O Roteiro de Uma Boa Causa

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Ontem a Argentina acordou como se tivesse se preparando para uma festa. Nos telejornais e programas de debate à tarde, só se falava do tal evento – o fenômeno ‘Ni Una Menos’ -, mas era nas redes sociais que o negócio explodia. Milhares de hashtags, fotos de adesão; muitos comentários, uns de apoio total ou com alguma ressalva, mas todos com um clima de “Eu vou!” que, no Brasil, é muito comum na época do Rock in Rio ou Lollapalooza.

De pensar que esse burburinho (salutar sobre qualquer ponto de vista) começou naquela horripilante história da menina grávida assassinada pelo namorado!, porque, se num primeiro momento parecia que estávamos diante de mais um material sangrento para alimentar o fugaz sensacionalismo dos tabloides, é admirável observar que ganhou vulto de verdade no país na medida em que se despersonalizou. Ou seja, depois de três semanas, a bela e sinistra imagem de Chiara foi se multiplicando no rosto de tantas jovens vítimas de crime de ódio e gerando um debate sobre o tema maior que é o feminicídio. É interessante percorrer esse caminho.

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A Argentinização do Brasil

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Ontem (13) no Brasil foi dia de manifestações de apoio ao governo de Dilma Rousseff. Debilitado por uma chuva de denúncias, por uma economia trôpega e, ainda, por uma dificuldade de comunicar-se (ao menos, com uma determinada parcela da população), o PT logrou levar um número X de pessoas a pontos-chave de diversas capitais do país para reagir à imolação do Judas que vem sofrendo pelo menos desde a posse da Presidenta.

Na redes sociais, a hashtag #Dia13DiadeLuta vinha acompanhada de imagens de uma onda vermelha entusiasmada e confiante. O perfil de Alexandre Padilha, candidato petista derrotado ao governo de São Paulo na eleições de 2015, falava de pelo menos 50 mil pessoas na Avenida Paulista; mas sugeria que o número poderia chegar até a casa dos 100 mil. No Rio de Janeiro, a imagem da emblemática Cinelândia lotada também dava conta de asseverar: o ato foi um verdadeiro sucesso!

Entretanto, não se tratou de uma interpretação unânime. Para o jornal O Globo, foram mil pessoas no Rio, 12 mil em São Paulo – ao redor de 33 mil em 24 capitais. Ou seja, uma média de 24 estádios vazios no país inteiro em que, de acordo com a Folha, se defendeu Dilma e se criticou o governo (?!). Essas manchetes vieram acompanhadas de dados contundentes sobre o que virá amanhã (15), quando será a vez dos insatisfeitos: 15 mil policiais serão recrutados, a estrela máxima do pop nacional Wanessa Camargo cantará o hino nacional, possivelmente acompanhada do craque Ronaldinho Fenômeno. Se tudo der certo, o #15deMarco será uma versão elevada à potência do “surpreendente” panelaço do domingo passado.

Sim, estamos falando do mesmo panelaço que, de acordo com alguns blogs afins do governo, só foi escutado no créme-de-la-créme da alta sociedade paulista e carioca.

Se você fizer uma retrospectiva dos posts desse Passa em Buenos Aires em que cobri a situação política da Argentina, verá que em diversos momentos demonstrei o meu desconcerto pelas duas versões de país diametralmente opostas apresentadas de um lado pela dupla dinâmica Clarín e La Nación e, de outro, pela Telam (agência oficial de notícias), Página/12 e mais uma tropa de anões obstinados.

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O Misterioso Caso Nisman

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Uma pequena pausa no panorama geral que estou fazendo sobre a Argentina para o ano eleitoral para destrinchar um assunto que já está dando o que falar e que tem o potencial de uma bomba! Morreu o fiscal (tipo um procurador na hierarquia jurídica argentina) Alberto Nisman em condições misteriosíssimas.

Encontrado morto no banheiro de seu apartamento em Puerto Madero, ele havia retornado às capas dos jornais semana passada com denúncias gravíssimas sobre o envolvimento pessoal de Cristina Kirchner e alguns funcionários do mais alto escalão do governo numa estratégia de encobrimento de um atentado terrorista ocorrido há 20 anos – uma trama digna de 007.

