Chuva de especulações sobre a morte de Nisman

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Se alguém pensava que janeiro ia ser tranquilo na Argentina, certamente não imaginava que, de repente, vamos por partes:

  1. o procurador Alberto Nisman interromperia suas férias sem motivo aparente, deixando sua filha de 13 anos sozinha no aeroporto internacional de Madrid à espera da mãe;
  2. faria uma denúncia bombástica contra a Presidenta da República, demonstrando um grau de confiança impressionante nas entrevistas que deu para canais de televisão;
  3. seria chamado para dar explicações no Congresso argentinos tão logo passasse o fim de semana;
  4. e, finalmente, apareceria morto no banheiro de seu apartamento, após mandar uma mensagem a amigos que pouco remete a uma carta de despedida (veja abaixo)

nisman_mensaje.jpg_2069580699Desde então, a Argentina foi tomada de surpresa numa trama que tem gerado desconfiança, mistério e, devo mencionar, descrédito. Enquanto os opositores mais ferrenhos têm denunciado fortemente o governo até de ser o autor do crime, salta à vista um clima de decepção com as instituições de um país que já viu crimes estranhíssimos jamais serem solucionados, como a morte do filho de Menem na década de 90 e o desaparecimento de Jorge Julio Lopez.

E no meio desse clima de consternação, seja pela morte de Nisman, seja pelas acusações que ele fez, seja pelas denúncias de que o governo estaria envolvido, seja pela sorte de um país onde esse tipo de coisa acontece (e, na maioria das vezes, não aparecem respostas), é difícil não ficar desorientado com a quantidade de informações quentíssimas que vão retroalimentando as incertezas. Vamos a elas!

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O Misterioso Caso Nisman

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Uma pequena pausa no panorama geral que estou fazendo sobre a Argentina para o ano eleitoral para destrinchar um assunto que já está dando o que falar e que tem o potencial de uma bomba! Morreu o fiscal (tipo um procurador na hierarquia jurídica argentina) Alberto Nisman em condições misteriosíssimas.

Encontrado morto no banheiro de seu apartamento em Puerto Madero, ele havia retornado às capas dos jornais semana passada com denúncias gravíssimas sobre o envolvimento pessoal de Cristina Kirchner e alguns funcionários do mais alto escalão do governo numa estratégia de encobrimento de um atentado terrorista ocorrido há 20 anos – uma trama digna de 007.

Mas, acredite se puder, essa é apenas a ponta de um iceberg recheado de intrigas, contradições e ligações perigosas.

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Briefing: Nao tá fácil pra ninguém

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Que liderança política estaria “satisfeita” na Argentina de hoje? Difícil saber.

Por um lado o governo vê chegar no horizonte um dezembro que promete não ser dos mais fáceis. As centrais sindicais, como a CTA que marchou com milhares de militantes esses dias pelo centro, já disseram que se algumas de suas reivindicações não forem atendidas (um bônus emergencial para os trabalhadores de AR$ 4 mil e um desconto nos impostos sobre o Aguinaldo – o 13o daqui – por exemplo), vão pegar pesado no final do ano. A central que reune o pessoal dos transportes também anunciou greves gerais e quilombo.

Além disso, o potencial quiprocó interno antecederá os arranjos esperados para janeiros com o Fundos Abutres – uma negociação absolutamente misteriosa que pode selar o triunfo ou a humilhação do governo de Cristina.

Quem poderia talvez estar sorrindo com o cantinho do rosto diante dessa situação seria a oposição, mas nem isso. Conflitos internos estão despedaçando a Frente Amplia UNEN – que foi anunciada com entusiasmo por lideranças políticas no primeiro semestre desse ano.

A primeira debandada de peso (sem trocadilho) foi Elisa “Lilita” Carrió, que vislumbrava um acordo com o conservador PRO de Maurício Macri. Sem conseguir o aval das outras lideranças, saiu atirando:

“É impossível trabalhar com gente medíocre”

Para ela, a oposição deveria se unir contra a máquina poderosa do kircherismo sem preciosismos; e talvez tivesse razão, embora nunca se sabe o que aconteceria depois de uma eventual vitória.

As outras lideranças, agrupadas na tradicional União Cívica Radical, têm uma relação traumática com composições muito complexas, ideologicamente falando. A malfadada Alianza que levou o radical Fernando de la Rúa à presidência em 1999 significou um governo fragmentado e débil que culminou com uma renúncia dois anos depois. Junto com a transição antecipada de Alfonsín em 1989, a experiência deixou o partido marcado pela pecha dos governos inacabados.

Assim, a fugaz promessa da UNEN, que já não conseguia fazer decolar nenhum de seus candidatos, está virtualmente acabada.

Por outro lado, embora Lilita esteja negociando com Maurício Macri do PRO, é muito pouco provável que eles emplaquem uma candidatura consistente para desafiar a Frente pela Vitória (FpV, o partido da presidenta Kirchner).

E o povo?

O deputado da Unidad Popular Cláudio Lozano recentemente me destrinchou uma lista dos incômodos vividos nos últimos 15 meses:

  • mais de 480 mil postos de trabalho fechados, com taxa de desemprego próxima a 11%;
  • deterioração em torno dos 10% do poder aquisitivo dos salários;
  • aumento de 1,5 milhão no número de pobres e de 850 mil de indigentes

Para ele, existe uma noção dentro do governo de que, até o fim do mandato, a normalidade poderá ser mantida, o que leva a uma imobilidade na resolução dessas questões. Lozano não está de acordo:

“Obviamente não há tranquilidade, não só para o mês de dezembro, mas para todo o processo até a mudança de governo. A situação social irá influir muito nessa decisão democrática”

Dizem por aí que essa situação social pode produzir saques aos supermercados em dezembro – o que foi chamado recentemente pelo polêmico Secretário de Segurança Sergio Berni do país de “uma tradição de Natal argentina”.

Até a próxima!

Briefing: Oposição fraca, um traço comum

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Menos de duas semanas depois do tão-falado protesto pedindo o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em São Paulo, as ruas do centro da capital argentina foram tomadas por manifestantes com bandeiras parecidas (tomadas talvez parcialmente, os números são conflitantes).

