Briefing: Copa invade as manchetes

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Samba argentino na Avenida Atlântica

Tá vendo essa foto aí em cima? Não, não são os bosques de Palermo. É a Praia de Copacabana! Foi só o “mundial” (como eles chamam aqui) começar que todas as outras notícias simplesmente deram uma sumida. Ninguém quer mais saber se o Boudou é culpado, se o Acordo com o Clube de Paris é positivo, se o Memorandum de Entendimento com o Irã no caso AMIA é legítimo ou se a Corte Suprema dos EUA vai acolher a apelação argentina no caso dos fundos abutres. A questão do momento é: será que a Argentina vai mostrar mais do que na apertada vitória em 2 a 1 contra a Bósnia?

A cobertura da Copa do Mundo pelos meios argentinos tem sido muito positiva. Já escutei mais de um repórter elogiando a infra-estrutura dos estádios, a calorosa recepção dos brasileiros e a organização rigorosa antes, durante e depois das partidas. Nas últimas análises sobre os protestos que assediaram a segurança da estreia na última quinta-feira, os comentaristas argentinos, em geral, embora estejam de acordo que as reivindicações são apropriadas, têm ponderado que há um mal-entendido a cerca dos benefícios que traz esse grande evento esportivo ao país. Eles se referem aos números do turismo, à futura utilização dos estádios (não só para jogos de futebol, como também shows, festas populares, etc) e aos ganhos relativos à imagem do país no mundo. Nem uma palavra sobre as ofensas à presidenta Dilma Rousseff.

Entretanto, por mais que o povo esteja disposto a relaxar quanto às grandes questões do país para concentrar-se em torcer, há algumas expectativas que pulsam por debaixo dessa euforia.

Na última quinta-feira, enquanto o Brasil ganhava a partida contra a Croácia (sob circunstâncias que os meios daqui não deixaram de questionar), em Washington a Corte Suprema se reunia para a última sessão da causa dos fundos abutres contra a Argentina.

Após a crise de 2001, o país reestruturou sua dívida com grande parte dos investidores detentores dos títulos. Alguns desses investidores não aceitaram renegociá-los e exige o pagamento integral com juros no valor de cerca de USD 1,5 bilhões. Embora alguns analistas concordem que a Argentina teria condições fiscais de arcar com esse compromisso pontual, uma vitória desses hold-outs, os chamados fundos abutres, poderia levar àquela maioria que concordou em renegociar a reivindicar também o pagamento integral, o que colocaria a Argentina em default técnico – uma verdadeira catástrofe econômica.

Mais que isso, conforme alertou a Presidente Cristina Kirchner perante a assembleia do G77+China na Bolívia hoje, “[a vitória desses] pequenos grupos financeiros na justiça americana põe em risco todo o sistema financeiro internacional”, já que criaria uma jurisprudência desfavorável a qualquer reestruturação de dívida soberana. Não à toa, o país tem colhido importantes aliados políticos nessa disputa, entre eles o Brasil, a administração Obama nos Estados Unidos e até alguns deputados do Reino Unido (que está em constante atrito com a Argentina ultimamente).

A decisão sai na próxima segunda-feira (16).

Já o caso Boudou progrediu pouco. A justiça ouviu Vandenbroele, que leu uma declaração, mas não respondeu a perguntas, além de um funcionário da AFIP (que supostamente complicou um pouco a situação do Vice-Presidente ao confirmar insinuações de tráfico de influência) e um genro da família Ciccone, que contradisse Boudou em seu depoimento. Entretanto, não apareceu nada de novo e o Vice-Presidente continua em compasso de espera da decisão do juiz Ariel Lijo, que deve pronunciá-la ainda essa semana.

A rotina dos porteños foi alterada durante a semana com duas greves setoriais que geralmente incomodam muito a vida do cidadão comum: metrô e bancos. O primeiro parou por duas horas na manhã de quinta, em protesto por mais segurança nas estações, e o segundo não funcionou na sexta-feira, ainda pelas reivindicações relativas ao caso do banco em Tucumán, província ao norte da Argentina.

Mês passado, a Caja Popular de Ahorros de Tucumán demitiu 36 funcionários. Os sindicatos do setor denunciaram que as demissões foram causadas pela militância desses trabalhadores e foram duramente reprimidos num protesto na capital da província, que deixou 22 feridos. Este episódio deu projeção nacional à causa e já resultou em duas paralisações desde então.

Numa marcha pelo centro de Buenos Aires em 29 de maio, o Secretário-Geral da Asociación Bancaria me disse que “está ocorrendo uma severa perseguição política no país” e que a repressão em Tucumán era uma “violação dos direitos humanos”. No mesmo dia, o Chefe de Gabinete do governo nacional Jorge Capitanich afirmou que havia espaço para a negociação e que estava confiante numa resolução rápida para o caso. Pelo visto, não está sendo tão fácil assim.

Também nessa semana, o governo argentino foi acusado pelo funcionário do Foreign Office britânico para a América Latina Hugo Swire de estar praticando bullying com os habitantes das Ilhas Malvinas (ele as chama de Falklands, naturalmente). De acordo com ele, “os esforços do Governo da Argentina para amedrontar e coibir essa comunidade não só falharam, como se provaram contra-produtivos [já que] os habitantes descobriram um sentido renovado na confiança e no orgulho de sua identidade”. Ele ainda criticou o país por “usar instituições como o futebol argentino para transmitir mensagens de cunho político”, referindo-se à faixa com os dizeres “As Malvinas são Argentinas” que os jogadores empunharam no último amistoso da seleção antes da Copa.

Enquanto isso, o governo britânico realizou uma bateria de leilões para a concessão de licenças de exploração de recursos naturais nas ilhas.

Até semana que vem!

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