Mas, acredite se puder, essa é apenas a ponta de um iceberg recheado de intrigas, contradições e ligações perigosas.

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3. A Política

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O eixo de Buenos Aires, a numeração de todas as ruas e mesmo a ordenação do metrô está localizado numa linha reta que sai da Casa Rosada, o marco zero da capital argentina. Seguindo pela Avenida de Mayo (na verdade é a Rivadavia, mas não sejamos puristas), se descortina uma das mais belas paisagens urbanas daqui, com prédios magníficos como o Palácio Barolo e o Congresso ao fundo.

Esse caminho é entrecortado pela colossal avenida Nueve de Julio, la más ancha del mundo, o que a torna virtualmente impossível de atravessar de uma.

Não, esse não é outro post de como se encontrar em Buenos Aires. Acontece que, quando você se muda para um lugar novo, acaba se dando conta de algumas coisas que passam corriqueiras na vida dos nativos e corre o risco, inclusive, de inventar situações que não tem nada a ver no fim das contas, como eu me arrisco a fazer aqui.

José de San Martín, libertador da Argentina

José de San Martín, libertador da Argentina

Mas não seria muita coincidência que o eixo da capital comece na antiga aduana, de onde as riquezas da terra eram evadidas na época colonial, gerando uma próspera sociedade criolla nessa margem do Rio da Prata, e que daí, no cruzamento com a rua San Martín (homônima ao Libertador daqui que acabou participando da independência de metade da América Espanhola), desse lugar desague a Avenida de Mayo (homônima à Revolução que deu origem ao país) até que esta cruze mais uma vez com a maior artéria de todas, a Nueve de Julio (a data em que finalmente a Argentina declara a independência da Espanha) até chegar no Congresso, o Parlamento, símbolo da democracia?

Pois bem, eu acho impressionante essa urbanização prestando-se a contar uma história e considerei apropriado começar esse post sobre a política argentina com esse senso de direção, tão Positivista, que respirava o país naqueles idos do fim do século XIX, quando começaram também a surgir alguns dos ícones da cidade como o Teatro Colón e todo o traçado urbano inspirado em Paris.

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2015: o ano das grandes expectativas

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Como já é bem sabido, o ano novo em Buenos Aires não chega a ser um agito! Com a presença bastante expressiva de brasileiros ou desavisados ou determinados a fugir do tumulto, a cidade conta com opções discretas e pouco efusivas como um show de tango aqui, uma queima de fogos borocoxô acolá.

De agora até meados de fevereiro, os porteños que podem se refugiam do calor intenso no litoral daqui, do Uruguai ou do Brasil, deixando a capital-megalópole com uma calma pouco comum. Entretanto, não dá para pensar num país em férias, alheio aos acontecimentos, suavemente disfrutando das praias sul-americanas; pois o ano de 2015 protagonizará uma das transições mais importantes da democracia argentina, a ser apimentada por desafios econômicos e sociais substanciais.

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Justiça para os desaparecidos: lá e cá

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O 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, pode ganhar ainda mais substância com dois acontecimentos, um no Brasil e outro na Argentina: no primeiro, finalmente o país ganhou um relatório com as conclusões da Comissão da Verdade sobre violações cometidas entre 1946 e 1984, sobretudo durante a Ditadura Civil-Militar iniciada em 1984; enquanto no segundo, o ex-tenente Ernesto Barreiro quebrou o chamado Pacto de Silêncio entre os militares indiciados por crimes de lesa-humanidade e indicou locais de sepultamento ilegal dos desaparecidos da ditadura argentina entre 1978 e 1983.

No entanto, como a maioria dos feitos nessa seara, ainda é cedo para comemorar. A data é celebrada pois foi quando, em 1948, todos os países do mundo assinaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Também é lembrada porque, 38 anos depois, a mesma ONU proibiu a tortura em uma convenção que teve especial significado para os países da América Latina ainda em processo de redemocratização. Embora sejam inegáveis os avanços que os dois documentos representaram, também é desolador perceber como a maioria dos países do mundo seguem cometendo graves violações, como fomos relembrados na última semana através de um informe do Congresso dos Estados Unidos sobre aquelas cometidas pela CIA desde os atentados ao World Trade Center.

