O Primeiro Teste

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Domingo que vem, os argentinos irão às urnas para escolher, entre os candidatos de seu partido, aquele que disputará a presidência em outubro. Embora ainda não seja um embate direto entre os principais pretendentes ao posto máximo do país, trata-se de um termômetro importante do que vem pela frente, de mesma maneira que aconteceu nas eleições locais de importantes distritos eleitorais, como o da Cidade Autônoma de Buenos Aires, de Córdoba e Salta.

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Algo habrán hecho

Acto apoyo a Cristina

Ninguém sabe muito bem o que será de Cristina quando ela deixar o poder. Seus seguidores mais firmes já lhe deram a conducción do peronismo – uma espécie de ‘líder espiritual’ do movimento que não tem paralelo na política brasileira. Já seus opositores esperam ir à forra depois de dezembro, levando adiante causas judiciais contra ela e sua família, como a do famoso e suposto caso de lavagem de dinheiro no resort de sua propriedade em El Calafate, o Hotesur. Existe o risco também do chamado ‘fogo amigo’, já que não é segredo que seu candidato à presidência Daniel Scioli não é um de seus fieis escudeiros e, para brilhar sozinho, poderia pelo menos lavar às mãos diante de um judiciário hostil à atual Presidenta.

No entanto, o fato é que Cristina Kirchner deixa o poder com uma popularidade recorde desde a volta da Argentina à democracia, tendo a frente uma oposição política fragmentada e monopólios midiáticos que, embora mantenham uma artilharia pesada e permanente contra ela, impossibilitados de mudar o quadro. Além disso, pese alguns revezes econômicos que ocorreram desde o início do seu governo, pode-se dizer que a situação se estabilizou nos últimos seis meses, mesmo com a insistência de um front internacional poderoso contra o seu governo.

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Os Supervisores

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Era uma vez um país da América do Sul em que, depois de anos de governos neo-liberais, elegeu uma liderança de esquerda. Os anos foram passando e vários coleguinhas na vizinhança foram aparecendo e, com a ajuda de um longínquo e voraz companheiro de olhinhos puxados em acelerada fase de crescimento somada a uma crise generalizada entre os ricos primos do norte, nossa liderança de esquerda e seus amigos conseguiram a façanha de enriquecer sem concentrar muito.

De repente, nos idos de 2009, enquanto o resto do mundo parecia um verdadeiro desastre, a imensa península sul-americana se apresentava como o futuro mesmo. Desassossegados intelectuais do norte olhavam para cá embasbacados: Jim O’Neill metia o Brasil no BRIC, Oliver Stone fazia um documentário sobre Chávez, Joseph Stiglitz saudava a maneira argentina de enfrentar crises, os exemplos seguem.

Obviamente, tudo isso se dava sem que perdêssemos completamente o charme de Macondo. Exóticos, indígenas, negros, com elites cuspindo fogo nos editoriais dos próprios meios de comunicação, sem, no entanto, serem capazes de enfrentar os números: crescíamos a quase 6%, as vendedoras do Bloomingdale’s estavam aprendendo português, a Venezuela estava com tanta grana que se dava ao luxo de criar uma rede de TV para dar “a nossa versão do mundo”.

Mas em algum momento os mandatos daqueles líderes de esquerda tinham que terminar – a pátina final de toda a maravilha sul-americana era a democracia -, de modo que havia dois caminhos a seguir: lançar mão de toda aquela popularidade e mudar a Constituição para extender indefinidamente seus mandatos ou eleger um sucessor. Nosso país optou pelo segundo.

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Foi dada a largada!

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O páreo já estava mais ou menos dado faz algum tempo, mas podia ter sido embaralhado pela vontade de Cristina. Entretanto, a mandatária fez exatamente o que está escrito no manual para “ganhar” as eleições no próximo dia 25 de outubro: escolheu seu candidato mais popular, mas com um fiel escudeiro na retaguarda.

