilmente conseguirá vencer sozinho e, por isso, vem tentando se aproximar de lideranças da Frente UNEN ou da Frente Renovador, embora seu caráter neoliberal tenha grande rejeição nesses agrupamentos.

Frente de Izquierda

pitrolaDefensores de reformas mais profundas das que realizaram os kirchneristas, associam Cristina ao mercado financeiro e a acusam de não prestar atenção suficiente às demandas dos trabalhadores. Exigem o fim do pagamento da dívida externa até que se resolva a chamada “dívida social pendente”. Ainda não sinalizaram com um candidato para o pleito de 2015, mas têm no ex-piqueteiro Nestor Pitrola uma de suas maiores lideranças.

Naturalmente, ainda não existem nem candidaturas oficializadas nem pesquisas eleitorais, mas a corrida já começou. Pesquisas informais e internas do partido oficialista revelam que cerca de 30% dos apoiadores de Cristina (o chamado ‘núcleo duro’) votariam em qualquer candidato que ela apoiasse; entretanto, um em cada dez desses eleitores confessou que poderia optar por Massa de acordo com a situação.

Os especialistas daqui dizem que os resultados das eleições no Brasil terão um grande impacto por aqui. De acordo com o especialista Julio Gambina, “o Brasil está nos planos de todos os candidatos”, embora não esteja claro para que objetivo. “Uma integração Brasil-Argentina deve ser crítica à hegemonia capitalista internacional”.

Briefing: Buenos Aires continua linda

 

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Todos esperávamos um discurso bombástico de Cristina Kirchner na Assembleia Geral da ONU – e a Presidenta não decepcionou.

“Não só são terroristas aqueles que botam bombas, mas também são terroristas econômicos os que desestabilizam a economia dos países e provocam fome, miséria e pobreza!”

Todos esperávamos que ela seria criticada – e os jornalões saíram pela tangente: apenas disseram que Obama tirou os fones da tradução simultânea enquanto a mandatária argentina vociferava contra os algozes do país.

Mas antes disso, teve um ministro alemão, Wolfgang Schäube, que botou lenha na fogueira. Advertiu que a Argentina deveria parar que insultar aos fundos ao chamá-los de abutres porque “o problema é a própria Argentina”; no que respondeu o Chefe de Governo Jorge Capitanich:

“Não é casualidade a opinião dele, porque seu país sempre teve uma atitude hostil. É de se refletir por quê as grandes potências não têm uma atitude firme contra grupos minúsculos. Parece que estão cooptados pelos grupos financeiros e pelos fundos abutres que efetivamente condicionam sua atitude, vontade e expressões”

Será que alguém na Alemanha vai se dar ao trabalho da tréplica? Será preciso esperar. Por aqui, naturalmente as opiniões se dividiram entre os elogiaram a atitude firme do governo e os que o acusaram de criar inimigos em meio mundo.

Portanto, até aqui nenhuma novidade. Explicando a uma jornalista brasileira de férias por aqui o que raios acontece nesse país, eu lhe contei que não tem mistério: é como só existissem Reinaldos Azevedos e Lucianas Genros tanto na classe política quanto nos meios de comunicação. Uma radicalização difícil de reconciliar.

Enquanto isso o povo espera a catástrofe ou a redenção. Um professor da faculdade me falou de seu temor por uma hiperinflação; o povo das ruas quer saber disso? Não. As notícias mais lidas, seja no Tiempo Argentino, Página/12, La Nación ou Clarín – da esquerda à direita – são aquelas dedicadas às tragédias do momento ou polêmicas do star system local.

É o caso do roubo gravado pelas lentes da GoPro de um turista canadense, repetido ad nauseam nas cadeias de televisão:

E também a morte de uma adolescente depois de uma festa. E também a filha da veterana vedete Moria Casan que tirou uma foto grávida nua em defesa da legalização do aborto. E também o convite do político Martín Insaurralde com a celebrity Jésica Cirio que veio com a sugestiva frase:

“Let’s party, mother fuckers!”

Alguém mais aguenta falar de abutres, inflação e crise?

Para nada!, como se diz aqui. O povo implora por um pouco de circo na certeza que pão de alguma forma se arruma. Até uma correspondente internacional amiga andou me dizendo: “Não aguento mais falar mal da Argentina – eu vivo tão bem aqui!”.

E quer saber? É verdade!