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Briefing: Nao tá fácil pra ninguém

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Que liderança política estaria “satisfeita” na Argentina de hoje? Difícil saber.

Por um lado o governo vê chegar no horizonte um dezembro que promete não ser dos mais fáceis. As centrais sindicais, como a CTA que marchou com milhares de militantes esses dias pelo centro, já disseram que se algumas de suas reivindicações não forem atendidas (um bônus emergencial para os trabalhadores de AR$ 4 mil e um desconto nos impostos sobre o Aguinaldo – o 13o daqui – por exemplo), vão pegar pesado no final do ano. A central que reune o pessoal dos transportes também anunciou greves gerais e quilombo.

Além disso, o potencial quiprocó interno antecederá os arranjos esperados para janeiros com o Fundos Abutres – uma negociação absolutamente misteriosa que pode selar o triunfo ou a humilhação do governo de Cristina.

Quem poderia talvez estar sorrindo com o cantinho do rosto diante dessa situação seria a oposição, mas nem isso. Conflitos internos estão despedaçando a Frente Amplia UNEN – que foi anunciada com entusiasmo por lideranças políticas no primeiro semestre desse ano.

A primeira debandada de peso (sem trocadilho) foi Elisa “Lilita” Carrió, que vislumbrava um acordo com o conservador PRO de Maurício Macri. Sem conseguir o aval das outras lideranças, saiu atirando:

“É impossível trabalhar com gente medíocre”

Para ela, a oposição deveria se unir contra a máquina poderosa do kircherismo sem preciosismos; e talvez tivesse razão, embora nunca se sabe o que aconteceria depois de uma eventual vitória.

As outras lideranças, agrupadas na tradicional União Cívica Radical, têm uma relação traumática com composições muito complexas, ideologicamente falando. A malfadada Alianza que levou o radical Fernando de la Rúa à presidência em 1999 significou um governo fragmentado e débil que culminou com uma renúncia dois anos depois. Junto com a transição antecipada de Alfonsín em 1989, a experiência deixou o partido marcado pela pecha dos governos inacabados.

Assim, a fugaz promessa da UNEN, que já não conseguia fazer decolar nenhum de seus candidatos, está virtualmente acabada.

Por outro lado, embora Lilita esteja negociando com Maurício Macri do PRO, é muito pouco provável que eles emplaquem uma candidatura consistente para desafiar a Frente pela Vitória (FpV, o partido da presidenta Kirchner).

E o povo?

O deputado da Unidad Popular Cláudio Lozano recentemente me destrinchou uma lista dos incômodos vividos nos últimos 15 meses:

  • mais de 480 mil postos de trabalho fechados, com taxa de desemprego próxima a 11%;
  • deterioração em torno dos 10% do poder aquisitivo dos salários;
  • aumento de 1,5 milhão no número de pobres e de 850 mil de indigentes

Para ele, existe uma noção dentro do governo de que, até o fim do mandato, a normalidade poderá ser mantida, o que leva a uma imobilidade na resolução dessas questões. Lozano não está de acordo:

“Obviamente não há tranquilidade, não só para o mês de dezembro, mas para todo o processo até a mudança de governo. A situação social irá influir muito nessa decisão democrática”

Dizem por aí que essa situação social pode produzir saques aos supermercados em dezembro – o que foi chamado recentemente pelo polêmico Secretário de Segurança Sergio Berni do país de “uma tradição de Natal argentina”.

Até a próxima!

Quem será o próximo? O Mapa Eleitoral da Argentina para 2015

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(((Para informações mais atualizadas, clique aqui)))

Enquanto o Brasil discute essa semana quem estará à frente da presidência no próximo quadriênio, a Argentina se prepara para um dos maiores pleitos em 2015. Trata-se de um processo eleitoral emblemático.

Ao sabor da redemocratização, suas primeiras edições, em 1983 e 1989, foram marcadas pela excessão: o radical Raúl Afonsín é eleito na transição na transição de uma das mais brutais ditaduras e tem seu mandato abreviado por turbulências econômicas para ser substituído por Carlos Menem, que ficaria no poder por dez anos.

