O Brasil balança, a Argentina teme

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Poucos sabem realmente das internas da viagem de Cristina ao Brasil para a reunião da Cúpula do Mercosul no início do mês. Sabemos da foto os bichinhos do Rio 2016 e daquele vídeo em que Dilma prestou uma homenagem à “querida amiga e Presidenta”.

Naturalmente, dá vontade danada de imaginar uma conversa entre as duas, como possivelmente já fizeram Dilma Bolada e aquela da revista Piauí (será que ainda existe?), quando, seguramente, elas trocaram algumas confidências sobre tentativas de impeachment, investigações polêmicas, perseguição da mídia e traições, entre outras amenidades.

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3. A Política

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O eixo de Buenos Aires, a numeração de todas as ruas e mesmo a ordenação do metrô está localizado numa linha reta que sai da Casa Rosada, o marco zero da capital argentina. Seguindo pela Avenida de Mayo (na verdade é a Rivadavia, mas não sejamos puristas), se descortina uma das mais belas paisagens urbanas daqui, com prédios magníficos como o Palácio Barolo e o Congresso ao fundo.

Esse caminho é entrecortado pela colossal avenida Nueve de Julio, la más ancha del mundo, o que a torna virtualmente impossível de atravessar de uma.

Não, esse não é outro post de como se encontrar em Buenos Aires. Acontece que, quando você se muda para um lugar novo, acaba se dando conta de algumas coisas que passam corriqueiras na vida dos nativos e corre o risco, inclusive, de inventar situações que não tem nada a ver no fim das contas, como eu me arrisco a fazer aqui.

José de San Martín, libertador da Argentina

José de San Martín, libertador da Argentina

Mas não seria muita coincidência que o eixo da capital comece na antiga aduana, de onde as riquezas da terra eram evadidas na época colonial, gerando uma próspera sociedade criolla nessa margem do Rio da Prata, e que daí, no cruzamento com a rua San Martín (homônima ao Libertador daqui que acabou participando da independência de metade da América Espanhola), desse lugar desague a Avenida de Mayo (homônima à Revolução que deu origem ao país) até que esta cruze mais uma vez com a maior artéria de todas, a Nueve de Julio (a data em que finalmente a Argentina declara a independência da Espanha) até chegar no Congresso, o Parlamento, símbolo da democracia?

Pois bem, eu acho impressionante essa urbanização prestando-se a contar uma história e considerei apropriado começar esse post sobre a política argentina com esse senso de direção, tão Positivista, que respirava o país naqueles idos do fim do século XIX, quando começaram também a surgir alguns dos ícones da cidade como o Teatro Colón e todo o traçado urbano inspirado em Paris.

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2. A Economia

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A primeira dificuldade que tive para começar esse post foi encontrar uma foto que pudesse ilustrá-lo. Ao se meter a escrever um panorama da economia argentina em 2015, o que há de mais representativo a respeito dela: Uma bela ceifadeira trabalhando extensos campos de soja? Gruas enchendo containers no historicamente movimentado Porto de Buenos Aires? O parque industrial a pleno vapor? A praça financeira? Os arranha-céus de Puerto Madero? Uma montagem que inclua todas as anteriores? Ou uma dramática versão em preto-e-branco sugerindo decadência em algumas delas?

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Dependendo de quem se ouve, todas as alternativas são bastante possíveis e refletem também o que se vem sonhando para a economia da Argentina desde os tempos de glória da primeira metade do século XX – uma época jamais esquecida e cuja passagem para os tempos atuais se caracteriza como um dos grandes traumas sociais da nossa região.

Finalmente optei pelo dinheiro em espécie – o peso argentino – porque, como iremos ver, é a sua relação com a moeda estrangeira, ou frequentemente a falta dela, que determinou para que lado do espectro se concentrava a aposta para um futuro que permanece indefinido.

Na eleições de 2015, como aquela que se celebrou no Brasil em 2014, muito se debaterá sobre temas como a corrupção, a sanha concentradora dos Kirchner, a liberdade de imprensa, as relações internacionais, as restrições à economia, etc. Mas, no final das contas, e também à semelhança da contraparte brasileira, se estará discutindo a definição desse projeto de país que nos últimos quarenta anos esteve caracterizado por manobras radicais, deslumbramentos e tombos inevitáveis.

Mas, afinal, que cartas estão sobre a mesa?

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Briefing: Oposição fraca, um traço comum

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Menos de duas semanas depois do tão-falado protesto pedindo o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em São Paulo, as ruas do centro da capital argentina foram tomadas por manifestantes com bandeiras parecidas (tomadas talvez parcialmente, os números são conflitantes).

Aqui ninguém se arrisca a pedir uma intervenção militar. Entendo que, além dos números da ditadura local serem ainda mais assustadores que os da contraparte brasileira, os processos contra os criminosos do regime e suas condenações ajudaram a consolidar um sentimento comum de repúdio baseado na memória. Odeio hashtags, mas #ficaadica.

Entretanto, de resto, em quase tudo as reivindicações ouvidas no Microcentro na quinta passada se assemelham às da Avenida Paulista. Conhecida como 13N, com referência à data 13 de novembro, a marcha tentou repetir a mobilização que marcou o 8N em 8 de novembro de 2012, quando uma multidão foi ao Obelisco vociferar contra o governo de Cristina Kirchner.

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8N, manifestação no fim de 2012

Na época, estavam começando a ser implementadas as medidas heterodoxas pelas quais a Presidenta será lembrada, como o cepo cambiario, que feriu de morte o hábito local de economizar em moeda estrangeira. Mas dessa vez, embora não menos sérias, as bandeiras dos opositores não conseguiram atrair a multidão da foto ao lado, talvez porque corrupção e insegurança sejam percebidos como um traço menos diretamente relacionado à gestão de Cristina do que à cultura política local e à realidade, respectivamente.

Organizado nas redes sociais, o protesto causou polêmica ainda na sua gestação, porque militantes pró-governo iniciaram uma contraofensiva virtual em que se divulgava que o evento havia sido cancelado. Rapidamente, a hashtag #13NSuspendido ganhou quase tanta evidência quanto o #13N, despertando uma calorosa troca de acusações e ironias no Twitter e no Facebook.

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Na manhã de quinta, o porta-voz do governo Jorge Capitanich fez referências à manifestação durante sua habitual entrevista coletiva, pedindo respeito às instituições. Para ele, os cidadãos deveriam expressas suas diferenças políticas com o governo nas eleições  de 2015:

“Na democracia todos têm o direito de se expressar, mas sobretudo através das eleições. Todos terão a possibilidade de participar das PASO (primárias) em agosto que vem e nas eleições gerais em outubro”

A manifestação contou com a solidariedade de brasileiros no Twitter que já estavam convocando outros atos em São Paulo para 15 de novembro, dia da Proclamação da República no Brasil.

