O Misterioso Caso Nisman

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Uma pequena pausa no panorama geral que estou fazendo sobre a Argentina para o ano eleitoral para destrinchar um assunto que já está dando o que falar e que tem o potencial de uma bomba! Morreu o fiscal (tipo um procurador na hierarquia jurídica argentina) Alberto Nisman em condições misteriosíssimas.

Encontrado morto no banheiro de seu apartamento em Puerto Madero, ele havia retornado às capas dos jornais semana passada com denúncias gravíssimas sobre o envolvimento pessoal de Cristina Kirchner e alguns funcionários do mais alto escalão do governo numa estratégia de encobrimento de um atentado terrorista ocorrido há 20 anos – uma trama digna de 007.

Mas, acredite se puder, essa é apenas a ponta de um iceberg recheado de intrigas, contradições e ligações perigosas.

Em 1994, período áureo do Menemismo, quando a Argentina respirava uma Captura de Tela 2015-01-19 às 12.35.36tranquilidade institucional e econômica a qual já não estava mais acostumada (e que se revelaria fugaz nos anos seguintes), um atentado absolutamente estranho à nossa região deixou um saldo de 85 mortos e centenas de feridos num centro comunitário judeu em Buenos Aires chamado AMIA.

Ninguém reivindicou o ato terrorista e nunca foi encontrada nenhuma prova concreta que levasse aos seus autores, embora as investigações levassem à diversas hipóteses. No tocante às chamadas “conexões internacionais”, pistas fornecidas por agências de inteligência (sobretudo dos EUA e Israel), assim como depoimentos de agentes iranianos dissidentes, levaram a fortes suspeitas de que o Irã, através do Hizbollah, tivesse parte no planejamento e execução do atentado. Entretanto, como não haviam provas concretas, restaria tomar o depoimento dos suspeitos.

Mas deixemos a parte do Irã para depois um pouco, porque foi na investigação das “conexões locais”, ou seja, do envolvimento de gente daqui no atentado, que apareceram graves denúncias de corrupção para ocultar a verdade. O então juiz federal Juan José Galeano, responsável por essa parte do inquérito, depois de anos sendo acusado de morosidade e inoperância, foi filmado pagando 400 mil dólares a uma das principais testemunhas do caso Carlos Telledín, que aparentemente entregou a van com os explosivos para o atentado. Como me disse Sérgio Burstein, familiar de uma das vítimas e presidente do Grupo 18J, “o juiz Galeano esteve quase dez anos dedicado a embarreirar o caso, não investigar como lhe correspondia”. Antes de morrer, Galeano afirmou apenas que o suborno havia sido autorizado pessoalmente pelo Presidente Carlos Menem, o que dá uma pista do nível de interesses e dos enraizamentos na cúpula do poder que tem essa causa.

Depois de mais de uma década de impunidade e inconclusão, a causa ganha um novo impulso em 2007 com a denúncia de Néstor Kirchner na Assembleia Geral da ONU dirigida ao Irã, na qual criticava a falta de cooperação para a solução do caso. O problema era que, como me contou o Senador da situação Marcelo Fuentes (da Comissão de Justiça do Senado), existiam dois impedimentos que tornavam impossível o avanço do processo. Em primeiro lugar, na Argentina é proibido o “julgamento em ausência”, ou seja, não se poderia julgar os suspeitos iranianos à sua revelia. Por outro lado, assim como o Brasil, o Irã tem por prerrogativa não extraditar seus nacionais.

Para solucionar o impasse, foi negociado entre os dois países um Memorando de Entendimento que permitiria aos investigadores argentinos irem à Teerã para escutar os suspeitos, o que gerou uma gritaria generalizada por aqui. As associações judaicas (AMIA e DAIA) denunciavam que aquele era o pacto da impunidade, que o “criminoso” jamais estaria disposto a cooperar e que, sim, estava ganhando tempo e/ou ludibriando as vítimas. Outras entidades, como a APEMIA (de familiares de vítimas) afirmavam que o governo estava fazendo uma manobra para se esquivar de investigar as conexões locais. O governo, por sua vez, afirmava apenas estar criando um mecanismo de facilitação à justiça. De fato, em carta à Interpol, o Ministro das Relações Exteriores argentino Hector Timerman alertou contundentemente que os pedidos de prisão (o alerta vermelho) dos acusados iranianos permaneciam vigente, não obstante o acordo com Teerã.

Apesar de acordos dessa natureza (no caso, cooperação legal) serem uma prerrogativa do Executivo na Argentina, o governo fez questão de submetê-lo ao Congresso, onde recebeu o beneplácito.