Aqui ninguém se arrisca a pedir uma intervenção militar. Entendo que, além dos números da ditadura local serem ainda mais assustadores que os da contraparte brasileira, os processos contra os criminosos do regime e suas condenações ajudaram a consolidar um sentimento comum de repúdio baseado na memória. Odeio hashtags, mas #ficaadica.

Entretanto, de resto, em quase tudo as reivindicações ouvidas no Microcentro na quinta passada se assemelham às da Avenida Paulista. Conhecida como 13N, com referência à data 13 de novembro, a marcha tentou repetir a mobilização que marcou o 8N em 8 de novembro de 2012, quando uma multidão foi ao Obelisco vociferar contra o governo de Cristina Kirchner.

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8N, manifestação no fim de 2012

Na época, estavam começando a ser implementadas as medidas heterodoxas pelas quais a Presidenta será lembrada, como o cepo cambiario, que feriu de morte o hábito local de economizar em moeda estrangeira. Mas dessa vez, embora não menos sérias, as bandeiras dos opositores não conseguiram atrair a multidão da foto ao lado, talvez porque corrupção e insegurança sejam percebidos como um traço menos diretamente relacionado à gestão de Cristina do que à cultura política local e à realidade, respectivamente.

Organizado nas redes sociais, o protesto causou polêmica ainda na sua gestação, porque militantes pró-governo iniciaram uma contraofensiva virtual em que se divulgava que o evento havia sido cancelado. Rapidamente, a hashtag #13NSuspendido ganhou quase tanta evidência quanto o #13N, despertando uma calorosa troca de acusações e ironias no Twitter e no Facebook.

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Na manhã de quinta, o porta-voz do governo Jorge Capitanich fez referências à manifestação durante sua habitual entrevista coletiva, pedindo respeito às instituições. Para ele, os cidadãos deveriam expressas suas diferenças políticas com o governo nas eleições  de 2015:

“Na democracia todos têm o direito de se expressar, mas sobretudo através das eleições. Todos terão a possibilidade de participar das PASO (primárias) em agosto que vem e nas eleições gerais em outubro”

A manifestação contou com a solidariedade de brasileiros no Twitter que já estavam convocando outros atos em São Paulo para 15 de novembro, dia da Proclamação da República no Brasil.

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De fato, existem mais semelhanças entre os movimentos na Argentina e no Brasil do que podem sugerir as aproximações temáticas. Tanto lá quanto aqui as impressionantes desigualdades sociais vem se reproduzindo nos regimes democráticos através das urnas, fazendo com que as bandeiras das classes mais abastadas e as dos setores populares de modo geral se alinhem a posições políticas radicalmente opostas.  Dessa maneira, ao menos um dos grupos se sente irremediavelmente não-representado.

Tanto no Brasil quanto na Argentina (mais no último), a oposição tem se mostrado incapaz de responder à essa crise de representação. Embora a contundente votação de Aécio Neves nas últimas eleições possa sugerir o contrário e os discursos imediatamente posteriores a ela possam indicar uma mudança no quadro brasileiro, é irrefutável que a oposição teve um papel pouco expressivo no Congresso, capitalizando apenas algumas vitórias no Poder Legislativo, como a revogação da CPMF (discutivelmente popular) ou a CPI da Petrobras (muito recente).

Devo acrescentar o fato de que na Argentina não há um PMDB, como muito bem lembrado pelo cientista político Alberto Carlos Almeida no Manhattan Connection a partir do minuto 11 do vídeo (por favor, desconsidere as afirmações estapafúrdias e racistas de Diogo Mainardi. Gracias!):

Nesse cenário, a oposição argentina teve ainda menos vitórias no Congresso daqui, o que talvez explique a ausência de um verdadeiro candidato desse campo político no país. Como já escrevi anteriormente, um dos favoritos para o próximo pleito é Daniel Scioli do partido do governo e o segundo colocado é Sérgio Massa, um dissidente não necessariamente ligado àquelas pessoas que compareceram no 13N.

No mais, a semana transcorreu com a fugaz apreciação do peso na cotação blue, o que como eu contei faz pouco, deixou os brasileiros que moram por aqui de cabelo em pé. Resultado de uma mega operação da autoridade fiscal argentina (a AFIP), o destino do câmbio ainda está incerto, embora o Presidente do Banco Central tenha descartado a suspensão das restrições à compra de dólares. O negócio vai ser esperar.

Com Cristina afastada do trabalho por problemas de saúde, coube à Axel Kicillof o papel de representante da Argentina no encontro do G20 na Austrália. E ele não perderia a oportunidade de pedir “apoio total ao país na reestruturação de sua dívida”. Ainda não sabemos bem o que foi conversado por lá, mas Axel parecia bastante confiante na foto que tirou com outros Chefes de Governo e/ou seus representantes.

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Até semana que vem!

Briefing: Cosmópolis da Pacha Mama ameaçada?

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Um dos insights mais marcantes que tive logo depois que cheguei a Buenos Aires foi de que a cidade era o grande centro cosmopolita da América do Sul. É óbvio que tem São Paulo com milhões de estrangeiros de todas as partes do mundo; mas a capital argentina tem uma parcela importante da população que chegou nos últimos dez anos dos países da vizinhança, inclusive do Brasil, e que empresta todo o colorido da Pacha Mama à outrora Paris ao sul do Equador.

O lugar mais óbvio para testar essa hipótese é o bairro do Abasto, com seus diversos restaurantes peruanos e hoteizinhos bem precários que hospedam os recém-chegados. Com maior detenção, entretanto, se podem encontrar os pontos de encontro da numerosa comunidade de colombianos, venezuelanos, bolivianos e por aí vai – – o que se confirma pelos números da Dirección Nacional de Migraciones. Desde 2004, quase um milhão de estrangeiros se radicaram no país, sobretudo vindos do Paraguai (38,7%), Bolívia (28,6%) e Peru (15,2%).

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O gráfico acima, publicado no jornal La Nación, demonstra ainda que os números são crescentes, atingindo a marca de 138 mil admissões só em 2013 – o que ainda é um número por baixo, porque aqui não estão considerados os “residentes temporários”, que vem por dois anos ou menos, como é o caso de muitos estudantes da região.