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De fato, existem mais semelhanças entre os movimentos na Argentina e no Brasil do que podem sugerir as aproximações temáticas. Tanto lá quanto aqui as impressionantes desigualdades sociais vem se reproduzindo nos regimes democráticos através das urnas, fazendo com que as bandeiras das classes mais abastadas e as dos setores populares de modo geral se alinhem a posições políticas radicalmente opostas.  Dessa maneira, ao menos um dos grupos se sente irremediavelmente não-representado.

Tanto no Brasil quanto na Argentina (mais no último), a oposição tem se mostrado incapaz de responder à essa crise de representação. Embora a contundente votação de Aécio Neves nas últimas eleições possa sugerir o contrário e os discursos imediatamente posteriores a ela possam indicar uma mudança no quadro brasileiro, é irrefutável que a oposição teve um papel pouco expressivo no Congresso, capitalizando apenas algumas vitórias no Poder Legislativo, como a revogação da CPMF (discutivelmente popular) ou a CPI da Petrobras (muito recente).

Devo acrescentar o fato de que na Argentina não há um PMDB, como muito bem lembrado pelo cientista político Alberto Carlos Almeida no Manhattan Connection a partir do minuto 11 do vídeo (por favor, desconsidere as afirmações estapafúrdias e racistas de Diogo Mainardi. Gracias!):

Nesse cenário, a oposição argentina teve ainda menos vitórias no Congresso daqui, o que talvez explique a ausência de um verdadeiro candidato desse campo político no país. Como já escrevi anteriormente, um dos favoritos para o próximo pleito é Daniel Scioli do partido do governo e o segundo colocado é Sérgio Massa, um dissidente não necessariamente ligado àquelas pessoas que compareceram no 13N.

No mais, a semana transcorreu com a fugaz apreciação do peso na cotação blue, o que como eu contei faz pouco, deixou os brasileiros que moram por aqui de cabelo em pé. Resultado de uma mega operação da autoridade fiscal argentina (a AFIP), o destino do câmbio ainda está incerto, embora o Presidente do Banco Central tenha descartado a suspensão das restrições à compra de dólares. O negócio vai ser esperar.

Com Cristina afastada do trabalho por problemas de saúde, coube à Axel Kicillof o papel de representante da Argentina no encontro do G20 na Austrália. E ele não perderia a oportunidade de pedir “apoio total ao país na reestruturação de sua dívida”. Ainda não sabemos bem o que foi conversado por lá, mas Axel parecia bastante confiante na foto que tirou com outros Chefes de Governo e/ou seus representantes.

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Até semana que vem!

Quem será o próximo? O Mapa Eleitoral da Argentina para 2015

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(((Para informações mais atualizadas, clique aqui)))

Enquanto o Brasil discute essa semana quem estará à frente da presidência no próximo quadriênio, a Argentina se prepara para um dos maiores pleitos em 2015. Trata-se de um processo eleitoral emblemático.

Ao sabor da redemocratização, suas primeiras edições, em 1983 e 1989, foram marcadas pela excessão: o radical Raúl Afonsín é eleito na transição na transição de uma das mais brutais ditaduras e tem seu mandato abreviado por turbulências econômicas para ser substituído por Carlos Menem, que ficaria no poder por dez anos.

Na sequência, volta o radicalismo nas mãos de Fernando de la Rúa que, com dois anos de governo, enfrenta uma imensa crise econômica, institucional, política e por aí segue. Sai fugido da Casa Rosada de helicóptero, fechando o seu governo com a pérola:

“¡Que se vayan todos!”

Antes de que Nestor Kirchner finalmente chegue à presidência, passam por lá sem esquentar a cadeira três criaturas que sucumbem sucessivamente. Assim, se inaugura o período K, por alguns chamada de “la década ganada“, por outros de “la otra década perdida“.

Nestor conseguiu eleger a esposa por capitalizar a normalização do país; Cristina conseguiu se reeleger capitalizando a retomada do crescimento e a geração de empregos. Entretanto, seu segundo mandato foi um período de radicalização do modelo, com enfrentamento aberto contra a mídia conservadora e os fundos abutres (só para ficar nos casos mais óbvios) e a introdução de medidas heterodoxas contra os revezes econômicos do país, como as restrições à compra de dólares e às importações, além de controle de preços, sem que isso impedisse taxas de inflação que deixam os argentinos de cabelo em pé.

Assim, o pleito de 2015 será também um grande plebiscito referente ao modelo que terá como pano de fundo a radicalização, porque nesse país não existem tons de cinza – para alguns, o kirchnerismo foi uma tragédia; para outros, uma redenção.

Nesse marco, se apresentam pelo menos quatro forças políticas, a saber:

Frente para la Victoria (FpV)

fpvO Kirchnerismo logrou formar uma base sólida no Congresso Nacional que consegue aprovar qualquer projeto do governo sem contratempos, o que favoreceu ao aprofundamento do modelo. O projeto inicial era lançar Amado Boudou para a sucessão, uma fórmula que acabou sendo enfraquecida pelas numerosas suspeitas de corrupção que correm na justiça. Desde então, se apresentaram o atual Chefe de Gabinete Jorge Capitanich (equivalente à nossa Casa Civil), o Ministro do Interior Florencio Randazzo, o governador da Província de Buenos Aires Daniel Scioli e, mais recentemente, o Ministro da Economia Axel Kicillof.

Desses, o único com projeção nacional é Scioli que, entretanto, é o representante mais ‘rebelde’ do kirchnerismo, já que tem claras intenções de alçar voo solo. Nos últimos dias, se reaproximou de seu partido, fazendo coro aos apoiadores da presidenta, mas ainda gera incertezas no núcleo duro do modelo.

Assim, a escolha ainda está indefinida

Frente Renovador

Sergio-Massa-elecciones-2013-2015A maior dissidência do FpV foi liderada pelo político bonaerense Sérgio Massa, ex-Chefe de Gabinete e atual deputado federal. Acusado de oportunista, desbancou os kirchneristas nas eleições legislativas de 2013 e propõe ajustes firmes no modelo, sem, entretanto, especificar quais ajustes seriam estes. Como força no maior colégio eleitoral do país, a Província de Buenos Aires, tem pouca experiência administrativa (foi apenas prefeito da pequena municipalidade de Tigre).

Frente UNEN

sanzNum evento espetacular em meados desse ano, foi lançada a Frente UNEN, uma coalizão de tradicionais forças políticas de centro-esquerda como Elisa Carrió, Pino Solanas, os dissidentes Prat-Gay e Martín Lousteau. Além do combate à inflação, prometem dirimir a “herança perversa” da corrupção”. Seu maior expoente para a candidatura presendencial é Ernesto Sanz, um membro tradicional da UCR.