Com a aposta dos mais caxias, Florencio Randazzo, fora da parada, as regras do jogo estão mais claras e no melhor estilo Fla-Flu ou Boca-River, como você preferir, foi dado o apito inicial para a sucessão de Cristina.

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♪ ♫ Dizem que sou louco… ♫♪♫

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Um dos traços mais distintivos do zeitgeist argentino é uma certa egolatria napoleônica misturada um toque de quixotismo – uma tal postura desafiadora às injustiças do mundo. Cole essa características em um cenário de turbulências econômicas, polarizações políticas e líderes sem papas na língua, e pronto!

Não digo que eles sejam loucos – no atual cenário político brasileiro, qualquer um de nós que se atreva a jogar a primeira pedra imediatamente adquire um imenso telhado de vidro sobre o nosso lábaro estrelado. Mas, juntando as características que mencionei logo acima, o caldo para uma loucurinha aqui e outra acolá é tão fértil quanto as melhores terras pampeanas.

As últimas semanas foram especialmente ricas nesse sentido.

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3. A Política

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O eixo de Buenos Aires, a numeração de todas as ruas e mesmo a ordenação do metrô está localizado numa linha reta que sai da Casa Rosada, o marco zero da capital argentina. Seguindo pela Avenida de Mayo (na verdade é a Rivadavia, mas não sejamos puristas), se descortina uma das mais belas paisagens urbanas daqui, com prédios magníficos como o Palácio Barolo e o Congresso ao fundo.

Esse caminho é entrecortado pela colossal avenida Nueve de Julio, la más ancha del mundo, o que a torna virtualmente impossível de atravessar de uma.

Não, esse não é outro post de como se encontrar em Buenos Aires. Acontece que, quando você se muda para um lugar novo, acaba se dando conta de algumas coisas que passam corriqueiras na vida dos nativos e corre o risco, inclusive, de inventar situações que não tem nada a ver no fim das contas, como eu me arrisco a fazer aqui.

José de San Martín, libertador da Argentina

José de San Martín, libertador da Argentina

Mas não seria muita coincidência que o eixo da capital comece na antiga aduana, de onde as riquezas da terra eram evadidas na época colonial, gerando uma próspera sociedade criolla nessa margem do Rio da Prata, e que daí, no cruzamento com a rua San Martín (homônima ao Libertador daqui que acabou participando da independência de metade da América Espanhola), desse lugar desague a Avenida de Mayo (homônima à Revolução que deu origem ao país) até que esta cruze mais uma vez com a maior artéria de todas, a Nueve de Julio (a data em que finalmente a Argentina declara a independência da Espanha) até chegar no Congresso, o Parlamento, símbolo da democracia?

Pois bem, eu acho impressionante essa urbanização prestando-se a contar uma história e considerei apropriado começar esse post sobre a política argentina com esse senso de direção, tão Positivista, que respirava o país naqueles idos do fim do século XIX, quando começaram também a surgir alguns dos ícones da cidade como o Teatro Colón e todo o traçado urbano inspirado em Paris.

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Briefing: Nao tá fácil pra ninguém

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Que liderança política estaria “satisfeita” na Argentina de hoje? Difícil saber.

Por um lado o governo vê chegar no horizonte um dezembro que promete não ser dos mais fáceis. As centrais sindicais, como a CTA que marchou com milhares de militantes esses dias pelo centro, já disseram que se algumas de suas reivindicações não forem atendidas (um bônus emergencial para os trabalhadores de AR$ 4 mil e um desconto nos impostos sobre o Aguinaldo – o 13o daqui – por exemplo), vão pegar pesado no final do ano. A central que reune o pessoal dos transportes também anunciou greves gerais e quilombo.

Além disso, o potencial quiprocó interno antecederá os arranjos esperados para janeiros com o Fundos Abutres – uma negociação absolutamente misteriosa que pode selar o triunfo ou a humilhação do governo de Cristina.