Além da atração natural que uma cidade como Buenos Aires tem, a brusca elevação desses números tem a ver com uma política de inclusão promovida pelo governo de Néstor e Cristina Kirchner na última década, cristalizada no Plano Pátria Grande que entrou em vigor em 2004. Destinado aos cidadãos do Mercosul e países associados (ou seja, quase toda a América do Sul), o programa buscou regularizar a sua situação migratória, somando-se às facilidades garantidas por tratados de circulação de pessoas do bloco (esse, válido somente para os cidadãos de membros permanentes).

Tudo muito bom, tudo muito bem, a verdade é que a opinião pública local se divide discretamente quanto a essa política de portas abertas. Digo discretamente porque não se vai encontrar por aí um partido que advogue publicamente a construção de uma muralha virtual no entorno da Argentina, como ocorre na Europa; mas não é incomum escutar comentários xenófobos, poucas vezes direcionados aos brasileiros (em geral bem vistos, pois são, em sua maioria, estudantes de classe média alta).

Sabe aquela lenda de que não existe racismo no Brasil? Pois bem, por aqui havia uma parecida de que a Argentina, terra de imigrantes, não era xenófoba. Em 2010, depois de um conflito entre a população vivendo em situação precária e o governo da cidade de Buenos Aires no Parque Indoamericano, repetido em 2014, chamou a atenção de analistas a respeito de um crescente ‘nacionalismo degenerado’ surgido no seio de “uma classe média baixa que se autoproclama honesta, abnegada e patriota e que, ao cumprir o sonho minimalista e individual de acesso à propriedade e ao trabalho, consideram massivamente desonestas, preguiçosas e, sobretudo, anti-pátria as classes que se situam apenas um degrau abaixo do que elas puderam alcançar”. Ou seja, uma situação-cliché não só entre nacionais e imigrantes, como se pode verificar no Brasil com a ascensão da nova classe média.

Mas e quando essa xenofobia discreta passa a ser capitalizada pelo governo? Isso começou a ocorrer num comentário do Secretário de Segurança da administração federal Sérgio Berni que, depois de um episódio no bairro de Balvanera envolvendo bandidos chilenos, pediu aos legisladores “ferramentas ágeis para que os estrangeiros que cometem crimes voltem ao seu lugar de origem e não voltem nunca mais”. Embora na mesma frase, ele esclareceu de que não se tratava de uma “declaração xenófoba”, muitas pessoas não compraram a ressalva.

Com menos sutileza, o prefeito da cidade de Tres de Febrero na Grande Buenos Aires chegou ao cúmulo de fazer uma distinção:

“Eu chamo de estrangeiros não aos que vieram da Europa e fizeram desse país seu lar, criaram seus filhos aqui. Eu falo de ilegais e outros que trabalham na rua, que roubam empregos dos argentinos”.

Apesar do debate, o comentário de Berni foi suavizado por representantes do governo, que sinalizaram para o aprofundamento da política de inclusão promovida oficialmente, conforme afirmou o diretor da Dirección Nacional de Migraciones Arias Duval em entrevista ao jornal La Nación.

Entretanto, a polêmica foi reacendida com o projeto de Reforma do Código de Processos Judiciais que inclui a expulsão rápida de estrangeiros delinquentes. O senador da Frente para a Vitória (FPV, partido do governo) Aníbal Fernández afirmou que a proposta não é xenófoba:

“Esse governo nunca impediu que os estrangeiros ficassem no país, mas também não existe razão para tolerar o que cometem crimes”.

Essa mensagem foi reforçada pela Presidenta Cristina Kirchner ao anunciar o envio da proposta ao Congresso em rede nacional:

“Nosso país tem uma política migratória como poucos no mundo em termos de generosidade e abertura, o que se deve à própria conformação do país. Não me canso de dizer que sou neta de imigrantes. (…) Mas acredito também que os argentinos merecem uma proteção frente ao que se vem observando como um fenômeno crescente de estrangeiros que vêm ao país com motivos de cometer delitos”

Ainda assim, algumas organizações de direitos humanos como a CELS (Centro de Estudos Legais e Sociais) e partidos de oposição rejeitaram a proposta. Segundo eles, a Presidenta tenta estabelecer uma conexão entre o crime e a imigração, o que não está demonstrado nas estatísticas. Os números falam de 20% de participação de estrangeiros em delitos na Argentina, mas pelo menos 60% dos casos estão relacionados às chamadas ‘mulas’, presas por situação de narcotráfico.

Em entrevista o Notas Periodismo Popular, Pablo Ceriani da Universidade de Lanús e membro do Comitê de Proteção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e seus Familiares da ONU, esclareceu:

“Não estamos falando de pessoas que vivem aqui, mas de delitos cometidos na fronteira, onde, como em qualquer outro lugar do mundo, há uma participação maior de estrangeiros. Nesse sentido, a discussão não deveria se centrar no tema migratório, mas no do narcotráfico. (…) Quando vemos as estatísticas totais sobre estrangeiros detidos na Argentina, não só por crimes federais, mas os de qualquer tipo, estamos falando de 5%, o mesmo número de 2002”.

Os especialistas de Direitos Humanos da CELS temem que o novo código dará mais poder aos policiais, “que tendem a inventar casos para incriminar estrangeiros” e afirmam que a proposta “esconde um pensamento racista”.

Partidos de oposição também criticaram o Código, alegando que ele viola a Convenção Inter-Americana de Direitos Humanos. Mesmo membros do partido PRO de Maurício Macri, que outrora foi acusado de xenófobo pelos conflitos no Parque Indoamericano, qualificaram esse artigo do código de “oportunista e sem motivos”.

O projeto ainda será debatido no Senado e se espera uma grande e necessária discussão sobre o tema.

Enquanto isso, o país segue sitiado por incertezas econômicas. Uma guerra de estatísticas entre governo e jornais de oposição faz pensar que estamos falando de dois países diferentes, mas é verdade que uma das grandes preocupações por aqui, a discrepância entre o dólar oficial e o paralelo (ilegal) tem diminuído com a minidesvalorização do Peso.

Até semana que vem!