Pesa contra a Frente UNEN a pouca homogeneidade do bloco, que desde já vem apresentando fissuras e o fato de que os últimos presidentes de sua maior força política (a UCR de Raúl Alfonsín y De la Rúa) nunca terminaram seus mandatos.

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Mauricio-Macri-PPO partido criado pelo Chefe de Governo da capital argentina Maurício Macri é, sem dúvida, a oposição frontal ao governo de Cristina Kirchner. Odiado pelos movimentos sociais em Buenos Aires, por suas políticas na educação e duras remoções, realizou uma boa gestão no campo dos transportes com a criação do Metrobus e das ciclovias, além de ter comandado a revitalização de áreas como Barracas (ainda em processo).

Pela pouca projeção nacional, dificilmente conseguirá vencer sozinho e, por isso, vem tentando se aproximar de lideranças da Frente UNEN ou da Frente Renovador, embora seu caráter neoliberal tenha grande rejeição nesses agrupamentos.

Frente de Izquierda

pitrolaDefensores de reformas mais profundas das que realizaram os kirchneristas, associam Cristina ao mercado financeiro e a acusam de não prestar atenção suficiente às demandas dos trabalhadores. Exigem o fim do pagamento da dívida externa até que se resolva a chamada “dívida social pendente”. Ainda não sinalizaram com um candidato para o pleito de 2015, mas têm no ex-piqueteiro Nestor Pitrola uma de suas maiores lideranças.

Naturalmente, ainda não existem nem candidaturas oficializadas nem pesquisas eleitorais, mas a corrida já começou. Pesquisas informais e internas do partido oficialista revelam que cerca de 30% dos apoiadores de Cristina (o chamado ‘núcleo duro’) votariam em qualquer candidato que ela apoiasse; entretanto, um em cada dez desses eleitores confessou que poderia optar por Massa de acordo com a situação.

Os especialistas daqui dizem que os resultados das eleições no Brasil terão um grande impacto por aqui. De acordo com o especialista Julio Gambina, “o Brasil está nos planos de todos os candidatos”, embora não esteja claro para que objetivo. “Uma integração Brasil-Argentina deve ser crítica à hegemonia capitalista internacional”.

Briefing: Se me pasa algo…

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A semana na Argentina foi marcada por um discurso da Presidenta Cristina Kirchner na Casa Rosada em que disse:

“Têm aparecido uns artigos nos jornais sobre supostas investigações que foram feitas nos organismos de inteligência do Estado sobre a ameaça que eu estaria sofrendo por parte do ISIS, esse grupo terrorista que atua no Iraque. Fiquei sabendo pelos jornais que aparentemente o serviço de inteligência descobriu alguma evidência na Tríplice Fronteira. Primeiro, devo dizer que não acredito, porque se fosse uma revelação de organismos de Estado, a primeira que deveria ser avisada teria sido eu, que sou a Presidenta e a ameaçada, e não o Clarín. (…) Por favor me escutem. Se alguma coisa acontecer comigo, e eu estou falando sério, não olhem para o Oriente; olhem para o Norte! Porque depois de ver as coisas que estão fazendo em determinadas representações diplomáticas, depois de escutar essas declarações que verdadeiramente parece um exercício de cinismo, depois de ver as coisas que vi nas Nações Unidas, realmente, que me venham criar toda uma historinha de que o ISIS está atrás de mim para me matar ou fazer alguma maldade… por favor! Não voltem a armar uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado que não quero mencionar”

Ou seja, no meio de todas as coisas que disse Cristina nesse discurso, está uma dramática subida no tom com os Estados Unidos, conforme já se observada desde a semana passada. Uma subida dramática a la Argentina.

Mas vamos por partes.

Depois do discurso de Cristina na ONU, o juiz Thomas Griesa, como havia ameaçado antes, declarou que a Argentina estava “em desacato” por não cumprir a decisão judicial que obrigava o pagamento de US$ 1,3 milhões, além de determinar que a Lei do Pagamento Soberano é ilegal.

Como esperado, o governo argentino reagiu com força, sobretudo porque é bizarro que um juiz municipal americano se sinta em capacidade de julgar uma lei votada no Congresso de outro país. Assim, a Chancelaria daqui enviou uma carta ao Departamento de Estado alertando que os Estados Unidos incorria em responsabilidade internacional com a decisão.

A resposta do Secretário de Estado John Kerry veio à reboque, na qual afirmou que “acompanha a situação de perto” e que “espera que a Argentina prospere”.

No meio dessa troca de correspondências, a Embaixada dos EUA em Buenos Aires emitiu um comunicado em que alertava os cidadãos americanos sobre a violência no país, o que desatou a fúria do governo. Antes do trecho que publiquei anteriormente, ela afirmou, entre outras coisas:

“Eles querem dizer que vivemos na pior época do Faroeste e eu acredito que isso é realmente uma imensa provocação a qual não irei reagir. Porque seguramente o senhor que escreveu esse comunicado, que já nos acusou de estar em default [o embaixador interino Kevin Sullivan], pensou ‘agora eu provoco ela, a deixo enfurecida e eles vão me expulsar do país’. Não vai acontecer”

“Eu não entendo o que significa ‘estar acompanhando a situação de perto’. Penso que talvez esteja contribuindo, já que como não aconteceram os cataclismos sociais que alguns prenunciavam ou que queriam provocar…”

“Se [os EUA] estão tão interessados numa Argentina próspera, que participem. Primeiro, se ele se lembrasse de 2001, quando deixaram a Argentina na mão e a gente se partiu em mil pedaços depois de seguir todas as receitas que eles nos prescreveram… (…) Se tanto lhe preocupa a Argentina e a nossa prosperidade, por que não deixam que a Argentina pague a sua dívida?”

Como antecipado, esse discurso terminou com uma surpreendente declaração de que, se for assassinada, que se busquem os suspeitos no norte, ou seja, nos Estados Unidos; mas essa não é uma declaração leviana simples de ser decifrada.

No discurso na ONU, Cristina mencionou o Acordo com o Irã para solucionar o caso do atentado ao centro comunitário judio em Buenos Aires, a AMIA em 1994, que matou 84 pessoas e deixou centenas de feridos.

Investigações controversas chegaram à conclusão de que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo iraniano. Apesar de um dos acusados ter prestado depoimento na Inglaterra e liberado por falta de provas, parte da comunidade judia em Buenos Aires (reunidos na Associação de Delegações Israelitas da Argentina, a DAIA) sustentam essa tese até hoje. Entretanto, parte dos familiares de vítimas, reunidos em outra organização, sustentam que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo argentino e pedem que os arquivos confidenciais da época sejam desclassificados. Eles e outros movimentos sociais e políticos afirmam que a “pista iraniana” foi forjada para livrar os suspeitos locais.

