1. Quem vai às urnas?

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“Manifestación” de Antonio Berni

No primeiro texto da série em que pretendo traçar um panorama da Argentina no ano eleitoral de 2015, a escolha mais óbvia seria economia ou política, não é mesmo? Entretanto, resolvi reverter as coisas um pouquinho. Já que as eleições são a festa da democracia, por que não começar tudo pelo povo que, no final das contas, é o maior interessado em tudo isso? Existe economia ou política sem povo? Ambas estão (ou deveriam estar) à serviço de quem?

Não pretendo entrar muito nessa questão, mas posso adiantar que, como na maioria de nossos países, a resposta óbvia nem sempre correspondeu à realidade em nosso grande irmão do Sul. Numa trajetória de vida independente de cerca de duzentos anos, o país passou por transformações demográficas e sociais impressionantes, incluindo um influxo gigantesco de imigrantes (antes europeus, agora sul-americanos) e avanços e retrocessos no nível de vida, nos aspectos educacionais, entre outros.

No Brasil, em geral nossa impressão é extremamente desencontrada sobre o que é o povo argentino. Ora vistos como arrogantes, ora como os mais bem educados da região, ora como baderneiros (vide alguns visitantes durante a Copa do Mundo), inputs gerados por uma rápida visita à Buenos Aires ou pelo magnífico cinema produzido nesse canto do mundo ou mesmo por dados soltos como os cinco prêmios Nobel concedidos a cidadãos daqui (dois de medicina, dois da paz e um de química) brigam com as notícias que nos chegam através do jornal, onde constam pobreza, desestruturação e decadência política.

Mas, fora o senso comum dos brasileiros, quem é o argentino médio? Quem elegerá o próximo mandatário daqui?

Essa não é uma pergunta fácil. Entre os próprios argentinos, a realidade convive com mitos persistentes e, de certa forma, contraditórios, como, por exemplo, ‘la cultura del trabajo y del ahorro‘ trazida pelo europeus na primeira metade do século XX, ‘la viveza criolla‘ herdada dos tempos da colônia e supostamente retroalimentada pelos novos imigrantes, o sindicalismo auspicioso/pernicioso (depende do ponto de vista) desde a ascensão de Perón e o invejado e inovador sistema educacional introduzido por Sarmiento.

De qualquer maneira, é sempre bom começar pelos fatos indiscutíveis: hoje vivem na Argentina quase 43 milhões de habitantes (pouco menos que o estado de São Paulo), ocupando muito desigualmente o oitavo maior território do planeta (o nordeste e o sudeste brasileiro juntos e mais alguns quebrados). A caixa de pressão do país está concentrada em Buenos Aires e arredores, concentrando um pouco menos que a metade da população.

Essa desigualdade na ocupação também se reflete nos índices de desenvolvimento social. Por exemplo, na capital, o índice de desenvolvimento humano (IDH) é considerado altíssimo, próximo àquele registrado no Reino Unido. Já algumas províncias mais ao norte apresentam dados comuns aos rincões mais pobres da América do Sul. Em Salta, quase 30% da população não tem acesso à serviços básicos como saneamento básico, moradia e saúde pública.

Ou seja, como no Brasil, é impossível visualizar os argentinos sem que venham à cabeça milhares de imagens que incluem não só o porteño com cara de europeu, mas uma gama multirracial que vem ganhando nas últimas décadas ainda mais variedade. Um passeio pelo bairro do Once em Buenos Aires dá conta de confirmar essa assertiva, pois naquele caldeirão cultural se podem ver os chineses, africanos, haitianos e outros imigrantes da América do Sul, que pouco a pouco vão transformando a população do país.

Um dos motivos dessa transformação está no primeiro parágrafo da Constituição que enumera uma série de objetivos a serem alcançados para os nativos, para a posteridade e para “todos os homens do mundo que queiram habitar o solo argentino”. Essa disposição influenciou, não sem controvérsias, a adoção de uma das políticas imigratórias mais laxas do planeta, em que, na prática, absolutamente ninguém é deportado apenas por uma situação irregular.

Mas a transformação que se opera de maneira constante não está restrita à composição étnica. Se uma das características mais notáveis da Argentina era a predominância de uma classe média substancial e bem educada – uma visão que pode ter sido bastante verdadeira até meados da década de 1970 – três décadas de políticas econômicas erráticas e fatores externos pouco auspiciosos dificultaram e muito a vida dos argentinos.

Muita gente se surpreendeu com os dados divulgados no momento imediatamente posterior à crise de 2001, em que cerca da metade da população de repente flertava com a linha da pobreza; mas a verdade é que esta realidade havia começado a ser construída bem antes, quando o ditadura civil-militar investiu-se de um tal Processo de Reorganização Nacional, que bem desestruturou a economia argentina (não vou entrar no lado político).

Fábrica têxtil abandonada

Fábrica têxtil abandonada

Conhecer áreas da Grande Buenos Aires (o chamado conurbano bonaerense), é também passear por um cemitério de pequenas fábricas que outrora empregavam a maioria da população argentina e que, expostas à competição internacional num processo de liberalização súbito e implacável até o fim da década de 1990, definharam, deixando um rastro de desemprego que em 2001 atingia um em cada cinco pessoas do país.

No afã de sobreviver, alguns empresários recorreram ainda a contratos de trabalho precário, informal e semi-informal, onde direitos trabalhistas como o salário mínimo, licença maternidade e décimo terceiro (aqui chamado de Aguinaldo) eram letra morta. Dessa maneira, a tão-falada cultura del laburo argentina foi fortemente golpeada, num processo que dura até hoje. O deputado Cláudio Lozano me falou recentemente que apenas 50% da população disfruta de um emprego digno e estável (embora as estatísticas oficiais apontem para um índice de desemprego estacionado nos 10%).