Briefing: Se me pasa algo…

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A semana na Argentina foi marcada por um discurso da Presidenta Cristina Kirchner na Casa Rosada em que disse:

“Têm aparecido uns artigos nos jornais sobre supostas investigações que foram feitas nos organismos de inteligência do Estado sobre a ameaça que eu estaria sofrendo por parte do ISIS, esse grupo terrorista que atua no Iraque. Fiquei sabendo pelos jornais que aparentemente o serviço de inteligência descobriu alguma evidência na Tríplice Fronteira. Primeiro, devo dizer que não acredito, porque se fosse uma revelação de organismos de Estado, a primeira que deveria ser avisada teria sido eu, que sou a Presidenta e a ameaçada, e não o Clarín. (…) Por favor me escutem. Se alguma coisa acontecer comigo, e eu estou falando sério, não olhem para o Oriente; olhem para o Norte! Porque depois de ver as coisas que estão fazendo em determinadas representações diplomáticas, depois de escutar essas declarações que verdadeiramente parece um exercício de cinismo, depois de ver as coisas que vi nas Nações Unidas, realmente, que me venham criar toda uma historinha de que o ISIS está atrás de mim para me matar ou fazer alguma maldade… por favor! Não voltem a armar uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado que não quero mencionar”

Ou seja, no meio de todas as coisas que disse Cristina nesse discurso, está uma dramática subida no tom com os Estados Unidos, conforme já se observada desde a semana passada. Uma subida dramática a la Argentina.

Mas vamos por partes.

Depois do discurso de Cristina na ONU, o juiz Thomas Griesa, como havia ameaçado antes, declarou que a Argentina estava “em desacato” por não cumprir a decisão judicial que obrigava o pagamento de US$ 1,3 milhões, além de determinar que a Lei do Pagamento Soberano é ilegal.

Como esperado, o governo argentino reagiu com força, sobretudo porque é bizarro que um juiz municipal americano se sinta em capacidade de julgar uma lei votada no Congresso de outro país. Assim, a Chancelaria daqui enviou uma carta ao Departamento de Estado alertando que os Estados Unidos incorria em responsabilidade internacional com a decisão.

A resposta do Secretário de Estado John Kerry veio à reboque, na qual afirmou que “acompanha a situação de perto” e que “espera que a Argentina prospere”.

No meio dessa troca de correspondências, a Embaixada dos EUA em Buenos Aires emitiu um comunicado em que alertava os cidadãos americanos sobre a violência no país, o que desatou a fúria do governo. Antes do trecho que publiquei anteriormente, ela afirmou, entre outras coisas:

“Eles querem dizer que vivemos na pior época do Faroeste e eu acredito que isso é realmente uma imensa provocação a qual não irei reagir. Porque seguramente o senhor que escreveu esse comunicado, que já nos acusou de estar em default [o embaixador interino Kevin Sullivan], pensou ‘agora eu provoco ela, a deixo enfurecida e eles vão me expulsar do país’. Não vai acontecer”

“Eu não entendo o que significa ‘estar acompanhando a situação de perto’. Penso que talvez esteja contribuindo, já que como não aconteceram os cataclismos sociais que alguns prenunciavam ou que queriam provocar…”

“Se [os EUA] estão tão interessados numa Argentina próspera, que participem. Primeiro, se ele se lembrasse de 2001, quando deixaram a Argentina na mão e a gente se partiu em mil pedaços depois de seguir todas as receitas que eles nos prescreveram… (…) Se tanto lhe preocupa a Argentina e a nossa prosperidade, por que não deixam que a Argentina pague a sua dívida?”

Como antecipado, esse discurso terminou com uma surpreendente declaração de que, se for assassinada, que se busquem os suspeitos no norte, ou seja, nos Estados Unidos; mas essa não é uma declaração leviana simples de ser decifrada.

No discurso na ONU, Cristina mencionou o Acordo com o Irã para solucionar o caso do atentado ao centro comunitário judio em Buenos Aires, a AMIA em 1994, que matou 84 pessoas e deixou centenas de feridos.

Investigações controversas chegaram à conclusão de que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo iraniano. Apesar de um dos acusados ter prestado depoimento na Inglaterra e liberado por falta de provas, parte da comunidade judia em Buenos Aires (reunidos na Associação de Delegações Israelitas da Argentina, a DAIA) sustentam essa tese até hoje. Entretanto, parte dos familiares de vítimas, reunidos em outra organização, sustentam que o atentado foi planejado e executado por agentes do governo argentino e pedem que os arquivos confidenciais da época sejam desclassificados. Eles e outros movimentos sociais e políticos afirmam que a “pista iraniana” foi forjada para livrar os suspeitos locais.

Ao pedir no discurso dessa semana que não se “arme uma novela como fizeram a respeito de outras questões do passado”, a Presidenta basicamente infere que corrobora com a tese da falsificação de provas para encontrar um bode expiatório estrangeiro no caso da AMIA.

Mas as declarações bombásticas desse discurso não pararam por aí e trouxeram consequências práticas ainda mais sérias, pois a Presidenta questionou a falta de controle sobre algumas operações de câmbio e sugeriu o vazamento de informações privilegiadas do Banco Central. No dia seguinte o presidente da instituição Juan Carlos Fábrega se demitiu desatando uma crise de confiança no mercado, conforme verificado no tombo de 8% da Bolsa de Valores de Buenos Aires.

O novo presidente indicado pelo governo, Alejandro Vanoli, muito próximo do Ministro da Economia Axel Kicillof, chegou com um pacote de medidas para frear a sangria de dólares. Apesar dos comentaristas econômicos dos grandes jornais terem reagido à nomeação com temor, já que representaria um avanço dos setores mais radicais na condução da economia, de fato, o dólar desacelerou.

Até semana que vem!

Briefing: Buenos Aires continua linda

 

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Todos esperávamos um discurso bombástico de Cristina Kirchner na Assembleia Geral da ONU – e a Presidenta não decepcionou.

“Não só são terroristas aqueles que botam bombas, mas também são terroristas econômicos os que desestabilizam a economia dos países e provocam fome, miséria e pobreza!”

Todos esperávamos que ela seria criticada – e os jornalões saíram pela tangente: apenas disseram que Obama tirou os fones da tradução simultânea enquanto a mandatária argentina vociferava contra os algozes do país.