Ao pedir no discurso dessa semana que não se “arme uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado”, a Presidenta basicamente infere que corrobora com a tese da falsificação de provas para encontrar um bode expiatório estrangeiro no caso da AMIA.

Mas as declarações bombásticas desse discurso não pararam por aí e trouxeram consequências práticas ainda mais sérias, pois a Presidenta questionou a falta de controle sobre algumas operações de câmbio e sugeriu o vazamento de informações privilegiadas do Banco Central. No dia seguinte o presidente da instituição Juan Carlos Fábrega se demitiu desatando uma crise de confiança no mercado, conforme verificado no tombo de 8% da Bolsa de Valores de Buenos Aires.

O novo presidente indicado pelo governo, Alejandro Vanoli, muito próximo do Ministro da Economia Axel Kicillof, chegou com um pacote de medidas para frear a sangria de dólares. Apesar dos comentaristas econômicos dos grandes jornais terem reagido à nomeação com temor, já que representaria um avanço dos setores mais radicais na condução da economia, de fato, o dólar desacelerou.

Até semana que vem!

Briefing: O Inimigo?

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A segunda-feira nem bem dava as caras direito e mais um quilombo se armava na Argentina, já que a edição do Clarín trazia uma entrevista do Encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires Kevin Sullivan em que, com bastante desenvoltura, desvelou muitas opiniões sobre o conflito da Argentina com os tais fundos abutres.

Atualmente desempenhando o cargo de representante máximo dos EUA por aqui, já que Washington tarda em nomear um embaixador (dizem que é retaliação), Sullivan afirmou que seu país “não apoiará o debate nas Nações Unidas porque não [lhes] parece o âmbito para encontrar uma solução eficiente”, e também porque “o mecanismo criaria incertezas”.

Nenhuma novidade. Desde que a Argentina decidiu levar aos órgãos multilaterais a questão da restruturação das dívidas soberanas como a OEA e a ONU, sempre angariando o apoio da maioria, os Estados Unidos votaram contra.

Mas ele não parou por aí e mencionou uma palavrinha que provocou a ira do governo argentino:

“É importante que a Argentina saia do default o quanto antes para poder retornar ao caminho do crescimento econômico sustentável e atrair os investimentos de que necessita”

Foi a primeira vez que um funcionário do governo dos Estados Unidos falou em default, mesmo que a Argentina venha questionando essa situação. Na lógica da Casa Rosada, se o país tem dinheiro para pagar, realizou o pagamento e teve o depósito bloqueado no Banco de Nova York por uma decisão de um juiz americano, isso não se caracterizaria como um default, senão um problema técnico da praça financeira estadunidense.

Em dura nota emitida no dia seguinte, a Chancelaria afirmou que:

“[As palavras do diplomata] não têm nenhum valor fatídico e, sim, coincidem com a postura dos fundos abutres em contraposição aos interesses dos 92,4% de credores que aceitaram a restruturação da dívida”.

De acordo com o governo, o país tanto tem fundos e vontades de realizar seus pagamentos que aprovou no Congresso a chamada Lei do Pagamento Soberano da Dívida Externa para driblar os problemas técnicos da praça financeira de Nova York.

Prosseguindo, a nota afirma que a Argentina deplora (palavra fortíssima nos meios diplomáticos) que os EUA não tenham aceito a jurisdição da Corte Internacional de Haia para resolver a questão “segundo critérios legais, equitativos e justos” com juízes independentes; e provocou:

“Os EUA tampouco aceitam a jurisdição da Corte Inter-americana e da Corte Penal Internacional em temas vinculados aos direitos humanos”

Por fim, ameaçou com as mais severas medidas se “esse tipo de intromissão nos assuntos internos” voltarem a se repetir, lembrando que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

De fato, é pouco comum ver entrevistas de diplomatas em jornais do país onde estão em serviço (sobretudo um jornal claramente de oposição) dando recomendações dessa natureza (sobretudo num tema tão sensível na agenda bilateral), pois influenciar a opinião pública local pode ser considerado uma intromissão em assuntos internos.

Para os críticos do governo, trata-se de mais um capítulo na tendência ao conflito do governo de Cristina Kirchner. Em entrevista ao Infobae, o ex-Vice-Chanceler Andrés Cisneros analisou a questão:

“A declaração de Sullivan não contém uma receita ou indicação de uma maneira em que o país estrangeiro pretenda nos ‘ensinar’ como exercer nossa soberania. Ele simplesmente enuncia um desejo de boa vontade com o qual é difícil não coincidir: sair do default, o que é o objetivo de todos os argentinos. (…) É preciso evitar que um caso como este se converta em outro ‘mini-round’ de um ‘Braden-Perón’ artificialmente criado”

Ele se referia à histórica disputa entre o Presidente argentino e o diplomata estadunidense Spruille Braden, que, na ‘defesa dos interesses daquele país’, não economizou intromissões e conspirações contra o governo.

No diário La Nación, o colunista Martín Dinatale cunhou a atitude do Palácio San Martin (sede da Chancelaria argentina) de “a diplomacia da sobreatuação”:

“Será que Cristina não aprendeu suficientemente aquela frase de Perón que dizia que ‘do ridículo não se retorna’? A diplomacia argentina liderada pelo kirchnerismo faz tempo é regida pelas normas da política doméstica. Os gestos externos são dirigidos ao público local.”

Mas o governo não terminou por aí. Na quarta-feira, em entrevista à uma radio, o Ministro da Economia afirmou que as declarações de Sullivan e a desvalorização da cotação paralela da moeda (o chamado dólar blue) não são coincidências, mas fazem parte de um plano de cinco pontos elaborado pelos fundos abutres para desestabilizar a Argentina. Seriam eles:

  1. Atacar a moeda para forçar a desvalorização
  2. Atacar a pessoa da Presidenta
  3. Impedir o pagamento local da dívida nos próximos vencimentos
  4. Bloquear o financiamento do país
  5. Esperar 2016 (quando o país terá um novo mandatário)

E, por fim, ontem a Presidenta Cristina relacionou a limitação na venda de passagens da American Airlines com esse suposto ataque ao governo e ao país.

Essa semana, a companhia aérea estadunidense restringiu a compra de suas passagens a 90 dias de prazo – ou seja, um argentino atualmente não pode comprar uma passagem para Miami com data de janeiro de 2015. De acordo com o La Nación, essa medida estaria relacionada às restrições do câmbio (o chamado cepo cambiario‘), já que os operadores não querem reter pesos com medo da desvalorização.

