Lagomarsino: temos um suspeito?

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O último lance do thriller Nisman na Argentina foi a emocionante entrevista do especialista em informática, amigo, confidente e fiel escudeiro do procurador assassinado faz mais de dez dias.

Sua foto já andava circulando nos jornais e canais de TV dias antes, mas a verdade é que pouco se sabia dele. Isso, entretanto, não interferia em nossa imaginação, frequentemente alimentada por elementos soltos como “um salário de 40 mil pesos”, a foto dele  curtindo uma pescaria, as duas visitas que fez ao edifício Le Parc em Puerto Madero – uma das quais, teria sido no fatídico domingo –, o empréstimo da arma do crime. Uma mistura de nerd, playboy e frio assassino que não casa.

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Crônica de um país conflagrado

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Num famoso manual para estudantes em dúvidas quanto a sua vocação, sugestivamente publicado pela mesma editora responsável pela revista Veja, a descrição da profissão de jornalista dista um pouco da realidade:

“Ele investiga e divulga fatos e informações de interesse público, redige e edita reportagens, entrevistas e artigos, adaptando o tamanho, a abordagem e a linguagem dos textos ao veículo e ao público a que se destinam”

No Brasil e na Argentina, creio que na maior parte do mundo também, essa relação é distorcida. Para perceber isso, basta passar o olho nos principais veículos em tempos de escândalos potentes como os casos de corrupção na Petrobras lá e a morte do Procurador Nisman aqui. Dessa análise despreocupada, se depreende que o jornalista:

“Investiga e divulga fatos e informações de interesse particular, redige e edita reportagens, entrevistas e artigos, condicionando o tamanho, a abordagem e a linguagem dos textos ao veículo e à pré-disposição do público a que se destinam”

Trata-se de uma mudança sutil, mas fundamental à profissão jornalística, o que tem suscitado debates a cerca da regulação da atividade de informar em geral.

Não entremos nesse pântano caudaloso, mesmo porque a lei de meios (aprovada na Argentina, cogitada no Brasil) também é condicionada nas análises disponíveis pelos grandes veículos de comunicação (“É censura!”). Entretanto, é interessante observar que, se no Brasil, mais do que chegar à verdade sobre os procedimentos mau-cheirosos que mancham a reputação da Petrobras, busca-se desesperadamente vinculá-los ou desvinculá-los à Presidenta Dilma; na Argentina, a morte do Procurador Nisman tornou-se a oportunidade de derrubar ou legitimar um governo.

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Chuva de especulações sobre a morte de Nisman

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Se alguém pensava que janeiro ia ser tranquilo na Argentina, certamente não imaginava que, de repente, vamos por partes:

  1. o procurador Alberto Nisman interromperia suas férias sem motivo aparente, deixando sua filha de 13 anos sozinha no aeroporto internacional de Madrid à espera da mãe;
  2. faria uma denúncia bombástica contra a Presidenta da República, demonstrando um grau de confiança impressionante nas entrevistas que deu para canais de televisão;
  3. seria chamado para dar explicações no Congresso argentinos tão logo passasse o fim de semana;
  4. e, finalmente, apareceria morto no banheiro de seu apartamento, após mandar uma mensagem a amigos que pouco remete a uma carta de despedida (veja abaixo)

nisman_mensaje.jpg_2069580699Desde então, a Argentina foi tomada de surpresa numa trama que tem gerado desconfiança, mistério e, devo mencionar, descrédito. Enquanto os opositores mais ferrenhos têm denunciado fortemente o governo até de ser o autor do crime, salta à vista um clima de decepção com as instituições de um país que já viu crimes estranhíssimos jamais serem solucionados, como a morte do filho de Menem na década de 90 e o desaparecimento de Jorge Julio Lopez.

E no meio desse clima de consternação, seja pela morte de Nisman, seja pelas acusações que ele fez, seja pelas denúncias de que o governo estaria envolvido, seja pela sorte de um país onde esse tipo de coisa acontece (e, na maioria das vezes, não aparecem respostas), é difícil não ficar desorientado com a quantidade de informações quentíssimas que vão retroalimentando as incertezas. Vamos a elas!

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O Misterioso Caso Nisman

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Uma pequena pausa no panorama geral que estou fazendo sobre a Argentina para o ano eleitoral para destrinchar um assunto que já está dando o que falar e que tem o potencial de uma bomba! Morreu o fiscal (tipo um procurador na hierarquia jurídica argentina) Alberto Nisman em condições misteriosíssimas.

Encontrado morto no banheiro de seu apartamento em Puerto Madero, ele havia retornado às capas dos jornais semana passada com denúncias gravíssimas sobre o envolvimento pessoal de Cristina Kirchner e alguns funcionários do mais alto escalão do governo numa estratégia de encobrimento de um atentado terrorista ocorrido há 20 anos – uma trama digna de 007.

Mas, acredite se puder, essa é apenas a ponta de um iceberg recheado de intrigas, contradições e ligações perigosas.

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3. A Política

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O eixo de Buenos Aires, a numeração de todas as ruas e mesmo a ordenação do metrô está localizado numa linha reta que sai da Casa Rosada, o marco zero da capital argentina. Seguindo pela Avenida de Mayo (na verdade é a Rivadavia, mas não sejamos puristas), se descortina uma das mais belas paisagens urbanas daqui, com prédios magníficos como o Palácio Barolo e o Congresso ao fundo.

Esse caminho é entrecortado pela colossal avenida Nueve de Julio, la más ancha del mundo, o que a torna virtualmente impossível de atravessar de uma.

