A Argentinização do Brasil

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Ontem (13) no Brasil foi dia de manifestações de apoio ao governo de Dilma Rousseff. Debilitado por uma chuva de denúncias, por uma economia trôpega e, ainda, por uma dificuldade de comunicar-se (ao menos, com uma determinada parcela da população), o PT logrou levar um número X de pessoas a pontos-chave de diversas capitais do país para reagir à imolação do Judas que vem sofrendo pelo menos desde a posse da Presidenta.

Na redes sociais, a hashtag #Dia13DiadeLuta vinha acompanhada de imagens de uma onda vermelha entusiasmada e confiante. O perfil de Alexandre Padilha, candidato petista derrotado ao governo de São Paulo na eleições de 2015, falava de pelo menos 50 mil pessoas na Avenida Paulista; mas sugeria que o número poderia chegar até a casa dos 100 mil. No Rio de Janeiro, a imagem da emblemática Cinelândia lotada também dava conta de asseverar: o ato foi um verdadeiro sucesso!

Entretanto, não se tratou de uma interpretação unânime. Para o jornal O Globo, foram mil pessoas no Rio, 12 mil em São Paulo – ao redor de 33 mil em 24 capitais. Ou seja, uma média de 24 estádios vazios no país inteiro em que, de acordo com a Folha, se defendeu Dilma e se criticou o governo (?!). Essas manchetes vieram acompanhadas de dados contundentes sobre o que virá amanhã (15), quando será a vez dos insatisfeitos: 15 mil policiais serão recrutados, a estrela máxima do pop nacional Wanessa Camargo cantará o hino nacional, possivelmente acompanhada do craque Ronaldinho Fenômeno. Se tudo der certo, o #15deMarco será uma versão elevada à potência do “surpreendente” panelaço do domingo passado.

Sim, estamos falando do mesmo panelaço que, de acordo com alguns blogs afins do governo, só foi escutado no créme-de-la-créme da alta sociedade paulista e carioca.

Se você fizer uma retrospectiva dos posts desse Passa em Buenos Aires em que cobri a situação política da Argentina, verá que em diversos momentos demonstrei o meu desconcerto pelas duas versões de país diametralmente opostas apresentadas de um lado pela dupla dinâmica Clarín e La Nación e, de outro, pela Telam (agência oficial de notícias), Página/12 e mais uma tropa de anões obstinados.

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Dois anos de buenísima onda em BsAs

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Em algum momento no ano de 2012, eu senti que alguma coisa tinha que mudar na minha vida. Depois de algum tempo meio sem saber por onde começar, fiz duas curtas viagens a Buenos Aires – uma sozinho e outra com a minha família – e, na última, já cheguei com segundas intenções.

Numa manhã fria e chuvosa de agosto, enquanto todos ainda estavam dormindo, escapuli daquele charmoso hotel em Palermo para uma entrevista na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, a FLACSO. A brecha na rotina turística, que incluiu me juntar à massa de trabalhadores se espremendo no metrô da linha D e mesmo o cafézinho com medialunas antes de que chegasse a hora da entrevista, foi a minha primeira experiência “cotidiana” em Buenos Aires. E deve ter sido boa, pois, no retorno ao Brasil, foram quase seis meses de preparações, elaboração da candidatura para o mestrado em Relações Internacionais, da papelada no Consulado argentino e música, muita música.

Como para ir me transportando aos poucos, criei todo um repertório de cantores(as) e bandas argentinas para embalar os meus vislumbres daqueles dois anos fora que viriam pela frente. Primeiro ressuscitei Kevin Johansen, que havia conhecido na minha primeira viagem ao país, e depois fui descobrindo outros como Él Mató A Un Policia Motorizado, No Te Va Gustar e Bersuit Vergabarabat.

Foi da canção “Hecho en Buenos Aires” desse último que eu tirei as três palavras que ilustram o post – e que figurou na minha geladeira por algum tempo depois que eu cheguei aqui.