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Em sua conta no Twitter e Facebook (a Presidenta é bastante afeita às redes sociais), Cristina disparou contra a voadora.

“Não existe nenhum tipo de restrição para o pagamento de passagens e pacotes turísticos com divisas. (…) Que não fiquem dúvidas que [eles] estão querendo gerar, através de mentiras, expectativas negativas e ataques especulativos à nossa moeda.

A presidenta também citou as declarações de Sullivan, os tais cinco pontos anteriormente citados por Kicillof e, por fim, fechou o relato com chave ouro:

“A partir de dezembro de 2013, James Albaugh, a quem não tenho o prazer de conhecer, tornou-se diretor da American Airlines. (…) Ele é o assessor principal do The Blackstone Group LP, um dos mais importantes fundos de investimento financeiros detentor de títulos da dívida argentina. Como eu digo sempre: Se joga com tudo. E na Argentina, mais do que em qualquer outro país”

Saindo um pouco desses qüiproquós entre Estados Unidos e Argentina, os analistas daqui continuam demonstrando preocupação com uma eventual vitória de Marina Silva nas eleições presidenciais brasileiras, como antecipei em artigo anterior. Em artigo para Buenos Aires Herald, Carolina Thibaud afirmou que esse resultado pode trazer consequências importantes para a América Latina e, sobretudo para a Argentina, com quem o país manteria uma “paciência estratégica”:

“A ambientalista e evangélica tem sugerido que o tempo da ‘paciência estratégica’ com a Argentina terminaria rapidamente se ela ganhasse a presidência. (…) Apesar da pressão das elites industriais do Brasil por uma postura mais dura com relação à Argentina, Rousseff tem sido discutivelmente precavida em seus negócios com Buenos Aires, ainda que o protecionismo argentino tenha muitas vezes trabalho contra a integração regional e impedido o Mercosul de avançar como bloco unificado.

“Em seu manifesto de campanha, Marina defendeu mais integração com a Aliança do Pacífico e a ideia de uma solução de duas velocidades para o Mercosul, onde o Brasil, o Uruguai e o Paraguai poderiam assinar Acordos de Livre Comércio com a União Europeia, por exemplo, mesmo se a Argentina se recusar”

No mesmo artigo, entretanto, o analista de política internacional da Universidad de San Andrés Federico Merke destacou que Marina teria uma boa relação tanto com o candidato à presidência da Argentina Mauricio Macri (conservador) e Sérgio Massa (um ex-kirchnerista arrependido):

“Os assessores da brasileira e dos dois candidatos pedem por mais liberalização”

Daí, uma pergunta não cala para mim: na visão de CFK e seus correligionários, seria Marina Silva uma candidata abutre?

Até semana que vem!

 

Briefing: Temperatura Máxima

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

O Ministro da Economia Axel Kicillof em destaque: fãs e inimigos

Desde a semana passada, as ruas de Buenos Aires estão mais cheias. É gente de braços e pernas de fora, estendendo cangas nos parques e tomando um bronze – enquanto toma unos ricos mates, ¡por supuesto! Com temperaturas surpreendentemente batendo os 27 graus, esse não é o inverno a que os porteños estão acostumados e, muito menos, aquele que os brasileiros procuram para exibir o casacão comprado na Europa.

Se bem me lembro, setembro passado estávamos todos acocorados debaixo do cobertor, aquecedor à mil, esperando una nesga de sol para botar o nariz pra fora de casa. Aqui, embora as temperaturas nunca cheguem abaixo de zero, a umidade relativa do ar tremenda faz quaisquer 5 graus penetrarem nos ossos e cortar a cara quando começa a ventania.

Mas esse ano, uma massa de ar quente parece estar estacionada sobre Buenos Aires e não está jogando às alturas só a temperatura, não. A política e a economia também parecem estar afetadas.

Na disputa pelo ponto mais alto do termômetro está indiscutivelmente Axel Kicillof. O ministro quarentão tem recibidoCaptura de Tela 2014-08-21 às 23.21.58 diversos apelidinhos nos últimos tempos, o que, para o mal ou para o bem, diz um pouco de sua popularidade. #KiciLove para as tietes, “chiquitito, pero cumplidor” nas palavras (com inesperado duplo sentido) da Presidenta Cristina, “galã do calote” como num perfil da revista Exame, ou até “o político mais perigoso da América Latina” de acordo com um periódico de Cingapura, Axel acordou com a macaca na última segunda e começou a colocar as cartas da Argentina na mesa:

“[Se os buitres quiserem receber], podem vir e trocar os títulos aqui. Se fizerem, vão ter um lucro de 300%. Isso é pouco para o senhor Singer? Sim, porque ele é um abutre, mas se ele quiser, vamos pagar”

Kicillof se referia à Paul Singer, dono do fundo NML e uma das vozes mais ativas contra a restruturação da dívida externa argentina, mas o recado foi geral: o governo mandou um projeto de lei para o Congresso que abre a possibilidade de todos os credores da Argentina trocarem os títulos sob jurisdição nova-iorquina (truncados pela famosa decisão do juiz Thomas Griesa) por bônus emitidos na jurisdição local.

“Ninguém está obrigado a aderir, mas criamos essa alternativa devido às dificuldades que encontramos em pagar o serviço da dívida”

Pra completar, respondendo à acusação de Griesa de que o projeto seria ilegal, Kicillof afirmou que o juiz estadunidense pretende “condicionar o Congresso argentino”.

“O juiz convocou uma audiência para debater um suposto desacato da República, em mais um excesso de jurisdição e demonstrando desconhecimento do conceito de soberania. (…) Longe de agir com justiça e gerar condições equilibradas entre as partes, Griesa só quer favorecer aos abutres”

Outro que estava on fire era o Ministro das Relações Exteriores Héctor Timerman. Comentando as alegações dos EUA de que não aceitavam a competência da Corte Internacional de Justiça por conta da divisão de poderes, o chanceler afirmou que a desculpa é “produto de uma certa ignorância”. Para ele, a decisão de um país sobre como deve pagar sua dívida externa é soberana e, se um juiz dos Estados Unidos ameaça feri-la, o país pode ser responsabilizado internacionalmente por isso.

Depois de acusar o Paul Singer, sempre ele, de doar mais de 10 milhões de dólares para congressistas estadunidenses, esclareceu que levará esse país à CIJ, mesmo suspeitando de que não vá dar em nada:

“[Os EUA] várias vezes não acataram as sentenças [da Corte] contra suas violações do direito internacional”

Também cutucando várias onças com a vara curta (ou cumprida, vai saber), a Presidenta Cristina Kirchner foi novamente à rede nacional com um discurso não tão leve como os anteriores para explicar o projeto de lei que, segundo ela, trata-se de uma solução para um problema que não foi criado nem pelo seu governo nem pelo de seu marido.