Para os que veem de fora, pode-se até inferir que a vida na Argentina anda insuportável, mas a verdade é bem mais complexa do que parece. Buenos Aires continua linda, ainda mais na primavera.

Até semana que vem!

Briefing: ¡Adiós, Cerati!

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Quando começou a semana, todos estavam com os olhos e ouvidos voltados para o que já se estava chamando de “súper-miércoles“, a quarta-feira em que o Senado de la Nación votaria dois projetos altamente controversos: a lei do abastecimento e a lei do pagamento soberano. Mas quando os jornais já exibiam as capas com louros ou críticas aos resultados alcançados pelo governo, foi anunciada uma notícia terrível que calou todas as outras: morreu Gustavo Cerati, vocalista do Soda Stereo.

Desconhecido pela maioria no Brasil (que não está muito acostumada a ouvir música em espanhol), o Soda conquistou uma legião de seguidores fieis com letras inteligentes e uma mistura de diferentes vertentes do rock. Depois Cerati seguiu uma carreira solo também com bastante sucesso, até sofrer um AVC no meio de um show em Caracas na Venezuela que o deixou em coma por 4 anos. A agonia acabou essa semana.

Nota pessoal: Antes de vir morar em Buenos Aires, pesquisei músicas argentinas para embalar meus sonhos e expectativas. Tanto o Soda quanto o Cerati solo foram hits fundamentais dessa pré-estreia. Devo confessar que as imagens evocadas em ‘Ciudad de la Furia’ (Buenos aires se ve tan susceptible / Es el destino de furias lo que en sus caras persiste) me causava um misto de apreensão e empolgação. Quem não espera uma intensidade dessas às vésperas de uma aventura dessas?

Na TV e nas rádios, suas músicas eclipsaram tudo. O povo daqui, com um gosto todo especial para o drama, chora com vontade a morte do ídolo que embalou a sua juventude. Sua contraparte mais adequada no Brasil, como lembrou a jornalista brasileira também radicada aqui Márcia Carmo, seria o Cazuza. Se você ainda não conhece, aí vai uma das minhas favoritas:

De qualquer maneira, falemos da tal da super quarta-feira, né? Afinal, o governo conseguiu passar no Senado duas leis que causaram grande debate no país.

A primeira foi a Lei do Pagamento Soberano, que propõe a transferencia dos títulos da praça de Nova York (e, por isso, sob jurisdição de Thomas Griesa) para a praça de Buenos Aires ou da França. A alternativa europeia apareceu de última hora devido temores de que a restruturação não teria muita adesão se ficasse concentrada localmente. Além disso, acatando a uma velha bandeira das esquerdas daqui, a lei cria uma Comissão Permanente Bicameral que investigará e fará o seguimento de toda a dívida pública argentina contraída desde 1976.

A lei foi aprovada pela abrumadora maioria governista no Senado, mas contou com a oposição de basicamente todo o resto, desde a Frente UNEN (uma ampla coalizão de oposição que anda bastante fissurada nos últimos tempos) até o PRO de Mauricio Macri – que também fez de tudo para que a sessão não fosse presidida por Amado Boudou, que atualmente está processado por casos de corrupção.

Acusada pelo economista Fernando Mattos de “não aportar nada de inteligente a apenas obstruir debate”, os opositores dizem que o governo está fazendo mais uma gambiarra que nada resolve em prejuízo da já seriamente deteriorada reputação argentina nos mercados internacionais. Alfonso Prat-Gay, da UNEN, afirmou:

“Este governo nunca encara a questão de fundo e não se pode viver a vida inteira à margem da lei, sobretudo, se estamos falando de uma jurisdição que a Argentina elegeu para dirimir seu problema”

Ele, apesar de não concordarem com a sentença do juiz Griesa com relação aos fundos abutres, entendem que o país ofereceu emitir os títulos sob a lei americana justamente pela suposta pouca segurança jurídica que poderia ser oferecida pela Argentina. Macri do PRO concorda:

“Eles tomam medidas que pioram a situação e tornam mais agudas a recessão. Não vamos aplaudir mais um default como o de 2002”

Já a Lei do Abastecimento, que substitui uma homônima de 1974, estabelece mecanismos de intervenção do Estado, ainda que esclareça que haverá compensações às empresas prejudicadas e se restrinja às grandes empresas (micro, pequenas e médias ficaram de fora). As intervenções, como a fixação de margens de utilidade, preços de referência, níveis máximos e mínimos de preços), deverão ocorrer somente mediante autorização judicial.