Quem poderia talvez estar sorrindo com o cantinho do rosto diante dessa situação seria a oposição, mas nem isso. Conflitos internos estão despedaçando a Frente Amplia UNEN – que foi anunciada com entusiasmo por lideranças políticas no primeiro semestre desse ano.

A primeira debandada de peso (sem trocadilho) foi Elisa “Lilita” Carrió, que vislumbrava um acordo com o conservador PRO de Maurício Macri. Sem conseguir o aval das outras lideranças, saiu atirando:

“É impossível trabalhar com gente medíocre”

Para ela, a oposição deveria se unir contra a máquina poderosa do kircherismo sem preciosismos; e talvez tivesse razão, embora nunca se sabe o que aconteceria depois de uma eventual vitória.

As outras lideranças, agrupadas na tradicional União Cívica Radical, têm uma relação traumática com composições muito complexas, ideologicamente falando. A malfadada Alianza que levou o radical Fernando de la Rúa à presidência em 1999 significou um governo fragmentado e débil que culminou com uma renúncia dois anos depois. Junto com a transição antecipada de Alfonsín em 1989, a experiência deixou o partido marcado pela pecha dos governos inacabados.

Assim, a fugaz promessa da UNEN, que já não conseguia fazer decolar nenhum de seus candidatos, está virtualmente acabada.

Por outro lado, embora Lilita esteja negociando com Maurício Macri do PRO, é muito pouco provável que eles emplaquem uma candidatura consistente para desafiar a Frente pela Vitória (FpV, o partido da presidenta Kirchner).

E o povo?

O deputado da Unidad Popular Cláudio Lozano recentemente me destrinchou uma lista dos incômodos vividos nos últimos 15 meses:

  • mais de 480 mil postos de trabalho fechados, com taxa de desemprego próxima a 11%;
  • deterioração em torno dos 10% do poder aquisitivo dos salários;
  • aumento de 1,5 milhão no número de pobres e de 850 mil de indigentes

Para ele, existe uma noção dentro do governo de que, até o fim do mandato, a normalidade poderá ser mantida, o que leva a uma imobilidade na resolução dessas questões. Lozano não está de acordo:

“Obviamente não há tranquilidade, não só para o mês de dezembro, mas para todo o processo até a mudança de governo. A situação social irá influir muito nessa decisão democrática”

Dizem por aí que essa situação social pode produzir saques aos supermercados em dezembro – o que foi chamado recentemente pelo polêmico Secretário de Segurança Sergio Berni do país de “uma tradição de Natal argentina”.

Até a próxima!

Quem será o próximo? O Mapa Eleitoral da Argentina para 2015

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(((Para informações mais atualizadas, clique aqui)))

Enquanto o Brasil discute essa semana quem estará à frente da presidência no próximo quadriênio, a Argentina se prepara para um dos maiores pleitos em 2015. Trata-se de um processo eleitoral emblemático.

Ao sabor da redemocratização, suas primeiras edições, em 1983 e 1989, foram marcadas pela excessão: o radical Raúl Afonsín é eleito na transição na transição de uma das mais brutais ditaduras e tem seu mandato abreviado por turbulências econômicas para ser substituído por Carlos Menem, que ficaria no poder por dez anos.

Na sequência, volta o radicalismo nas mãos de Fernando de la Rúa que, com dois anos de governo, enfrenta uma imensa crise econômica, institucional, política e por aí segue. Sai fugido da Casa Rosada de helicóptero, fechando o seu governo com a pérola:

“¡Que se vayan todos!”

Antes de que Nestor Kirchner finalmente chegue à presidência, passam por lá sem esquentar a cadeira três criaturas que sucumbem sucessivamente. Assim, se inaugura o período K, por alguns chamada de “la década ganada“, por outros de “la otra década perdida“.