É aí que entra o controverso procurador Alberto Nisman, um dos responsáveis pela Captura de Tela 2015-01-19 às 18.27.22investigação. Contrário ao Memorando desde o princípio, sempre deixou claro que suas suspeitas recaíam sobre o Irã e seu trabalho na coleção de provas ia bastante nessa direção. Sua posição passou a ser muito questionada, entretanto, quando vazamentos do Wikileaks revelaram que Nisman mantinha contato permanente com o então Embaixador dos Estados Unidos Earl Anthony Wayne. Nessa comunicação, ele discutia orientações que deveria seguir na investigação, enviava rascunhos de petições e mesmo se desculpava se tomava alguma atitude contrária aos desígnios do embaixador. Em um dos cabos vazados, a representação diplomática estadunidense é bastante taxativa: “Não é para seguir a pista síria nem a conexão local. Seguir essas pistas poderia debilitar o caso internacional contra os acusados iranianos”. O jornalista Santiago O’Donnell escreveu um livro sobre o tema, em que detalha diversos casos de intromissão estadunidense nas investigações.

De qualquer maneira, nos últimos dias Nisman apareceu com uma bomba! De acordo com um relatório apresentado por ele, o Memorando de Entendimento seria apenas uma ponta de uma ação coordenada nos mais altos níveis do governo argentino para encobrir a participação de iranianos nos atentados. Ele relata, sem haver divulgado as provas (ainda não apareceram), que a Presidenta Cristina Kirchner e seu chanceler Hector Timerman teriam mobilizado uma verdadeira diplomacia paralela através de figuras como Luis D’Elia, Fernando Esteche e Andrés Larroque, para negociar um acordo comercial em termos favoráveis à Argentina de venda de grãos em troca de petróleo, devido à crise energética que o país vivia.

Entrevistei o líder do movimento social Quebracho Fernando Esteche no último sábado e ele classificou as denúncias de “um delírio” e que, sabendo-se das motivações de Nisman, se surpreendia como as pessoas ainda acreditavam nele. “Além das conexões com o governo estadunidense, ele ia frequentemente à Israel se consultar com aquele chanceler nazista Avigdor Lieberman”, contou. “O que eles menos querem é chegar à verdade e inventam esses factóides para obstruí-la”.

Timerman apresenta a carta do ex-Diretor da Interpol

Timerman apresenta a carta do ex-Diretor da Interpol

Durante o fim de semana, o governo juntou diversas evidências que tiravam consistência ao caso, como uma carta do ex-Diretor Geral da Interpol Ronald Noble em que ele negava que o governo argentino houvesse tentado baixar o alerta vermelho aos cidadãos iranianos. Além disso, o juiz responsável pela causa Canicoba Corral denunciou que não havia autorizado as escutas telefônicas mencionadas por Nisman. A justiça finalmente não aceitou interromper o recesso para analizar o caso antes que ele apresentasse as evidências.

Num clima de tensão crescente, deputados da oposição encabeçados por Patrícia Bullrich (do PRO) convocaram Nisman para uma audiência no Senado, que se realizaria hoje às 15 horas. Entretanto, como já é sabido, o procurador foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento em Puerto Madero.

Autoridades, como o Secretário de Segurança do governo nacional Sérgio Berni, já sugeriram que a hipótese de suicidio é a mais provável. Entretanto, a figura do suicida nada tem a ver com o confiante Nisman que havia dado diversas entrevistas nos dias anteriores, inclusive afirmando que estava recebendo ameaças. Por outro lado, não deixou nenhuma carta e não mandou nenhuma mensagem.

A reação de muitos argentinos hoje, sobretudo os da oposição, foi de indignação e desconcerto. No Twitter, o hashtag #CristinaAsesina e #YoSoyNisman virou trending topic e na televisão não se fala em outra coisa. O célebre jornalista de oposição Jorge Lanata disse mais cedo: “O cara ia se matar antes de dar o depoimento? Fala sério…”. Hoje (19) às 20 horas, várias manifestações estão marcadas em todo o país.

Até o momento, Cristina permanece em silêncio absoluto. Sua intrínseca relação com as redes sociais está em suspenso. No entanto, ela ordenou a desclassificação de todas as evidências que possa ter juntado Nisman, numa demonstração de confiança pouco habitual para que estaria na berlinda.

Conforme aparecerem novos capítulos desse thriller que já está sendo chamado de a versão argentina de House of Cards, eu conto por aqui. Até mais!

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