“Não contraímos essa dívida. A partir do golpe de Estado e continuando com os sucessivos governos democráticos, a dívida externa foi crescendo e se transformando num condicionante ao crescimento do país. Na última década, vivemos anos de desendividamento, mas também de desenvolvimento, porque tudo isso não se pagou com a fome do povo. Perdão pelo nervosismo. Vocês sempre me veem mais aprumada, mas estou nervosa com a injustiça que estamos vivendo!”

Embora possam ter sido encaradas com desgosto pelo Nobel da Paz (sic) Barack Obama, as medidas do governo argentino foram celebradas pelo Nobel da Economia Joseph Stiglitz:

“De uma perspectiva global, não é possível entender porque um juiz chega a ter o direito de julgar qualquer bônus no mundo. A extra-territorialidade deveria ser inaceitável. (…) De um ponto de vista econômico, [a troca proposta pelo governo] é o que eu teria recomendado”

Internamente, entretanto, o ex-Presidente do Banco Central Prat-Gay acusou o governo de “como sempre, se esquivar de resolver as questões de fundo”, afirmando que “não se pode viver sempre à margem da lei”. Já um dos líderes mais ferozes da oposição, Maurício Macri, anunciou que seu partido votará contra o projeto do governo, usando como metáfora uma das maiores paixões argentinas:

“É como se nós agora disséssemos que a final da Copa do Mundo não valeu porque o goleiro da Alemanha cometeu um pênalti [não marcado] e convidássemos eles a jogar outra partida na Argentina apitada por Oyarbide (famoso juiz argentino)”

Os editoriais dos jornalões  locais acompanharam o ponto de vista, dizendo que o governo “embandeira um falso nacionalismo, colocar-se a um passo do desacato e afetar ainda mais a imagem do país no exterior”. Já para Ricardo Roa do Clarín, nas falas de Kicillof, el principito, faltam argumentos e sobra prepotência.

Enquanto as forças políticas se atritam, a fagulhas acendem os problemas econômicos: o chamado dólar blue (paralelo, negociado em estabelecimentos ilegais e em cada esquina do Microcentro) se afasta cada vez mais da cotação oficial, quase batendo a marca recorde de 14 pesos. Se não bastasse o efeito inflacionário dessa discrepância, conforme alertou o economista Augustín D’Attellis, a disparada do dólar seca as reservas, que só ontem, sofreram um desfalque de US$ 89 milhões.

E pra completar, tem as greves…

Ontem foi a vez da saúde pública da província de Buenos Aires, que parou por 24 horas. Fiz uma visita ao Hospital Fioretto em Avellaneda hoje pela manhã e a neurocirurgiã Silvia Stepaniuk me contou que o motivo de sempre é o salário, mas que os problemas não terminam aí. Sem equipamentos básicos como um tomógrafo, insumos como chapas de raio X ou mesmo gaze e soro, eles não têm como atender aos pacientes e nem como transferi-los, porque tampouco funciona a ambulância. Ela disse que os familiares ficam tão indignados, que às vezes até agem com violência.

“Nós é que botamos a nossa cara à tapa; as pessoas não vão reclamar com o governador nem com o ministro. Elas vêm pra cima da gente”

Semana que vem, as previsões do tempo garantem que a temperatura vai voltar ao normal e baixar para a casa dos 10 graus, mas parece que as mudanças ficarão restritas ao clima. Na quinta-feira (28), tem greve geral de 24 horas convocada pelo controverso sindicalista da oposição Hugo Moyano. Assim, se você tiver viagem marcada para esse dia, é melhor remarcar.

Até mais!

Briefing: Encontros e Desencontros

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Aos trinta e tantos anos, mãe de quatro filhos, Estela se dividia entre a escola primária em que lecionava e as atividades domésticas. Vivia, sim, em um ambiente político, já que o marido e os filhos militavam em diferentes movimentos sociais; mas, ela mesma, pouco se envolvia nesses assuntos.

Pouco mais de um ano depois de que se instaurou o chamado Processo de Reorganização Nacional, na verdade uma brutal ditadura militar com substancial braço civil, Estela sofreu o primeiro baque: seu marido Guido foi sequestrado pelas forças armadas, torturado e só liberado depois do pagamento de um resgate de 30 mil dólares. Para pagá-lo, Estela precisou vender sua casa no centro de La Plata e se mudou para uma mais humilde na periferia.

Mas esse foi apenas um susto perto do que lhe aconteceria apenas alguns meses depois, já que sua filha de 18 anos, grávida de três meses, seria também sequestrada e nunca mais apareceria.

Durante o regime cívico-militar argentino, que durou pouco mais de sete anos, a brutalidade das torturas tinha um componente ainda mais aterrorizante: o chamados centros de detenção clandestinos. Nos porões de casas e galpões abandonados, presos políticos eram confinados e torturados privando seus familiares de qualquer informação sobre eles. O filme “Crônica de Uma Fuga” é um retrato construído a partir de relatos dessa barbárie.

Foi a um lugar desses, conhecido como La Cacha, que Laura foi levada. Grávida do também militante e músico Walmir Oscar Montoya ou simplesmente “El Puño”, com quem teve um romance na clandestinidade, ela deu à luz no dia 26 de junho, cinco horas depois do parto foi separada do seu bebê e foi assassinada um mês depois.

Mas a história não terminou aí, porque Estela iniciou uma incansável busca pela filha e pelo neto junto às outras centenas de avós que se reuniam na Plaza de Mayo para exigir explicações aos militares. Estava fundado um dos movimentos de luta pelos direitos humanos mais reconhecidos no mundo e que, até segunda-feira, havia encontrado 113 netos.

A jornalista brasileira Gisele Teixeira contou em sua coluna no Blog do Noblat em 2012 uma faceta desconhecida dessas obstinadas senhoras. Com a ajuda de centros de pesquisa científicas de todo o mundo, por conta delas, foi criado o “índice de abuelidad”, um teste que permite chegar a um 99,9% de probabilidade com testes de sangue, antes mesmo do furor dos exames de DNA. “Exigiram a exumação de cadáveres, ajudaram a criar a Equipe Argentina de Antropologia Forense, fundaram o Banco Nacional de Dados Genéticos e, principalmente, ajudaram na descoberta do DNA mitocondrial, tema sobre o qual podem dar até aulas!”, conta Gisele.