Nestor conseguiu eleger a esposa por capitalizar a normalização do país; Cristina conseguiu se reeleger capitalizando a retomada do crescimento e a geração de empregos. Entretanto, seu segundo mandato foi um período de radicalização do modelo, com enfrentamento aberto contra a mídia conservadora e os fundos abutres (só para ficar nos casos mais óbvios) e a introdução de medidas heterodoxas contra os revezes econômicos do país, como as restrições à compra de dólares e às importações, além de controle de preços, sem que isso impedisse taxas de inflação que deixam os argentinos de cabelo em pé.

Assim, o pleito de 2015 será também um grande plebiscito referente ao modelo que terá como pano de fundo a radicalização, porque nesse país não existem tons de cinza – para alguns, o kirchnerismo foi uma tragédia; para outros, uma redenção.

Nesse marco, se apresentam pelo menos quatro forças políticas, a saber:

Frente para la Victoria (FpV)

fpvO Kirchnerismo logrou formar uma base sólida no Congresso Nacional que consegue aprovar qualquer projeto do governo sem contratempos, o que favoreceu ao aprofundamento do modelo. O projeto inicial era lançar Amado Boudou para a sucessão, uma fórmula que acabou sendo enfraquecida pelas numerosas suspeitas de corrupção que correm na justiça. Desde então, se apresentaram o atual Chefe de Gabinete Jorge Capitanich (equivalente à nossa Casa Civil), o Ministro do Interior Florencio Randazzo, o governador da Província de Buenos Aires Daniel Scioli e, mais recentemente, o Ministro da Economia Axel Kicillof.

Desses, o único com projeção nacional é Scioli que, entretanto, é o representante mais ‘rebelde’ do kirchnerismo, já que tem claras intenções de alçar voo solo. Nos últimos dias, se reaproximou de seu partido, fazendo coro aos apoiadores da presidenta, mas ainda gera incertezas no núcleo duro do modelo.

Assim, a escolha ainda está indefinida

Frente Renovador

Sergio-Massa-elecciones-2013-2015A maior dissidência do FpV foi liderada pelo político bonaerense Sérgio Massa, ex-Chefe de Gabinete e atual deputado federal. Acusado de oportunista, desbancou os kirchneristas nas eleições legislativas de 2013 e propõe ajustes firmes no modelo, sem, entretanto, especificar quais ajustes seriam estes. Como força no maior colégio eleitoral do país, a Província de Buenos Aires, tem pouca experiência administrativa (foi apenas prefeito da pequena municipalidade de Tigre).

Frente UNEN

sanzNum evento espetacular em meados desse ano, foi lançada a Frente UNEN, uma coalizão de tradicionais forças políticas de centro-esquerda como Elisa Carrió, Pino Solanas, os dissidentes Prat-Gay e Martín Lousteau. Além do combate à inflação, prometem dirimir a “herança perversa” da corrupção”. Seu maior expoente para a candidatura presendencial é Ernesto Sanz, um membro tradicional da UCR.

Pesa contra a Frente UNEN a pouca homogeneidade do bloco, que desde já vem apresentando fissuras e o fato de que os últimos presidentes de sua maior força política (a UCR de Raúl Alfonsín y De la Rúa) nunca terminaram seus mandatos.

PRO

Mauricio-Macri-PPO partido criado pelo Chefe de Governo da capital argentina Maurício Macri é, sem dúvida, a oposição frontal ao governo de Cristina Kirchner. Odiado pelos movimentos sociais em Buenos Aires, por suas políticas na educação e duras remoções, realizou uma boa gestão no campo dos transportes com a criação do Metrobus e das ciclovias, além de ter comandado a revitalização de áreas como Barracas (ainda em processo).

Pela pouca projeção nacional, dificilmente conseguirá vencer sozinho e, por isso, vem tentando se aproximar de lideranças da Frente UNEN ou da Frente Renovador, embora seu caráter neoliberal tenha grande rejeição nesses agrupamentos.