Aquele trio de adjetivos haviam se tornado um mission statement mais poderoso do que “obter um certificado”, “melhorar o espanhol” ou qualquer dessas coisas mundanas, porque esses momentos de mudanças radicais – sair do meu amado Rio, da minha amada língua, de perto da minha amada família e dos meus amados amigos – suscitam essa sorte de furor messiânico. Nesse contexto, chegar no aeroporto de Ezeiza, ouvir o barulho do carimbo, tomar o transfer que a mamãe havia reservado e conhecer aquele apartamento em Almagro que seria a minha casa dali por diante foram se envolvendo de algo místico e heróico que, naturalmente, beirava o ridículo. Afinal, não é que eu estivesse desembarcando na China.

Pois esse algo místico e heróico foi logo se desmontando quando tive que incorrer em atividades um pouco inglórias como correr atrás de um chip para o meu celular e encontrar um supermercado para comprar pelo menos o básico. Tudo muito complicado, pois eu literalmente nunca havia pisado naquele bairro e descobri-lo sozinho me fazia lembrar aqueles tempos em que eu bancava aventuras de mochileiro solitário.

Dessa memórias (eu caminhando pelas ruas de Dublin ou Glasgow sem nem saber onde queria chegar), o que mais me deixava ansioso era mesmo a solidão: aquele silêncio no apartamento, quebrado tão-somente por aquelas músicas de antes (a trilha sonora aplicada ao filme), ressentia a presença de todos aqueles amigos e amantes que eu havia vislumbrado no pacote.

Uma bobeira. Logo nas duas primeiras semanas, conheci quase todas as pessoas que hoje fazem parte do meu mundo porteño. Leonardo, meu parceiro de confissões altamente indiscretas, que me apresentou Gabriela, aquela maravilhosa veterana no métier. Germán, que me levaria para experimentar os melhores sorvetes da cidade. Marcela, uma antiga companheira de trabalho que até hoje aparece e some como o Mestre dos Magos. A turma da faculdade com tantas presenças estelares. Vera, minha fonte de informação primária sobre tudo o que é a Argentina. Ana, minha lésbica petista local. E o meu amor Alejandro, já no final da primeira semana: moramos juntos desde então. Eu sou um cara de sorte.

Depois o quadro foi se completando com muitos outros nomes na velocidade em que se ia desvelando a cidade e seus segredos. Os culinários me valeram um incremento momentâneo de dez quilos; os verbais, um espanhol que ainda derrapa, mas flui em broma e lunfardo; os cênicos, a cuidadosa construção de uma nova casa, acolhedora na sua ocasional rispidez; sem falar daqueles revelados no dia-a-dia, de uma complexidade que inevitavelmente superaram o sonho.

Desde que eu cheguei aqui, pude por exemplo trabalhar de casa (uma reivindicação antiga), ganhei uma nova profissão; já esbarrei com a própria Cristina Kirchner algumas vezes, mas também com o presidente da China, com o Putin (ao vivo, ele parece um boneco de cera); entrevistei um ex-prisioneiro de Guantánamo, um acusado de terrorismo; fui a mais protestos e marchas do que em toda a minha vida; fui escrevendo aqui um pouco de todas essas impressões e, pum!, virei blogueiro também; e me familiarizei com esse povo estranhíssimo (egocêntrico, neurótico, lunático) e adorável (emocional, original e muito, muito generoso). Escrita a tese, serei Mestre em Relações e Negociações Internacionais – embora eu já me sinta pelo menos um especialista no eixo que une o Rio a Buenos Aires.

Esse post é um agradecimento, porque se há dois anos atrás eu sentia que precisava mudar alguma coisa na minha vida, essa cidade me ajudou a mudar várias, inventar muitas, aplacar umas e remanejar outras, sempre de uma maneira livre, curiosa e feliz. Por vezes tortuosa, mas, no final das contas, inevitavelmente feliz.

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