Mas antes disso, teve um ministro alemão, Wolfgang Schäube, que botou lenha na fogueira. Advertiu que a Argentina deveria parar que insultar aos fundos ao chamá-los de abutres porque “o problema é a própria Argentina”; no que respondeu o Chefe de Governo Jorge Capitanich:

“Não é casualidade a opinião dele, porque seu país sempre teve uma atitude hostil. É de se refletir por quê as grandes potências não têm uma atitude firme contra grupos minúsculos. Parece que estão cooptados pelos grupos financeiros e pelos fundos abutres que efetivamente condicionam sua atitude, vontade e expressões”

Será que alguém na Alemanha vai se dar ao trabalho da tréplica? Será preciso esperar. Por aqui, naturalmente as opiniões se dividiram entre os elogiaram a atitude firme do governo e os que o acusaram de criar inimigos em meio mundo.

Portanto, até aqui nenhuma novidade. Explicando a uma jornalista brasileira de férias por aqui o que raios acontece nesse país, eu lhe contei que não tem mistério: é como só existissem Reinaldos Azevedos e Lucianas Genros tanto na classe política quanto nos meios de comunicação. Uma radicalização difícil de reconciliar.

Enquanto isso o povo espera a catástrofe ou a redenção. Um professor da faculdade me falou de seu temor por uma hiperinflação; o povo das ruas quer saber disso? Não. As notícias mais lidas, seja no Tiempo Argentino, Página/12, La Nación ou Clarín – da esquerda à direita – são aquelas dedicadas às tragédias do momento ou polêmicas do star system local.

É o caso do roubo gravado pelas lentes da GoPro de um turista canadense, repetido ad nauseam nas cadeias de televisão:

E também a morte de uma adolescente depois de uma festa. E também a filha da veterana vedete Moria Casan que tirou uma foto grávida nua em defesa da legalização do aborto. E também o convite do político Martín Insaurralde com a celebrity Jésica Cirio que veio com a sugestiva frase:

“Let’s party, mother fuckers!”

Alguém mais aguenta falar de abutres, inflação e crise?

Para nada!, como se diz aqui. O povo implora por um pouco de circo na certeza que pão de alguma forma se arruma. Até uma correspondente internacional amiga andou me dizendo: “Não aguento mais falar mal da Argentina – eu vivo tão bem aqui!”.

E quer saber? É verdade!

Para os que veem de fora, pode-se até inferir que a vida na Argentina anda insuportável, mas a verdade é bem mais complexa do que parece. Buenos Aires continua linda, ainda mais na primavera.

Até semana que vem!

Briefing: O Inimigo?

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A segunda-feira nem bem dava as caras direito e mais um quilombo se armava na Argentina, já que a edição do Clarín trazia uma entrevista do Encarregado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires Kevin Sullivan em que, com bastante desenvoltura, desvelou muitas opiniões sobre o conflito da Argentina com os tais fundos abutres.

Atualmente desempenhando o cargo de representante máximo dos EUA por aqui, já que Washington tarda em nomear um embaixador (dizem que é retaliação), Sullivan afirmou que seu país “não apoiará o debate nas Nações Unidas porque não [lhes] parece o âmbito para encontrar uma solução eficiente”, e também porque “o mecanismo criaria incertezas”.

Nenhuma novidade. Desde que a Argentina decidiu levar aos órgãos multilaterais a questão da restruturação das dívidas soberanas como a OEA e a ONU, sempre angariando o apoio da maioria, os Estados Unidos votaram contra.

Mas ele não parou por aí e mencionou uma palavrinha que provocou a ira do governo argentino:

“É importante que a Argentina saia do default o quanto antes para poder retornar ao caminho do crescimento econômico sustentável e atrair os investimentos de que necessita”

Foi a primeira vez que um funcionário do governo dos Estados Unidos falou em default, mesmo que a Argentina venha questionando essa situação. Na lógica da Casa Rosada, se o país tem dinheiro para pagar, realizou o pagamento e teve o depósito bloqueado no Banco de Nova York por uma decisão de um juiz americano, isso não se caracterizaria como um default, senão um problema técnico da praça financeira estadunidense.

Em dura nota emitida no dia seguinte, a Chancelaria afirmou que:

“[As palavras do diplomata] não têm nenhum valor fatídico e, sim, coincidem com a postura dos fundos abutres em contraposição aos interesses dos 92,4% de credores que aceitaram a restruturação da dívida”.

De acordo com o governo, o país tanto tem fundos e vontades de realizar seus pagamentos que aprovou no Congresso a chamada Lei do Pagamento Soberano da Dívida Externa para driblar os problemas técnicos da praça financeira de Nova York.

Prosseguindo, a nota afirma que a Argentina deplora (palavra fortíssima nos meios diplomáticos) que os EUA não tenham aceito a jurisdição da Corte Internacional de Haia para resolver a questão “segundo critérios legais, equitativos e justos” com juízes independentes; e provocou:

“Os EUA tampouco aceitam a jurisdição da Corte Inter-americana e da Corte Penal Internacional em temas vinculados aos direitos humanos”

Por fim, ameaçou com as mais severas medidas se “esse tipo de intromissão nos assuntos internos” voltarem a se repetir, lembrando que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

De fato, é pouco comum ver entrevistas de diplomatas em jornais do país onde estão em serviço (sobretudo um jornal claramente de oposição) dando recomendações dessa natureza (sobretudo num tema tão sensível na agenda bilateral), pois influenciar a opinião pública local pode ser considerado uma intromissão em assuntos internos.

Para os críticos do governo, trata-se de mais um capítulo na tendência ao conflito do governo de Cristina Kirchner. Em entrevista ao Infobae, o ex-Vice-Chanceler Andrés Cisneros analisou a questão:

“A declaração de Sullivan não contém uma receita ou indicação de uma maneira em que o país estrangeiro pretenda nos ‘ensinar’ como exercer nossa soberania. Ele simplesmente enuncia um desejo de boa vontade com o qual é difícil não coincidir: sair do default, o que é o objetivo de todos os argentinos. (…) É preciso evitar que um caso como este se converta em outro ‘mini-round’ de um ‘Braden-Perón’ artificialmente criado”

Ele se referia à histórica disputa entre o Presidente argentino e o diplomata estadunidense Spruille Braden, que, na ‘defesa dos interesses daquele país’, não economizou intromissões e conspirações contra o governo.