Nesse caso, a oposição afirma que a Argentina está indo pelo caminho da Venezuela, onde o resultado foi desabastecimento e ainda mais inflação. Em duro editorial, o jornal La Nación cunhou o nome Argenzuela para descrever uma situação de crescente intervenção estatal na economia, e em outro, disse que este se trata de um governo dos piores:

“O desprezo do governo nacional pela liberdade de expressão, as instituições, a independência da justiça, sua política comercial arbitrária, sua política diplomática conflitiva e que não leva a nada e sua dependência do clientelismo voraz são contrários ao diálogo e à busca dos consensos próprios de uma democracia que se entenda como progressista e moderna”

O governo, por sua vez, afirma que a lei protege não só consumidores, mas também os pequenos e médios empresários que compram num atacado “dominado por grupos concentrados”. O Chefe de Gabinete Jorge Capitanich rebateu as críticas da oposição:

“Os grupos opositores empresariais ou frentes eleitorais pretendem invalidar a aplicação desta norma a partir de uma visão negativa de estímulos ao emprego e ao investimento”

Enquanto o governo pisa o acelerador em suas medidas pouco ortodoxas, seguem insinuações de corrupção, sobretudo agora que foram divulgados dados do patrimônio dos principais líderes políticos do país. O de Cristina teria subido 30%, o de fulano 40%, o de ciclano 50%. Os dados abundam, mas não passam muito disso.

E, no meio de tudo isso, o salário mínimo aumentou 31%, o que, se visto pelos níveis oficiais de inflação está de acordo, mas se visto pelas medições informais (cerca de 40% desde o início do ano), simplesmente não alcançam.

Como se pode ver, existem duas argentinas que não se comunicam. Trocam acusações e se presumem do lado da razão sempre.

Nesse fogo cruzado, só uma copa do mundo ou a morte de um ícone é capaz de gerar consensos. Gustavo Cerati gerou o consenso da semana – dá uma olhada nas capaz de La Nación, Página/12, Clarín e Telam: estão todos com ele.

Que descanse em paz.

Briefing: Mecanismos Internos

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Em outros Briefings, descrevi a encruzilhada em que se encontra o governo argentino: de um lado está o “mercado”,  pedindo reformas ortodoxas, o fim das restrições ao câmbio e ao comércio, além do pagamento das dívidas do país com os credores estrangeiros; do outro estão os trabalhadores daqui que, historicamente acostumados a níveis de vida muito mais altos que a média latino-americana, vêm se estapeando para conseguir sair dessa penúria que se acentua desde a década de 80. Quando parecia dar uma afrouxada, agarrou todo mundo pelo pescoço em meados de 2012 e a crise não dá sinais de trégua.

Informações desencontradas dão conta de mais de 500 mil demissões e uma inflação de 40% nos últimos 6 meses, mas é o futuro que preocupa mais o povo daqui. Com as eleições presidenciais de 2015 se aproximando, ninguém se arrisca a dizer exatamente quem serão os candidatos, muito menos qual deles irá ganhar. E é esse cenário de incerteza que parece conflagrar tudo.

O governo descarta o terror, exibindo dados em que, por A mais B, a situação das classes populares tem melhorado muito desde a ascensão de Nestor Kirchner à presidência. Identificou o inimigo no exterior, os tão falados fundos abutres, e estendeu a classificação a certos atores internos mais conservadores e, naturalmente, mais mais ricos.

Entretanto, a situação não se apresenta como uma luta de classes como nas antigas, pois à esquerda da Presidenta estão numerosas centrais sindicais e movimentos sociais muito mais radicais que têm dado uma dor de cabeça danada. De greve em greve, manifestação em manifestação, essa gente vai deixando claro o seu discurso.

Essa semana foi a vez da greve geral, convocada há cerca de um mês por Hugo Moyano, um dos maiores líderes sindicais da Argentina.

Hugo Moyano

Hugo Moyano

Em primeiro lugar, é interessante observar quem é Hugo Moyano, secretário-geral da Central Geral do Trabalho (CGT). Com raízes no sindicato dos caminhoneiros, ele comanda uma tropa fiel de cerca de 200 mil seguidores facilmente mobilizáveis e com o poder de basicamente parar o país, já que os grãos exportados, maior fonte de divisas daqui, é transportado na boleia de seus caminhões. Sob seu comando direto, estão motoristas e funcionários dos pedágios, por exemplo; o que significa que basta Moyano se manifestar e todos cruzam os braços. Investigado por enriquecimento ilícito, o controverso líder sindicalista rompeu com o governo em 2011 – retalhando ainda mais o movimento sindical local.

