Buenos Aires Gay

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Buscar informação na internet sobre a vida gay em Buenos Aires é uma aventura por entre artigos desatualizados, chavões de tipo “vibrante vida noturna” e abordagens que destacam as avançadas leis argentinas, entre outros, o que, na verdade traz à discussão o que é ser um guia gay de uma cidade. É indicar locais onde homossexuais são bem aceitos? É dar dicas de festas e bares da cena local? É recomendar saunas e clubes de suruba? Outra coisa: um guia gay serve apenas os rapazes que curtem rapazes ou também lésbicas, travestis e o que mais esteja contemplado naquela sigla eternamente mutante (eu ainda uso apenas LGBT)?

Nesse post, eu não pretendo esgotar o debate sobre o tema, mas é interessante começar por aí porque a própria capital porteña desafia rótulos simplistas. Declarada em 2010 pela Associação Internacional de Viagens para Gays e Lésbicas como a nova capital gay mundial, a cidade é pouquíssimo óbvia nesse sentido, não contando, por exemplo, com um bairro gay como Castro (San Francisco), Chelsea (NYC) ou Chueca (Madri).

Mas o que é uma ‘coisa’ (qualquer coisa, inclusive uma cidade) gay, afinal?

O flamante hino “Go West”, apresentado ambiguamente em primeiro lugar pelo Village People em 79 e finalmente reconstruído pelo Pet Shop Boys no princípio dos anos 90, conclamava a homossexuais de todas as origem a tomar o rumo de San Francisco, “onde o ar é livre e podemos ser o que queremos ser”. Evocando literalmente a cidade como “a Terra Prometida”, surgiu anos depois dos famosos distúrbios de Stonewall em Nova York, quando militantes como Harvey Milk começavam a jogar luz sobre questão homossexual no plano das leis e da tolerância em geral.

Surgia, então, o nicho (alguns dirão ‘gueto’) que incluía cidades gay, bairros gay, bares/boates gay, praia gay, literatura gay, música gay, festival do filme gay, etc, etc, etc.

Na conservadora América Latina não foi muito diferente. Para escapar de sociedades onde se sentiam tolhidos em sua exuberância, gays dos quatro cantos do continente começaram a rumar para aquelas cidades onde podiam se sentir mais seguros para serem o que queriam ser, fosse à historicamente permissiva Ipanema do Rio de Janeiro ou à gigamonstra São Paulo, tão grande que abarca basicamente qualquer parada.

Buenos Aires esteve e está nessa lista. Cosmopolita e com uma tendência (ou seria uma vontade) a descolar-se das velharias pouco arrojadas do nosso continente, a cidade tem recebido gays provindos de Ushuaia ao Rio Grande, inclusive brasileiros há décadas. Existe algo na indiferença quiçá um pouco rabugenta dos porteños, talhada na expressão deles ‘Me chupa un huevo‘, que faz de Buenos Aires uma cidade extremamente tolerante, pelo menos com relação ao comportamento. Aqui, você pode até ouvir uma piadinha racista/elitista/xenófoba aqui e ali – nada muito ofensivo – mas se quiser sair de pijama ou fantasiado de palhaço, o porteño típico não dará a mínima bola. Esse desapego ao ‘convencional’, também se aplica a gays andando de mãos dadas ou demonstrando afeto seja nos elegantes boulevards da Recoleta ou nas ruelas trendy de Palermo.

Não, por aqui não existe um ‘bairro gay’ nem uma ‘rua gay’. Talvez aquela esquina de Santa Fé e Pueyrredón, onde está localizada a boate KM Zero, aberta todos os dias, seja algo assim, mas está longe de ser uma Farme ou um Soho londrino. A verdade é que praticamente toda Buenos Aires é gay friendly, desde os bairros turísticos até zonas fora do ‘circuito’.

Talvez ajude ou seja demonstrativo (um moto contínuo) o fato de que o país tenha uma das legislações mais avançadas e pioneiras no mundo para gays, lésbicas, transgêneros e variantes cabíveis; mas também se pode apontar o destaque de personalidades e celebridades homossexuais no star system argentino, como a apresentadora transexual Florencia de la V e da comediante Lizy Tagliani. Até no programa mais misógino a la Faustão da TV local, o Showmatch, o apresentador Marcelo Tinelli dá espaço a participantes gays, que não raramente falam abertamente de seus relacionamentos, sem que isso seja motivo de piada ou algo do gênero.