No diário La Nación, o colunista Martín Dinatale cunhou a atitude do Palácio San Martin (sede da Chancelaria argentina) de “a diplomacia da sobreatuação”:

“Será que Cristina não aprendeu suficientemente aquela frase de Perón que dizia que ‘do ridículo não se retorna’? A diplomacia argentina liderada pelo kirchnerismo faz tempo é regida pelas normas da política doméstica. Os gestos externos são dirigidos ao público local.”

Mas o governo não terminou por aí. Na quarta-feira, em entrevista à uma radio, o Ministro da Economia afirmou que as declarações de Sullivan e a desvalorização da cotação paralela da moeda (o chamado dólar blue) não são coincidências, mas fazem parte de um plano de cinco pontos elaborado pelos fundos abutres para desestabilizar a Argentina. Seriam eles:

  1. Atacar a moeda para forçar a desvalorização
  2. Atacar a pessoa da Presidenta
  3. Impedir o pagamento local da dívida nos próximos vencimentos
  4. Bloquear o financiamento do país
  5. Esperar 2016 (quando o país terá um novo mandatário)

E, por fim, ontem a Presidenta Cristina relacionou a limitação na venda de passagens da American Airlines com esse suposto ataque ao governo e ao país.

Essa semana, a companhia aérea estadunidense restringiu a compra de suas passagens a 90 dias de prazo – ou seja, um argentino atualmente não pode comprar uma passagem para Miami com data de janeiro de 2015. De acordo com o La Nación, essa medida estaria relacionada às restrições do câmbio (o chamado cepo cambiario‘), já que os operadores não querem reter pesos com medo da desvalorização.

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Em sua conta no Twitter e Facebook (a Presidenta é bastante afeita às redes sociais), Cristina disparou contra a voadora.

“Não existe nenhum tipo de restrição para o pagamento de passagens e pacotes turísticos com divisas. (…) Que não fiquem dúvidas que [eles] estão querendo gerar, através de mentiras, expectativas negativas e ataques especulativos à nossa moeda.

A presidenta também citou as declarações de Sullivan, os tais cinco pontos anteriormente citados por Kicillof e, por fim, fechou o relato com chave ouro:

“A partir de dezembro de 2013, James Albaugh, a quem não tenho o prazer de conhecer, tornou-se diretor da American Airlines. (…) Ele é o assessor principal do The Blackstone Group LP, um dos mais importantes fundos de investimento financeiros detentor de títulos da dívida argentina. Como eu digo sempre: Se joga com tudo. E na Argentina, mais do que em qualquer outro país”

Saindo um pouco desses qüiproquós entre Estados Unidos e Argentina, os analistas daqui continuam demonstrando preocupação com uma eventual vitória de Marina Silva nas eleições presidenciais brasileiras, como antecipei em artigo anterior. Em artigo para Buenos Aires Herald, Carolina Thibaud afirmou que esse resultado pode trazer consequências importantes para a América Latina e, sobretudo para a Argentina, com quem o país manteria uma “paciência estratégica”:

“A ambientalista e evangélica tem sugerido que o tempo da ‘paciência estratégica’ com a Argentina terminaria rapidamente se ela ganhasse a presidência. (…) Apesar da pressão das elites industriais do Brasil por uma postura mais dura com relação à Argentina, Rousseff tem sido discutivelmente precavida em seus negócios com Buenos Aires, ainda que o protecionismo argentino tenha muitas vezes trabalho contra a integração regional e impedido o Mercosul de avançar como bloco unificado.

“Em seu manifesto de campanha, Marina defendeu mais integração com a Aliança do Pacífico e a ideia de uma solução de duas velocidades para o Mercosul, onde o Brasil, o Uruguai e o Paraguai poderiam assinar Acordos de Livre Comércio com a União Europeia, por exemplo, mesmo se a Argentina se recusar”

No mesmo artigo, entretanto, o analista de política internacional da Universidad de San Andrés Federico Merke destacou que Marina teria uma boa relação tanto com o candidato à presidência da Argentina Mauricio Macri (conservador) e Sérgio Massa (um ex-kirchnerista arrependido):

“Os assessores da brasileira e dos dois candidatos pedem por mais liberalização”

Daí, uma pergunta não cala para mim: na visão de CFK e seus correligionários, seria Marina Silva uma candidata abutre?

Até semana que vem!

 

Briefing: ¡Adiós, Cerati!

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Quando começou a semana, todos estavam com os olhos e ouvidos voltados para o que já se estava chamando de “súper-miércoles“, a quarta-feira em que o Senado de la Nación votaria dois projetos altamente controversos: a lei do abastecimento e a lei do pagamento soberano. Mas quando os jornais já exibiam as capas com louros ou críticas aos resultados alcançados pelo governo, foi anunciada uma notícia terrível que calou todas as outras: morreu Gustavo Cerati, vocalista do Soda Stereo.

Desconhecido pela maioria no Brasil (que não está muito acostumada a ouvir música em espanhol), o Soda conquistou uma legião de seguidores fieis com letras inteligentes e uma mistura de diferentes vertentes do rock. Depois Cerati seguiu uma carreira solo também com bastante sucesso, até sofrer um AVC no meio de um show em Caracas na Venezuela que o deixou em coma por 4 anos. A agonia acabou essa semana.

Nota pessoal: Antes de vir morar em Buenos Aires, pesquisei músicas argentinas para embalar meus sonhos e expectativas. Tanto o Soda quanto o Cerati solo foram hits fundamentais dessa pré-estreia. Devo confessar que as imagens evocadas em ‘Ciudad de la Furia’ (Buenos aires se ve tan susceptible / Es el destino de furias lo que en sus caras persiste) me causava um misto de apreensão e empolgação. Quem não espera uma intensidade dessas às vésperas de uma aventura dessas?

