3. A Política

avemayo

O eixo de Buenos Aires, a numeração de todas as ruas e mesmo a ordenação do metrô está localizado numa linha reta que sai da Casa Rosada, o marco zero da capital argentina. Seguindo pela Avenida de Mayo (na verdade é a Rivadavia, mas não sejamos puristas), se descortina uma das mais belas paisagens urbanas daqui, com prédios magníficos como o Palácio Barolo e o Congresso ao fundo.

Esse caminho é entrecortado pela colossal avenida Nueve de Julio, la más ancha del mundo, o que a torna virtualmente impossível de atravessar de uma.

Não, esse não é outro post de como se encontrar em Buenos Aires. Acontece que, quando você se muda para um lugar novo, acaba se dando conta de algumas coisas que passam corriqueiras na vida dos nativos e corre o risco, inclusive, de inventar situações que não tem nada a ver no fim das contas, como eu me arrisco a fazer aqui.

José de San Martín, libertador da Argentina

José de San Martín, libertador da Argentina

Mas não seria muita coincidência que o eixo da capital comece na antiga aduana, de onde as riquezas da terra eram evadidas na época colonial, gerando uma próspera sociedade criolla nessa margem do Rio da Prata, e que daí, no cruzamento com a rua San Martín (homônima ao Libertador daqui que acabou participando da independência de metade da América Espanhola), desse lugar desague a Avenida de Mayo (homônima à Revolução que deu origem ao país) até que esta cruze mais uma vez com a maior artéria de todas, a Nueve de Julio (a data em que finalmente a Argentina declara a independência da Espanha) até chegar no Congresso, o Parlamento, símbolo da democracia?

Pois bem, eu acho impressionante essa urbanização prestando-se a contar uma história e considerei apropriado começar esse post sobre a política argentina com esse senso de direção, tão Positivista, que respirava o país naqueles idos do fim do século XIX, quando começaram também a surgir alguns dos ícones da cidade como o Teatro Colón e todo o traçado urbano inspirado em Paris.

E também acho impressionante as marcas que deixa uma concepção bem executada como essa na psiqué coletiva de uma sociedade em formação que, entre a pobreza dos imigrantes recém-chegados e aquela dos negritos da terra (os futuros descamisados de Evita), “inventou um país” à luz dos vislumbres de uma classe política da época, que ficou para a história como Generación de los Ochenta (uma referência à década de 1880).

Estamos falando de gente que até hoje figura em placas de rua e cédulas de dinheiro, como Julio Argentino Roca e Domingo Faustino Sarmiento (o pai da educação pública daqui), e que criou os fundamentos da Argentina moderna, incentivando a imigração e aproveitando-se das oportunidades que se abriam com a invenção do navio frigorífico – que possibilitava a exportação de carne para os quatro cantos do planeta (no caso, sobretudo a Inglaterra).

Num cenário de profundas transformações demográficas, culturais e econômicas, e tendo como marco a Lei Saens Peña, que ampliou a participação eleitoral em 1912, sobe pela primeira vez ao poder um presidente sustentado fundamentalmente pela classe média, Hipólito Yrigoyen, homem-chave de um grupo político chamado União Cívica Radical.

Hipólito Yrigoyen

Hipólito Yrigoyen

Yrigoyen leva a Argentina a outro ciclo de transformações e, na sua conta, estão, por exemplo, a criação do Banco Central, da YPF (a Petrobrás deles, a primeira estatal do petróleo do mundo), uma reforma universitária que teve ecos em toda a América Latina e a concessão dos primeiros direitos sociais e leis trabalhistas. Não era o éden que muitos gostam de projetar hoje em dia – episódios como a Semana Trágica e os massacres na Patagônia dão uma pista de que a desigualdade e a injustiça social já eram um problema aqui – mas foi um período em que a Argentina tornou-se depositária de muitas expectativas de despontar como potência mundial.