Não, esse não é outro post de como se encontrar em Buenos Aires. Acontece que, quando você se muda para um lugar novo, acaba se dando conta de algumas coisas que passam corriqueiras na vida dos nativos e corre o risco, inclusive, de inventar situações que não tem nada a ver no fim das contas, como eu me arrisco a fazer aqui.

José de San Martín, libertador da Argentina

José de San Martín, libertador da Argentina

Mas não seria muita coincidência que o eixo da capital comece na antiga aduana, de onde as riquezas da terra eram evadidas na época colonial, gerando uma próspera sociedade criolla nessa margem do Rio da Prata, e que daí, no cruzamento com a rua San Martín (homônima ao Libertador daqui que acabou participando da independência de metade da América Espanhola), desse lugar desague a Avenida de Mayo (homônima à Revolução que deu origem ao país) até que esta cruze mais uma vez com a maior artéria de todas, a Nueve de Julio (a data em que finalmente a Argentina declara a independência da Espanha) até chegar no Congresso, o Parlamento, símbolo da democracia?

Pois bem, eu acho impressionante essa urbanização prestando-se a contar uma história e considerei apropriado começar esse post sobre a política argentina com esse senso de direção, tão Positivista, que respirava o país naqueles idos do fim do século XIX, quando começaram também a surgir alguns dos ícones da cidade como o Teatro Colón e todo o traçado urbano inspirado em Paris.

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2. A Economia

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A primeira dificuldade que tive para começar esse post foi encontrar uma foto que pudesse ilustrá-lo. Ao se meter a escrever um panorama da economia argentina em 2015, o que há de mais representativo a respeito dela: Uma bela ceifadeira trabalhando extensos campos de soja? Gruas enchendo containers no historicamente movimentado Porto de Buenos Aires? O parque industrial a pleno vapor? A praça financeira? Os arranha-céus de Puerto Madero? Uma montagem que inclua todas as anteriores? Ou uma dramática versão em preto-e-branco sugerindo decadência em algumas delas?

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Dependendo de quem se ouve, todas as alternativas são bastante possíveis e refletem também o que se vem sonhando para a economia da Argentina desde os tempos de glória da primeira metade do século XX – uma época jamais esquecida e cuja passagem para os tempos atuais se caracteriza como um dos grandes traumas sociais da nossa região.

Finalmente optei pelo dinheiro em espécie – o peso argentino – porque, como iremos ver, é a sua relação com a moeda estrangeira, ou frequentemente a falta dela, que determinou para que lado do espectro se concentrava a aposta para um futuro que permanece indefinido.

Na eleições de 2015, como aquela que se celebrou no Brasil em 2014, muito se debaterá sobre temas como a corrupção, a sanha concentradora dos Kirchner, a liberdade de imprensa, as relações internacionais, as restrições à economia, etc. Mas, no final das contas, e também à semelhança da contraparte brasileira, se estará discutindo a definição desse projeto de país que nos últimos quarenta anos esteve caracterizado por manobras radicais, deslumbramentos e tombos inevitáveis.

Mas, afinal, que cartas estão sobre a mesa?

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1. Quem vai às urnas?

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“Manifestación” de Antonio Berni

No primeiro texto da série em que pretendo traçar um panorama da Argentina no ano eleitoral de 2015, a escolha mais óbvia seria economia ou política, não é mesmo? Entretanto, resolvi reverter as coisas um pouquinho. Já que as eleições são a festa da democracia, por que não começar tudo pelo povo que, no final das contas, é o maior interessado em tudo isso? Existe economia ou política sem povo? Ambas estão (ou deveriam estar) à serviço de quem?

Não pretendo entrar muito nessa questão, mas posso adiantar que, como na maioria de nossos países, a resposta óbvia nem sempre correspondeu à realidade em nosso grande irmão do Sul. Numa trajetória de vida independente de cerca de duzentos anos, o país passou por transformações demográficas e sociais impressionantes, incluindo um influxo gigantesco de imigrantes (antes europeus, agora sul-americanos) e avanços e retrocessos no nível de vida, nos aspectos educacionais, entre outros.

No Brasil, em geral nossa impressão é extremamente desencontrada sobre o que é o povo argentino. Ora vistos como arrogantes, ora como os mais bem educados da região, ora como baderneiros (vide alguns visitantes durante a Copa do Mundo), inputs gerados por uma rápida visita à Buenos Aires ou pelo magnífico cinema produzido nesse canto do mundo ou mesmo por dados soltos como os cinco prêmios Nobel concedidos a cidadãos daqui (dois de medicina, dois da paz e um de química) brigam com as notícias que nos chegam através do jornal, onde constam pobreza, desestruturação e decadência política.

Mas, fora o senso comum dos brasileiros, quem é o argentino médio? Quem elegerá o próximo mandatário daqui?

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2015: o ano das grandes expectativas

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Como já é bem sabido, o ano novo em Buenos Aires não chega a ser um agito! Com a presença bastante expressiva de brasileiros ou desavisados ou determinados a fugir do tumulto, a cidade conta com opções discretas e pouco efusivas como um show de tango aqui, uma queima de fogos borocoxô acolá.

De agora até meados de fevereiro, os porteños que podem se refugiam do calor intenso no litoral daqui, do Uruguai ou do Brasil, deixando a capital-megalópole com uma calma pouco comum. Entretanto, não dá para pensar num país em férias, alheio aos acontecimentos, suavemente disfrutando das praias sul-americanas; pois o ano de 2015 protagonizará uma das transições mais importantes da democracia argentina, a ser apimentada por desafios econômicos e sociais substanciais.

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