Na sequência, volta o radicalismo nas mãos de Fernando de la Rúa que, com dois anos de governo, enfrenta uma imensa crise econômica, institucional, política e por aí segue. Sai fugido da Casa Rosada de helicóptero, fechando o seu governo com a pérola:

“¡Que se vayan todos!”

Antes de que Nestor Kirchner finalmente chegue à presidência, passam por lá sem esquentar a cadeira três criaturas que sucumbem sucessivamente. Assim, se inaugura o período K, por alguns chamada de “la década ganada“, por outros de “la otra década perdida“.

Nestor conseguiu eleger a esposa por capitalizar a normalização do país; Cristina conseguiu se reeleger capitalizando a retomada do crescimento e a geração de empregos. Entretanto, seu segundo mandato foi um período de radicalização do modelo, com enfrentamento aberto contra a mídia conservadora e os fundos abutres (só para ficar nos casos mais óbvios) e a introdução de medidas heterodoxas contra os revezes econômicos do país, como as restrições à compra de dólares e às importações, além de controle de preços, sem que isso impedisse taxas de inflação que deixam os argentinos de cabelo em pé.

Assim, o pleito de 2015 será também um grande plebiscito referente ao modelo que terá como pano de fundo a radicalização, porque nesse país não existem tons de cinza – para alguns, o kirchnerismo foi uma tragédia; para outros, uma redenção.

Nesse marco, se apresentam pelo menos quatro forças políticas, a saber:

Frente para la Victoria (FpV)

fpvO Kirchnerismo logrou formar uma base sólida no Congresso Nacional que consegue aprovar qualquer projeto do governo sem contratempos, o que favoreceu ao aprofundamento do modelo. O projeto inicial era lançar Amado Boudou para a sucessão, uma fórmula que acabou sendo enfraquecida pelas numerosas suspeitas de corrupção que correm na justiça. Desde então, se apresentaram o atual Chefe de Gabinete Jorge Capitanich (equivalente à nossa Casa Civil), o Ministro do Interior Florencio Randazzo, o governador da Província de Buenos Aires Daniel Scioli e, mais recentemente, o Ministro da Economia Axel Kicillof.

Desses, o único com projeção nacional é Scioli que, entretanto, é o representante mais ‘rebelde’ do kirchnerismo, já que tem claras intenções de alçar voo solo. Nos últimos dias, se reaproximou de seu partido, fazendo coro aos apoiadores da presidenta, mas ainda gera incertezas no núcleo duro do modelo.

Assim, a escolha ainda está indefinida

Frente Renovador

Sergio-Massa-elecciones-2013-2015A maior dissidência do FpV foi liderada pelo político bonaerense Sérgio Massa, ex-Chefe de Gabinete e atual deputado federal. Acusado de oportunista, desbancou os kirchneristas nas eleições legislativas de 2013 e propõe ajustes firmes no modelo, sem, entretanto, especificar quais ajustes seriam estes. Como força no maior colégio eleitoral do país, a Província de Buenos Aires, tem pouca experiência administrativa (foi apenas prefeito da pequena municipalidade de Tigre).

Frente UNEN

sanzNum evento espetacular em meados desse ano, foi lançada a Frente UNEN, uma coalizão de tradicionais forças políticas de centro-esquerda como Elisa Carrió, Pino Solanas, os dissidentes Prat-Gay e Martín Lousteau. Além do combate à inflação, prometem dirimir a “herança perversa” da corrupção”. Seu maior expoente para a candidatura presendencial é Ernesto Sanz, um membro tradicional da UCR.

Pesa contra a Frente UNEN a pouca homogeneidade do bloco, que desde já vem apresentando fissuras e o fato de que os últimos presidentes de sua maior força política (a UCR de Raúl Alfonsín y De la Rúa) nunca terminaram seus mandatos.

PRO

Mauricio-Macri-PPO partido criado pelo Chefe de Governo da capital argentina Maurício Macri é, sem dúvida, a oposição frontal ao governo de Cristina Kirchner. Odiado pelos movimentos sociais em Buenos Aires, por suas políticas na educação e duras remoções, realizou uma boa gestão no campo dos transportes com a criação do Metrobus e das ciclovias, além de ter comandado a revitalização de áreas como Barracas (ainda em processo).