Outro traço tradicional e recorrentemente lembrado do povo argentino é a cultura del ahorro (o hábito de economizar), que também vem sendo posta a duríssimas provas nas últimas décadas. Ora submetidos a uma inflação exorbitante, ora impedidos de recorrer às suas economias guardadas no banco ou de comprar dólares para preservá-las, os trabalhadores foram perdendo a capacidade de planejar e resguardar um futuro tranquilo.

“A Argentina atravessou durante o período 1976-1983 um processo de desmantelamento da estrutura social, educativa, produtiva e redistributiva vigente até então. Dizimaram uma geração, levando vidas e esperanças. (…) Esse processo se aprofunda na década de 90, com o auge e consolidação das políticas neoliberais, que foram consumando o retrocesso do Estado em áreas estratégicas. A transformação produtiva e social derivada desse modelo tem como corolário e ponto final do ciclo na crise/implosão de 2001”

em “Políticas Sociais no Território” de Oscar Walter Romero

Entre essas duas catástrofes que acabo de descrever, a palavra que mais ganha espaço no zeitgeist do país, muito embora se trate de um povo (nota pessoal) alegre e perseverante, é inseguridad, nas suas mais variadas acepções; as mais visíveis delas sendo a violência urbana e o tráfico de drogas.

Muito se fala aqui dos chamados ni-ni, aqueles jovens que ni estudian ni trabajan, ante uma verdadeira crise de perspectivas para o futuro, alguns dos quais resvalam na marginalidade e tornam-se protagonistas das páginas policiais. Essa violência que nos parece tão corriqueira ou as favelas que sempre estiveram ali, rodeando as cidades brasileiras, são um fenômeno relativamente novo na Argentina – o que em meio ao alarde e estupefação, por vezes leva a combalida e lutadora classe média à rompantes de racismo (culpando aos estrangeiros) e elitismo (criticando as políticas sociais).

É nesse contexto, que as propostas sociais dos governos dos Kirchner ganharam espaço frente a uma classe política profundamente desacreditada e expulsa do poder aos gritos de que “¡se vayan todos!” após o chamado argentinazo dos fins de 2001. Lançando mão de um discurso nacionalista sustentado na recuperação do país frente inimigos externos e internos (recentemente apelidados de ‘abutres’), Néstor tem o inegável mérito de haver conseguido, primeiro permanecer no poder, depois restabelecer bases de crescimento econômico (analisaremos isso bem em outro capítulo) e depois recriar uma rede de proteção social que, se não reverteu o quadro estarrecedor do início da década passada, pode segurar as pontas e ensaiar uma recuperação.

Cristina capitalizou essas vitórias, mas vendo o crescimento econômico enfraquecer e as tais bases tremerem, teve que engrossar o discurso, sendo levada por vezes a delírios ideológicos. Conflagrou, assim, uma divergência interna que beira a histeria. Quem ama, AMA. Quem odeia, ODEIA. E quem está no meio, é frequentemente acusado de desinteresse e alienação.

Entretanto, é um erro subestimar a Argentina – e, aqui, não irei fazer um elogio ao passado de prêmios Nobel, da criação da primeira empresa estatal do mundo (inaugurando um modelo, ao menos na exploração de petróleo, que hoje é predominante), de escritores do quilate de Borges e Cortázar, do tango ou de tantas outras glórias que já fizeram muita gente acreditar (sobretudo aos próprios argentinos, uma gente que não tem nada de humilde) que se tratava de uma potência em ascenção. O presente é suficiente!

Com um PIB per capita 3 mil dólares maior do que o brasileiro, o país se destaca na região pelo grau de inovação. Como lembra o economista Ricardo Rozemberg, “o número de patentes por milhão de habitantes registradas por argentinos no Bureau of Patents and Trademarks dos Estados Unidos é o maior da América Latina”, ao mesmo tempo em que dispõe da mais alta porcentagem de engenheiros e cientistas dedicados a atividades de inovação da região.

É essa gente que, formada em universidades de ponta, garante uma posição de destaque do país em setores como o agronegócio (desenvolvimento de sementes, defesa de pragas), energia atômica, desenvolvimento de softwares e design/audiovisual que tem substantivas vantagens comparativas frente o resto do mundo e está em totais condições de competir no mercado global.

Petronas Tower, em Kuala Lampur (Malásia), desenhada pelo arquiteto argentino César Pelli

Petronas Tower, em Kuala Lampur (Malásia), desenhada pelo arquiteto argentino César Pelli

As complicações econômicas das últimas décadas levaram a muitos desses cérebros inovadores a deixarem o país. De acordo com o economista da CEPAL Andrés Solimano, de cada 1000 argentinos que migram para os Estados Unidos, cerca de 200 são profissionais qualificados, cientistas ou técnicos.

Embora o atual governo tenha elaborado um plano para estancar essa perda inestimável para a recuperação econômica do país, está claro que, em sentido mais amplo, é necessário o restabelecimento de um ambiente que incentive o empreendedorismo e o dinamismo da economia – peças-chave para fixar recursos humanos com esse nível de qualidade.

Em outras palavras, passada a fase de contenção da catástrofe social pela qual passou a Argentina entre meados dos anos 1970 e início da década de 2000, o maior desafio do próximo governo é reconciliar-se com os setores mais dinâmicos da economia para potencializar esse espírito criativo e arrojado tão característico do povo daqui.

Nos próximos dias, publicarei aqui justamente uma análise do cenário econômico que aguarda o próximo presidente da Argentina, seus desafios e oportunidades. Até lá!

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