Frente de Izquierda

pitrolaDefensores de reformas mais profundas das que realizaram os kirchneristas, associam Cristina ao mercado financeiro e a acusam de não prestar atenção suficiente às demandas dos trabalhadores. Exigem o fim do pagamento da dívida externa até que se resolva a chamada “dívida social pendente”. Ainda não sinalizaram com um candidato para o pleito de 2015, mas têm no ex-piqueteiro Nestor Pitrola uma de suas maiores lideranças.

Naturalmente, ainda não existem nem candidaturas oficializadas nem pesquisas eleitorais, mas a corrida já começou. Pesquisas informais e internas do partido oficialista revelam que cerca de 30% dos apoiadores de Cristina (o chamado ‘núcleo duro’) votariam em qualquer candidato que ela apoiasse; entretanto, um em cada dez desses eleitores confessou que poderia optar por Massa de acordo com a situação.

Os especialistas daqui dizem que os resultados das eleições no Brasil terão um grande impacto por aqui. De acordo com o especialista Julio Gambina, “o Brasil está nos planos de todos os candidatos”, embora não esteja claro para que objetivo. “Uma integração Brasil-Argentina deve ser crítica à hegemonia capitalista internacional”.

Briefing: O Inimigo?

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A segunda-feira nem bem dava as caras direito e mais um quilombo se armava na Argentina, já que a edição do Clarín trazia uma entrevista do Encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires Kevin Sullivan em que, com bastante desenvoltura, desvelou muitas opiniões sobre o conflito da Argentina com os tais fundos abutres.

Atualmente desempenhando o cargo de representante máximo dos EUA por aqui, já que Washington tarda em nomear um embaixador (dizem que é retaliação), Sullivan afirmou que seu país “não apoiará o debate nas Nações Unidas porque não [lhes] parece o âmbito para encontrar uma solução eficiente”, e também porque “o mecanismo criaria incertezas”.

Nenhuma novidade. Desde que a Argentina decidiu levar aos órgãos multilaterais a questão da restruturação das dívidas soberanas como a OEA e a ONU, sempre angariando o apoio da maioria, os Estados Unidos votaram contra.

Mas ele não parou por aí e mencionou uma palavrinha que provocou a ira do governo argentino:

“É importante que a Argentina saia do default o quanto antes para poder retornar ao caminho do crescimento econômico sustentável e atrair os investimentos de que necessita”

Foi a primeira vez que um funcionário do governo dos Estados Unidos falou em default, mesmo que a Argentina venha questionando essa situação. Na lógica da Casa Rosada, se o país tem dinheiro para pagar, realizou o pagamento e teve o depósito bloqueado no Banco de Nova York por uma decisão de um juiz americano, isso não se caracterizaria como um default, senão um problema técnico da praça financeira estadunidense.

Em dura nota emitida no dia seguinte, a Chancelaria afirmou que:

“[As palavras do diplomata] não têm nenhum valor fatídico e, sim, coincidem com a postura dos fundos abutres em contraposição aos interesses dos 92,4% de credores que aceitaram a restruturação da dívida”.

De acordo com o governo, o país tanto tem fundos e vontades de realizar seus pagamentos que aprovou no Congresso a chamada Lei do Pagamento Soberano da Dívida Externa para driblar os problemas técnicos da praça financeira de Nova York.

Prosseguindo, a nota afirma que a Argentina deplora (palavra fortíssima nos meios diplomáticos) que os EUA não tenham aceito a jurisdição da Corte Internacional de Haia para resolver a questão “segundo critérios legais, equitativos e justos” com juízes independentes; e provocou:

“Os EUA tampouco aceitam a jurisdição da Corte Inter-americana e da Corte Penal Internacional em temas vinculados aos direitos humanos”

Por fim, ameaçou com as mais severas medidas se “esse tipo de intromissão nos assuntos internos” voltarem a se repetir, lembrando que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

De fato, é pouco comum ver entrevistas de diplomatas em jornais do país onde estão em serviço (sobretudo um jornal claramente de oposição) dando recomendações dessa natureza (sobretudo num tema tão sensível na agenda bilateral), pois influenciar a opinião pública local pode ser considerado uma intromissão em assuntos internos.