Pela pouca projeção nacional, dificilmente conseguirá vencer sozinho e, por isso, vem tentando se aproximar de lideranças da Frente UNEN ou da Frente Renovador, embora seu caráter neoliberal tenha grande rejeição nesses agrupamentos.

Frente de Izquierda

pitrolaDefensores de reformas mais profundas das que realizaram os kirchneristas, associam Cristina ao mercado financeiro e a acusam de não prestar atenção suficiente às demandas dos trabalhadores. Exigem o fim do pagamento da dívida externa até que se resolva a chamada “dívida social pendente”. Ainda não sinalizaram com um candidato para o pleito de 2015, mas têm no ex-piqueteiro Nestor Pitrola uma de suas maiores lideranças.

Naturalmente, ainda não existem nem candidaturas oficializadas nem pesquisas eleitorais, mas a corrida já começou. Pesquisas informais e internas do partido oficialista revelam que cerca de 30% dos apoiadores de Cristina (o chamado ‘núcleo duro’) votariam em qualquer candidato que ela apoiasse; entretanto, um em cada dez desses eleitores confessou que poderia optar por Massa de acordo com a situação.

Os especialistas daqui dizem que os resultados das eleições no Brasil terão um grande impacto por aqui. De acordo com o especialista Julio Gambina, “o Brasil está nos planos de todos os candidatos”, embora não esteja claro para que objetivo. “Uma integração Brasil-Argentina deve ser crítica à hegemonia capitalista internacional”.

Briefing: Mecanismos Internos

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Em outros Briefings, descrevi a encruzilhada em que se encontra o governo argentino: de um lado está o “mercado”,  pedindo reformas ortodoxas, o fim das restrições ao câmbio e ao comércio, além do pagamento das dívidas do país com os credores estrangeiros; do outro estão os trabalhadores daqui que, historicamente acostumados a níveis de vida muito mais altos que a média latino-americana, vêm se estapeando para conseguir sair dessa penúria que se acentua desde a década de 80. Quando parecia dar uma afrouxada, agarrou todo mundo pelo pescoço em meados de 2012 e a crise não dá sinais de trégua.

Informações desencontradas dão conta de mais de 500 mil demissões e uma inflação de 40% nos últimos 6 meses, mas é o futuro que preocupa mais o povo daqui. Com as eleições presidenciais de 2015 se aproximando, ninguém se arrisca a dizer exatamente quem serão os candidatos, muito menos qual deles irá ganhar. E é esse cenário de incerteza que parece conflagrar tudo.

O governo descarta o terror, exibindo dados em que, por A mais B, a situação das classes populares tem melhorado muito desde a ascensão de Nestor Kirchner à presidência. Identificou o inimigo no exterior, os tão falados fundos abutres, e estendeu a classificação a certos atores internos mais conservadores e, naturalmente, mais mais ricos.

Entretanto, a situação não se apresenta como uma luta de classes como nas antigas, pois à esquerda da Presidenta estão numerosas centrais sindicais e movimentos sociais muito mais radicais que têm dado uma dor de cabeça danada. De greve em greve, manifestação em manifestação, essa gente vai deixando claro o seu discurso.

Essa semana foi a vez da greve geral, convocada há cerca de um mês por Hugo Moyano, um dos maiores líderes sindicais da Argentina.

Hugo Moyano

Hugo Moyano

Em primeiro lugar, é interessante observar quem é Hugo Moyano, secretário-geral da Central Geral do Trabalho (CGT). Com raízes no sindicato dos caminhoneiros, ele comanda uma tropa fiel de cerca de 200 mil seguidores facilmente mobilizáveis e com o poder de basicamente parar o país, já que os grãos exportados, maior fonte de divisas daqui, é transportado na boleia de seus caminhões. Sob seu comando direto, estão motoristas e funcionários dos pedágios, por exemplo; o que significa que basta Moyano se manifestar e todos cruzam os braços. Investigado por enriquecimento ilícito, o controverso líder sindicalista rompeu com o governo em 2011 – retalhando ainda mais o movimento sindical local.