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Juan Cadandié, encontrado aos 25 anos

Juan Cabandié recuperou sua identidade em 2004 aos 25 anos. Depois de desconfiar sobre sua origem, pressionou a mãe adotiva, que afinal reconheceu que era filho de desaparecidos. A Associação das Avós da Plaza de Mayo o ajudou a encontrar sua verdadeira família e ele se também se converteu em ativista dos direitos humanos. Atualmente é Deputado Nacional pela Cidade de Buenos Aires.

Na terça-feira foi a vez do neto de Estela, músico como o pai biológico. Também desconfiado de suas origens, o rapaz de 36 anos procurou a associação e os testes confirmaram que se trata do tão buscado Guido Carlotto.

O caso arrebatou o país de uma forma impressionante – absolutamente tudo parecia menor diante da alegria dessa mulher “sequestrada” pela política há mais de três décadas. Os numerosos programas de debate na TV argentina, seja dos canais públicos, seja dos oposicionistas, se esqueceram do caso dos fundos abutres e do default, do indiciamento do Vice-Presidente, da greve dos professores em quatro províncias e na capital, da greve dos bancos, do metrô que vai aumentar para 6 pesos em dezembro, das eleições do ano que vem, etc. Todos os temas ficaram em suspenso, pelo menos por alguns dias.

Uma das primeiras pessoas que ficaram sabendo da notícia, a Presidenta Cristina Kirchner afirmou que “A Argentina é um país um pouco mais justo que ontem” e, diferente de qualquer outra frase que tenha dito nos últimos dez anos, não houve uma réplica irônica nem na boca do povo nas palavras dos cronistas de oposição.

Uma das pouquíssimas unanimidades, talvez a única, do polêmico governo de CFK é a política de direitos humanos. Ainda no governo do marido, a Lei do Ponto Final e da Obediência Devida (uma contraparte da Lei da Anistia brasileira) foi anulada, tornando possível que agentes acusados de terrorismo de Estado fossem processados. Em paralelo, foram promovidas inovadoras políticas, como a criminalização do femicídio e o matrimônio igualitário (o casamento gay).

Sobre o reencontro de Estela Carlotto com o neto, o prêmio Nobel da Paz Pérez Esquivel falou de “reparação”, o Papa se disse “emocionado”; e dos dois dos maiores jogadores da história da Argentina, Messi e Maradona, resumiram o clima da semana:

“Não só o futebol pode nos unir!”

Mas deve ser mesmo só o futebol e o trauma da ditadura que seja capaz de unir esse país, já que em todos os outros temas há uma visão pró-governo e uma visão contra-governo.

Na primeira sessão do Senado presidida pelo Vice Amado Boudou, a oposição simplesmente não foi em protesto. Boudou está indiciado pela justiça pelo affair Ciccone. “Ele nos dá vergonha”, alegou o senador do radicalismo Gerardo Morales, enquanto Luis Juez da Frente Cívica descrevia o incômodo com a mera presença dele:

“Esse incômodo que grande parte da oposição manifesta não tem precedentes na história do Senado!”

O Chefe de Gabinete Jorge Capitanich questionou a atitude da oposição, afirmando que esta submete o governo a insultos, desqualificações permanentes e também a um vazio na comunicação. Quanto ao sumiço, foi taxativo:

“No mês passado também se retiraram com a desculpa de que se estava mudando o regulamento. Hoje, fazem o mesmo. O que eles fazem é utilizar essa desculpa para não debater, com uma perspectiva absolutamente autoritária ou porque não têm argumentos.”

Ele lembrou ainda que Boudou tem sofrido uma “campanha de escárnio” por parte dos meios de comunicação. Verdades ou não, dia sim dia também aparece alguma denúncia contra o Vice Presidente nos jornais e noticiários do país.

O assunto dos fundos abutres também é um desencontro danado. Enquanto o governo joga o “caso” no ventilador, acusando a justiça americana de atuar com parcialidade (em favor dos especuladores) e levando os Estados Unidos à Corte Internacional de Justiça na Haia, meios opositores acusam o governo de ser irresponsável.

Um dos principais colunistas do Clarín, Eduardo Van Der Kooy, escreveu que a Argentina está refém de Cristina e Kicillof:

“A manobra [do governo] implica potencializar um conflito inexplicável e irracional. (…) Cristina e Kicillof estão eufóricos com a luta épica contra os abutres. Entusiasmaram-se com o algumas pesquisas de opinião que haviam melhorado modicamente a imagem presidencial. Se verá por quanto tempo. Apostam na solidariedade verbal que colheram na região e no mundo para continuar com a aventura. [Entretanto], em vários aspectos, essa aventura tem tudo para se assemelhar com aquela que transformou a ditadura na tragédia das Malvinas. A Presidenta disse com desprendimento que jamais pensou em se parecer com o [prócer da independência] José de San Martín. Deveria tomar cuidado para não ficar na história como [o ditador] Leopoldo Galtieri.”

Luis Alberto Romero do La Nación também teceu a relação entre esse conflito e aquela guerra de 1982:

“(…) o governo está colhendo alguns sucesso notáveis. Talvez efêmeros, como os de Galtieri [durante a Guerra das Malvinas] (…) el pegou o assunto dos holdouts como uma ocasião para agitar o nacionalismo e somar um novo inimigo a seu amplo repertório de poderes concentrados que conspiram contra a nossa grandeza”.

A seara política, entretanto, segue bastante discreta, com excessão do ex-Presidente do Banco Central Alfonso Prat-Gay, membro da Frente Ampla UNEN (uma coalizão de partidos à esquerda que inclui o Radicalismo). Mais comedido, lembrou que sempre foi crítico à negociação da dívida de Lavagna e Néstor Kirchner e culpou a Lei Cerrojo pelo imbroglio. A lei estabelece que aqueles que não ingressaram na reestruturação da dívida em 2005 não poderiam fazê-lo nunca mais.

“Com a lei, a Argentina disse ‘entrem agora porque nunca mais vamos pagá-los’. Essa foi uma ideia de Lavagna e foi o que nos levou a essa decisão [do juiz estadunidense Thomas Griesa]”

Prat-Gay, entretanto, concorda com a visão governamental de que o juiz agiu com arbitrariedade.

Até semana que vem!

Briefing: A quem incomoda o governo Nac & Pop?

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Nac & Pop é uma simpática rede de lanchonetes da capital porteña que serve, madrugada a dentro, uma versão a la Argentina do famoso podrão: ricas bondiolas, choripanes hamburguesas con huevo, panceta y queso a preços bastante acessíveis. Para os que curtem uma bebedeira e, por acaso, se sentirem desalentados com o fato de que, por lei, não se vende álcool nos quiosques da cidade depois das cinco da manhã, o Nac & Pop é um refúgio seguro, que conta ainda com uma decoração bastante despojada com caricaturas de ícones argentinos (de Manuel Belgrano ao Che, de Carlos Gardel a Gustavo Ceratti) e com uma trilha sonora estridente só de música nacional.