Para os críticos do governo, trata-se de mais um capítulo na tendência ao conflito do governo de Cristina Kirchner. Em entrevista ao Infobae, o ex-Vice-Chanceler Andrés Cisneros analisou a questão:

“A declaração de Sullivan não contém uma receita ou indicação de uma maneira em que o país estrangeiro pretenda nos ‘ensinar’ como exercer nossa soberania. Ele simplesmente enuncia um desejo de boa vontade com o qual é difícil não coincidir: sair do default, o que é o objetivo de todos os argentinos. (…) É preciso evitar que um caso como este se converta em outro ‘mini-round’ de um ‘Braden-Perón’ artificialmente criado”

Ele se referia à histórica disputa entre o Presidente argentino e o diplomata estadunidense Spruille Braden, que, na ‘defesa dos interesses daquele país’, não economizou intromissões e conspirações contra o governo.

No diário La Nación, o colunista Martín Dinatale cunhou a atitude do Palácio San Martin (sede da Chancelaria argentina) de “a diplomacia da sobreatuação”:

“Será que Cristina não aprendeu suficientemente aquela frase de Perón que dizia que ‘do ridículo não se retorna’? A diplomacia argentina liderada pelo kirchnerismo faz tempo é regida pelas normas da política doméstica. Os gestos externos são dirigidos ao público local.”

Mas o governo não terminou por aí. Na quarta-feira, em entrevista à uma radio, o Ministro da Economia afirmou que as declarações de Sullivan e a desvalorização da cotação paralela da moeda (o chamado dólar blue) não são coincidências, mas fazem parte de um plano de cinco pontos elaborado pelos fundos abutres para desestabilizar a Argentina. Seriam eles:

  1. Atacar a moeda para forçar a desvalorização
  2. Atacar a pessoa da Presidenta
  3. Impedir o pagamento local da dívida nos próximos vencimentos
  4. Bloquear o financiamento do país
  5. Esperar 2016 (quando o país terá um novo mandatário)

E, por fim, ontem a Presidenta Cristina relacionou a limitação na venda de passagens da American Airlines com esse suposto ataque ao governo e ao país.

Essa semana, a companhia aérea estadunidense restringiu a compra de suas passagens a 90 dias de prazo – ou seja, um argentino atualmente não pode comprar uma passagem para Miami com data de janeiro de 2015. De acordo com o La Nación, essa medida estaria relacionada às restrições do câmbio (o chamado cepo cambiario‘), já que os operadores não querem reter pesos com medo da desvalorização.

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Em sua conta no Twitter e Facebook (a Presidenta é bastante afeita às redes sociais), Cristina disparou contra a voadora.

“Não existe nenhum tipo de restrição para o pagamento de passagens e pacotes turísticos com divisas. (…) Que não fiquem dúvidas que [eles] estão querendo gerar, através de mentiras, expectativas negativas e ataques especulativos à nossa moeda.

A presidenta também citou as declarações de Sullivan, os tais cinco pontos anteriormente citados por Kicillof e, por fim, fechou o relato com chave ouro:

“A partir de dezembro de 2013, James Albaugh, a quem não tenho o prazer de conhecer, tornou-se diretor da American Airlines. (…) Ele é o assessor principal do The Blackstone Group LP, um dos mais importantes fundos de investimento financeiros detentor de títulos da dívida argentina. Como eu digo sempre: Se joga com tudo. E na Argentina, mais do que em qualquer outro país”

Saindo um pouco desses qüiproquós entre Estados Unidos e Argentina, os analistas daqui continuam demonstrando preocupação com uma eventual vitória de Marina Silva nas eleições presidenciais brasileiras, como antecipei em artigo anterior. Em artigo para Buenos Aires Herald, Carolina Thibaud afirmou que esse resultado pode trazer consequências importantes para a América Latina e, sobretudo para a Argentina, com quem o país manteria uma “paciência estratégica”:

“A ambientalista e evangélica tem sugerido que o tempo da ‘paciência estratégica’ com a Argentina terminaria rapidamente se ela ganhasse a presidência. (…) Apesar da pressão das elites industriais do Brasil por uma postura mais dura com relação à Argentina, Rousseff tem sido discutivelmente precavida em seus negócios com Buenos Aires, ainda que o protecionismo argentino tenha muitas vezes trabalho contra a integração regional e impedido o Mercosul de avançar como bloco unificado.

“Em seu manifesto de campanha, Marina defendeu mais integração com a Aliança do Pacífico e a ideia de uma solução de duas velocidades para o Mercosul, onde o Brasil, o Uruguai e o Paraguai poderiam assinar Acordos de Livre Comércio com a União Europeia, por exemplo, mesmo se a Argentina se recusar”

No mesmo artigo, entretanto, o analista de política internacional da Universidad de San Andrés Federico Merke destacou que Marina teria uma boa relação tanto com o candidato à presidência da Argentina Mauricio Macri (conservador) e Sérgio Massa (um ex-kirchnerista arrependido):

“Os assessores da brasileira e dos dois candidatos pedem por mais liberalização”

Daí, uma pergunta não cala para mim: na visão de CFK e seus correligionários, seria Marina Silva uma candidata abutre?

Até semana que vem!

 

Briefing: ¡Adiós, Cerati!

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Quando começou a semana, todos estavam com os olhos e ouvidos voltados para o que já se estava chamando de “súper-miércoles“, a quarta-feira em que o Senado de la Nación votaria dois projetos altamente controversos: a lei do abastecimento e a lei do pagamento soberano. Mas quando os jornais já exibiam as capas com louros ou críticas aos resultados alcançados pelo governo, foi anunciada uma notícia terrível que calou todas as outras: morreu Gustavo Cerati, vocalista do Soda Stereo.

Desconhecido pela maioria no Brasil (que não está muito acostumada a ouvir música em espanhol), o Soda conquistou uma legião de seguidores fieis com letras inteligentes e uma mistura de diferentes vertentes do rock. Depois Cerati seguiu uma carreira solo também com bastante sucesso, até sofrer um AVC no meio de um show em Caracas na Venezuela que o deixou em coma por 4 anos. A agonia acabou essa semana.

Nota pessoal: Antes de vir morar em Buenos Aires, pesquisei músicas argentinas para embalar meus sonhos e expectativas. Tanto o Soda quanto o Cerati solo foram hits fundamentais dessa pré-estreia. Devo confessar que as imagens evocadas em ‘Ciudad de la Furia’ (Buenos aires se ve tan susceptible / Es el destino de furias lo que en sus caras persiste) me causava um misto de apreensão e empolgação. Quem não espera uma intensidade dessas às vésperas de uma aventura dessas?

Na TV e nas rádios, suas músicas eclipsaram tudo. O povo daqui, com um gosto todo especial para o drama, chora com vontade a morte do ídolo que embalou a sua juventude. Sua contraparte mais adequada no Brasil, como lembrou a jornalista brasileira também radicada aqui Márcia Carmo, seria o Cazuza. Se você ainda não conhece, aí vai uma das minhas favoritas:

De qualquer maneira, falemos da tal da super quarta-feira, né? Afinal, o governo conseguiu passar no Senado duas leis que causaram grande debate no país.

A primeira foi a Lei do Pagamento Soberano, que propõe a transferencia dos títulos da praça de Nova York (e, por isso, sob jurisdição de Thomas Griesa) para a praça de Buenos Aires ou da França. A alternativa europeia apareceu de última hora devido temores de que a restruturação não teria muita adesão se ficasse concentrada localmente. Além disso, acatando a uma velha bandeira das esquerdas daqui, a lei cria uma Comissão Permanente Bicameral que investigará e fará o seguimento de toda a dívida pública argentina contraída desde 1976.