Aliás, esse é um dado que se deve levar em conta: as duas centrais sindicais do país estão literalmente divididas há décadas. Moyano lidera a chamada CGT Azopardo, mas existe uma outra CGT que é liderada por Antonio Caló e que apoia o governo de Cristina Kirchner.

Por outro lado, também existe a CTA, uma dissidência da CGT, que atua de forma independente e hoje é liderada por Pablo Micheli.

A greve geral de ontem teve a adesão da CGT de Moyano e da CTA, que em teoria representam tão somente 25% do movimento sindical argentino; mas que, no entanto, como eu disse antes, controlam setores estratégicos, como transportes, e que têm grande poder de mobilização. Dessa maneira, ontem não funcionaram trens, parte dos metrôs e foram bloqueadas as maiores vias de acesso à cidade de Buenos Aires. Calcula-se que a adesão, voluntária ou não, à greve foi de 85% no final das contas, embora o governo negue.

Obs.: A greve geral de ontem foi muito menor do que a de 10 de abril desse ano. Com os ônibus funcionando, o movimento na capital estava razoável, embora algumas lojas e bancos estivessem fechados.

Durante uma grande manifestação que percorreu a Avenida de Mayo desde a Casa Rosada até o Congresso na quarta-feira (27), estive conversando com Pablo Micheli (Secretário-Geral da CTA), Alejandro Bodart e Vania Ripoll (ambos do MST, Movimento Social dos Trabalhadores). Mais do que pedir um aumento para os salários e aposentadorias, carcomidos pela inflação, eles me disseram que estão lutando também por:

  • o fim do imposto de renda para os trabalhadores, já que para eles, não sendo lucro e remunerando o trabalho, salário não deveria ser taxado;
  • uma lei que impeça as demissões e férias coletivas por um ano; e
  • expropriação estatal das empresas que demitem trabalhadores.

Em uma entrevista com Bodart no mês passado, ele foi mais longe: todo o sistema bancário da Argentina deveria ser privatizado.

Para eles, Cristina Kirchner está a favor da banca internacional, dos yankees, como eles dizem aqui, e está enganando o povo argentino com meias-reformas, maquiagens. Micheli dizia de maneira bastante contundente:

“Vimos essa situação na década de 90, não vamos deixar que se repita!”

Da outra extremidade, como eu já falei e como se lê na mídia ocidental sempre quando se fala da Argentina, Cristina está se lixando para os mercados internacionais e está levando o país a uma aventura populista de graves consequências.

Esses dias, por exemplo, um artigo do Wall Street Journal alertou que a Argentina já deve estar em recessão. De acordo com o periódico, o país convive com uma “combinação tóxica” de crescimento econômico fraco e inflação alta, enquanto as reservas internacionais desmoronam pela fuga de capitais e intervenções para conter a montanha-russa cambiária. Em cerca de dez dias, a cotação paralela do peso passou da casa dos AR$ 12 para os quase AR$ 15 – uma situação que deve piorar, já que os preços da soja no mercado internacional têm tendência de queda a partir do terceiro trimestre.

Os analistas consultados pelo WSJ são unânimes: o país está irresponsavelmente jogando com a política macroeconômica para garantir um crescimento em detrimento das reservas.

No meio desse fogo cruzado, o governo claramente tenta se posicionar ao lado dos trabalhadores. Essa semana, propôs duas leis no Congresso:

  1. a chamada “lei do pagamento soberano”, que expliquei no último Briefing; e
  2. a Lei do Abastecimento, que cria a justiça do consumidor e dá ao governo mecanismos de intervenção nas empresas

Sem poder de maneira alguma baixar a arrecadação, naturalmente nem considera a possibilidade de ceder à reivindicação dos sindicatos referente ao imposto de renda. Alega, contudo, que este imposto só atinge 10% da população e que favorece a distribuição de renda. Dessa maneira, acusa aqueles que convocaram a greve de fazer uso político de seu poder de mobilização.

Mario Wainfeld do Página/12 resumiu bem a situação:

“Pela oratória dos sindicalistas, a Argentina seria uma comunidade organizada. Harmoniosa em todos os seus estamentos, é somente perturbada por um governo avesso, depredador e até psicopata – a mesma versão infantil que propagam os meios hegemônicos, as corporações patronais, as multinacionais e, por sua vez, os principais membros da oposição. Um estranho sentido comum.