Esqueça o tango! A Argentina que toca no Nac & Pop nada tem a ver com refinado imaginário que remontam os acordes de Piazzolla. É muito mais provável que você se encontre com as cumbias de Gladys La Bomba Tucumana ou com algum hit do prolífico rock local.

Sabe aquele sujeito que fazia barulho e zoeira na porta da sua casa durante a Copa? Então, ele provavelmente frequenta o Nac & Pop, só toma vinho (em caixa tetrapak) se puder misturá-lo com Fanta ou Coca-Cola e não se beneficiou da afamada prodigiosa educação pública da Argentina. Mas muito diferente do nosso povão, ou pelo menos da maioria dele, é ativo politicamente. Embora engrosse os protestos possivelmente com o uma garrafinha de Fernet à tira colo, entoa palavras de ordem e cantorias que evocam Perón e Evita com intimidade (Brasil, decíme que se siente é apenas uma versão modificada de uma melodia multiuso que é hit nas marchas por aqui). Ele milita em movimentos sociais como a Cámpora, Quebracho, Barrios de Pie e Movimiento Evita ou centrais sindicais, como a CGT – se bobear em mais de um deles.

Esse sujeito (pejorativamente chamado pelas elites argentinas de negro de mierdapibe chorrocroto e por aí vai), categoricamente não quer que a Argentina pague nem um centavo aos fundos abutres.

Eu já fui em diversas manifestações em que essa mensagem foi passada muito claramente. Ontem, nos jardins da Casa Rosada, enquanto se pronunciava em rede nacional a Presidenta Cristina Kirchner, eles estavam lá reforçando esse desejo aos gritos de:

¡Cristina! ¡Cristina! ¡Cristina corazón! ¡Acá tenés los pibes para la liberación!

Muito se fala, sobretudo agora, da “irresponsabilidade argentina” nesse e em diversos casos do relacionamento desse país com o mundo. O tema do momento é, naturalmente, como um déjà vu, a dívida externa. O periódico britânico The Economist destacou o melodrama como um dos ingredientes familiares da eterna batalha do país com os hold-outs; o próprio juiz Thomas Griesa lamentou as expressões “altamente desencaminhadas” do governo, pedindo que a Argentina “tome passos para deixar de difundir informações enganosas”.

Já os meios locais não foram menos mordazes. Eduardo Van De Kooy do Clarín afirmou que [no ato que mencionei anteriormente, ontem na Casa Rosada] Cristina “armou uma coreografia militante para comunicar que a vida continua”; enquanto Carlos Pagni de La Nación alertou para o “alto custo de um capricho ideológico”.

De qualquer maneira, esse é apenas mais um capítulo de uma história diversas vezes marcada pelo perfil voluntarioso desse país. Na Segunda Guerra Mundial, se recusou a abandonar a neutralidade, provocando a ira dos Estados Unidos, que respondeu, segundo o historiador Carlos Escudé, com um informal embargo político e econômico por mais de uma década.

Como base nessa hipótese, bastante documentada e fundamentada, Escudé montou a Teoria do Realismo Periférico que afirma que:

“o dano que uma superpotência hegemônica pode causar a um Estado periférico com que está antagonizado se agrava se, por questões econômicas e geoestratégicas, esse país periférico não for relevante aos interesses vitais dessa superpotência”

Com grande ressonância no Giro Realista da política exterior argentina nos anos 1990, o conselho básico de Escudé era e é de que a Argentina devia, trocando em miúdos, baixar a bola e seguir a cartilha (naquela época isso significava “Consenso de Washington”). Dito e feito.

O problema é que o negro de mierda de que eu tanto falei no início desse briefing não está de acordo com essa proposta e tem no trauma da crise de 2001 um subsídio bastante recente para rejeitá-la e chamar de vende-pátria quem a defende. Ele não dá a mínima para a opinião de The Economist e se sente até orgulhoso quando o FMI critica a política econômica do país, pois se lembra que a primeira dizia que “Carlos Menem foi o melhor presidente da história da Argentina” e que o segundo celebrou o Plano de Convertibilidade (quando um peso valia um dólar) por suas “grandes conquistas”.

E mais: ele vê na figura de Nestor Kirchner um herói nacional, não só porque ele instituiu programas de emergência social numa época terrível, mas porque ele enfrentou os mercados internacionais para aliviar os sacrifícios do povo.

É para essa mistura de orgulho e autovitimização, que tanto se identifica com o ethos argentino, que a Presidenta dirigiu sua mensagem ontem.

“Temos de estar muito unidos, porque vão tentar nos dividir! (…) Nós temos mil coisas para discutir e debater, mas para defender o futuro contra os que querem nos fazer assinar qualquer [acordo], não contem comigo. (…) Sabe qual foi o grande valor dele [Néstor]? Mudar o que nos diziam ser impossível. Diziam que se não fazíamos como nos dizia o FMI, o mundo cairia. Ele disse que não”.

Esse discurso, diversas vezes entrecortado por gritos de “¡Patria sí! ¡Colonia no!”, demonstra a sintonia do governo e de seu projeto oportunamente chamado de “Nacional e Popular” (carinhosamente “Nac & Pop”) com a vontade dessa militância barulhenta e mais coesa do que qualquer outra corrente política argentina.

A desarticulação da oposição aqui é tamanha, que nenhum dos presidenciáveis para as eleições do ano que vem deu as caras para dizer o que faria nessa situação. Nem o grupo mais conservador, o PRO de Maurício Macri, usou os grandes meios de comunicação para dizer que o melhor é pagar os fundos abutres e enfrentar as consequências. Suas críticas são genéricas e apresentam poucas propostas – um pouco como acontece no Brasil – e o motivo é só um: se tomar essa posição, não serão eleitos.

Em que pesem todos os argumentos em contrário, o que se espera da democracia argentina diante desse cenário?

***

Mas a semana na Argentina não foi só de fundos abutres.

Aos 82 anos e há 34 anos no comando da Associação de Futebol Argentina (a CBF dos hermanos) morreu, deixando um legado de uma Copa do Mundo, diversos Mundiais Sub-20 e duas medalhas olímpicas.

Foi alvo de diversas críticas por sua convivência com a Ditadura Militar, desmesurado amor ao poder e fidelidade aos grandes cartolas da FIFA, que atualmente não gozam de muita unanimidade, como Blatter e Havelange.

Embora fosse desafeto do luminar quasi-divino Diego Maradona, sua despedida contou com o carinho de Messi (que interrompeu suas férias para ir ao funeral), o goleiro-herói Romero e outras figuras importantes do futebol argentino.