A lei foi aprovada pela abrumadora maioria governista no Senado, mas contou com a oposição de basicamente todo o resto, desde a Frente UNEN (uma ampla coalizão de oposição que anda bastante fissurada nos últimos tempos) até o PRO de Mauricio Macri – que também fez de tudo para que a sessão não fosse presidida por Amado Boudou, que atualmente está processado por casos de corrupção.

Acusada pelo economista Fernando Mattos de “não aportar nada de inteligente a apenas obstruir debate”, os opositores dizem que o governo está fazendo mais uma gambiarra que nada resolve em prejuízo da já seriamente deteriorada reputação argentina nos mercados internacionais. Alfonso Prat-Gay, da UNEN, afirmou:

“Este governo nunca encara a questão de fundo e não se pode viver a vida inteira à margem da lei, sobretudo, se estamos falando de uma jurisdição que a Argentina elegeu para dirimir seu problema”

Ele, apesar de não concordarem com a sentença do juiz Griesa com relação aos fundos abutres, entendem que o país ofereceu emitir os títulos sob a lei americana justamente pela suposta pouca segurança jurídica que poderia ser oferecida pela Argentina. Macri do PRO concorda:

“Eles tomam medidas que pioram a situação e tornam mais agudas a recessão. Não vamos aplaudir mais um default como o de 2002”

Já a Lei do Abastecimento, que substitui uma homônima de 1974, estabelece mecanismos de intervenção do Estado, ainda que esclareça que haverá compensações às empresas prejudicadas e se restrinja às grandes empresas (micro, pequenas e médias ficaram de fora). As intervenções, como a fixação de margens de utilidade, preços de referência, níveis máximos e mínimos de preços), deverão ocorrer somente mediante autorização judicial.

Nesse caso, a oposição afirma que a Argentina está indo pelo caminho da Venezuela, onde o resultado foi desabastecimento e ainda mais inflação. Em duro editorial, o jornal La Nación cunhou o nome Argenzuela para descrever uma situação de crescente intervenção estatal na economia, e em outro, disse que este se trata de um governo dos piores:

“O desprezo do governo nacional pela liberdade de expressão, as instituições, a independência da justiça, sua política comercial arbitrária, sua política diplomática conflitiva e que não leva a nada e sua dependência do clientelismo voraz são contrários ao diálogo e à busca dos consensos próprios de uma democracia que se entenda como progressista e moderna”

O governo, por sua vez, afirma que a lei protege não só consumidores, mas também os pequenos e médios empresários que compram num atacado “dominado por grupos concentrados”. O Chefe de Gabinete Jorge Capitanich rebateu as críticas da oposição:

“Os grupos opositores empresariais ou frentes eleitorais pretendem invalidar a aplicação desta norma a partir de uma visão negativa de estímulos ao emprego e ao investimento”

Enquanto o governo pisa o acelerador em suas medidas pouco ortodoxas, seguem insinuações de corrupção, sobretudo agora que foram divulgados dados do patrimônio dos principais líderes políticos do país. O de Cristina teria subido 30%, o de fulano 40%, o de ciclano 50%. Os dados abundam, mas não passam muito disso.

E, no meio de tudo isso, o salário mínimo aumentou 31%, o que, se visto pelos níveis oficiais de inflação está de acordo, mas se visto pelas medições informais (cerca de 40% desde o início do ano), simplesmente não alcançam.

Como se pode ver, existem duas argentinas que não se comunicam. Trocam acusações e se presumem do lado da razão sempre.

Nesse fogo cruzado, só uma copa do mundo ou a morte de um ícone é capaz de gerar consensos. Gustavo Cerati gerou o consenso da semana – dá uma olhada nas capaz de La Nación, Página/12, Clarín e Telam: estão todos com ele.

Que descanse em paz.