É derrubado por um golpe de Estado depois de dois mandatos, mas deixa a tradicional UCR (o chamado “Radicalismo”) encrustada na política argentina, como está até hoje. É o primeiro movimento de massa do país e daria ao país diversos outros presidentes (embora tenha se dividido por algum tempo), inclusive o primeiro da redemocratização na década de 1980, Raúl Alfonsín.

Atualmente, num contexto de intensa polarização entre os Kirchner e basicamente todo o resto da política argentina, os radicais se esforçaram para ocupar um lugar intermédio, fazendo-se valer da sua história para propor continuidade nas políticas sociais vigentes, porém com maior transparência e princípios. Ano passado, se aliou a diversos partidos e correntes políticas de centro esquerda para lançar a Frente Ampla UNEN.

Entretanto, é preciso sinalizar que a UCR se debilitou muito depois dos governos descontinuados de Alfonsín e Fernando De La Rúa, os últimos radicais que ocuparam o cargo máximo do país. Pode-se encontrar diversos motivos externos para esses contratempos do partido, mas o fato é que, definitivamente, sua própria desorganização interna tem crédito nisso. Pouco depois do lançamento da Frente Ampla UNEN, a tentativa foi desmoronando, de maneira melancólica, com barracos em público.

Entretanto, também se deve mencionar que a sorte dos radicais como movimento de massa protagonista na Argentina já mudou faz muito tempo e, embora tenha trafegado entre decadências e renascimentos, iniciou sua descendente quando o Tenente Coronel Juan Domingo Perón, sustentado por uma estranha aliança de militares, sindicalistas e socialistas, chega à Presidência em 1946.

Eva e Perón

Eva e Perón

Com ênfase em políticas sociais e tendo na esposa Eva uma poderosa arma de marketing político, Perón aprofundou o processo de industrialização por substituição de importações imprimindo um forte teor nacionalista que, dizem alguns detratores, chegou a flertar com o nazi-fascismo.

Numa disputa apaixonadamente lembrada até hoje, enfrentou o embaixador norte-americano Spruille Braden, que nucleava parte da oposição, e impulsionou um traço da cultura política argentina muito poderoso: a anti-imperialismo dos Estados Unidos.

Pronto, estava inaugurado o Peronismo, um movimento que, de raízes operárias e sindicais, foi se metamorfoseando de maneira nada uniforme e tornando-se cada vez mais complexo. Uma descrição do colunista do New York Times Roger Cohen, embora exagerada e generalista, dá uma pista do desconcerto que causa o “movimento” tanto aqui quanto ao redor do mundo:

“…uma estranha mistura de nacionalismo, romanticismo, fascismo, socialismo, atraso, progresso, militarismo, erotismo (sic), fantasia, música, luto, irresponsabilidade e repressão…”

Talvez uma apaixonada descrição do tango seja também colorida dessa maneira, mas a verdade é que no rico caldo político que circula no Peronismo, estão figuras tão díspares como Carlos Menem, defensor de “relações carnais com os EUA”,  e Cristina Kirchner, em sua cruzada com os fundos abutres.

Quando Cristina vocifera contra “los momentos más oscuros de la noche neoliberal en Argentina”, ela está apontando o dedo para um governo de seu próprio grupo político, e isso ocorre sem muito desconforto porque o próprio argentino já se acostumou com as divisões internas do “movimento”, mesmo quando o próprio Perón ainda estava vivo, e que geraram sub-movimentos em seu interior opostos no campo ideológico, como os Montoneros (de extrema esquerda) na época da ditadura e os Menemistas (neoliberais) na década de 1990.

A “implosão”, como chama Ricardo Rozemberg, do ano de 2001, culminando com a renúncia do radical Fernando De La Rúa e uma sucessão de cinco fugazes presidências, não foi apenas econômica. De repente, o radicalismo entrou em profunda crise e, dentro do peronismo, começou a se consolidar uma dinâmica que mais remete à famosa imagem da divisão das células, vou tentar explicar:

Néstor e Cristina

Néstor e Cristina

Num primeiro momento, pra um lado foi o Peronismo Oficial (de Kirchner e Duhalde) e para outro, o Peronismo Dissidente (de Memem e dos irmãos Sáa) – o segundo grupo foi gradualmente perdendo força. A partir daí, Néstor, até então uma figura de pouca expressão no movimento, vai ganhando espaço e começam a falar por aqui, cada vez mais, em ‘Kirchnerismo’ (o nome da agrupação política é Frente para la Victoria) que sofre baixas com a saída de lideranças importantes como De Narváez em 2007 (para o PRO de Maurício Macri) e de Sérgio Massa em 2009 (ex-Chefe de Gabinete da Presidenta, o equivalente no Brasil ao Chefe da Casa Civil).