Na TV e nas rádios, suas músicas eclipsaram tudo. O povo daqui, com um gosto todo especial para o drama, chora com vontade a morte do ídolo que embalou a sua juventude. Sua contraparte mais adequada no Brasil, como lembrou a jornalista brasileira também radicada aqui Márcia Carmo, seria o Cazuza. Se você ainda não conhece, aí vai uma das minhas favoritas:

De qualquer maneira, falemos da tal da super quarta-feira, né? Afinal, o governo conseguiu passar no Senado duas leis que causaram grande debate no país.

A primeira foi a Lei do Pagamento Soberano, que propõe a transferencia dos títulos da praça de Nova York (e, por isso, sob jurisdição de Thomas Griesa) para a praça de Buenos Aires ou da França. A alternativa europeia apareceu de última hora devido temores de que a restruturação não teria muita adesão se ficasse concentrada localmente. Além disso, acatando a uma velha bandeira das esquerdas daqui, a lei cria uma Comissão Permanente Bicameral que investigará e fará o seguimento de toda a dívida pública argentina contraída desde 1976.

A lei foi aprovada pela abrumadora maioria governista no Senado, mas contou com a oposição de basicamente todo o resto, desde a Frente UNEN (uma ampla coalizão de oposição que anda bastante fissurada nos últimos tempos) até o PRO de Mauricio Macri – que também fez de tudo para que a sessão não fosse presidida por Amado Boudou, que atualmente está processado por casos de corrupção.

Acusada pelo economista Fernando Mattos de “não aportar nada de inteligente a apenas obstruir debate”, os opositores dizem que o governo está fazendo mais uma gambiarra que nada resolve em prejuízo da já seriamente deteriorada reputação argentina nos mercados internacionais. Alfonso Prat-Gay, da UNEN, afirmou:

“Este governo nunca encara a questão de fundo e não se pode viver a vida inteira à margem da lei, sobretudo, se estamos falando de uma jurisdição que a Argentina elegeu para dirimir seu problema”

Ele, apesar de não concordarem com a sentença do juiz Griesa com relação aos fundos abutres, entendem que o país ofereceu emitir os títulos sob a lei americana justamente pela suposta pouca segurança jurídica que poderia ser oferecida pela Argentina. Macri do PRO concorda:

“Eles tomam medidas que pioram a situação e tornam mais agudas a recessão. Não vamos aplaudir mais um default como o de 2002”

Já a Lei do Abastecimento, que substitui uma homônima de 1974, estabelece mecanismos de intervenção do Estado, ainda que esclareça que haverá compensações às empresas prejudicadas e se restrinja às grandes empresas (micro, pequenas e médias ficaram de fora). As intervenções, como a fixação de margens de utilidade, preços de referência, níveis máximos e mínimos de preços), deverão ocorrer somente mediante autorização judicial.

Nesse caso, a oposição afirma que a Argentina está indo pelo caminho da Venezuela, onde o resultado foi desabastecimento e ainda mais inflação. Em duro editorial, o jornal La Nación cunhou o nome Argenzuela para descrever uma situação de crescente intervenção estatal na economia, e em outro, disse que este se trata de um governo dos piores:

“O desprezo do governo nacional pela liberdade de expressão, as instituições, a independência da justiça, sua política comercial arbitrária, sua política diplomática conflitiva e que não leva a nada e sua dependência do clientelismo voraz são contrários ao diálogo e à busca dos consensos próprios de uma democracia que se entenda como progressista e moderna”

O governo, por sua vez, afirma que a lei protege não só consumidores, mas também os pequenos e médios empresários que compram num atacado “dominado por grupos concentrados”. O Chefe de Gabinete Jorge Capitanich rebateu as críticas da oposição:

“Os grupos opositores empresariais ou frentes eleitorais pretendem invalidar a aplicação desta norma a partir de uma visão negativa de estímulos ao emprego e ao investimento”

Enquanto o governo pisa o acelerador em suas medidas pouco ortodoxas, seguem insinuações de corrupção, sobretudo agora que foram divulgados dados do patrimônio dos principais líderes políticos do país. O de Cristina teria subido 30%, o de fulano 40%, o de ciclano 50%. Os dados abundam, mas não passam muito disso.

E, no meio de tudo isso, o salário mínimo aumentou 31%, o que, se visto pelos níveis oficiais de inflação está de acordo, mas se visto pelas medições informais (cerca de 40% desde o início do ano), simplesmente não alcançam.

Como se pode ver, existem duas argentinas que não se comunicam. Trocam acusações e se presumem do lado da razão sempre.

Nesse fogo cruzado, só uma copa do mundo ou a morte de um ícone é capaz de gerar consensos. Gustavo Cerati gerou o consenso da semana – dá uma olhada nas capaz de La Nación, Página/12, Clarín e Telam: estão todos com ele.

Que descanse em paz.

Briefing: Mecanismos Internos

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Em outros Briefings, descrevi a encruzilhada em que se encontra o governo argentino: de um lado está o “mercado”,  pedindo reformas ortodoxas, o fim das restrições ao câmbio e ao comércio, além do pagamento das dívidas do país com os credores estrangeiros; do outro estão os trabalhadores daqui que, historicamente acostumados a níveis de vida muito mais altos que a média latino-americana, vêm se estapeando para conseguir sair dessa penúria que se acentua desde a década de 80. Quando parecia dar uma afrouxada, agarrou todo mundo pelo pescoço em meados de 2012 e a crise não dá sinais de trégua.

Informações desencontradas dão conta de mais de 500 mil demissões e uma inflação de 40% nos últimos 6 meses, mas é o futuro que preocupa mais o povo daqui. Com as eleições presidenciais de 2015 se aproximando, ninguém se arrisca a dizer exatamente quem serão os candidatos, muito menos qual deles irá ganhar. E é esse cenário de incerteza que parece conflagrar tudo.

O governo descarta o terror, exibindo dados em que, por A mais B, a situação das classes populares tem melhorado muito desde a ascensão de Nestor Kirchner à presidência. Identificou o inimigo no exterior, os tão falados fundos abutres, e estendeu a classificação a certos atores internos mais conservadores e, naturalmente, mais mais ricos.