Aliás, esse é um dado que se deve levar em conta: as duas centrais sindicais do país estão literalmente divididas há décadas. Moyano lidera a chamada CGT Azopardo, mas existe uma outra CGT que é liderada por Antonio Caló e que apoia o governo de Cristina Kirchner.

Por outro lado, também existe a CTA, uma dissidência da CGT, que atua de forma independente e hoje é liderada por Pablo Micheli.

A greve geral de ontem teve a adesão da CGT de Moyano e da CTA, que em teoria representam tão somente 25% do movimento sindical argentino; mas que, no entanto, como eu disse antes, controlam setores estratégicos, como transportes, e que têm grande poder de mobilização. Dessa maneira, ontem não funcionaram trens, parte dos metrôs e foram bloqueadas as maiores vias de acesso à cidade de Buenos Aires. Calcula-se que a adesão, voluntária ou não, à greve foi de 85% no final das contas, embora o governo negue.

Obs.: A greve geral de ontem foi muito menor do que a de 10 de abril desse ano. Com os ônibus funcionando, o movimento na capital estava razoável, embora algumas lojas e bancos estivessem fechados.

Durante uma grande manifestação que percorreu a Avenida de Mayo desde a Casa Rosada até o Congresso na quarta-feira (27), estive conversando com Pablo Micheli (Secretário-Geral da CTA), Alejandro Bodart e Vania Ripoll (ambos do MST, Movimento Social dos Trabalhadores). Mais do que pedir um aumento para os salários e aposentadorias, carcomidos pela inflação, eles me disseram que estão lutando também por:

  • o fim do imposto de renda para os trabalhadores, já que para eles, não sendo lucro e remunerando o trabalho, salário não deveria ser taxado;
  • uma lei que impeça as demissões e férias coletivas por um ano; e
  • expropriação estatal das empresas que demitem trabalhadores.

Em uma entrevista com Bodart no mês passado, ele foi mais longe: todo o sistema bancário da Argentina deveria ser privatizado.

Para eles, Cristina Kirchner está a favor da banca internacional, dos yankees, como eles dizem aqui, e está enganando o povo argentino com meias-reformas, maquiagens. Micheli dizia de maneira bastante contundente:

“Vimos essa situação na década de 90, não vamos deixar que se repita!”

Da outra extremidade, como eu já falei e como se lê na mídia ocidental sempre quando se fala da Argentina, Cristina está se lixando para os mercados internacionais e está levando o país a uma aventura populista de graves consequências.

Esses dias, por exemplo, um artigo do Wall Street Journal alertou que a Argentina já deve estar em recessão. De acordo com o periódico, o país convive com uma “combinação tóxica” de crescimento econômico fraco e inflação alta, enquanto as reservas internacionais desmoronam pela fuga de capitais e intervenções para conter a montanha-russa cambiária. Em cerca de dez dias, a cotação paralela do peso passou da casa dos AR$ 12 para os quase AR$ 15 – uma situação que deve piorar, já que os preços da soja no mercado internacional têm tendência de queda a partir do terceiro trimestre.

Os analistas consultados pelo WSJ são unânimes: o país está irresponsavelmente jogando com a política macroeconômica para garantir um crescimento em detrimento das reservas.

No meio desse fogo cruzado, o governo claramente tenta se posicionar ao lado dos trabalhadores. Essa semana, propôs duas leis no Congresso:

  1. a chamada “lei do pagamento soberano”, que expliquei no último Briefing; e
  2. a Lei do Abastecimento, que cria a justiça do consumidor e dá ao governo mecanismos de intervenção nas empresas

Sem poder de maneira alguma baixar a arrecadação, naturalmente nem considera a possibilidade de ceder à reivindicação dos sindicatos referente ao imposto de renda. Alega, contudo, que este imposto só atinge 10% da população e que favorece a distribuição de renda. Dessa maneira, acusa aqueles que convocaram a greve de fazer uso político de seu poder de mobilização.