Hoje, os sindicalistas afirmaram que mais greves gerais estão por vir, o que, junto com as previsões no mínimo pessimistas dos analistas econômicos, prenunciam um fim de governo bastante conturbado para Cristina Kirchner. Não é uma novidade.

Desde que cheguei aqui, semana sim semana não aparece uma nova informação que dá conta de decretar o fim da Argentina. Na primeira vez, eu realmente cheguei a acreditar que tudo estava perdido, mas minha amiga Gabriela Grosskopf Antunes (colunista no Globo Online e jornalista da versão em português do Clarín) cantou a bola:

“Esse país é assim mesmo; amanhã aparece uma nova catástrofe e depois de amanhã tudo volta ao normal”

Até semana que vem!

Briefing: A quem incomoda o governo Nac & Pop?

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Nac & Pop é uma simpática rede de lanchonetes da capital porteña que serve, madrugada a dentro, uma versão a la Argentina do famoso podrão: ricas bondiolas, choripanes hamburguesas con huevo, panceta y queso a preços bastante acessíveis. Para os que curtem uma bebedeira e, por acaso, se sentirem desalentados com o fato de que, por lei, não se vende álcool nos quiosques da cidade depois das cinco da manhã, o Nac & Pop é um refúgio seguro, que conta ainda com uma decoração bastante despojada com caricaturas de ícones argentinos (de Manuel Belgrano ao Che, de Carlos Gardel a Gustavo Ceratti) e com uma trilha sonora estridente só de música nacional.

Esqueça o tango! A Argentina que toca no Nac & Pop nada tem a ver com refinado imaginário que remontam os acordes de Piazzolla. É muito mais provável que você se encontre com as cumbias de Gladys La Bomba Tucumana ou com algum hit do prolífico rock local.

Sabe aquele sujeito que fazia barulho e zoeira na porta da sua casa durante a Copa? Então, ele provavelmente frequenta o Nac & Pop, só toma vinho (em caixa tetrapak) se puder misturá-lo com Fanta ou Coca-Cola e não se beneficiou da afamada prodigiosa educação pública da Argentina. Mas muito diferente do nosso povão, ou pelo menos da maioria dele, é ativo politicamente. Embora engrosse os protestos possivelmente com o uma garrafinha de Fernet à tira colo, entoa palavras de ordem e cantorias que evocam Perón e Evita com intimidade (Brasil, decíme que se siente é apenas uma versão modificada de uma melodia multiuso que é hit nas marchas por aqui). Ele milita em movimentos sociais como a Cámpora, Quebracho, Barrios de Pie e Movimiento Evita ou centrais sindicais, como a CGT – se bobear em mais de um deles.

Esse sujeito (pejorativamente chamado pelas elites argentinas de negro de mierdapibe chorrocroto e por aí vai), categoricamente não quer que a Argentina pague nem um centavo aos fundos abutres.

Eu já fui em diversas manifestações em que essa mensagem foi passada muito claramente. Ontem, nos jardins da Casa Rosada, enquanto se pronunciava em rede nacional a Presidenta Cristina Kirchner, eles estavam lá reforçando esse desejo aos gritos de:

¡Cristina! ¡Cristina! ¡Cristina corazón! ¡Acá tenés los pibes para la liberación!

Muito se fala, sobretudo agora, da “irresponsabilidade argentina” nesse e em diversos casos do relacionamento desse país com o mundo. O tema do momento é, naturalmente, como um déjà vu, a dívida externa. O periódico britânico The Economist destacou o melodrama como um dos ingredientes familiares da eterna batalha do país com os hold-outs; o próprio juiz Thomas Griesa lamentou as expressões “altamente desencaminhadas” do governo, pedindo que a Argentina “tome passos para deixar de difundir informações enganosas”.

Já os meios locais não foram menos mordazes. Eduardo Van De Kooy do Clarín afirmou que [no ato que mencionei anteriormente, ontem na Casa Rosada] Cristina “armou uma coreografia militante para comunicar que a vida continua”; enquanto Carlos Pagni de La Nación alertou para o “alto custo de um capricho ideológico”.