Entretanto, a Frente para a Vitória (FpV) permanece como a força política com mais chances de eleger um sucessor para Cristina e, embora muitas fichas estejam sendo apostadas no governador da Província de Buenos Aires Daniel Scioli, ninguém sabe exatamente quem a Presidenta apoiará de verdade.

Na atual e evidente polarização da política argentina, existem características interessantes.

Primeiro, o polo opositor à Cristina, embora numeroso, é acéfalo. O PRO de Maurício Macri, prefeito da capital, tem todas as características de uma oposição de verdade à Presidenta, já que responde a um espectro ideológico inteiramente oposto ao dos kirchneristas, politicamente mais conservador e economicamente mais liberal. Contudo, não tem força fora de Buenos Aires. A Frente Ampla UNEN, como já mencionei, não conseguiu se organizar nem para manter um discurso homogêneo por alguns meses, muito menos para definir quem é seu candidato. Já Sérgio Massa, que fundou a Frente Renovadora, é visto com desconfiança, pois vazamentos do Wikileaks revelaram que ele mantinha contato direto com a Embaixada dos Estados Unidos antes mesmo de deixar a Chefia de Gabinete e carrega nas costas o fato de haver “traído” Cristina. Dessa forma, a oposição se encontra pulverizada e a população que deseja uma mudança verdadeira, sem uma opção consistente.

Segundo, mesmo a Frente para a Vitória enfrenta suas próprias fraturas. Nas últimas semanas, seus mais importantes líderes se estapearam publicamente. O núcleo duro do Kirchnerismo não confia em Scioli nem o vê como representante do proyecto nacional y popular inaugurado por Néstor e continuado por Cristina, sobretudo por suas atitudes dúbias, como uma visita recente ao jornal opositor Clarín e por silêncios convenientes que mantém em algumas das muitas brigas que compra a Presidenta.

Cristina, por sua vez, já tentou fazer decolar vários de seus pupilos, como o Vice-Presidente Amado Boudou (que caiu em desgraça após diversos casos de corrupção), o atual Chefe de Gabinete Jorge Capitanich (que foi se desgastando no cargo), o jovem Ministro da Economia Axel Kiciloff (ainda uma aposta válida, pode ser uma surpresa) e o Ministro dos Transportes Florencio Randazzo (também no páreo); mas a verdade é que nenhum deles conseguiu desbancar o favoritismo do Scioli, que certamente seguirá sua ambição presidencial com ou sem o apoio de Cristina, embaralhando ainda mais o jogo político nas próximas eleições.

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Assim, as peças no tabuleiro, ainda que de férias pelo menos até o fim de janeiro, estão estudando o terreno para ver de que lado se posicionarão. Como já delineei no Mapa Eleitoral da Argentina para 2015 e expliquei aqui com maior detalhe, esse pode ser um momento em que as forças políticas do país estejam se recompondo verdadeiramente após a implosão de 2001, já que a força abrumadora de um Kirchnerismo que levou a pecha de salvador da Argentina naquele cenário apocalíptico, acabou se encalacrando com casos de corrupção e alguns revezes econômicos (ferozmente divulgados e amplificados pela grande mídia opositora e por um rol de inimigos poderosos que vão desde o sindicalista Hugo Moyano, passando por todo o setor agropecuário – o mais dinâmico do país – até os populares apresentadores Jorge Lanata e Marcelo Tinelli).

Qual deles tomará o caminho da Casa Rosada? Eu os mantenho informados!

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