Mario Wainfeld do Página/12 resumiu bem a situação:

“Pela oratória dos sindicalistas, a Argentina seria uma comunidade organizada. Harmoniosa em todos os seus estamentos, é somente perturbada por um governo avesso, depredador e até psicopata – a mesma versão infantil que propagam os meios hegemônicos, as corporações patronais, as multinacionais e, por sua vez, os principais membros da oposição. Um estranho sentido comum.

Hoje, os sindicalistas afirmaram que mais greves gerais estão por vir, o que, junto com as previsões no mínimo pessimistas dos analistas econômicos, prenunciam um fim de governo bastante conturbado para Cristina Kirchner. Não é uma novidade.

Desde que cheguei aqui, semana sim semana não aparece uma nova informação que dá conta de decretar o fim da Argentina. Na primeira vez, eu realmente cheguei a acreditar que tudo estava perdido, mas minha amiga Gabriela Grosskopf Antunes (colunista no Globo Online e jornalista da versão em português do Clarín) cantou a bola:

“Esse país é assim mesmo; amanhã aparece uma nova catástrofe e depois de amanhã tudo volta ao normal”

Até semana que vem!

Briefing: Temperatura Máxima

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

Desde a semana passada, as ruas de Buenos Aires estão mais cheias. É gente de braços e pernas de fora, estendendo cangas nos parques e tomando um bronze – enquanto toma unos ricos mates, ¡por supuesto! Com temperaturas surpreendentemente batendo os 27 graus, esse não é o inverno a que os porteños estão acostumados e, muito menos, aquele que os brasileiros procuram para exibir o casacão comprado na Europa.

Se bem me lembro, setembro passado estávamos todos acocorados debaixo do cobertor, aquecedor à mil, esperando una nesga de sol para botar o nariz pra fora de casa. Aqui, embora as temperaturas nunca cheguem abaixo de zero, a umidade relativa do ar tremenda faz quaisquer 5 graus penetrarem nos ossos e cortar a cara quando começa a ventania.

Mas esse ano, uma massa de ar quente parece estar estacionada sobre Buenos Aires e não está jogando às alturas só a temperatura, não. A política e a economia também parecem estar afetadas.

Na disputa pelo ponto mais alto do termômetro está indiscutivelmente Axel Kicillof. O ministro quarentão tem recibidoCaptura de Tela 2014-08-21 às 23.21.58 diversos apelidinhos nos últimos tempos, o que, para o mal ou para o bem, diz um pouco de sua popularidade. #KiciLove para as tietes, “chiquitito, pero cumplidor” nas palavras (com inesperado duplo sentido) da Presidenta Cristina, “galã do calote” como num perfil da revista Exame, ou até “o político mais perigoso da América Latina” de acordo com um periódico de Cingapura, Axel acordou com a macaca na última segunda e começou a colocar as cartas da Argentina na mesa:

“[Se os buitres quiserem receber], podem vir e trocar os títulos aqui. Se fizerem, vão ter um lucro de 300%. Isso é pouco para o senhor Singer? Sim, porque ele é um abutre, mas se ele quiser, vamos pagar”

Kicillof se referia à Paul Singer, dono do fundo NML e uma das vozes mais ativas contra a restruturação da dívida externa argentina, mas o recado foi geral: o governo mandou um projeto de lei para o Congresso que abre a possibilidade de todos os credores da Argentina trocarem os títulos sob jurisdição nova-iorquina (truncados pela famosa decisão do juiz Thomas Griesa) por bônus emitidos na jurisdição local.

“Ninguém está obrigado a aderir, mas criamos essa alternativa devido às dificuldades que encontramos em pagar o serviço da dívida”

Pra completar, respondendo à acusação de Griesa de que o projeto seria ilegal, Kicillof afirmou que o juiz estadunidense pretende “condicionar o Congresso argentino”.

“O juiz convocou uma audiência para debater um suposto desacato da República, em mais um excesso de jurisdição e demonstrando desconhecimento do conceito de soberania. (…) Longe de agir com justiça e gerar condições equilibradas entre as partes, Griesa só quer favorecer aos abutres”

Outro que estava on fire era o Ministro das Relações Exteriores Héctor Timerman. Comentando as alegações dos EUA de que não aceitavam a competência da Corte Internacional de Justiça por conta da divisão de poderes, o chanceler afirmou que a desculpa é “produto de uma certa ignorância”. Para ele, a decisão de um país sobre como deve pagar sua dívida externa é soberana e, se um juiz dos Estados Unidos ameaça feri-la, o país pode ser responsabilizado internacionalmente por isso.