Entretanto, a situação não se apresenta como uma luta de classes como nas antigas, pois à esquerda da Presidenta estão numerosas centrais sindicais e movimentos sociais muito mais radicais que têm dado uma dor de cabeça danada. De greve em greve, manifestação em manifestação, essa gente vai deixando claro o seu discurso.

Essa semana foi a vez da greve geral, convocada há cerca de um mês por Hugo Moyano, um dos maiores líderes sindicais da Argentina.

Hugo Moyano

Hugo Moyano

Em primeiro lugar, é interessante observar quem é Hugo Moyano, secretário-geral da Central Geral do Trabalho (CGT). Com raízes no sindicato dos caminhoneiros, ele comanda uma tropa fiel de cerca de 200 mil seguidores facilmente mobilizáveis e com o poder de basicamente parar o país, já que os grãos exportados, maior fonte de divisas daqui, é transportado na boleia de seus caminhões. Sob seu comando direto, estão motoristas e funcionários dos pedágios, por exemplo; o que significa que basta Moyano se manifestar e todos cruzam os braços. Investigado por enriquecimento ilícito, o controverso líder sindicalista rompeu com o governo em 2011 – retalhando ainda mais o movimento sindical local.

Aliás, esse é um dado que se deve levar em conta: as duas centrais sindicais do país estão literalmente divididas há décadas. Moyano lidera a chamada CGT Azopardo, mas existe uma outra CGT que é liderada por Antonio Caló e que apoia o governo de Cristina Kirchner.

Por outro lado, também existe a CTA, uma dissidência da CGT, que atua de forma independente e hoje é liderada por Pablo Micheli.

A greve geral de ontem teve a adesão da CGT de Moyano e da CTA, que em teoria representam tão somente 25% do movimento sindical argentino; mas que, no entanto, como eu disse antes, controlam setores estratégicos, como transportes, e que têm grande poder de mobilização. Dessa maneira, ontem não funcionaram trens, parte dos metrôs e foram bloqueadas as maiores vias de acesso à cidade de Buenos Aires. Calcula-se que a adesão, voluntária ou não, à greve foi de 85% no final das contas, embora o governo negue.

Obs.: A greve geral de ontem foi muito menor do que a de 10 de abril desse ano. Com os ônibus funcionando, o movimento na capital estava razoável, embora algumas lojas e bancos estivessem fechados.

Durante uma grande manifestação que percorreu a Avenida de Mayo desde a Casa Rosada até o Congresso na quarta-feira (27), estive conversando com Pablo Micheli (Secretário-Geral da CTA), Alejandro Bodart e Vania Ripoll (ambos do MST, Movimento Social dos Trabalhadores). Mais do que pedir um aumento para os salários e aposentadorias, carcomidos pela inflação, eles me disseram que estão lutando também por:

  • o fim do imposto de renda para os trabalhadores, já que para eles, não sendo lucro e remunerando o trabalho, salário não deveria ser taxado;
  • uma lei que impeça as demissões e férias coletivas por um ano; e
  • expropriação estatal das empresas que demitem trabalhadores.

Em uma entrevista com Bodart no mês passado, ele foi mais longe: todo o sistema bancário da Argentina deveria ser privatizado.

Para eles, Cristina Kirchner está a favor da banca internacional, dos yankees, como eles dizem aqui, e está enganando o povo argentino com meias-reformas, maquiagens. Micheli dizia de maneira bastante contundente:

“Vimos essa situação na década de 90, não vamos deixar que se repita!”

Da outra extremidade, como eu já falei e como se lê na mídia ocidental sempre quando se fala da Argentina, Cristina está se lixando para os mercados internacionais e está levando o país a uma aventura populista de graves consequências.

Esses dias, por exemplo, um artigo do Wall Street Journal alertou que a Argentina já deve estar em recessão. De acordo com o periódico, o país convive com uma “combinação tóxica” de crescimento econômico fraco e inflação alta, enquanto as reservas internacionais desmoronam pela fuga de capitais e intervenções para conter a montanha-russa cambiária. Em cerca de dez dias, a cotação paralela do peso passou da casa dos AR$ 12 para os quase AR$ 15 – uma situação que deve piorar, já que os preços da soja no mercado internacional têm tendência de queda a partir do terceiro trimestre.

Os analistas consultados pelo WSJ são unânimes: o país está irresponsavelmente jogando com a política macroeconômica para garantir um crescimento em detrimento das reservas.

No meio desse fogo cruzado, o governo claramente tenta se posicionar ao lado dos trabalhadores. Essa semana, propôs duas leis no Congresso:

  1. a chamada “lei do pagamento soberano”, que expliquei no último Briefing; e
  2. a Lei do Abastecimento, que cria a justiça do consumidor e dá ao governo mecanismos de intervenção nas empresas

Sem poder de maneira alguma baixar a arrecadação, naturalmente nem considera a possibilidade de ceder à reivindicação dos sindicatos referente ao imposto de renda. Alega, contudo, que este imposto só atinge 10% da população e que favorece a distribuição de renda. Dessa maneira, acusa aqueles que convocaram a greve de fazer uso político de seu poder de mobilização.

Mario Wainfeld do Página/12 resumiu bem a situação:

“Pela oratória dos sindicalistas, a Argentina seria uma comunidade organizada. Harmoniosa em todos os seus estamentos, é somente perturbada por um governo avesso, depredador e até psicopata – a mesma versão infantil que propagam os meios hegemônicos, as corporações patronais, as multinacionais e, por sua vez, os principais membros da oposição. Um estranho sentido comum.

Hoje, os sindicalistas afirmaram que mais greves gerais estão por vir, o que, junto com as previsões no mínimo pessimistas dos analistas econômicos, prenunciam um fim de governo bastante conturbado para Cristina Kirchner. Não é uma novidade.

Desde que cheguei aqui, semana sim semana não aparece uma nova informação que dá conta de decretar o fim da Argentina. Na primeira vez, eu realmente cheguei a acreditar que tudo estava perdido, mas minha amiga Gabriela Grosskopf Antunes (colunista no Globo Online e jornalista da versão em português do Clarín) cantou a bola:

“Esse país é assim mesmo; amanhã aparece uma nova catástrofe e depois de amanhã tudo volta ao normal”

Até semana que vem!