De qualquer maneira, esse é apenas mais um capítulo de uma história diversas vezes marcada pelo perfil voluntarioso desse país. Na Segunda Guerra Mundial, se recusou a abandonar a neutralidade, provocando a ira dos Estados Unidos, que respondeu, segundo o historiador Carlos Escudé, com um informal embargo político e econômico por mais de uma década.

Como base nessa hipótese, bastante documentada e fundamentada, Escudé montou a Teoria do Realismo Periférico que afirma que:

“o dano que uma superpotência hegemônica pode causar a um Estado periférico com que está antagonizado se agrava se, por questões econômicas e geoestratégicas, esse país periférico não for relevante aos interesses vitais dessa superpotência”

Com grande ressonância no Giro Realista da política exterior argentina nos anos 1990, o conselho básico de Escudé era e é de que a Argentina devia, trocando em miúdos, baixar a bola e seguir a cartilha (naquela época isso significava “Consenso de Washington”). Dito e feito.

O problema é que o negro de mierda de que eu tanto falei no início desse briefing não está de acordo com essa proposta e tem no trauma da crise de 2001 um subsídio bastante recente para rejeitá-la e chamar de vende-pátria quem a defende. Ele não dá a mínima para a opinião de The Economist e se sente até orgulhoso quando o FMI critica a política econômica do país, pois se lembra que a primeira dizia que “Carlos Menem foi o melhor presidente da história da Argentina” e que o segundo celebrou o Plano de Convertibilidade (quando um peso valia um dólar) por suas “grandes conquistas”.

E mais: ele vê na figura de Nestor Kirchner um herói nacional, não só porque ele instituiu programas de emergência social numa época terrível, mas porque ele enfrentou os mercados internacionais para aliviar os sacrifícios do povo.

É para essa mistura de orgulho e autovitimização, que tanto se identifica com o ethos argentino, que a Presidenta dirigiu sua mensagem ontem.

“Temos de estar muito unidos, porque vão tentar nos dividir! (…) Nós temos mil coisas para discutir e debater, mas para defender o futuro contra os que querem nos fazer assinar qualquer [acordo], não contem comigo. (…) Sabe qual foi o grande valor dele [Néstor]? Mudar o que nos diziam ser impossível. Diziam que se não fazíamos como nos dizia o FMI, o mundo cairia. Ele disse que não”.

Esse discurso, diversas vezes entrecortado por gritos de “¡Patria sí! ¡Colonia no!”, demonstra a sintonia do governo e de seu projeto oportunamente chamado de “Nacional e Popular” (carinhosamente “Nac & Pop”) com a vontade dessa militância barulhenta e mais coesa do que qualquer outra corrente política argentina.

A desarticulação da oposição aqui é tamanha, que nenhum dos presidenciáveis para as eleições do ano que vem deu as caras para dizer o que faria nessa situação. Nem o grupo mais conservador, o PRO de Maurício Macri, usou os grandes meios de comunicação para dizer que o melhor é pagar os fundos abutres e enfrentar as consequências. Suas críticas são genéricas e apresentam poucas propostas – um pouco como acontece no Brasil – e o motivo é só um: se tomar essa posição, não serão eleitos.

Em que pesem todos os argumentos em contrário, o que se espera da democracia argentina diante desse cenário?

***

Mas a semana na Argentina não foi só de fundos abutres.

Aos 82 anos e há 34 anos no comando da Associação de Futebol Argentina (a CBF dos hermanos) morreu, deixando um legado de uma Copa do Mundo, diversos Mundiais Sub-20 e duas medalhas olímpicas.

Foi alvo de diversas críticas por sua convivência com a Ditadura Militar, desmesurado amor ao poder e fidelidade aos grandes cartolas da FIFA, que atualmente não gozam de muita unanimidade, como Blatter e Havelange.

Embora fosse desafeto do luminar quasi-divino Diego Maradona, sua despedida contou com o carinho de Messi (que interrompeu suas férias para ir ao funeral), o goleiro-herói Romero e outras figuras importantes do futebol argentino.