Florencia de la V

Florencia de la V

Essa permeabilidade faz com que a linha entre o gay e o não-gay seja muito mais fluida em Buenos Aires.

Existem bares, cafés e restaurantes gays? Existem! O Pride Café em San Telmo é um exemplo, mas não espere encontrar aí um gueto fechado que mais pareça um parque temático cheio de detalhes em arco íris. Trata-se de um estabelecimento com garçons gays que também é bastante frequentado por turistas e transeuntes heterossexuais sem qualquer constrangimento. É tão gay quanto qualquer outro café descolado da cidade.

O bar PEUTEO (pronuncia-se ‘pê-ú-tê-ô’) em Palermo é um pouco mais óbvio, a começar pela crudeza do nome, que evoca as letras de ‘puto’ (gíria equivalente a ‘viado’ em português). Um dos únicos representantes no mundo dos bares temáticos porteños, o lugar atrai os gays (e as amigas) mais ricos, e também alguns aspirantes, da cidade – já que os preços dos drinks são verdadeiramente proibitivos.

Mais razoáveis são o Flux no Centro (para os meninos) e a Bach em Almagro (para as meninas), onde você encontrará mais ‘gente como a gente’, ou seja, que não está disposta a gastar mais de cem pesos numa simplória Caipirosca (por melhor e mais elaborada que ela seja).

Mas o que os distingue dos melhores bares de Buenos Aires, que indiquei num post anterior desse blog? Aqueles também são frequentados por gays e todos são muito bem vindos – se fosse o contrário, certamente não estariam na lista. A diferença é que, tendo a prerrogativa bastante consolidada de serem ‘gays’, os bares que mencionei acima são ambientes mais propensos à pegação escancarada.

Já o restaurante Inside (Bartolomé Mitre, 1571), nos arredores do Congresso, se distingue de todos os outros restaurantes da cidade pelos ocasionais shows de strip tease, levando o público, em geral de gays mais velhos, ao delírio entre a entrada e o prato principal. A comida é ok.

Entre as boates, estão aquelas que seriam as ‘tradicionalmente’ gays, com suas trilhas sonoras monocórdias e sombrios quartos escuros, como a Glam (nas quintas-feiras fica lotada de um público bastante variado), KM Zero (todos os dias, ligeiramente trash), Ameri-K (quase todos os dias, gigante), Contramano (sextas, sábados e domingos, favorita de ursos e mais velhos) e Angels (trash total). Na minha modesta opinião, a melhor delas é Crobar/Rheo nos Arcos do Palermo, porque além da área externa (que eu considero sempre muito salutar), atrai uma turma mais variada e tem um line-up menos óbvio.

De qualquer maneira, as minhas favoritas mesmo são as festas mais ou menos regulares que nem sempre ocorrem nos mesmos lugares, pelas cenografias elaboradas e performances no meio da noite de artistas de verdade.

Fiesta Dorothy

Fiesta Dorothy

Vale a pena descobrir se está rolando a Fiesta Dorothy, por exemplo. Realizada no imponente e lindo Palácio Alsina, tem uma super infraestrutura com luzes e sons perfeitos. Já a festa Club 69, mais alternativa, é uma daquelas que trafega entre o gay e o moderninho, sem vestir nenhuma camisa descaradamente – muita gente louca e/ou estilosa. Mas underground mesmo é a esporádica Namunkurá, num obscuro subsolo do microcentro. O DJ andrógino Towahot levanta uma fauna variada e interessantíssima.

Para os mais jovenzinhos (quase adolescentes), estão a imensa Fiesta Plop (com open bar, um descontrole), a Eyeliner, a Jolie (salvação das quartas-feiras) e a Puerca (pra quem curte ritmos latinos).

Em todas as festas anteriores, as meninas lésbicas são presença garantida. Mas é na Pink (todos os sábados) que elas são maioria.

Quem deseja ver uma parada que não tem em nenhum outro lugar do mundo, tem o Tango Queer (todas as quartas-feiras), onde casais gays remontam a antiga tradição da dança entre dois homens (numa época em que o ritmo não caía bem às moças de família). Quem quiser se arriscar, tem aula a partir das 9:30.

Vou tentar manter o artigo atualizado para não cair naquela categoria que mencionei no princípio do post – no mais, perdoem-me por ocasionais omissões. 😉

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