Depois de acusar o Paul Singer, sempre ele, de doar mais de 10 milhões de dólares para congressistas estadunidenses, esclareceu que levará esse país à CIJ, mesmo suspeitando de que não vá dar em nada:

“[Os EUA] várias vezes não acataram as sentenças [da Corte] contra suas violações do direito internacional”

Também cutucando várias onças com a vara curta (ou cumprida, vai saber), a Presidenta Cristina Kirchner foi novamente à rede nacional com um discurso não tão leve como os anteriores para explicar o projeto de lei que, segundo ela, trata-se de uma solução para um problema que não foi criado nem pelo seu governo nem pelo de seu marido.

“Não contraímos essa dívida. A partir do golpe de Estado e continuando com os sucessivos governos democráticos, a dívida externa foi crescendo e se transformando num condicionante ao crescimento do país. Na última década, vivemos anos de desendividamento, mas também de desenvolvimento, porque tudo isso não se pagou com a fome do povo. Perdão pelo nervosismo. Vocês sempre me veem mais aprumada, mas estou nervosa com a injustiça que estamos vivendo!”

Embora possam ter sido encaradas com desgosto pelo Nobel da Paz (sic) Barack Obama, as medidas do governo argentino foram celebradas pelo Nobel da Economia Joseph Stiglitz:

“De uma perspectiva global, não é possível entender porque um juiz chega a ter o direito de julgar qualquer bônus no mundo. A extra-territorialidade deveria ser inaceitável. (…) De um ponto de vista econômico, [a troca proposta pelo governo] é o que eu teria recomendado”

Internamente, entretanto, o ex-Presidente do Banco Central Prat-Gay acusou o governo de “como sempre, se esquivar de resolver as questões de fundo”, afirmando que “não se pode viver sempre à margem da lei”. Já um dos líderes mais ferozes da oposição, Maurício Macri, anunciou que seu partido votará contra o projeto do governo, usando como metáfora uma das maiores paixões argentinas:

“É como se nós agora disséssemos que a final da Copa do Mundo não valeu porque o goleiro da Alemanha cometeu um pênalti [não marcado] e convidássemos eles a jogar outra partida na Argentina apitada por Oyarbide (famoso juiz argentino)”

Os editoriais dos jornalões  locais acompanharam o ponto de vista, dizendo que o governo “embandeira um falso nacionalismo, colocar-se a um passo do desacato e afetar ainda mais a imagem do país no exterior”. Já para Ricardo Roa do Clarín, nas falas de Kicillof, el principito, faltam argumentos e sobra prepotência.

Enquanto as forças políticas se atritam, a fagulhas acendem os problemas econômicos: o chamado dólar blue (paralelo, negociado em estabelecimentos ilegais e em cada esquina do Microcentro) se afasta cada vez mais da cotação oficial, quase batendo a marca recorde de 14 pesos. Se não bastasse o efeito inflacionário dessa discrepância, conforme alertou o economista Augustín D’Attellis, a disparada do dólar seca as reservas, que só ontem, sofreram um desfalque de US$ 89 milhões.

E pra completar, tem as greves…

Ontem foi a vez da saúde pública da província de Buenos Aires, que parou por 24 horas. Fiz uma visita ao Hospital Fioretto em Avellaneda hoje pela manhã e a neurocirurgiã Silvia Stepaniuk me contou que o motivo de sempre é o salário, mas que os problemas não terminam aí. Sem equipamentos básicos como um tomógrafo, insumos como chapas de raio X ou mesmo gaze e soro, eles não têm como atender aos pacientes e nem como transferi-los, porque tampouco funciona a ambulância. Ela disse que os familiares ficam tão indignados, que às vezes até agem com violência.

“Nós é que botamos a nossa cara à tapa; as pessoas não vão reclamar com o governador nem com o ministro. Elas vêm pra cima da gente”

Semana que vem, as previsões do tempo garantem que a temperatura vai voltar ao normal e baixar para a casa dos 10 graus, mas parece que as mudanças ficarão restritas ao clima. Na quinta-feira (28), tem greve geral de 24 horas convocada pelo controverso sindicalista da oposição Hugo Moyano. Assim, se você tiver viagem marcada para esse dia, é melhor remarcar.

Até mais!